Fazer coisas bonitas e poéticas não é certamente condição "sine qua non" de um artista. É apenas sinal de uma índole benevolente. Há artistas muito bons que são agressivos, cruéis, e pessimistas, como Francis Bacon, por exemplo, ou como o maravilhoso Goya da fase negra tardia. Fui assim na primeira parte da minha juventude. Era muito elogiado e vendia pouco, quase nada. "Então mudaste por concessão?" (poderia alguém perguntar). Não! Não vendi a alma. Pelo contrário, resgatei-a, comprei-a de volta, renunciei à minha própria tragédia e à dor. Renunciei à glória precoce dos "malditos" mesmo ao preço de uma posteridade mais incerta e duvidosa. Persegui, como a maioria, a felicidade e não me arrependo: cheguei bem perto dela.
Tuesday, January 24, 2023
RENÚNCIA À MALDIÇÃO
Fazer coisas bonitas e poéticas não é certamente condição "sine qua non" de um artista. É apenas sinal de uma índole benevolente. Há artistas muito bons que são agressivos, cruéis, e pessimistas, como Francis Bacon, por exemplo, ou como o maravilhoso Goya da fase negra tardia. Fui assim na primeira parte da minha juventude. Era muito elogiado e vendia pouco, quase nada. "Então mudaste por concessão?" (poderia alguém perguntar). Não! Não vendi a alma. Pelo contrário, resgatei-a, comprei-a de volta, renunciei à minha própria tragédia e à dor. Renunciei à glória precoce dos "malditos" mesmo ao preço de uma posteridade mais incerta e duvidosa. Persegui, como a maioria, a felicidade e não me arrependo: cheguei bem perto dela.
Sunday, January 15, 2023
EU E O BICHO MANJALÉU
Sempre fui um solitário, mas com muitos conhecidos e uns poucos amigos, sem contar os virtuais, queridos, do nosso facebook. Os "reais", de minha geração, nos últimos tempos tenho visto se irem, um a um, sem que eu possa dizer que me deixam saudades, pois já não os via há décadas. Sim, não sou de ter saudades daquilo e daqueles que já incorporei na memória, e, talvez, no coração. Bem... são parte da minha autobiografia, alguns, e nem sequer necessariamente do coração. Sou sentimental somente com a beleza, que para mim está sempre de algum modo relacionada com a arte, mesmo a beleza de uma mulher inesquecível. Somente a Beleza e a Grande Arte conseguem me arrancar lágrimas, e por isso mesmo elas me venham com frequência. Amiúde, como dizem os lusos.
Detesto declarar "meus pêsames" aos familiares do defunto. Nunca me esqueço de um episódio da intimidade do Picasso contado pela sua ex mulher Françoise Gillot:
Braque, que tinha sido amigo íntimo do Picasso (com o qual dividiu um ateliê, na época da criação conjunta do Cubismo) quando morreu, há muitas décadas não se viam, mas perante o mundo a amizade e colaboração dos dois era já mítica. Então, assim que Braque faleceu, e Picasso nem se deu conta ou simplesmente não apareceu no velório, a viúva foi procurar Picasso na sua mansão-ateliê, e recebida apenas pelo secretário do mestre, o quase sinistro catalão Sabartés, disse a este dramaticamente: "Vim ver Pablo, porque Braque está morto".
Sabartés, impenetrável, então a mandou esperar numa ante sala enquanto ia ao ateliê comunicar o recado ao seu patrão. Dali a pouco voltou até a viúva dizendo: "Picasso manda dizer que não tem nada a dizer, visto que Braque está morto."
Assim sou eu também... O que dizer a uma viúva, inconsolável ou não? Na verdade, talvez não possa evitar um arrepio no fundo, e dizer para o meu próprio coração, como o Bicho Manjaléu, da antiga história infantil popular, que tendo sequestrado a donzela e proposto o enigma de sua vida aos que a queriam resgatar matando-o, dizia agoniado aos que estavam se aproximando da arca no fundo do mar, que continha o ovo dentro do qual estava a vela acesa de sua vida que pretendiam apagar com um sopro:
"Estão se aproximando da minha vida! Estão se aproximando da minha vida!"...
Guilherme de Faria
15/01/2023
Saturday, January 14, 2023
NOSSA LONGA E LABORIOSA ESPERA
(crônica de Guilherme de Faria)
Os dias amanhecem enevoados aqui nesta Oscar Freire letárgica e abúlica, embora estejamos em pleno verão, mas nitidamente sem alegria alguma. Tempos de espera... Espera de quê?"Ora, Guilherme, não projete nos outros, ou em torno, o seu melancólico estado de espirito! "Cada qual com "seus pobrema!"(diria alguém)" rrrrssss
Não. Estive pensando... não há estatísticas a esse respeito, mas eu diria que 90% de nossas vidas é feita simplesmente de "esperas". Estamos sempre esperando alguma coisa, já que somos projetados para um permanente futuro, que os filósofos alemães chamavam de "Dasein", isto é, o DEVIR, ou o VIR A SER, baseados na pulsão que emana do nosso fígado (a sede da alma para os antigos gregos) quando saudável, "a volição", isto é, o impulso para a frente, para o próximo passo, enfim... para o futuro. Lembremos que a palavra "fígado" deriva etimologicamente da palavra Psiqué ("alma" dos gregos e a "anima" dos romanos (algo que se move). Sem a "volição" acabamos na melancolia, a grande endemia do século XIX que produzia a tísica (tuberculose ) ou vice versa, que levava cedo os poetas, alguns pintores, as "demi-mondaines" e as donzelas devoradoras de romances.
Entretanto, nos dias atuais não se fala mais de "melancolia", termo caído em desuso uma vez que segundo a OMS (sempre ela) a epidemia agora é de "depressão", algo pior que a antiga melancolia que pelo menos era criativa, produzia muita poesia. Agora, a depressão não produz mais nada: é estéril e sem rosto.
Alguns estudiosos do assunto dizem que a depressão dos nossos dias é devido à falência do espírito de vocação individual, de "missão" ou "ideal" que motivava desde a infância os melhores entre nós, homens e mulheres. Vou dar um exemplo:
Na infância, em meados do século XIX, o menino alemão Heinrich Schliemann trabalhando atrás do balcão da botega de um tio, ouviu um cliente que entrou, um jovem estudante de Literatura, declamar de cór um trecho da Ilíada de Homero. O menino, fascinado com os versos e a história perguntou ao rapaz : "Tróia existiu, mesmo? " O rapaz repondeu: "Que Importa? O que interessa é o mito e o poema". Mas o menino Schliemann declarou enfaticamente: "Não! Ela existiu! Eu vou descobrir Troia!" E iria passar os próximos trinta anos dedicados a enriquecer com o comércio, pesquizar e estudar línguas, inclusive o grego antigo, com vistas ao seu ideal da infância. Estudou também o turco para autonomamente poder escavar como arqueólogo amador, contratando operários para desenterrar Tróia que ele deduziu encontrar-se nos nossos dias em território da Turquia. Sim, a antiga Tróia, a Ílios, de Príamo e Écuba, de Cassandra, Heitor e Páris, e Helena (porque não?) que só ele acreditava ter sido real, histórica mesmo, assim como sua famosa guerra, com aqueles heróis todos, Agamenon, Menelau, Ajax, Odisseu e Aquiles. E a descobriu, e desenterrou mesmo ! E digo mais, como no âmago de seu sonho típico de menino, descobriu nas escavaçoes, o "tesouro perdido do rei Príamo" (!!!) (hoje em parte num museu da Alemanha).
Vou lhes confidenciar, amigos: o mesmo sentido de missão me motivou, desde criança (nos meus modestos termos, claro) a ser pintor e escritor, pois no meu tempo e origens burguesas, nada levava crer que isso fosse possível. Minha mãe apesar de culta, com suas raizes paulistas quatrocentonas, se baseava apenas numa biografia popular romanceada de Van Gogh, que saiu naquela época, para me advertir que os pintores morrem de fome, na mais completa miséria, e que se eu "gostava de desenhar" devia estudar arquitetura, como seu pai, meu avô. "No Brasil, ninguém vive de pintura!" (ela dizia, esquecendo-se de Portinari, Di Cavalcanti, etc).
Na verdade tive que sair de casa aos 19 anos brigado com minha mãe, para ir viver na miséria no meu primeiro ateliê : um porão infecto e úmido num cortiço antigo na rua Mato Grosso, atrás do cemitério da Consolação. Foram cinco anos produtivos, de miséria negra e mais dez de extrema pobreza antes de começar a arribar. Já contei aqui no face, em capítulos anos atrás, as minhas memórias em pequenos capitulos ou episódios, minha odisseia, ou 'Eudisseia" como inventou e dizia um meu amigo dos anos 70, o grande poeta Eduardo Alves da Costa. Como andará ele, quase dez anos mais velho do que eu, com toda sua extensa obra literária publicada em livros, morando, escrevendo e pintando há muitos anos, numa praia no litoral paulista com a sua notável Antonieta, tão idosa quanto ele?
A vida é longa, é inusitada, surpreendente... E continuamos esperando... esperando...
Guilherme de Faria
14/01/2023
A PROPÓSITO DE UMA ÚLTIMA EXPOSIÇÃO
(crônica de Guilherme de Faria)
Como artista, como pintor, aos oitentinha estou já naquela idade em que cada nova exposição que faço de obras minhas, considero a última, prometendo a mim mesmo que não mais gastarei dinheiro e energia com esse tipo de coisa. Entretanto, é difícil recusar convite. Então, me lembro que na minha vida, desde o princípio, só fiz exposições quando e onde me convidaram, jamais me ofereci, e por isso fiz exposições em lugares inusitados, sem a lógica e o fracasso da premeditação. Sim, quero reafirmar que tudo é destino, inclusive o dessa área de atuação, isto é: a de palco e platéia. Quanto à vida, em geral, somos títeres de uma pantomima alegórica, cheia de rumor mas também de música e significados simbólicos, ao contrário do que disse Macbeth no seu famoso monólogo."Mas, Guilherme (alguém poderia dizer)... você não construiu o seu destino, não escolheu? Não comandou o seu barco? "
Ah! amigos... Deus sempre está no comando, e ao piloto cabe desviar o barco de um ou outro rochedo, somente. E já é muito. Acaso Odisseu escolheu a sua rota de volta ao lar, perdido que foi por dez anos em aventuras e desventuras? O herói tinha metas, sim, de combate, vitória e retorno. E as coisas deram certo, sim, mas nunca do exato jeito que ele planejou, e isso fez dele um aventureiro (título de honra) eternizado na História ou, pelo menos, nas estórias.
Com isso devo confessar que sempre me vi, desde criança, como o protagonista de uma odisséia particular, de uma grande aventura, da qual vou decodificando os signos durante uma trajetória errante, quero dizer: de erros certos e acertos inesperados.
Isso quer dizer que me dou muita importancia, ao contrário do que a verdadeira sabedoria recomenda? NÃO SE LEVE MUITO A SÉRIO", li numa tabuleta de uma certa confraria. Sim, isso é recomendável mas a vida é feita de paradoxos, e ao artista cabe levar muito a sério a sua missão, sob pena de desperdício de seu dom, o que eu soube que é o maior pecado que um artista pode cometer perante o seu próprio destino transcendente, ou mesmo Deus, quer creia ou não.
Guilherme, você deriva muito... Tudo isso, a respeito de uma última Exposição de suas obras? Vá receber os amigos, oferecer vinho a eles, embora não bebas mais! Que eles bebam por ti, que já não podes... A amizade e a fraternidade tem signos mais vizíveis que todas as filosofias e especulações.
Brindemos, pois, à Vida, ao Amor à Amizade! "E basta de comédias na minha alma!" (como desabafou Fernando Pessoa).
Guilherme de Faria
13/01/2023
QUEM SE QUEIXA.
(crônica e cordel de Guilherme de Faria)
Quando eu ainda era jovem, na casa dos 30, depois do fracasso do meu quarto "casamento" (eu era bonito, a mulherada dava em cima, eu cedia à tentação e pulava a cerca) fui expulso de casa pela minha mulher (mãe de três dos meus filhos) e deprimido, desalentado, fui visitar a minha mãe e acho que me queixei um pouco. Minha mãe, havia muitos anos separada de meu pai pelas mesmas razões, em vez de me consolar disse apenas:"É... filho. A vida é um Vale de Lágrimas..."
Fiquei chocado e envergonhado de minha dupla fraquesa. Nunca mais me queixaria de nada, e em 2001 tive um surto cordelístico e num dos meus cordéis sertanejos botei na boca do narrador (um jagunço acuado numa emboscada) os seguintes versos:
"Quem se queixa não merece
uma bala ou uma prece."
Então, lembrando hoje disso, aqui vai por curiosidade o mencionado cordel, dos primeiros que escrevi, eu, paulista-paulistano de 460 anos, inusitadamente tomado por um espírito sertanejo que me baixa de vez em quando:
ROMANCE DA TOCAIA
(cordel de Guilherme de Faria)
1
Eu tô aqui num funil
Faz três dias bem contado
Comendo pão seco salgado,
Bebendo do meu cantil.
2
Com o cano apoiado
Nesse toco de pau
Sem poder sair pro lado
Tô ficando meio mal.
3
E tô cansado demais
C’os inimigo esperando
Me mexer um pouco mais
Pro tiro ao alvo do bando.
4
Devem estar se revezando
Na mira, as perna esticando
Cozinham, dançam xaxado
E eu aqui, embosteado.
5
Candidato a presunto,
Se não fosse esse pedrão
Eu tava morto no chão
Como um saudável defunto.
6
Mas não me entrego jamais
Pra quem sequer fez pedido
Pois só querem morte, e mais:
Acabada e com recibo.
7
E eu não tô pra dar moleza
Pra essa vagabundagem:
Vão ter trabalho e dureza
Se querem contar vantagem.
8
Vão ter que gastar munição
Que eles sovinando estão.
Eu já fui faquir de feira
Com braseiro como esteira
9
E posso perder um terço
Sem perder a compostura
Cama de prego é berço
E tijolo é rapadura.
10
Há três dia alegre estava
No leito da Esmeraldina
Sem ver o que me esperava
Conspirando na surdina.
11
Essa vida é de veneta,
Tem coisa que se contar
Melhor pegar a caneta,
Já que tem de recontar.
12
O coronel João Badia
Queria desafogar
O ganso naquele dia,
Nesse mesmo lupanar.
13
Quem havera ter contado
Que essa mesma Esmeraldina,
Predileta, de tão fina,
Com contrato apalavrado
14
Tava mais pra concubina
De coronel safado
Do que simples messalina
Disponível no mercado!
15
E agora me vejo qual
Inocente vitimado
De um contrato comercial
Que nem sou interessado.
16
Mas uma coisa eu digo;
Só saio levando comigo
Dois ou três, ainda que torto,
Tenha que fingir de morto.
17
Esse Sertão já me deu
Muita coisa, pode crer.
Não posso nem me queixar,
Já podia até morrer.
18
Quem se queixa não merece
Uma bala ou uma prece.
Assim dizia o finado
Sogro do meu cunhado.
19
Aproveitei bem a vida
Sem ganhar dinheiro em pilha
Não gosto muito da lida,
Não caí nessa armadilha...
20
Pensado isso, agora,
Tou pronto pra ir embora.
Vou sair logo atirando
Pros lado, rindo e gritando.
21
Meu nome é João Austério
Mas ponham Austério só
Que sempre fui muito austério,
De comer pão com jiló
22
E de beber tubaína
Em festa de cavalhada.
Minha fraqueza e minha sina
Só se deve à mulherada.
FIM
Alma e o Lobo" na casa de Flavio Pacheco
-
"Alma e o Lobo" - Minha enorme tela da Alma Welt e seu encontro com o Lobo Guará (vide a sua crônica homônima)- ost 2006, 150x150cm na antiga casa do Flávio Guimarães Pacheco, marchand, grande velho amigo, e meu colecionador (com mais cem obras minhas, desde 1963). A sua fascinante casa abarrotada de brinquedos antigos e quadros, será demolida. Fim de um maravilhoso e longo ciclo...
ALGUÉM ME DISSE..
E eu não tive mais palavras, nem otimismo, para responder...
HUMANO, DEMASIADO HUMANO
(crônica de Guilherme de Faria)
Vou revelar algo dos meus gostos cotidianos aos meus amigos: eu adoro filmes épicos de grande batalhas históricas ou fictícias. Eu adoro o filme 300 (uma obra de arte) e as trilogias O Senhor dos Anéis, e o Hobbit (do grande Tolkien, magnificamente filmadas pelo Peter Jackson). Gosto do filme Gladiador, do Ridley Scott, e do filme Tróia. Ah! E da magnífica trilogia O Poderoso Chefão (adoro aqueles mafiosos simpáticos, trágicos e glamourisados). São alguns dos meus filmes preferidos. "Então, você, Guilherme, gosta de guerra e violência?" (poderia alguém perguntar). Eu respondo: "No cinema, sim, pois é pura catarse para mim."
"Então você precisa muito de catarse, pois tem muita violência reprimida dentro de si?" ( poderia alguém insistir)... Eu respondo: "Provavelmente sim. Tenho muita testosterona incômoda dentro de mim, que compenso com a feminilidade literária da minha Alma Welt, dona da mais encantadora e amorosa sensibilidade feminina que posso conceber."
Entretanto vou lhes confessar, meus amigos: tenho de tempos em tempos eventuais explosões de cólera paroxística verbal, que me estressam terrivelmente e que surgem, quando sou atingido no meu "calcanhar de Aquiles", em geral com a minha mulher, que trato de bloquear aqui no face, voltando atrás dias depois, rrrrrsss Quando acontece, mais especificamente, isso? Respondo, com toda franquesa: Quando me desrespeitam, atingindo o meu orgulho, ou mesmo uma vaidade oculta, o que diz respeito às minhas artes ou mesmo a minha posição política." É verdade que isso ocorre muito raramente, pois evito ao máximo abrir área de atrito para não me estressar e sofrer essas explosões que sinto que um dia podem matar-me, com um enfarte ou derrame. Ah! Sim, me causam também remorso e arrependimento, pois minha reação pode, sim, ser desproporcional, fazendo com que na explosão eu deixe escapar a minha enorme insatisfação oculta e esqueça a minha compaixão.
Mas o quê fazer... sou humano, demasiado humano (no sentido do que dizia Nietzsche), e isso nem sempre é bom. Aliás, não é nada bom, visto o estado geral do mundo...
06/01/2023

