Suponho que o Tempo deve ter rompido seu pacto com as Horas. Estas voam, mas meu quadros, ainda frutos da minha expectativa avançam lentamente. A relatividade do Tempo...
Sempre fui ambíguo na minha relação com o Tempo. Paciente e impaciente ao mesmo tempo, na verdade esta dolorosa ambivalência estava na raiz dos meus tormentos ao longo da vida. Sempre tomei decisões precipitadas, para não ser um "empacado", horror que tenho à "síndrome de vaca atolada" que observava em algumas pessoas.
Por outro lado, graças a isso, muita coisa aconteceu em minha vida, no sentido subjetivo, visto que minha vivência foi quase sempre puramente interior: não sou da estirpe dos aventureiros verdadeiros, que admiro sem inveja, pois desde criança eu nunca desejei ser senão um pintor, que para ser grande é mais difícil que escalar o Everest.
Assim, no "ocaso e auge" de minha vida ambígua, com a ajuda das estranhas circunstâncias de uma pandemia e uma "quarentena" de dois anos, tenho todo o tempo do mundo para caprichar "lenta e impacientemente" na confecção e acabamento dos meus quadros cuja tinta a óleo demora a secar, o que me fazia no passado, para sobreviver, ter que vender rápido pra sustentar família, sendo muito desleixado tecnicamente o que no entanto passava por qualidade de espontaneidade. Ultimamente alguns quadros voltam agora para eu restaurar ou retocar, o que faço com prazer e alívio, pois praticamente os repinto e acredito que os melhoro, contra a opinião de minha antiga editora de gravuras e restauradora, a Patrícia Motta, que acha que os quadros devem ser no máximo restaurados mas mantidos pelo pintor tal como foram pintados em sua época. Isso me faz lembrar do fato pouco conhecido de que o célebre pintor Giorgio De Chirico, inventor e líder da "escola metafísica italiana", a propósito eficiente captadora da sensação de Tempo imóvel, espaço e silêncio, (confundida inicialmente com surrealismo), depois do imenso sucesso crítico e de vendas daquela fase, a renegou publicamente e entrou numa fase supostamente neoclássica, mas tosca e de visível mau gosto, que ele defendia com unhas e dentes contra as críticas negativas, e que valiam muito menos no mercado que os quadros de sua fase metafísica consagrada, que ele renegara. Entretanto não paravam de aparecer no mercado quadros de grandes formatos da sua fase metafisica, muito belos de fatura, mais bem acabados, e com aspecto de novos ou muito bem conservados, que eram vendidos por preços milionários no mercado mundial. Até que um grande colecionador denunciou o pintor por estar pintando escondido com aquele seu primeiro estilo e pós datando com as datas de 1917 a 1925 da sua fase famosa e por isso enriquecendo como não o conseguira fazer na aquela época, a ponto de morar num apartamento luxuoso como um palácio, em Roma, na Piazza D'Espagna, onde colecionava suas próprias obras em molduras suntuosas, e expunha em vitrines pequenas esculturas fundidas em ouro maciço com os temas das mais famosas telas de sua fase metafísica que já estavam nos museus pelo mundo. O caso foi ao tribunal, com o pintor como réu acusado de fraude. Mas o juiz absolveu o pintor, verdadeiro monstro sagrado vivo da Itália, com o argumento de que "um pintor tem o direito de falsificar a sua própria obra".
Não é propriamente meu caso, e eu recoloco e divulgo as duas datas, a original e a fecha após o retoque ou repinte, como um longo processo de realização, o que não deixa de ser verdadeiro.
As atuais circunstâncias, ao mesmo tempo me fazem meditar sobre o sentido e os absurdos da minha trajetória ao longo destes 78 anos, resultando nestas minhas crônicas de cunho autobiográfico e memorial, diárias e matinais aqui no face. E acho que tudo valeu a pena, porque fiz, entre milhares de pequenos fracassos subjetivos, alguns quadros, desenhos e gravuras que chegaram a ser bons na origem ou finalmente, até para mim mesmo. Do resto, a maioria, tenho uma vergonha danada, como o teve, justa ou injustamente, o De Chirico...
(Guilherme de Faria)
02/06/2021
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