Wednesday, December 29, 2021

CUL-DE-SAC (crônica de aniversário de Guilherme de Faria)

Vou confessar uma coisa aos meus amigos: nunca dei nenhuma importância aos meus aniversários, tanto mais que na última década me parecem uma contagem regressiva. Não que minha família, tanto materna quanto paterna, não seja longeva (muito pelo contrário). É que a decadência física é um fato sensível e atemorizante... Eu tinha um primo irmão mais velho (já morreu), advogado bem sucedido, que tinha quadros meus nas paredes de seu apartamento, mas que uma vez, já idoso, ao encontrar-me numa rua aqui dos Jardins, como sempre sem perguntar como iam minhas artes, se eu estava pintando, se ia fazer uma exposição, etc, perguntou: "Como vai a tia Helena?(minha mãe). Eu descrevi a precariedade de sua vida aos 95 anos, pele e osso na cama no último ano, e ele só respondeu: "A longevidade dos Caiubys é que me apavora... " Disse isso, virou-se e saiu andando sem se despedir.
Fiquei matutando sobre essa frase e essa atitude insólita, que na verdade me pareceu cabotina, como se ele quisesse morrer logo, coisa que não acredito num burguês hedonista, acostumado aos prazeres da mesa, da família, da "boa sociedade", e apreciador das artes como ele era.
Quanto a mim, tenho medo sincero da morte, essa eterna desconhecida, e queria viver mesmo gritando com um pé em cima do outro, encarapitado numa pequena rocha na maré que lentamente sobe, como o personagem na última cena do filme inglês (mas de titulo francês) "Cul-de-Sac ", que poderia ser traduzido como "beco sem saída" (como a vida), de Roman Polansky dos começos, de um humor negro que viria a ser a sua marca, que é mesma a da nossa tragicômica vida nesta terra...
(Guilherme de Faria)
29/12/2021
Mesmo não tendo nascido rico, nem sequer me tornando, tenho muita satisfação e até um certo orgulho de ser um privilegiado em tudo o mais. Não cuspo no prato que comi.
(Guilherme de Faria)

O CACHECOL (crônica de Guilherme de Faria)

Vou fazer mais uma confissão inusitada, que nunca fiz antes para ninguém:
Eu passei a maior parte da minha vida na horizontal, na cama, principalmente de dia. O número de horas que vivi em decúbito supera em muito as que passei de pé ou deambulando. Entretanto não se poderia dizer que fui ou sou doente, e apenas tenho pé chato, o que me poupou, graças a Deus, do alistamento militar obrigatório aos dezoito anos. Eu apenas percebi muito cedo que a posição vertical da coluna, absurda, com as vértebras empilhadas multiplicando cada uma a pressão exercida sobre elas pela nossa impiedosa gravidade, era coisa que somente acontece com os seres humanos (certamente viemos de outro planeta de gravidade mais fraca), nunca com nenhum animal, todos com suas colunas convenientemente na horizontal. Preguiçoso? Sim, nesse sentido certamente, embora eu tenha sempre produzido muito na minha vida. Eu sempre tive a minha cama no ateliê, e deitado nela observo meus quadros ao redor pelas paredes e de onde levanto pra dar certeiras pincelados no quadro do momento, em processo, no cavalete, voltando logo para a horizontal. Surpresos? Alguns outros artistas foram assim. Me lembro de ter lido nalgum lugar uma referencia biográfica sobre o grande compositor Rossini, gordo, preguiçoso e prolífico, que morava em hotel e escrevia as suas partituras deitado na cama. E se por acaso uma folha que estava escrevendo caía ao chão ele preferia reescrevê-la de memória do que abaixar-se ou descer da cama para pegá-la.
Em criança eu também gostava de voltar à cama, após as aulas, e ficar lendo ou desenhando. Ali devorei toda a biblioteca clássica dos meus pais. Minha mãe, mulher culta, grande leitora apaixonada pela literatura clássica e acadêmica francesa que ela lia no original, se preocupava e ordenava: "Saia dessa cama, você está se tornando um rato de biblioteca, vai ficar doente! Vá pra rua tomar sol, brincar com os moleques!" Eu ia a contragosto embora com bom desempenho. Até, ainda menino, me apaixonei por uma menina de mesma idade, vizinha do quarteirão, minha primeira paixão e primeira musa, uma das primeiras histórias das minhas Memórias, que contei aqui nos meus primeiros anos de facebook. Devo entretando dizer que surpreendentemente para mim mesmo, dos onze aos 17 anos eu fiz ginastica de solo, acrobática, no Colégio Mackenzie e fui tricampeão paulista, primeiro infantil, depois juvenil, depois aspirante. A próxima categoria seria olímpica, mas eu parei porque tinha descoberto a boemia, começado a fumar e a beber e desenvolvendo uma bronquite crônica que me acompanharia até os 38 anos.
Mas ainda a respeito da vida horizontal, me lembro de um ano da minha infância em que tendo desenvolvido uma nefrite (infecção grave nos rins), por ter sofrido uma reação terrível de coceira torturante no corpo todo por ter "passado na sombra da aroeira", numa fazenda, numas férias em Ouro Fino, Minas Gerais. Coçando-me demais, as coceiras viraram feridas com pus, que foi para os rins e produziram nefrite. Diagnosticado, me foi estritamente receitado repouso absoluto no leito por seis meses sem descer dele para nada, além de regime sem sal. Fora esse detalhe, para mim foi sopa no mel. Eu não iria à escola e podia ficar lendo e desenhando o tempo todo. Minha mãe, contudo, pensando que tanto tempo na cama me entediaria, resolveu me ensinar a fazer tricô, "para passar o tempo" (coisa que na verdade eu nunca precisei). Aprendi facilmente e comecei a fazer uma tira comprida, talvez um cachecol. Pra quê... Meu pai entrou um dia no meu quarto, viu aquilo, saiu, e indo ao quarto deles, de porta fechada, começou a gritar com minha mãe com aquele vozeirão de barítono, de modo que ouvi tudo. Ele gritava: "Você quer fazer do menino um veado, uma bicha? Que história é essa de tricô? Você está louca?"
Eu, lá no meu quarto, ouvindo aquilo, fiquei bastante envergonhado. Nunca mais fiz tricô "para passar o tempo". Mas também "descurti", como se diz hoje em dia, o meu pai de uma tal maneira que não me importei mais com ele até a sua morte, e até anos recentes quando afinal comecei a lembrar de suas virtudes morais, musicais e gosto por piadas e trocadilhos, que já postei aqui em homenagem tardia ao pai que parecia não ter me feito falta alguma...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
.
18/12/2021
Nota
Repito: nunca mais fiz tricô e o cachecol nunca me fez falta, nem nos invernos mais rigorosos... rrrrrrrrssssss

O ÚLTIMO MECENAS (crônica de Guilherme de Faria)

Como têm visto os amigos que acompanham minhas postagens, muitos dos meus quadros inspiram sonetos da Alma Welt que os interpretam e descrevem. Raras vezes ocorre o contrário: o quadro é que ilustra o soneto. Meus quadros quase sempre têm um caráter simbolista, que o soneto revela, então, mais claramente. Um dos meus sonhos (ainda os tenho) seria publicar um livro em cores desses sonetos ilustrados pelos meus quadros. Mas sairia muito caro e não há mais mecenas, que eu saiba, hoje em dia, como havia na minha juventude. O último foi o Dr José Nemirowski, que me bancou com uma boa mesada por um ano em 1966, sem querer nada em troca. Presenteei-lhe no final com um quadrinho de sua escolha que ele nem queria aceitar, e insisti por gratidão. Dez anos depois encontrei-o numa happy hour regada a whisky doze anos numa roda à mesa da saudosa Galeria Cosme Velho, na Lorena. E ele me disse, na frente de todos: "Rapaz o seu quadro está resistindo bem na minha coleção..." Não preciso nem dizer o quanto eu fiquei feliz com aquele cumprimento. Entretanto, depois dele falecido, a Fundação Paulina e José Nemirowski não ostenta em suas paredes cheias de Tarsilas, Portinaris e Volpis, o meu quadrinho. Quero acreditar que está na "reserva técnica", esperando a minha morte, pra subir...
(Guilherme de Faria)
21/12/2021

DEPOIMENTINHO (de Guilherme de Faria)

Na minha vida como artista plástico, profissional desde 1962, vendi muitos milhares de desenhos e gravuras, e centenas de quadros a óleo. Minhas obras estão por aí no mundo, no Brasil e alguns outros países (EUA, Europa e América Latina) na casa das pessoas, em saguões de prédios, hotéis, e até em alguns museus (aqui em São Paulo na Pinacoteca do Estado e no MAM). Não posso me queixar de nada: o meu trabalho sempre teve facilidade de ser apreciado pelo público, embora eu note que, talvez por isso mesmo, seja um tanto subestimado pela crítica...Mas sou grato à vida: não me frustrei, não tenho amargura, despeito, nem inveja nenhuma. Não enriqueci, nunca superei minha modesta classe média de origem, talvez por me faltar o tino comercial, mas principalmente por não ter nunca me sintonizado no "canal dinheiro", e só pensar em Arte, principalmente pintura e literatura. Se para ser rico eu precisasse só pensar em dinheiro, como em geral os ricos o fazem, eu renunciaria à riqueza...

(das Memórias de Guilherme de Faria)
22/12/2020

Para quem ainda não sabe...

Quando em Julho de 2001 eu descobri a brilhante poetisa e prosadora gaúcha universal, Alma Welt, dentro de mim mesmo, isto é, descobri a identidade genial e fecunda da minha "anima" feminina interior (fenômeno raríssimo, que Carl Jung certamente adoraria ter testemunhado), minhas ex mulheres detestaram o seu aparecimento e tiveram aquela típica reação de "não li e não gostei". É compreensível: eu elegia uma Musa maior e definitiva que morava dentro de mim mesmo (!!!). Somente a Eliana, minha mulher desde 1994 aceitou e até se afeiçoou à Alma, que ela chama carinhosamente de "a Alminha" e tomou para si publicar na sua página aqui no face, com exclusividade (que deixei para ela) os HaiKais da Alma Welt, escolhendo ilustrações graciosas para eles na Internet.

O quádruplo caráter de artista, musa, modelo e personagem da Alma Welt se explica pela extraordinária vida própria que a minha anima tem dentro de mim. Segundo Jung, todos os homens tem dentro de si esse arquétipo, a anima, bem como outros: o animus, o velho sábio, a criança e a sombra, mas no meu caso, como artista tive o privilégio de entrar em contato com uma "anima artista" de especial fecundidade literária e poética, num fenômeno raro de heteronomia, que já me "enviou" (por assim dizer) cinco mil sonetos dodecassílabos originais e personalíssimos, uma centena de poemas de verso livre, quinhentos HaiKais, três novelas longas (a Trilogia Mítica) uma centena de contos e crônicas e quatro romances, sendo: uma saga gaúcha autobiográfica de família em forma de trilogia, e um romance humorístico inspirado na saga sertaneja nordestina do cordel do Pavão Misterioso.
No entanto, estranhamente, eu senti em 21 de Janeiro 2007 que Alma, como pessoa e personagem, morreu de forma trágica e precocemente com 35 anos, permanecendo portanto eternamente jovem dentro de mim, que continuarei "psicografando" legitimamente a minha própria anima até a minha morte, possivelmente. Àqueles que, embora inteligentes e cultos, possam duvidar de tudo isso, eu convido a visitar a já imensa obra da Alma Welt nos seus 60 blogs abertos, gerenciados e comentados por sua irmã Lucia Welt, outro heterônimo meu com lugar como personagem no seu romance A Herança. E que reparem como a Alma é viva, complexa e apaixonante. Portanto, eu, que li com paixão desde criança quase todos os maiores clássicos da literatura universal, posso afirmar com convicção e orgulho: na Alma Welt tudo é verdadeiro, sua obra, seu talento poético, seu sentimentos, sua sensibilidade e amorosidade... Ela só não é de carne e osso. Confiram.
(das Memórias de Guilherme de Faria)

29/12/2021

Monday, December 6, 2021

DIVAGAÇÕES SOBRE NADA (e talvez sobre tudo) (crônica de Guilherme de Faria)

Domingo ensolarado aqui na minha Oscar Freire, e seria dia de pastel de feira aqui perto, na Lorena, embora eu não deva porque já me sinto o fígado numa dorzinha insidiosa, malgrado uma dieta inútil que me foi recomendada e adotei. Já muito foi dito que tudo o que é bom faz mal à saúde, é pecado ou é proibido... Na verdade não tenho saudades dos meus vícios de outrora, porque quando os detive já não tirava prazer deles: tinha chegado àquele ponto dramático de "não poder viver com eles nem sem eles". Na verdade, vivi desde então (1981), muito bem sem eles.

Como consegui? Apesar de orgulhoso procurei ajuda e a encontrei. Mas não vou me estender neste diapasão, não quero enveredar pela "autoajuda", nem pelo elogio das virtudes. Quero insistir mais um pouco nas minhas divagações sobre o nada, que acabam inevitavelmente resultando sobre alguma coisa. Percebo que não é possível deixarmos de nos trair, de nos desvelarmos, de nos confessarmos quando escrevemos até sobre trivialidades ou sobre o bendito NADA.
Não, na verdade não posso esvaziar-me nem um pouquinho, já que passei a vida inteira me locupletando de Arte, de cultura e de beleza, por puro hedonismo. Afinal, permaneci fiel à Beleza, que agora já não tem o poder de destruir-me, como se eu lhe tivesse cortado as garras e a domesticado. Nunca me esqueço de um vetusto amigo de juventude, Eduardo Mercier, que em Paris dos anos vinte tinha sido amigo de Modigliani e Chagall, e conhecido Picasso, e que
tendo me descoberto jovem, em 1964, em início de carreira, quando me viu tendo afinal sucesso financeiro com minha arte e me instalando em uma mansão alugada na rua Turquia, no Jardim Europa, muito franco e ácido me disse: "Rapaz, você está num acelerado processo de aburguesamento!" E deu uma risadinha sarcástica... Quanto a mim, fiquei só pensando, assimilando até hoje aquela crítica implícita, procedente, embora carregada de um certo preconceito socialista, inerente àquela geração de tantos gênios pictóricos, que ele conheceu ainda na fase heroica, isto é, na pobreza. Meu velho amigo Eduardo que me conheceu paupérrimo na minha fase expressionista, e depois "baconiana", se estivesse vivo estaria estarrecido, digo, decepcionado, com o rumo que tomou minha pintura, afastando-me deliberada e justamente dos vícios do modernismo que ele tanto amava...
BOM DIA a todos!
04/12/2021

PORQUE HOJE É SABADO (crônica de Guilherme de Faria

 Hoje é de novo Sábado, dia que parece dividir minha semana, ou quase onipresente talvez por ser o Sexto Dia da Criação, e para o artista, como para Deus, (guardadas as proporções, claro) não há realmente, o Domingo, o dia de Descanso. Lembro, então, o conhecido e engraçado poema de Vinicius de Moraes, que repete como um refrão: "Porque hoje é Sábado." Igualmente para o artista não há aposentadoria, que seria como um sinônimo de morte da criatividade e do infinito labor que é nossa glória, benção e, ao mesmo tempo, maldição... Sim, porque a vida toda não pude passar mais que umas poucas horas seguidas longe da visão de minhas obras acabadas ou em andamento, me cercando nas paredes, sob pena de correr o risco de desintegrar-me como se eu não fosse senão um reflexo delas, uma miragem de mim mesmo. Loucura? Sim, loucura "braba" e mansa, quase tão dolorosa quanto prazerosa.

Ser um artista profissional, pela absoluta incapacidade emocional de ser qualquer outra coisa, de exercer qualquer outra profissão, é uma espécie de maldição, como andar perpetuamente numa corda bamba ou na beira do abismo...
Mas, atenção, não me queixo de nada. Nunca me queixei de viver nesta pobreza dourada, numa gaiolinha de ouro empoeirada, sobre esta minha Oscar Freire tão prosaica e comercial, e no entanto... tão amada.
Talvez porque, além de pintor sou poeta, a banalidade não pode destruir-me, já que a transmuto imediatamente em poesia como um alquimista do cotidiano, que todo verdadeiro poeta o é...
Sim, posso conversar sem prejuízo da minha alma, sobre o tempo e a temperatura com os eventuais companheiros de elevador, ou os porteiros do prédio. E (pasmem!) até não guardar desprezo pela senhorinha costureira do andar de cima, que me perguntou o que faço, e tendo recebido a resposta: "Eu pinto", replicou imediatamente, querendo ser simpática: "Pinta o Sete?" Aaaaaiiiii...
Bom dia a todos!

Das CRÔNICAS DO SILÊNCIO II (de Guilherme de Faria)



Nestas manhãs melancólicas (serão as manhãs ou serei eu?) eu abro as persianas de rolo, cedinho, e olho lá embaixo a minha Oscar Freire, que ainda não está enfeitada para o Natal, e logo lembro daquele verso de Fernando Pessoa: "em dias tristes como sentir-se viver..." Não, não sou e nunca fui um depressivo como o seu Álvaro de Campos, e daqui a pouco estarei retocando o meu novo quadro lançado, uma bela e torturada árvore solitária no meio da neblina. A propósito, não queiram ver nela um disfarçado autorretrato... É pura fantasia pictórica, mera procura da plasticidade, que é o que motiva realmente os pintores.
Enquanto preparo o meu café, aguardo minha mulher, a Eliana, acordar, para dizer-lhe sempre as mesmas palavras, e depois de saudá-la carinhosamente, como um ritual jocoso propor-lhe: "Vamos falar do Tempo? Como é bom falar do tempo!" E ela sorri condescendente, seu belo sorriso que me acompanha nos últimos vinte e sete anos...
Como disse na crônica de ontem, já não me resta muito a dizer e começo a entrar naquela agradável falta de assunto que acompanha a rotina crescente da velhice. Como é bom já não ter muito o que dizer! Principalmente por ter vivido muito e dito quase tudo o que eu pude, o que a vivência e os bons modos me permitiram. Vocês repararam que eu nunca na vida escrevi um palavrão?
Da Simone de Beauvoir, que eu nunca li, me lembro de um título sugestivo de um livro seu: "Memórias de uma moça bem comportada", e lembro, ao contrário, como fui um moço mau comportado, sem nunca dizer palavrões ou apelar para a vulgaridade... Ah! Isso não! Em compensação, igualmente sem ter lido, me identifico com aquele título do livro (de memórias?) do poeta galês Dylan Thomas, que se suicidou e cujo nome, em homenagem, foi adotado pelo Bob Dylan: "Retrato do Artista quando Jovem Cão", parodiando o título do famoso livro de James Joyce, "Retrato do Artista quando Jovem".
Reparem que até aqui eu continuo fiel à minha nova proposta de escrever crônicas sobre nada, e consequentemente sobre tudo, num processo de livre associação de ideias, recomendada no divã pelos psicanalistas de outrora. Divagando, divagando, me reencontro comigo mesmo num novo autorretrato: "Retrato do artista quando velho."
Ou não... (como dizia o Caetano, quando era interessante e a gente não percebia que ele era socialista caviar... rrrrrrsss

CRÔNICAS DO SILÊNCIO (de Guilherme de Faria)

 

Atualmente minhas manhãs estão menos inspiradas, ou minhas memórias de algum interesse estão se esgotando... Tenho a impressão de que tudo o que havia de interessante no meu passado eu já contei aqui, na minha página deste querido facebook, a cuja existência sou grato. É verdade que, naturalmente tem coisas que eu não posso contar, ou por muito vergonhosas que foram, ou simplesmente inenarráveis e sinistras, e não devo invocá-las. Um homem tem direito aos seus segredos diante do público, já que não os há diante de Deus.
Espero que eu esteja entrando devagarinho naquela zona de silêncio da alma, tão desejável, que produz as melhores obras de arte. Sim as melhores crônicas e mesmo as melhores pinturas versam sobre... nada. Acredito mesmo que, quando se consegue escrever sobre coisa nenhuma uma crônica rica e interessante, é quando estamos transformando chumbo em ouro, como um alquimista ideal, ou no mínimo tirando coelhos da cartola, como um adorável mágico trivial de festa infantil.
Vejam! Acabo de escrever uma crônica sobre NADA, e vocês chegaram até aqui, não é mesmo? Não me peçam que eu dê algum sentido a este apaziguador vazio que lentamente me invade. Mas prestem atenção: não sou adepto da pura retórica em si... Apenas confio nas entrelinhas inconscientes onde mora o segredo da Existência, e que criam os versos e as pinturas que nos transcendem. E até as crônicas vazias, como esta...
Bom dia a todos!
(Guilherme de Faria
)

CONFISSÃO



"Minha vida se passou inteira no âmbito da minha própria arte, quero dizer, que fora dela nada do que vivi faz sentido, nem mesmo meu encontro com as mulheres da minha vida, que sofreram muito justamente por isto. Agora que envelheço e me torno tardiamente mais humano, queria pedir sinceras desculpas a todas elas pela minha inconstância na época, meus tormentos, minhas neuroses e sobretudo pela minha incapacidade de fidelidade. Entretanto percebo, até com certa surpresa, que elas já me perdoaram e quando eventual e raramente as reencontro, o olhar terno delas sobre mim me comove, e que através do velho artista de cabelos e barba branca que me tornei, parecem estar ainda enxergando aquele jovem belo e atormentado que eu fui um dia, mas cuja aura de artista verdadeiro as conquistou. Se elas soubessem que eu sinto tanto... e que queria que tivessem sido felizes comigo, como talvez o foram com os que me sucederam, e que envergonhado reconheço que nisso eu redondamente fracassei. Elas mereciam muito mais... jovens, belas e, afinal, cândidas mulheres da minha vida..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
28/11/2018

"

Thursday, November 25, 2021

VONTADE DE BELEZA (crônica de Guilherme de Faria)



Picasso disse: "A gente leva muito tempo para se tornar jovem." É estranho, acrescento, como a gente vai ficando velho por fora enquanto permanece jovem (e talvez até imaturo) por dentro, num nítido descompasso de visão ao espelho, como uma esquizofrenia branda, uma ilusão de ótica grotesca, de um desmanche lento de um filme imaginável, de humor negro... Sim, vamos derretendo devagar, tão lentamente que não percebemos a não ser quando olhamos nossas velhas fotos, nos álbuns da juventude. Os amigos, envelhecendo igualmente, mantêm um olhar condescendente e generoso sobre nós, ou simplesmente o olhar mágico, conservador, da amizade...
Nos piores dias, blasfemo ligeiramente ousando criticar Deus por sua excentricidade, se não pelo mau gosto do envelhecimento e decadência física das nossa vidas e dos pobres animais, ao contrário da beleza vetusta das árvores, das rochas e das montanhas, sem falar nas velhas estrelas que podem explodir em supernovas ainda mais brilhantes...
Não, não posso me queixar: Deus nos deu a Arte, o espelho mágico que nos conserva vivos, e que faz até da velhice física algo belo, como a aquelas dos retratos de Rembrandt e de Rubens, por exemplo...
Ah! A propósito, e mudando talvez o enfoque, é divertido como minha mulher ainda tem ciúmes de mim, quando saio de casa para ir ao Banco ou ao Supermercados. Sim, seu olhar é mágico: ela não enxerga o velhote cada vez mais branco e barrigudo que me tornei. E eu rio enternecido e irritado ao mesmo tempo, pois estou convencido de que é o senso de realidade que me faz pintor e poeta, não o pensamento mágico e ilusionista do simples amor conjugal. Não, não vivo de ilusões, mas como um eterno "voyeur", talvez, de uma vontade de beleza que não se esgotou ainda, e que levarei para o túmulo e se possível para o meu epitáfio: "ELE AMAVA A BELEZA E A ENCONTROU."
(Guilherme de Faria)
25/11/2021

Tuesday, November 16, 2021

O SEGREDO DO MEU DESENHO

(Um pouco de Teoria de Arte)
(das Memóras de Guilherme de Faria)

Questionado sobre as suas fases iniciais e de maior sucesso de público, as fases Azul e Rosa, Picasso disse uma vez: "Aquilo não são senão "sentimentos". Ainda não eram "pintura". Mas não as renego porque atrás do sucesso delas eu pude fazer tudo que eu quis".
A maioria do público costuma associar erroneamente a Arte com "sentimentos". Quanto à Pintura, posso concordar somente com "emoções estéticas". Desde muito cedo, ainda na adolescência, percebi que a Arte não é o "Que" mas o "Como". Sim, não é o tema em si, mas o "como" está pintado. Muito jovem, em 1965, na Galeria Cosme Velho onde eu expunha meus desenhos, tive a oportunidade de conversar com o grande Volpi, já muito idoso, e este me disse: "Rapaz, não dê tanto valor ao "assunto". O tema em pintura não é senão "a anedota". As pessoas pensam que eu pinto bandeirinhas e que as adoro, mas eu não ligo para elas. Sou um pintor geométrico: aquilo são apenas retângulos de que foi tirado um triângulo".
Volpi era um homem simples, italiano de origem operária, e havia uma certa ingenuidade genuína nele e na sua arte. Aquela conceituação teórica da essência da sua pintura, pelo menos na sua fase de maior sucesso, lhe tinha sido transmitida (depois eu soube) pelos poetas irmãos Campos (Haroldo e Augusto), pais do "concretismo paulistano", que trataram de cooptar o velho pintor para o seu movimento.
Entretanto respeitei a mensagem do mestre, que na verdade eu já praticava. Eu desenhava (com um precoce sucesso) sobretudo a figura feminina, mas eu não utilizava "modelo vivo". O segredo do meu desenho era o meu traço, feito à ponta de pincel, em nanquim, numa técnica similar ao sumiê japonês, uma arte Zen. O traço pintado era "modulado", isto é, engrossava e afinava nos momentos certos para sugerir volume, sem necessidade, portanto, de aquarelar os corpos para sugerir carnadura. A sensualidade do meu traço consistia na atitude gestual, e do fato de que a cerda macia e longa do pincel acaricia as formas que ele próprio vai criando, enquanto eu me mantinha com a "mente em branco", ao nível dos reflexos. Mas, eu concentrava as cores em dois pretextos bastante fetichistas do ponto de vista erótico: os cabelos e os espartilhos ou corpetes, bem como às vezes nos panejamentos de apoio da figura nua. Na dinâmica quase instantânea do meu gesto de desenhar com traços rápidos e seguros, direto a nanquim, sem esboços, sem retoques nem repasses, sua velocidade plasmada, visível, contrastava com a atitude estática das figuras em repouso, dando-lhes aquela misteriosa sensação de silêncio metafísico, que era o que fascinava as pessoas sem elas perceberem.
Por outro lado, estava eu interessado em erotismo? Meu desenho era uma descarga da poderosa libido de um jovem quase ainda adolescente? Não se iludam... Somente até certo ponto. Eu aprendera a desenhar de estalo, como um "satori" (iluminação) vendo uma certa cena em forma de "koan" Zen num filme de samurai (sobre a vida de Myiamoto Musachi) no cine Niterói, no bairro da Liberdade em São Paulo, em 1963.
CONTINUA
Nota
A propósito, também na poesia, pode-se afirmar a mesma coisa, baseada no texto do grande poeta Rainer Maria Rylke, nas suas "Cartas a um Jovem Poeta", que aqui citarei de cór, conforme me recordo :
"Os versos não são sentimentos, são experiências. Para se escrever um verso é preciso ter viajado muito, ter visto muitas cidades. É preciso ter amado muitas mulheres, e as haver perdido. É preciso ter ouvido os gritos das parturientes, e ter estado junto aos mortos, quando as velas bruxuleiam e o silêncio finalmente cai e pesa. É preciso ter visto as grandes chuvas e as tempestades e estado sozinho nas grandes mansões, naquelas noites em que entra o vento pelas frestas e bate as portas e janelas. E não basta ter recordações. É preciso esquecê-las quando são muitas, e ter imensa paciência de esperar que voltem... Porque antes que se tornem sangue, olhar, carne e gesto, não é possível que surja a primeira palavra de um verso. " (Rainer Maria Rylke)

Friday, August 6, 2021


Tem dias em que eu olho a minha obra passada e tenho a impressão de que tudo fugiu do meu controle e que nada daquilo é o que eu realmente queria fazer. E que eu gostaria de poder destruir quase tudo... Mas agora é tarde, Inês já está no trono, e fede um pouco...
(das Memórias de Guilherme de Faria)

Wednesday, July 28, 2021

DA VIDA VIVIDA

Minhas lembranças são muitas porque são sobretudo subjetivas. E por isso, além de percepções sutis de momentos aparentemente banais, incluem, de algum modo, cada quadro meu, se não cada pincelada, cada traço. Sempre dei mais valor à obra dos homens do que a vida em si. Fernando Pessoa, ao que parece, também assim o fazia, quando escreveu ser, como pessoa, somente a lenha da fogueira de sua obra. Por isso também escrevi sonetos, poemas, contos, crônicas, novelas e romances, atribuindo a heterônimos, porque uma vida só, não me basta. A vida vivida? Deixei para trás bem mais fracassos do que triunfos. Mas... quê importa? Nunca quis ser senão um artista, isto é: um meio, não um fim...
(das Memórias de Guilherme de Faria)

Monday, July 26, 2021

O PRIVILÉGIO DOS HETERÔNIMOS

Em geral Deus nos concede, como Destino incontornável, sermos apenas nós mesmos. Mas às vezes, quando somos artistas, nos doa alguns heterônimos mais talentosos ainda. Graças a Ele isso não tem nada a ver com esquizofrenia, cisão de personalidade ou falsidade ideológica. Trata-se de um privilégio concedido graciosamente por Ele aos poetas a quem uma só obra e uma só vida terrena não bastam. A mim, o pintor, por exemplo, Deus concedeu a poetisa gaúcha Alma Welt e sua irmã mais velha Lucia Welt, sua exegeta, comentarista e blogueira de sua obra póstuma. Ah! também um meu homônimo cordelista sertanejo. Portanto, quatro intensas e produtivas vidas eu tive até agora...
(das Memórias de Guilherme de Faria).

Saturday, July 24, 2021

Minha mulher, nascida no interior paulista mas filha de mineiros, me contou uma vez que seu pai, mineirão, meio matuto, já velho, um dia disse melancolicamente: "Minha filha, a vida é uma bela bosta..." Eu achei graça, pois intimamente ainda não corroboro tal conclusão, fruto evidente de grande frustação existencial. Enquanto houver Arte, e eu a tiver dentro de mim, celebrarei a vida, mesmo sem poder brindá-la de vez em quando, pois não posso beber. Como Picasso, no fim, acreditando ainda na vida espero poder dizer: "Bebam por mim, que já não posso..."
(Guilherme de Faria)

Thursday, July 15, 2021

DEGRADÉ (Sobre a cor nas minhas litos) e sobre os meus cordéis.

Me lembro que o Marcelo Grassmann, que tinha sido meu amigo a partir de 1962, me disse quando comecei a colorir as minhas litos a partir de 1976: "Guilherme, se você continuar a usar degradé em suas litos eu rompo com você. Pare com isso. Eu tenho ódio de degradé. Não serei mais seu amigo." Grassmann era um purista, preconizava o preto e branco, segundo ele "a nobreza da gravura". Eu insisti no degradé e perdi a sua amizade, que só recobrei nos anos 90, quando ele me perdoou ao conhecer os meus cordéis. Essa é uma outra história que um dia contarei aqui. Adianto somente que o Grassmann ficou surpreso com os meus cordéis sertanejos, mas a literatura não sendo a sua praia me recomendou que procurasse o Paulo Vanzolini que era seu amigo e que, segundo ele, era um expert em cordel. Mas eu, àquela altura, não queria críticas nem bênçãos e perdi a oportunidade de conhecer pessoalmente o grande autor de "Ronda". Entretanto, passado um tempo fui, recomendado por uma amiga em comum, procurar o Jorge Mello no seu escritório no largo de Santo Amaro, e sabendo-o cordelista (e até repentista) expert e colecionador do cordel nordestino, me apresentei com modéstia, e declamei um cordel meu para ele, que me ouviu contando sílabas mentalmente e em seguida me apontando alguns pés quebrados. Eu tinha trazido com a intenção de presenteá-lo, um Kit cordel. Então eu lhe disse: "Eu sei que meus cordéis não são dignos da sua coleção". Ele então abraçando a caixinha de madeira recheada dos meus folhetos, por cima da mesa puxou-a para si dizendo: "Ao contrário. Já está incorporado!"
Eu me iluminei, ganhei meu dia, e um inusitado amigo especialista, que avalizou o meu cordel de amador...

Sunday, June 27, 2021

OPINIÃO

É maravilhoso como o sistema do facebook parece se preocupar com a gente, nós, pessoas comuns, sem poder algum, a ponto de perguntar o que estamos pensando, e de armazenar nossos pensamentos frequentemente banais, e de ainda, no feed, nos incentivar a republicar nossas memórias do dia, de anos passados. Faz tudo para nos sentirmos valorizados individualmente, e isso é espantoso vindo de um sistema que lida com mais de um bilhão de pessoas, por algorítimos (dizem) embora eu não saiba o que significa isso. Realmente, se isso tudo saiu da cabeça do Zuckeberg, o homem é um gênio... Não importa muito se ele é um globalista e se curva um tanto à esquerda para subsistir, pois a rede social que ele criou adquiriu vida própria e acaba refletindo os anseios da maioria, e sobretudo, pasmem, da temida classe média. Ah! e nos ajuda a prescindirmos das mídias tradicionais, que na mão da esquerda se tornaram cada vez mais mentirosas e manipuladoras.
É verdade que às vezes somos "repreendidos" ou mesmo suspensos por esse sistema, de maneira arbitrária, mas podemos ainda protestar, e até driblar a censura, já que ela é fruto do controle algorítimico (imagine se eles estariam mesmo vigiando individualmente um bilhão de pessoas!)
Quero dizer com isso, que por enquanto ainda está bom, embora haja o prognóstico negro da censura (que a esquerda acalenta) um dia chegar com tudo nas redes sociais e acabar com a nossa festa de opiniões...
( Guilherme de Faria)

Tuesday, June 8, 2021

Vou ser franco: a medida que o tempo passa só tenho tempo para as minhas artes, e quando olho para trás, para minha vida pregressa, me espanto de ter tido tempo para tantas coisas que agora me parecem pura perda de tempo, ninharias. Na verdade, a maldita libido foi a responsável por tanta dispersão. Mas também é verdade, a crermos em Freud, que a libido, quando sublimada, é a motivadora, oculta ou não, da própria arte...
(Guilherme de Faria)
08/06/2021

Friday, June 4, 2021

MAIS UM DEPOIMENTINHO (crônica de Guilherme de Faria)

 Nos últimos trinta anos pude viver do jeito que eu sempre quis: só para as minhas artes, a pintura, o desenho e a poesia. Também, é verdade, para os prazeres da leitura, da TV a cabo, os filmes de DVD piratas (uma grande invenção rrrrsss) e da Internet, no facebook, a pesquisa Google, o youtube, e meus blogs da minha literatura e a da Alma Welt. Conquistei a minha felicidade e sou grato às tecnologias modernas, já que não pude nascer na Renascença Italiana rrrrrsss.Estas escolhas, indiscutíveis, pois de gosto pessoal, para mim só são desfrutáveis, na verdade, porque estou com minha solidão amenizada ou sob controle pela companhia da amada Eliana, minha mulher, que malgrado sua posição política oposta à minha,e que relevo com certo esforço (confesso), me acompanha nos últimos 26 anos, com sua feminilidade absoluta, que é para mim "o espelho da anima", essencial para mim no dia a dia, sem o qual, me desespero, feneço e morro. Sei que algumas mulheres, mais antigas, ainda entendem tais coisas...

Visto isso, pouco mais teria a dizer, se não fossem as antenas da própria poesia sobre os signos e significados dos eventos banais do cotidiano, que posso transformar em pequenas crônicas com algum interesse para meus amigos do facebook. Afinal, a felicidade está mesmo nas pequenas coisas, pelo menos para aqueles de pouca ambição material como eu. Entretanto... o que eu gostaria mesmo? Resposta: realizar um dia a minha Retrospectiva pictórica e gráfica, com catálogo completo a cores, sob minha própria curadoria e escolha das obras. E publicar meus livros todos em papel por uma grande Editora, principalmente as Obras Completas da Alma Welt, meu heterônimo feminino tão amado por mim mesmo.
Bem... estou percebendo que na verdade minha ambição é imensa, desvairada, impossível para a minha pouca força restante. Bem, se não acontecer em vida, pelo menos as minha obras já foram todas para o mundo, ou estão na internet. Não guardo muita coisa escondida nas gavetas, senão segredos irrelevantes, talvez mesmo alguns patéticos, senão simplesmente risíveis...
(Guilherme de Faria)

03/06/2021

Nota
Na verdade, devo lembrar que já foi feita uma Retrospectiva Gráfica minha na Caixa Cultural em Julho de 2010 em São Paulo (Praça da Sé) mara vilhosamente bem organizada pela Patricia Motta, dona da Editora Glatt Ymagos, com curadoria de Silvio Pizolli, com um belo catálogo de 100 obras ( litografias mas somente três desenhos)e todas reproduzidas em cores e que se pode ainda encontrar à venda em sebos na Internet.
O que ainda sonho é a Retrospectiva Pictórica: minhas telas a óleo de diversas fases (e muitos desenhos também de diversas fases). E os livros, naturalmente...

DÉJA VU (sincrônica de Guilherme de Faria)

Domingo de novo. Num piscar de olhos, domingo, novamente. Nesta quarentena, tenho a impressão de viver num permanente "déja vu". A propósito, antes que me esqueça, tenho uma grande irritação ao ouvir os americanos nos filmes falando "deja vu", assim com o som de "u" mesmo, sem a pronuncia francesa de ü, com biquinho com som entre o "u" e o "i", como se deve quando não se é um ignorante. Grrrr, rrrrraios.. raios! rrrrrrrrssss...

Bem, mas idiossincrasias à parte, imagino que essa sensação está se tornando comum, dentro das casas que levam o lockdown a sério, no mundo todo: uma alucinação coletiva.
Entretanto prometi que não iria generalizar meus sentimentos e sensações, pois sei que sou uma "avis rara" (iiiiihhhh! que expressão mais arcaica!). O fato é que estou talvez alucinando, sem de fato perceber. Vejam: eu fico pintando, escrevendo e publicando diariamente aqui no facebook como se eu tivesse "voz e vez", e não fosse, como digo à Eliana, um "pintor de rodapés", um "borra botas" caprichoso, num mundo que se esboroa... Ou não, como dizia o Caetano.
Chega! "Basta de comédias na minh'alma !" (como dizia o Pessoa).
Sinto que estou pirando lentamente... mas, pensando bem, quando não estive? Talvez a vida seja isso, um lento enlouquecimento rumo à alucinação máxima que é a Morte. Ah! é isso! Saquei! A morte, na verdade é a alucinação culminante, a última. Nesse sentido, a rigor, não existe! A Morte não existe! VIVA LA VIDA! (como escreveu Frida Kahlo, num quadrinho de melancias)...
(Guilherme de Faria)
30/05/2021

Wednesday, June 2, 2021

CONFISSÕES DE AMBIGUIDADE (crônica de Guilherme de Faria)

Suponho que o Tempo deve ter rompido seu pacto com as Horas. Estas voam, mas meu quadros, ainda frutos da minha expectativa avançam lentamente. A relatividade do Tempo...
Sempre fui ambíguo na minha relação com o Tempo. Paciente e impaciente ao mesmo tempo, na verdade esta dolorosa ambivalência estava na raiz dos meus tormentos ao longo da vida. Sempre tomei decisões precipitadas, para não ser um "empacado", horror que tenho à "síndrome de vaca atolada" que observava em algumas pessoas.
Por outro lado, graças a isso, muita coisa aconteceu em minha vida, no sentido subjetivo, visto que minha vivência foi quase sempre puramente interior: não sou da estirpe dos aventureiros verdadeiros, que admiro sem inveja, pois desde criança eu nunca desejei ser senão um pintor, que para ser grande é mais difícil que escalar o Everest.
Assim, no "ocaso e auge" de minha vida ambígua, com a ajuda das estranhas circunstâncias de uma pandemia e uma "quarentena" de dois anos, tenho todo o tempo do mundo para caprichar "lenta e impacientemente" na confecção e acabamento dos meus quadros cuja tinta a óleo demora a secar, o que me fazia no passado, para sobreviver, ter que vender rápido pra sustentar família, sendo muito desleixado tecnicamente o que no entanto passava por qualidade de espontaneidade. Ultimamente alguns quadros voltam agora para eu restaurar ou retocar, o que faço com prazer e alívio, pois praticamente os repinto e acredito que os melhoro, contra a opinião de minha antiga editora de gravuras e restauradora, a Patrícia Motta, que acha que os quadros devem ser no máximo restaurados mas mantidos pelo pintor tal como foram pintados em sua época. Isso me faz lembrar do fato pouco conhecido de que o célebre pintor Giorgio De Chirico, inventor e líder da "escola metafísica italiana", a propósito eficiente captadora da sensação de Tempo imóvel, espaço e silêncio, (confundida inicialmente com surrealismo), depois do imenso sucesso crítico e de vendas daquela fase, a renegou publicamente e entrou numa fase supostamente neoclássica, mas tosca e de visível mau gosto, que ele defendia com unhas e dentes contra as críticas negativas, e que valiam muito menos no mercado que os quadros de sua fase metafísica consagrada, que ele renegara. Entretanto não paravam de aparecer no mercado quadros de grandes formatos da sua fase metafisica, muito belos de fatura, mais bem acabados, e com aspecto de novos ou muito bem conservados, que eram vendidos por preços milionários no mercado mundial. Até que um grande colecionador denunciou o pintor por estar pintando escondido com aquele seu primeiro estilo e pós datando com as datas de 1917 a 1925 da sua fase famosa e por isso enriquecendo como não o conseguira fazer na aquela época, a ponto de morar num apartamento luxuoso como um palácio, em Roma, na Piazza D'Espagna, onde colecionava suas próprias obras em molduras suntuosas, e expunha em vitrines pequenas esculturas fundidas em ouro maciço com os temas das mais famosas telas de sua fase metafísica que já estavam nos museus pelo mundo. O caso foi ao tribunal, com o pintor como réu acusado de fraude. Mas o juiz absolveu o pintor, verdadeiro monstro sagrado vivo da Itália, com o argumento de que "um pintor tem o direito de falsificar a sua própria obra".
Não é propriamente meu caso, e eu recoloco e divulgo as duas datas, a original e a fecha após o retoque ou repinte, como um longo processo de realização, o que não deixa de ser verdadeiro.
As atuais circunstâncias, ao mesmo tempo me fazem meditar sobre o sentido e os absurdos da minha trajetória ao longo destes 78 anos, resultando nestas minhas crônicas de cunho autobiográfico e memorial, diárias e matinais aqui no face. E acho que tudo valeu a pena, porque fiz, entre milhares de pequenos fracassos subjetivos, alguns quadros, desenhos e gravuras que chegaram a ser bons na origem ou finalmente, até para mim mesmo. Do resto, a maioria, tenho uma vergonha danada, como o teve, justa ou injustamente, o De Chirico...
(Guilherme de Faria)
02/06/2021

Monday, May 31, 2021

ONSIDERAÇÕES TALVEZ DESNECESSÁRIAS (Crônica de Guilherme de Faria)

Estive pensando... a única coisa que me tiraria o gosto da vida, seria perder o dom da Arte com que fui agraciado ao nascer. O grande poeta Rainer Maria Rilke escreveu na sua primeira carta a um jovem poeta: "Você deve se perguntar: ""Eu morreria se me fosse vedado escrever? Se a resposta for "não"... não tens mais o direito de fazê-lo".
Creio que pintar e escrever, ou o exercício de qualquer arte, deve ser visceral, ou... nada. O diletantismo e o hobby sempre me foram suspeitos, uma forma de descompromisso não referente aos colecionadores apaixonados, estes, sim, necessários às artes como os mecenas de outrora.
Eu tive, por períodos, alguns mecenas na minha vida, que me ajudaram a sobreviver em momentos dramáticos (já narrei aqui, em fragmentos das minhas memórias, esses períodos sombrios, subitamente iluminados por esses homens). Queria poder dizer a eles (alguns há muito falecidos) o quanto sou grato: eles adquiriram muitas obras minhas, oportunamente, sem que eu pedisse, talvez pelo meu excessivo orgulho.
A pintura é uma arte cara. Não tanto, é verdade, como as artes cênicas, mas ainda assim dispendiosa. A maioria das pessoas não tem ideia do preço exorbitante das telas, tintas e pincéis... Van Gogh só conseguiu realizar sua maravilhosa obra graças a um dos maiores mecenas da História: seu irmão Theo, a quem a humanidade reconheceu o mérito, e deve tributo.
Na verdade estou descrevendo isso tudo de modo geral, pois não posso ter certeza da posteridade das minhas modestas obras, mas confesso que deposito maiores esperanças nas da minha poetisa, a Alma Welt, meu heterônimo feminino, autora entre contos crônicas e romances, de cinco mil sonetos notáveis, ao me ver. O falecido poeta Paulo Bomfim ao ler doze de seus contos no livro "Contos da Alma" (editora Palavras&Gestos) publicado em 2004, me afirmou ser a Alma Welt o maior fenômeno da heteronomia da História da literatura (desde Fernando Pessoa) de que ele jamais teve notícia (literalmente palavras dele).
Por que estou escrevendo isso? Certamente porque só acredito na "vocação de eternidade", que é a única coisa que justifica o predomínio do homem como ser vivo na Natureza, sobre a Terra. Sem a Arte o homem perderia o sentido, e Deus certamente nem nos teria criado...
(Guilherme de Faria)
31/05/2021

Saturday, May 29, 2021

A PASSAGEM DAS HORAS (crônica de Guilherme de Faria)

Os dias e as semanas estão passando depressa demais, todo mundo já notou (ainda ontem era Domingo, e eu escrevia sobre o amanhecer modorrento da minha Oscar Freire e os chamados dos invisíveis bemtevis). Trata-se talvez de um dos fenômenos decorrentes da Internet. Vocês já repararam como as horas desaparecem quando estamos "on line"? Estamos cada vez mais tempo nessa condição sem paralelo na história humana, inédita até então para quase todos, com exceção dos escribas do antigo Egito, ou do Balzac no Século XIX, que escreveu tanto compondo A Comédia Humana, que um homem comum precisaria mil vidas (e sem o mesmo resultado, claro)... Entretanto estamos quase sempre lançando palavras ao vento, como há não muito tempo jogávamos conversa fora nas mesas dos botecos, virando copos de chope.
Mas, não há nada a lamentar, senão os que se vão antes de nós, vitimas ou não da Peste, enquanto jogamos um xadrez virtual com a Morte, mas com o mesmo sentido do jogo do cavaleiro do filme do Bergman. Ou a mesma falta de sentido, senão a inusitada poesia daquela imagem...
A trágica condição humana seria isso, talvez: não sabermos o sentido da Vida, diante da inevitabilidade da Morte.
Quanta a mim, como muitos, agarro-me à Arte, que faz algum sentido em si mesma, já que dura tanto que parece imortal ou pelo menos bastante tolerada por Deus...
Mas devo dizer que continuo achando heroico o nosso esforço humano em buscar a alegria e até mesmo a felicidade terrena como algo duradouro.
Nietzsche escreveu estes versos imortais:
"... A dor diz : Passa e acaba.
Mas toda alegria quer eternidade.
A profunda eternidade..."
29/05/2021

Thursday, May 27, 2021

Ocorreu-me o seguinte: a vida social estaria reentrando em normalidade, com todos voltando ao trabalho e o comércio funcionando, se não fosse pelas máscaras e a distância social mantidas. Estas condições são a principal meta almejada e atingida em parte pela nova Ordem Mundial: todo mundo sem individualidade visual plena e sem afetividade pública.
(Guilherme de Faria)
 27/05/2021

Monday, May 17, 2021

MEUS PASSOS DA PAIXÃO (crônica de Guilherme de Faria)

Creio que para ser um pintor é preciso amar profundamente a Natureza, se não Deus, ou no mínimo amar as cores, se não as formas. De família católica, quando criança eu não gostava da missa, por achá-la monótona (era em latim e sempre igual). Em compensação gostava de ficar examinando a Igreja, olhando o seu teto pintado e os detalhados quadros dos Passos da Paixão. Minha mãe parecia compreender e não me chamava a atenção ou repreendia baixinho por estar olhando para todos os lados menos para o padre e a Eucaristia.
Acredito que a maneira de amar a Deus dos artistas é das mais legitimas e autênticas, pois consiste em reverenciar a matéria, os objetos, tanto quanto o espírito, o que só pode agradar a Deus, pois não há maior acolhimento de Suas obras inigualáveis, que entretanto tentamos tantas vezes imitar, produzindo, na verdade outra coisa, da qual imagino Deus sorrindo, condescendente, talvez também encantado.
A propósito, quero recordar aqui uma experiência que me ocorreu nos anos 90. Eu recebi uma chamada do interfone de uma senhora costureira que morava no prédio, alguns andares acima e que me disse estar com uma cliente sua, que sempre que vinha provar seus vestidos com ela, comentava como lhe agradavam as litografias emolduradas penduradas nos corredores das duas entradas do condomínio (a da Oscar Freire e a da Hadok Lobo). Então ela dissera à sua cliente que o artista morava no prédio e esta então disse que gostaria de visitar meu ateliê para fazer uma encomenda e se eu poderia recebê-la dali a uns minutos. Empolgado, eu disse que sim, que ela podia descer, que a estava esperando.
Quando soou a campainha, abri a porta e entrou uma verdadeira rainha, eu, impressionado e quase reverente ante a majestade natural daquela dama...

Era uma senhora de meia idade, quase idosa na verdade, com belos cabelos brancos muito bem penteados à antiga, e um porte distinto e ereto, um tanto contido, como manda a verdadeira nobreza de estirpe. Ela olhou em volta os meus quadros por todos os lados e parecendo ter gostado do que viu começou a falar:
"Senhor Guilherme, eu tenho uma fazenda antiga, de família, produtora de café, aqui no Estado, e que dispõe de um capelinha mais antiga ainda, muito simples, todo caiada, do tempo da colônia. Eu mandei recentemente restaurá-la e gostaria de colocar nela os catorze Passos da Paixão, sete telas em cada parede lateral. Vejo que o senhor tem aqui esta primeira queda de Jesus sob a cruz ...Acaso o senhor pintou já a série completa?"
Eu fiquei pasmo! Eu andava em grande dificuldade financeira, à beira da ruina, mas tinha há poucos dias pintado num impulso temático inusitado, aquela telinha de 70x70cm, com fundo infinito de uma só cor chapada , dentro da minha fase "primitiva" como eu chamava e que era já um passo da Via Crucis de Jesus, avulso, inexplicável, no contexto da minha produção daquela época. Uma incrível coincidência, ou um chamado providencial?
Aceitei imediatamente a encomenda com a condição de serem todas as telas naquele formato e dimensões, com as figuras contra fundo infinito, cada um de uma cor diferente e com aquele estilo. Dei o preço imediatamente e exigi receber contra a entrega de uma por mês, catorze prestações que me garantiria uma espécie de salário fixo por um ano e dois meses. A senhora aceitou sem hesitar todas as condições. Ela retirou-se satisfeita e confiante, e eu pus imediatamente mãos a obra, me sentido como um pintor italiano quinhentista, mas a serviço de uma Papisa...
Ao longo daqueles catorze meses pintei um por mês os Passos da Paixão de Jesus, e após ter entregue a última tela, dali há umas semanas encontrei no elevador minha amiga costureira que me contou o seguinte:
A Dona...... estava na sua fazenda com seus filhos adultos quando esta foi invadidas por uma quadrilha bandidos de terno e gravata (!!!) armados de carabinas e até metralhadoras que fizeram todos reféns por muitas horas. Afinal, depois de saquearem o casarão foram embora, felizmente sem matar ninguém, mas deixando-a traumatizada a um ponto de nunca mais querer voltar a pisar na sua fazenda.
Então liguei para minha cliente para saber se ela estava bem, e ela me contou que, os meus quadros estando ainda guardados dentro de um armário de seu apartamento, foi visitada por uma sobrinha querida, também fazendeira, que contou que estava coincidentemente também restaurando uma capela antiga na sua própria fazenda na região de Ribeirão Preto. Então ela doou à sua sobrinha as telas para colocar na tal capelinha. Um destino feliz, por assim dizer, para as minhas obras. Lamentei por ela o incidente traumático mas me dei por satisfeito quanto ao desfecho de tudo, e por minhas obras irem afinal ficar expostas em igualmente sagradas paredes.
Passadas umas semanas recebi um telefonema da tal sobrinha, dizendo:
"Senhor Guilherme, meu nome é..... e sou sobrinha da Dona.... que encomendou ao senhor os catorze Passos da Via Crucis, que ela acaba de doar a mim, para por na capela antiga da minha fazenda em Ribeirão Preto. Gostaria visitar o seu ateliê com meus filhos. É possível?"
"Claro, com muito prazer, respondi. Hoje à tarde? Ás .... horas? Sim, pode ser, estou esperando."
Quando chegaram ao meu humilde e bagunçado ateliê, logo ela começou dizendo:
"Senhor Guilherme, o motivo desta visita é para encomendar um Passo da Paixão que ficou faltando porque o senhor pintou a Flagelação na Coluna como se fosse um dos Passos, e na verdade não faz parte da Via Crucis. O senhor pintaria o Terceiro Passo para completar a série? Quanto o senhor cobraria?"
Grato à minha falseta teológica, que assim me beneficiava, aceitei logo a encomenda, combinei o mesmo preço anterior, e acertados declamei um cordel meu de brinde, como costumo.... rrrssssss. Ficaram surpresos e foram embora meio perplexos com minha animação e naturalidade na pobreza, segundo me pareceu.
Dali a duas semanas, finalizada satisfatoriamente a nova tela, telefonei para ela vir buscar e pagar. Na ocasião ela disse:
"Senhor Guilherme, a tela da flagelação ficará ótima num nicho que tem na torre do sino, separada das outras nas paredes da capelinha. Foi muito bom o senhor a ter pintado....Vou inaugurar a capela, com uma consagração e missa, no dia .... numa grande festa para a família e convidados. Estou já imprimindo os convites."
Passadas umas semanas, não tendo recebido nenhum convite, telefonei à minha cliente e perguntei se eu poderia comparecer à inauguração, pois estava curioso para ver minhas telas na parede da capela, no mínimo para encerrar dentro de mim aquele feliz episódio. Ela respondeu:
"Senhor Guilherme, o senhor desculpe, mas a cerimônia será exclusivamente para a família e para os íntimos. O senhor ficaria deslocado. Posteriormente o convidarei especialmente para conhecer a capelinha com suas obras..."
Fiquei um tanto decepcionado, e como logo previ tal convite nunca veio (já se passaram vinte anos). Nunca pude ver minha única obra sacra nas paredes de uma capela.
Na verdade consolei-me com a ideia humorística de um Michelangelo não convidado pelo Papa para inauguração de sua obra na Capela Sistina. Afinal os artistas sempre entraram na casa dos ricos pela porta da cozinha, no máximo para comer com os criados...
A consciência de fazer parte de uma ilustre casta histórica de rejeitados, era para mim, paradoxalmente, motivo de orgulho, não de ressentimento. A tal senhora passaria, anônima na sua nobreza de estirpe, e minhas obras provavelmente ficariam, o que, afinal é tudo o que ainda me interessa... um naco de eternidade...

FIM
20/05/2021




Saturday, May 15, 2021

ÚLTIMOS ECOS DA PROVÍNCIA (crônica de Guilherme de Faria)

No meu quarteirão, que compreende um trecho da rua Augusta, da Lorena e da Haddok Lobo, o anonimato atual das máscaras só não se instalou totalmente por uns raros exemplos de resistência, como o do mineiro entregador do mercadinho, seu Milton, que não usa máscara e ninguém liga como se fosse o seu privilégio de arauto tácito e necessário. No percurso, carregando as compras, ele conversa com os clientes com intimidade e aquela simpatia mineira das pequenas cidades, e sabe quase tudo no que respeita à saúde de seus velhos clientes e o transmite de uns para os os outros, de modo que fico sabendo quem está mal e quem acaba de morrer...
Também os porteiros do meu prédio, de inusitada simpatia e prestatividade, me fazem ver que o mundo ainda conserva seu lado bom e provinciano, pelo menos em nichos dentro dos bairros da cidade grande, e que nem tudo está perdido...
Por outro lado, estarei talvez sendo ingênuo e essas pequenas coisas são a despedida do mundo de pessoalidade e individualidade que conhecíamos, nós da nossa geração que não se comunica apenas telegraficamente por mensagens de celular, uns com os outros como os adolescentes, mas ainda conversa sobre o tempo e a saúde, e abana as cabeças contra a insensatez atual do mundo e da política. A propósito, eu nunca antes me imaginei começar a gostar de falar sobre o tempo (faz frio, faz calor, está ventando, vai chover), que antes julgava ser a extrema falta de assunto, típica de velhos banais. Enfim, começo a compreender a velhice, o que é sinal seguro de que estou eu mesmo envelhecendo, e se tudo correr bem, me tornarei finalmente simples e mais humano, quando tudo parece caminhar na direção contrária. Mas também conto com a possibilidade de estar enganado sobre tudo, já que ainda não há o recuo necessário para analisarmos o sentido dessa nossa época de triunfante tecnologia e esvaziamento das individualidades. Enquanto isso, por minha vez, por resistência agarro-me à pintura figurativa, às crônicas talvez passadistas, e aos sonetos de uma Musa criada por mim mesmo, e que, reconheço, já parecia antiga até para o século passado onde localizei a sua bela e imaginária culta juventude...
(Guilherme de Faria)
15/05/2021

Friday, May 14, 2021

AO MINUTO QUE PASSA (crônica de Guilherme de Faria)

Em tempos como este, de quarentena, é difícil para mim escrever a crônica do dia sem recorrer às memórias dos tempos idos, embora eu não seja um saudosista (longe disso). Como um Fausto* de mim mesmo, raramente gostei plenamente de um momento e não me lembro de jamais ter dito ao minuto que passa: "Pára! És tão belo!" * Talvez por isso mesmo não tenha perdido a minha alma, pois como alcoólatra ao mesmo tempo laborioso e fecundo, teria feito talvez, sem perceber, de certo modo, um pacto perigoso... Por isso não tenho saudades da minha louca juventude, em que, imprudente, hedonista, excessivo e luxurioso, escapei sempre por milagre a imensos perigos, da decadência precoce e da morte mesmo...
Entretanto, curiosamente, eu não apagaria uma linha dos meus desenhos e gravuras ou uma pincelada de meus quadros daquela insana época (de 1962 a 1981) que, apesar de tudo, me parecem, em si mesmos estranhamentos incólumes, intocados pelos meus excessos alcóolicos e desvarios. Atribuo isso, de maneira teórica, ou fato da Arte ser o último baluarte do espírito, o último a cair. Quando a arte é afinal atingida pelo álcool, o artista morre junto, finalmente derrotado, já que impenitente...
Devo pois revelar, que, em Abril de1981, no meu fundo de poço, de repente, vendo já face do lobo, escolhi viver com o risco inerente a uma sobriedade desconhecida, e a um estilo de vida paciente, de uma verdadeira reforma interna, e entrei desde então numa etapa igualmente fecunda, mas não dolorosa. Renunciei à Tragédia. Escolhi ser um Corot e não um Van Gogh. Talvez para poder dizer, não ao minuto que passa, mas ao derradeiro: "Espero que no Céu haja pintura... "
(Guilherme de Faria)
14/05/2021
Nota
*No Fausto de Goethe. o pacto feito com Mefistófeles consistia em acompanhar aquele diabo em aventuras e experiências de desejos formulados até que diante de um que o satisfizesse, Fausto afinal dissesse "ao minuto que passa": Para! És tão belo! . , Nesse momento ele cairia morto e sua alma caberia ao Diabo para levá-la consigo para o Inferno. Fausto, finalmente, depois de muitas experiências insatisfatórias, e até um crime ( o abandono de Margarida que a conduziu a um fim trágico), diz finalmente deslumbrado, no término de sua cidade ideal do Futuro, ao minuto: "Pára! ´És tão belo!". E caiu morto.
Entretanto, Deus ludibriaria o Diabo e regataria seu servo com um truque engenhoso e engraçado, lançando mão de serafins voluptuosos, que em evoluções dançantes entorno do cadáver, distraíram o luxurioso Mefistófeles e escamotearam no último momento a alma de Fausto que saía como uma luzinha de sua boca, e a levariam para o Céu.
.

Wednesday, May 5, 2021

TRIBUTO ÀS MARAVILHOSAS MULHERES DA MINHA VIDA (crônica de Guilherme de Faria)

Todas as manhãs quando acordo, depois do café, antes de começar a pintar tenho vontade de escrever algo aqui no nosso face. Em geral uma crônica, uma memória ou um soneto da minha Alma Welt (que pra quem não sabe sou eu mesmo). Entre a pintura e a literatura, meu coração só não balança porque considero uma a extensão da outra, pelo menos no meu caso. É preciso dizer que desde menino mostrei minha obras com desenvoltura e segurança, e fui recebido com uma aceitação bastante grande talvez pela minha atitude mesma, de certeza absoluta, provavelmente me auto superestimando, reconheço.
Mesmo com essa aceitação fácil desde jovem, meu caminho foi atribulado, e bastante sofrido por uma luta interna comigo mesmo noutros planos, que não propriamente na arte em si. Já revelei muito dessa minha jornada ao longo destes meus 78 anos, nas minhas memórias fragmentadas neste facebook nos últimos doze anos.
Casei muitas vezes mas estou no meu sétimo casamento há já 27 anos. É preciso dizer, a bem da verdade, que considero "casamento" cada vez que coabitei com uma mulher nos meus consecutivos ateliês, ou que elas trouxeram suas escovas de dentes e colocaram no armarinho de espelho do banheiro.
Sempre necessitei da intimidade de uma mulher no meu cotidiano... elas, por sua vez, espelhos fundamentais da anima masculina. Entretanto como já contei em outras ocasiões, num momento de solidão, exausto do embate da difícil convivência com elas, descobri a identidade ou personificação da minha própria anima pessoal, em Julho de 2001, e revelei imediatamente ao meu pequeno círculo de amigos a inesperada poetisa e prosadora gaúcha pampiana Alma Welt, de aparente inexplicável (em mim) ascendência alemã por parte de pai e açoriana por parte de mãe. Estranho fenômeno, reconheço, ainda não totalmente esclarecido. Ainda mais que ela me apareceu (se insinuou com um inesperado conto confidencial quando me viu sentado escrevendo também inusitados cordéis sertanejos em catadupa) se revelando como escritora e finalmente a identidade misteriosa da "modelo" ruiva desconhecida e sem nome, de meus desenhos, gravuras e pinturas desde 1964. Uma curiosidade: as minhas ex-mulheres a detestaram à primeira vista, numa atitude de "não li e não gostei", com exceção justamente da Eliana, minha atual e definitiva companheira, que com surpreendente desprendimento se afeiçoou à que ela chama "a Alminha", e tomou para si publicar na sua página os haikais da Alma, para o qual ela escolhe graciosas ilustrações na internet. Em quase todas as outras presumi logo que, revelando uma Musa maravilhosa, ao mesmo tempo poetisa notável surgida de dentro de mim mesmo, despertei nelas muita mágoa e ressentimento... e talvez, mesmo, despeito. Compreensível...
Belas e queridas mulheres da minha vida!... Queria que soubessem o quanto lhes sou grato e o quanto sinto tê-las decepcionado. Reconheço que o artista é, sim, uma espécie de monstro psicológico um tanto sugador, difícil de conviver. Mas também quero que reconheçam o quanto as cantei como arquétipo feminino, difuso embora, em pintura, desenho, gravura, prosa e versos... o que provavelmente continuarei fazendo até o fim, já que vocês são, na verdade, inalcansáveis como também as paisagens imaginárias da minha pintura.
Agora vou revelar uma última fantasia impossível, talvez patética: vê-las no fim, eu invisível pairando de cima, todas juntas no meu velório em torno do meu caixão, tagarelando, amigas... e talvez uma ou outra lágrima quase secreta...
Risos, risos, e risos...
05/05/2021

Monday, April 5, 2021

EM QUÊ PENSAS? (Crônica de Guilherme de Faria)

 Todas as manhãs abro o facebook e logo me defronto com a pergunta em forma lusa: "Em que estás a pensar?" Então me lembro da Ceia dos Cardeais, famosa peça estreada em1902, em um ato, toda rimada, do português Júlio Dantas (1876-1962), em que três velhos cardeais, um espanhol, um francês e um português ceiam juntos numa sala do Vaticano (diga-se de passagem uma lauta e caríssima ceia de vinhos finos, lagostas e iguarias), depois que dois deles recordaram suas cavalheirescas ou mirabolantes aventuras amorosas da juventude, um deles pergunta ao cardeal português que permanecera silencioso: "Em que pensas, Cardeal?" E ele responde, lentamente:

"Em como é diferente o amor em Portugal..."
E começa a recordar em tom lento e nostálgico seu único, singelo e ingênuo amor de adolescência, em sua aldeia, com o indefectível banco da pracinha, pombos e soar de sinos da capelinha, e que mal começara termina com a morte de sua doce e virginal amada adolescente... E o religioso português termina o seu triste relato, cheio de ternura piegas mas tocante, com a conclusão: "E foi este anjo que ao morrer me fez Cardeal..." E os outros dois em uníssono exclamam:
"Foi ele de nós três o único que amou!" Cai o pano.
Lembrando dessa peça célebre e bisonha, que li na infância e que depois seria encenada muitas vezes no Brasil dos anos 50 a 70 eu mais uma vez me dou conta de como o mundo foi perdendo sua inocência e grande parte de sua alta cultura. Quem leria ou assistiria hoje em dia um peça como essa, sem rir e até debochar? Ainda no começo do século XX tal peça encontrou o deboche numa paródia do jornalista paulistano de pseudônimo Juó Bananère que escrevia numa espécie de dialeto italiano do Brás, um livro de versos paródicos que termina com aquela peça inteira satirizada: "A Ceia dos Avacagliados"... Era realmente muito engraçado, e denotava o humor irreverente dos brasileiros, humor esse que entretanto minou nossas fontes culturais lusitanas e o respeito pela nossa maravilhosa língua herdada.
Você devem ter notado que sou, junto com a Alma Welt um dos últimos que escrevem num português castiço, não fora o uso do gerúndio, habito brasileiro, que o facebook, estranhamente despreza:

"Em que estás a pensar, Guilherme?"
E eu respondo:
Em como é diferente o mundo interior em que ainda vivo...
05/04/2021

Wednesday, March 31, 2021

COMO FOI O LANÇAMENTO DA ALMA WELT (Memórias de Guilherme de Faria)

Quando chegamos a uma certa idade, nos vem, a muitos de nós, uma tendência à memória, senão ao saudosismo. É o meu caso. Não sou saudosista mas começaram, já há uma década, a me virem as memórias de infância e juventude, que, muito assimiladas, estão produzindo crônicas memoriais que percebo bastante apreciadas aqui no nosso face, e agradeço...A propósito, não há como não se sentir grato ao gênio nerd Zuckerberg por ter criado esta plataforma que nos permite sermos escritores e nossos próprios Editores, além de pintores e nossos próprios galeristas e marchands. Sim, acredito que estou tendo um novo alcance, até internacional, com esta rede social da qual ninguém mais quer ficar de fora, sob pena de uma espécie nova de marginalização.
Assim, para rememorar, estou desde 2008 diária e ininterruptamente postando aqui minhas obras, textos, memórias e pensamentos, além das do meu heterônimo feminino, a poetisa Alma Welt. Quanto a ela, acredito estar ganhando tempo de divulgação, de maneira preparatória para um grande lançamento, algum dia, finalmente em livro de papel, de seus romances, crônicas, poemas, haikais e abundantíssimos sonetos (cerca de 5.000).
Na verdade ela já foi publicada em papel, quando em Dezembro de 2004 lancei o livro Contos da Alma, de Alma Welt, contendo doze contos da fase urbana paulistana da poetisa gaúcha criada por mim (e eu ainda inda não havia revelado o seu segredo) e tive uma boa resposta da sua aceitação com um belo e bem recebido lançamento numa tarde de autógrafos regada a vinho branco gaúcho, gelado, doado à poetisa pelo Supermercado Santa Luzia, cujo gentilíssimo gerente da época, recebendo o pedido de patrocínio através de uma carta da poetisa, e o presente de um exemplar do livro com dedicatória a ele, disponibilizou quatro caixas daquele vinho conterrâneo com recomendações de sucesso à talentosa autora estreante... Não venha alguém me dizer que cometi uma fraude para obter o patrocínio etílico (rrrrrsssss). Seria o mesmo que acusar o Fernando Pessoa de fraude por ter escrito um prefácio ao engenheiro poeta Álvaro de Campos, contando como o conheceu numa reunião na casa do pintor Almada Negreiros, amigo comum a ambos. A obra e o encanto da Alma também são verdadeiros e não se evaporaram com aqueles vinhos de estreia. Sua obra não parou de crescer e de conquistar admiradores...
Ainda a propósito, muita coisa engraçada aconteceu naquele lançamento na Livraria Nobel da rua Augusta esquina com a Alameda Itu, nos Jardins. Depois de ter deixado naquela livraria ao seu dono de nome Salvador Juvenal, uma graciosa caixinha de madeira recheada de poemas de uma desconhecida poetisa gaúcha pampiana descendente de alemães por parte de pai, chamada Alma Welt, ilustrados em cores por mim fui levando novos folhetos ilustrados para acrescentar à caixinha ao longo daquele ano de 2004. A caixinha era manuseada e lida por alguns fregueses curiosos, mas não adquirida. A cada novo folheto que eu trazia, o Salvador Juvenal encantado com a leitura me cobrava eu apresentar a ele a linda jovem poetisa e musa ruiva que eu lhe descrevia. Ele dizia: "Qual é, Guilherme, pare de enrustir a moça, seu ciumento, e traga-a aqui para eu conhecê-la!" Eu dizia: Ela mora numa estância no Pampa, e aparece raramente em São Paulo, me visita rapidamente no ateliê, me deixa novos textos e poemas, me encanta, deslumbra e como um cometa, apressada, some por mais um ano. Eu tentei, mas não consegui trazê-la aqui para você conhecê-la." Ele ficava me olhando... (serei eu um grande mentiroso?)
Finalmente em Novembro, eu, com o livro Contos da Alma no prelo pela Editora Palavras & Gestos, revelei a ele o segredo da Alma. Ele, espantado, disse: "Ah! eu já vinha desconfiando, mas depois que você trouxe aquele folheto incrível chamado "Pampa (memórias da Alma)", com três poemas epistolares longos, em verso livre, um ao pai, outro à mãe e outro ao Pampa, tão viscerais e comoventes que eu pensei: "Sim, a Alma existe em carne e osso... E agora você me vem com essa?"
Salvador, homem inteligente, acabou reconhecendo que como heterônimo a Alma era um fenômeno mais interessante ainda e aceitou lançá-la em sua livraria (era uma franquia). Mas como lançá-la mantendo o segredo? As pessoas cobrariam a presença da autora na tarde de autógrafos, claro, senão seria uma desfeita impensável ao público numa estreia...
Mas eu já sabia o que fazer, tinha um plano simples e engenhoso e começamos a preparar o lançamento...

Antes de narrar os divertidos eventos da tarde de autógrafos da Alma, devo contar aqui as circunstâncias fortuitas que propiciaram a publicação do livro de contos urbanos paulistanos da gaúcha Alma que iríamos lançar ao público, finalmente, naquele fim de ano de 2004.
Quando os textos da Alma começaram a espocar dentro de mim, a partir de Julho de 2001, profundamente entusiasmado e seguro do fenômeno, eu precisava não de uma avaliação crítica (coisa a que nunca me submeti) mas simplesmente de leitores. Encontrei-os logo na figura de um casal de artistas amigos, a fotógrafa Norma Guimarães e o pintor Helenos, com quem eu convivia um pouco na Gráfica Ymagos, a Editora de gravuras onde fazíamos litografias. Assim que eu produzia um texto da Alma, eu o digitava, imprimia, copiava vários exemplares em xerox, encadernava com espiral e os distribuía entre amigos mais chegados. Norma e Helenos se mostraram os mais receptivos e se apaixonaram logo pela Alma a ponto de me pedirem mais textos. Helenos chegou a dizer: "Guilherme, me traga mais. A Alma é um tesão! "
Feliz com essa receptividade, continuei a fazê-lo, e como todo escritor, a sonhar com a publicação por uma Editora.
Foi então, que passados quase um ano, encontrei a Norma por acaso descendo a Augusta, e que me disse: "Guilherme, eu sou amiga do casal Paulo Gaudêncio, o psicanalista, e sua mulher Cristina. Há alguns dias, jantando com eles, Paulo me contou que fundou uma Editora há dois anos para publicar seus próprios livros de psicologia, e agora pensava em abrir sua Editora para outros escritores. Imediatamente pensei em você e sua Alma, Guilherme, mas nada disse, deixei passar alguns dias e telefonei ao Paulo no seu Instituto, contando do prazer que nos dava a mim e ao Helenos a sua literatura. Ele ficou curioso e me pediu seu telefone, que passei. Ele disse que vai contatá-lo."
Fiquei imensamente agradecido à Norma, e realmente dali a alguns dias recebi o telefonema do Paulo Gaudêncio, simpaticíssimo, que me disse: "Guilherme, a Norma Guimarães me falou com entusiasmo de seus textos e eu queria conhecê-los . Você poderia trazê-los aqui no meu Instituto, digamos, amanhã às 10 horas da manhã? Eu terei um intervalo de uma hora entre consultas e poderei ouvi-lo. Dá pra você me explicar tudo nesse prazo? E traga os textos, por favor. "
Empolgado, eu respondi que sim, que dava, e estaria lá. Juntei uma então já enorme quantidade de contos e poemas da minha Alma, e seguro improvisador que me sei, esperei tranquilo, sem nenhum ensaio, pelo encontro. Por alguma razão eu sabia que daria certo...

Encontrei-me com o Paulo Gaudêncio, que eu não conhecia pessoalmente e do qual só tinha visto uma palestra numa edição do programa Café Filosófico da TV Cultura. No seu Instituto, que leva o seu nome, no Pacaembú, esperei-o por poucos minutos numa bela e silenciosa biblioteca, com uma grande mesa de reuniões deserta. Ele chegou logo, me parecendo bastante idoso, simpático e disse: "Guilherme, pode me contar essa história..."
Eu discorri fluente e apaixonadamente sobre a minha Alma Welt, sua origem, sua biografia e até seu gênio (!!!). Gaudêncio com um dedo na têmpora ouvia em silêncio absoluto, sem nunca me interromper, bom ouvinte, psicanalista que era. Tinha um leve sorriso que denunciava sua aprovação. Após uma hora, quando terminei de discorrer, ele, homem objetivo, direto, disse:
"Fascinante, Guilherme! Gostei muito, estou agradavelmente impressionado... Quero publicar tudo. Mas você trouxe tanto material... O quê, daqui, você quer que publique primeiro? "
Eu separei o livro dos primeiros contos da Alma, urbanos, passados no seu autoexílio paulistano de quatro anos pela morte do "Vati " ( pron. fáti = papai, em alemão).
Paulo pegou o caderno digitado e espiralado, e disse: "Está bem, então leva todo o resto embora. Mas... aqui tem tanta coisa... eu não terei tempo de ler. Quem vai fazê-lo é a Cristina, minha mulher, que cuida da Editora. Ela é que lê e escolhe os textos. Eu terei tempo para ler apenas um conto. Qual você me recomenda, para meu prazer? "
Eu, olhando bem para o rosto dele, achei-o com um ar de homem do interior (depois descobri que ele nascera no antigo bairro do Bexiga em São Paulo (Bela Vista) e apontei no Índice: "Este aqui!"
Era o conto "Na Trilha dos Menestréis", o único conto do livro que não se passava em São Paulo, mas numa fabulosa expedição da Alma no sertão de Pernambuco em busca do Pavão Misterioso (na verdade baseada numa experiência real da minha vida, quando morei em Olinda por quatro anos e fiz uma expedição de sete dias pelos sertões de Pernambuco e Paraíba junto com violeiros repentistas numa perua fretada, rumo a um Congresso de cantadores, violeiros, repentistas e cordelistas de todo o Nordeste, em Campina Grande, na Paraíba. Viagem minha, real, fabulosa e inesquecível que relato fiel e minuciosamente botando na conta e na boca da Alma, naquele conto do livro que eu queria publicar por ser cronologicamente o primeiro que a Alma me "enviou".
"Está bem- ele disse- Lerei. Aguarde daqui a uma semana o nosso chamado. Até lá."
Retirei-me feliz e esperançoso. Na verdade dando como certa a publicação do primeiro livro da Alma.
Dali a um semana recebi o telefonema esperado:
"Guilherme, aqui é a Cristina mulher do Paulo. Você pode vir amanhã às 11 horas se encontrar com a gente aqui no Instituto? Sim? Então até lá! "

No dia e hora combinados fui ao encontro do casal no Instituto Paulo Gaudencio. Introduzido por uma secretária, esperei um longo minuto na biblioteca sentado numa das inúmeras cadeiras da longa mesa de reuniões. Afinal entraram o Paulo e a Cristina, sorrindo, ela com o meu livro na mão. Ela disse: "Guilherme, quando o Paulo me recomendou ler este livro sem dizer nada, eu, lendo o título e a autoria na capa, perguntei: "Mas quem é essa Alma Welt? Nunca ouvi falar dessa autora..." E o Paulo respondeu: "É o Guilherme de Faria..." Então eu perguntei: Guilherme de Faria ? O pintor e desenhista? O artista plástico? Ele disse simplesmente: "Sim, ele mesmo..." Então, Guilherme, eu pensei: "Será que um artista plástico pode ser um escritor de verdade, que se possa levara sério?" Eu fiquei com um pé atrás, mas como tenho um compromisso com o Paulo de ler os livros que ele recomenda, comecei a lê-lo. Fui fisgada. Não podia parar. Eu me punha a ler um conto, e chegando lá pelo meio, tendo tanta coisa que fazer, parava mas minha cabeça continuava no conto, eu queria saber como acabava! Seus contos têm um certo suspense e terminam de uma maneira surpreendente, que a gente não espera. Gostei e acho que as pessoas podem também gostar. Vou publicar às nossas expensas.
Então Paulo, atalhou: E, Guilherme, aquele conto que você separou para eu ler, me comoveu até às lágrimas."
Olhei nos olhos do Paulo e ele estava com os olhos marejados ali mesmo, naquele momento, só de lembrar! Por minha vez fiquei emocionado, e impressionado com a sensibilidade daquele homem...
A Cristina continuou: "Mas... você vai publicar com o seu nome, claro... ninguém sabe ainda quem é essa personagem, uma suposta autora Alma Welt, não é?"
Eu respondi: "Não Cristina. Tem que ser com o nome dela. Essa é a graça do heterônimo. Eu quero torná-la conhecida e ficar na sombra. Quero aparecer apenas como o seu descobridor, apoiador, capista e prefaciador. Quero cultivar o seu mistério, que é um dos elementos de sua existência fascinante, entre o mítico e o real. Quero fazer dela uma Musa, além de autora."
Cristina argumentou que nenhuma Livraria aceitaria uma tarde de autógrafos sem a presença da autora. E eu respondi:
"Pode deixar comigo, eu já tenho um plano para o lançamento sem a presença física dela. Já combinei tudo com o meu amigo Salvador Juvenal, dono da Livraria Nobel da rua Augusta.."
Cristina suspirou, e acabou aceitando minhas estranhas condições...

Finalmente o livro estava pronto, e na livraria Nobel tudo estava preparado para o coquetel de lançamento do livro da Alma. Quanto a mim, estava falido, sem um tostão, pusera todos os meus esforços naqueles últimos anos, desde 2001, a serviço da minha visionária criação, sem ter nenhum retorno financeiro. Já contei como consegui o patrocínio do vinho branco para servir gelado, naquela tarde linda e quente que se apresentou.
Então, na hora certa, pontualmente, fui com a Eliana para receber os convidados, que eu tinha feito um por um por telefone para poder contar com a presença com mais segurança.
A Livraria estava lotada de amigos, parentes e artistas. Estavam também presentes o Paulo Gaudencio e a Cristina Pereira, os editores, curiosos para ver como eu me sairia daquela enrascada, da qual eu guardara segredo até para eles. Eu iria revelar a verdadeira Alma? Ela, afinal, existia mesmo?
Como a livraria era pequena, se aglomeravam até na calçada, todos com taça na mão, última despesa que tive, além do gelo para o vinho branco e o farto mix de castanhas, nozes e amendoim. Todos esperavam curiosos a musa ruiva de que ouviram falar. Por quem? Por mim mesmo ao telefone durante os convites um a um. O boca a boca sempre foi a melhor propaganda...
A pessoas conversavam animadamente enquanto eu circulava entre elas, aumentando com pequenos comentários o mito e a expetativa quanto à autora, a belíssima escritora, a poetisa ruiva, jovem musa vinda dos pampas, que morara, escrevera e amara durante quatro anos em São Paulo sem que ninguém, senão eu, soubesse na ocasião, e que agora contava suas aventuras num belíssimo livro de contos, que eu, Guilherme de Faria, seu descobridor e fã, prefaciara e fizera o sugestivo desenho para sair na capa: a ascensão de Eros e Psiqué ao Olimpo.
O tempo foi passando e as pessoas começaram a estranhar e a questionar sobre o atraso da autora. Quando chegava alguma moça ruiva, me perguntavam: "É ela? É a Alma?" Eu respondia: "Não, não... A Alma é muito mais bonita, vocês vão ver... "
A curiosidade e a impaciência do público crescia...

Então, quando os convidados já mostravam sinais de estranheza ou impaciência, eu, que fazia as honras da casa, disse alto, para todos ouvirem:
"Pessoal, a Alma está demorando muito, vou telefonar no escritório para saber o que está acontecendo" (eu ainda não tinha celular).
E me encaminhei para os fundos da loja, entrando sozinho no minúsculo escritório, entulhado de livros, inacessível aos olhos do publico. Voltei depois de um longo minuto declarando alto para todos ouvirem: "Gente, a Alma não vem! Consegui falar com ela ao celular a caminho do aeroporto de Congonhas. O irmão dela, o Rôdo, sofreu um sério acidente: o seu carro esporte chocou-se contra uma árvore numa estrada do pampa e ele quase morreu, e está hospitalizado em Alegrete, ferido gravemente. Ela é ligadíssima ao irmão, está desesperada, preocupadíssima, indo para vê-lo no hospital, e pediu que a desculpem, e que se for possível, na qualidade de prefaciador eu assine os livros. Pessoal, estou desolado, mas se a alguém interessar meu humilde autógrafo, na qualidade de prefaciador do livro, estou à disposição."
Dito isso, no meio de um burburinho cheio de surpresa dos presentes, eu me sentei à mesa com a caneta em punho, e a fila se formou para os autógrafos.
Devo acrescentar que, por alguma misteriosa razão, eu comecei a escrever carinhosas dedicatórias personalizadas a cada um que trazia o seu exemplar adquirido no caixa, e assinava ALMA WELT, com a caligrafia dela, redonda, de pé, diferente da minha própria... O Incrível é que ninguém pareceu se surpreender e estranhar isso e saíam contentes com as dedicatórias e a assinatura da Alma. Será que mesmo sendo o meu segredo, inconscientemente todo mundo já sabia e era simplesmente meu cúmplice numa grande pantomima?
Enquanto isso, meu querido sobrinho Rafael Cortez que ainda não era CQC, e portanto não roubou a cena como, famoso, o faria anos mais tarde, tocava violão, ali, ao vivo para homenagear a Alma. E eu, ainda naquela noite, acompanhado por ele, declamaria uns poemas da musa, antes de encerrarmos o evento.
Foi um sucesso. Vendemos mais de 70 livros. Paulo Gaudencio e Cristina, meus editores, me olhavam, sorrindo perplexos com a minha "cara de pau", eu presumi.
Mas o mais curioso e quase sem explicação é que ninguém se queixou ou estranhou que eu dedicasse e assinasse por ela, Alma, a misteriosa poetisa, de fascinante beleza já mítica, que todo mundo esperava e ninguém jamais viu, somente eu, seu fiel e dedicado servidor...
FIM
03/04/2021

Nota
Agora mesmo passados anos daquele evento devo talvez explicar a algumas pessoas. que toda aquela elaborada encenação que fiz, não deve ser confundida com fraude, estelionato autoral, ou falsidade ideológica. Nem sequer com simples mentira. O mistério da heteronomia é que tudo se passa no terreno da criação artística total, senão num plano anímico em que o escritor cria a obra e seu autor, que não é ele, mas real em espírito e verdade. E esse fenômeno ainda foi não totalmente desvendado pelos estudiosos da Literatura. A Alma Welt é real, de verdade, sua já imensa obra (publicada em blogs na Internet e no facebook) e sua vida possuem grandeza, beleza e profundidade. Tudo na Alma é verdadeiro, ela só não é de carne e osso.

SOBRE A MINHA QUARENTENA PESSOAL (crônica de Guilherme de Faria)

 Passei grande parte da minha vida confinado dentro do ateliê, frente ao cavalete de pintura ou à mesa de desenho. Por isso a quarentena ou lockdown não me é propriamente incômoda ou estranha. Ainda na infância minha mãe tinha que me tocar para fora do meu quarto-ateliê para brincar com os moleques na rua, segundo ela para eu tomar sol, brigar e endurecer. Eu ia e voltava tendo aprendido uns palavrões que ingenuamente repeti uma primeira e única vez na mesa, ao jantar. Alguns riram, mas minha mãe ralhou: "Aqui não! Deixe os palavrões lá fora com os moleques".

Entretanto devo reconhecer que esta quarentena, como retiro forçado difere muito dos meus "retiros" voluntários ao longo da vida, porque há uma sombra que paira, que parece nos ameaçar vinda de fora e à qual, mesmo nossas residências trancadas parecem vulneráveis.
Tempos estranhos... Muita gente assustada, outras quase em pânico, outras desesperadas, outras revoltadas. Há até gente boa e culta que diga que é o princípio do Apocalipse. Quanto a mim, não sei do significado metafísico de tudo isso, mas aprendi no dia 4 de Abril de 1981 "a pôr a minha vida nas mãos de um poder superior tal como eu o podia conceber"... E garanto que isso nem demandou muita fé, e nem é simples fatalismo oriental importado. É uma outra coisa, que tem a ver com um poço, uma goela de lobo e um toco de vela cujo pavio apagado continua a queimar...
30/01/2021

A RESPEITO DA FALTA DE CONSENSO NO MUNDO (de Guilherme de Faria)

Impressionante é como no mundo não há consenso sobre absolutamente nada. É desesperador. Nem sobre Arte. Querem um exemplo? Quem diria que nem a Capela Sistina, uma obra máxima da Humanidade, ficou fora de polêmica e controvérsias. Por exemplo: ainda no final do século XVI, o pintor grego Domenicos Teotokopoulos, depois chamado El Greco, a caminho da Espanha, onde se fixaria em Toledo, visitou a Capela Sistina. A pintura de El Greco é uma espécie de ancestral do expressionismo do século XX, pois distorcia e alongava dramaticamente os corpos humanos e deliberadamente manchava e decompunha as cores desses corpos, quase como cadáveres vivos. Pois bem... perguntado sobre o que achou sobre a capela e a pintura de Michelangelo, respondeu: "Michelangelo? Um bom homem que não sabia pintar... "

El Greco viu nas figuras da Capela Sistina, apenas esculturas pintadas em corpos monocromáticos, o contrário do seu próprio conceito precursor de pintura.
Não que eu concorde com ele, cuja pintura também me impressiona, mas cito esse fato para demonstrar como nada escapa de controvérsia. Outro exemplo: Leonardo Da Vinci, hoje uma unanimidade, na sua época sofreu longo período de subestima e menosprezo. Depois de um longo período de altos e baixos, já velho e pobre chegou a Roma em busca de trabalho, desesperado pelo patrocínio do Papa que estava encantado com Rafael e despejando ouro e encomendas sobre o jovem gênio prolífico tanto da pintura de cavalete como dos enormes afrescos nas paredes do Vaticano. O Papa não recebeu Leonardo, desprezando-o e dizendo para um intercessor: "Esse homem nunca fará nada..." Evidentemente o Papa estava enganado, e dois diplomatas da corte de Francisco I da França, percebendo a situação de Leonardo, escreveram ao seu rei recomendando o gênio menosprezado, que já era uma lenda que sobrevivera a si mesmo na miséria (as pessoas pensavam que ele tinha morrido no século anterior). Francisco I que era um grande mecenas enviou imediatamente uma resposta: "Mandem vir o grande Leonardo. Nós o acolheremos, nós o honraremos."
Uma curiosidade: esses dois brilhantes embaixadores de Francisco I da França foram retratados magnificamente num duplo retrato célebre de Hans Holbein.
Para concluir, Leonardo, já velho, viajou a cavalo acompanhado apenas de um último jovem discípulo fiel, fazendo a perigosíssima travessia dos Alpes. Nos alforjes em sua montaria levava apenas três quadros: a Mona Lisa, Santana a Virgem e o Menino Jesus, e um estranho e andrógino São João Batista. Francisco I o alojou num castelo com um grande ateliê, onde nada pintou mas continuou escrevendo e desenhando febrilmente nos seus maravilhosos códices, que também felizmente levara consigo...
O pintor e historiador da Arte da Renascença Italiana, Giorgio Vasari escreveu que Leonardo (com seus longos cabelos e barba branca, parecendo um ancião de noventa) morreu com apenas 64 anos nos braços de Francisco I, dizendo: "Não há maior honra para um artista que morrer nos braços do rei."
Curiosamente, em 1818, o grande pintor neoclássico francês Jean Baptiste Dominique Ingres, pintou um quadro menor, ilustrativo dessa cena descrita por Vasari, entitulado "A morte de Leonardo Da Vinci."
CONTINUA
28/03/2021

MEMÓRIAS NUMA MANHÃ DE QUARENTENA (crônica de Guilherme de Faria)

 Tem manhãs em que acordo sem nenhuma ideia na cabeça como se estivesse oco, vazio. Não é, em si, uma sensação desagradável, pois o vazio, por definição, não costuma causar dor. Saindo da cama vou até a janela e olho a minha Oscar Freire desolada, sem "vivalma" (como se dizia) ou com um ou dois passantes de máscara, apressados, para ir ao trabalho. Que trabalho seria? Tenho uma leve curiosidade. Na verdade, a própria portaria do meu prédio está em obras, reformando para ficar mais bonita e mais chic, já que originalmente o prédio era bem modesto para uma zona 1. Mas... se nem podemos receber visitas!... A propósito: o arquiteto contratado pela síndica projetou nichos retangulares já prontos nas paredes do corredor de entrada, iluminados por cima com três focos de luz que achei apetitosos para os meus quadrinhos de paisagens deste ano. Infelizmente, experimentados eles ficaram na sombra, pois, já emoldurados os focos de luz excessivamente perpendiculares não os iluminaram e a sombra projetada das molduras mais os obscureceram. Tão lindos que eles estão nas minha modestas e solitárias paredes a que talvez estejam condenados!... Voltarei um dia a ser visitado no ateliê? O mundo de sociabilidade direta e ao vivo, que conhecíamos, não vai acabar de vez? A sensação que tenho, de um certo pessimismo, é que não. O progressivo isolamento das pessoas veio para ficar, assim o projetou a tal nova ordem global...

Mas, por quê? O ser humano isolado, por acaso é mais passivo, mais obediente? Não é o que víamos na infância nos filmes de faroeste, de cavaleiros solitários e rebeldes, de longa linhagem de pistoleiros lindamente sinistros, concluída magnificamente com o belo e alto Klynt Eastwood nos anos 70...
Ah! Que saudades de algumas coisas, eu, que não me adaptei facilmente ao meu tempo, e meus cabelos da juventude, compridos até os ombros e minha barba e bigode, não enganaram um arguto sujeito, intelectual, que me disse nos anos 60: "Curioso... você usa cabelo e barba compridos, usa jeans, mas não se parece com um hippie, nem sequer parece estar na moda... Você parece com um russo melancólico do século XIX, saído de um livro de Dostoiévsky, uma espécie... assim... de Raskolnicov."
Na verdade, criado no meio dos livros, rato de biblioteca na infância, eu gostei de ouvir isso e quando comecei a minha trajetória profissional de artista, pintor e desenhista, meu primeiro ateliê foi num úmido e mofado porão aos rés do chão de um cortiço na rua Mato Grosso, atrás do Cemitério da Consolação *, em que, antigo prostíbulo na Bela Époque paulistana tardia dos anos 20, se adentrava através de um lindo remanescente alto portão de ferro batido Art Nouveau. Meus primeiros apoiadores, jornalistas do Estadão, diziam: "Guilherme, é incrível, seu ateliê é no Bateau Lavoir! Você parece que vive no entre guerras da École de Paris!
Juro que tudo isso é verdade, por incrível que pareça, e eu vivia realmente assim. E era também laborioso e beberrão, mas apenas não bebia absinto, e nem sequer bons vinhos, mas um vinho barato de garrafão, Sangue de Boi, que ficava no chão do meu ateliê de porão cujo teto era a um palmo do meu crânio. Eu estava na minha patética "fase heroica" de "artista quando jovem cão", como disse o poeta irlandês Dylan Thomas *...
CONTINUA
30/03/2021
Notas
*Naquela época, na mesma rua Mato Grosso, perto meu ateliê-porão, numa pequena vila não sórdida como o meu cortiço e porão, ficava numa casinha o ateliê compartilhado de dois jovens artistas contemporâneos meus: o Naum Alves de Sousa e o Claudio Kupermam, que raramente visitei e que por alguma razão eram reticentes diante da minha loquacidade e me olhavam com desconfiança. Nunca ficamos realmente amigos, apesar de estarmos na mesma batalha...

* Dylan Thomas 1914-1953 grande poeta galês da primeira metade do século XX, escreveu suas memórias com o titulo "Retrato do Artista quando Jovem Cão", parodiando o título das memórias de juventude do célebre escritor irlandês James Joyce, que escreveu o notável "Retrato do Artista Quando Jovem". Dylan Thomas suicidou-se relativamente jovem. O poeta, compositor e cantor judeu americano Bob Dylan, de nome Robert Zimmerman, adotou seu nome artístico em homenagem ao poeta Dylan Thomas cuja poesia ele admirava.