Wednesday, March 31, 2021

COMO FOI O LANÇAMENTO DA ALMA WELT (Memórias de Guilherme de Faria)

Quando chegamos a uma certa idade, nos vem, a muitos de nós, uma tendência à memória, senão ao saudosismo. É o meu caso. Não sou saudosista mas começaram, já há uma década, a me virem as memórias de infância e juventude, que, muito assimiladas, estão produzindo crônicas memoriais que percebo bastante apreciadas aqui no nosso face, e agradeço...A propósito, não há como não se sentir grato ao gênio nerd Zuckerberg por ter criado esta plataforma que nos permite sermos escritores e nossos próprios Editores, além de pintores e nossos próprios galeristas e marchands. Sim, acredito que estou tendo um novo alcance, até internacional, com esta rede social da qual ninguém mais quer ficar de fora, sob pena de uma espécie nova de marginalização.
Assim, para rememorar, estou desde 2008 diária e ininterruptamente postando aqui minhas obras, textos, memórias e pensamentos, além das do meu heterônimo feminino, a poetisa Alma Welt. Quanto a ela, acredito estar ganhando tempo de divulgação, de maneira preparatória para um grande lançamento, algum dia, finalmente em livro de papel, de seus romances, crônicas, poemas, haikais e abundantíssimos sonetos (cerca de 5.000).
Na verdade ela já foi publicada em papel, quando em Dezembro de 2004 lancei o livro Contos da Alma, de Alma Welt, contendo doze contos da fase urbana paulistana da poetisa gaúcha criada por mim (e eu ainda inda não havia revelado o seu segredo) e tive uma boa resposta da sua aceitação com um belo e bem recebido lançamento numa tarde de autógrafos regada a vinho branco gaúcho, gelado, doado à poetisa pelo Supermercado Santa Luzia, cujo gentilíssimo gerente da época, recebendo o pedido de patrocínio através de uma carta da poetisa, e o presente de um exemplar do livro com dedicatória a ele, disponibilizou quatro caixas daquele vinho conterrâneo com recomendações de sucesso à talentosa autora estreante... Não venha alguém me dizer que cometi uma fraude para obter o patrocínio etílico (rrrrrsssss). Seria o mesmo que acusar o Fernando Pessoa de fraude por ter escrito um prefácio ao engenheiro poeta Álvaro de Campos, contando como o conheceu numa reunião na casa do pintor Almada Negreiros, amigo comum a ambos. A obra e o encanto da Alma também são verdadeiros e não se evaporaram com aqueles vinhos de estreia. Sua obra não parou de crescer e de conquistar admiradores...
Ainda a propósito, muita coisa engraçada aconteceu naquele lançamento na Livraria Nobel da rua Augusta esquina com a Alameda Itu, nos Jardins. Depois de ter deixado naquela livraria ao seu dono de nome Salvador Juvenal, uma graciosa caixinha de madeira recheada de poemas de uma desconhecida poetisa gaúcha pampiana descendente de alemães por parte de pai, chamada Alma Welt, ilustrados em cores por mim fui levando novos folhetos ilustrados para acrescentar à caixinha ao longo daquele ano de 2004. A caixinha era manuseada e lida por alguns fregueses curiosos, mas não adquirida. A cada novo folheto que eu trazia, o Salvador Juvenal encantado com a leitura me cobrava eu apresentar a ele a linda jovem poetisa e musa ruiva que eu lhe descrevia. Ele dizia: "Qual é, Guilherme, pare de enrustir a moça, seu ciumento, e traga-a aqui para eu conhecê-la!" Eu dizia: Ela mora numa estância no Pampa, e aparece raramente em São Paulo, me visita rapidamente no ateliê, me deixa novos textos e poemas, me encanta, deslumbra e como um cometa, apressada, some por mais um ano. Eu tentei, mas não consegui trazê-la aqui para você conhecê-la." Ele ficava me olhando... (serei eu um grande mentiroso?)
Finalmente em Novembro, eu, com o livro Contos da Alma no prelo pela Editora Palavras & Gestos, revelei a ele o segredo da Alma. Ele, espantado, disse: "Ah! eu já vinha desconfiando, mas depois que você trouxe aquele folheto incrível chamado "Pampa (memórias da Alma)", com três poemas epistolares longos, em verso livre, um ao pai, outro à mãe e outro ao Pampa, tão viscerais e comoventes que eu pensei: "Sim, a Alma existe em carne e osso... E agora você me vem com essa?"
Salvador, homem inteligente, acabou reconhecendo que como heterônimo a Alma era um fenômeno mais interessante ainda e aceitou lançá-la em sua livraria (era uma franquia). Mas como lançá-la mantendo o segredo? As pessoas cobrariam a presença da autora na tarde de autógrafos, claro, senão seria uma desfeita impensável ao público numa estreia...
Mas eu já sabia o que fazer, tinha um plano simples e engenhoso e começamos a preparar o lançamento...

Antes de narrar os divertidos eventos da tarde de autógrafos da Alma, devo contar aqui as circunstâncias fortuitas que propiciaram a publicação do livro de contos urbanos paulistanos da gaúcha Alma que iríamos lançar ao público, finalmente, naquele fim de ano de 2004.
Quando os textos da Alma começaram a espocar dentro de mim, a partir de Julho de 2001, profundamente entusiasmado e seguro do fenômeno, eu precisava não de uma avaliação crítica (coisa a que nunca me submeti) mas simplesmente de leitores. Encontrei-os logo na figura de um casal de artistas amigos, a fotógrafa Norma Guimarães e o pintor Helenos, com quem eu convivia um pouco na Gráfica Ymagos, a Editora de gravuras onde fazíamos litografias. Assim que eu produzia um texto da Alma, eu o digitava, imprimia, copiava vários exemplares em xerox, encadernava com espiral e os distribuía entre amigos mais chegados. Norma e Helenos se mostraram os mais receptivos e se apaixonaram logo pela Alma a ponto de me pedirem mais textos. Helenos chegou a dizer: "Guilherme, me traga mais. A Alma é um tesão! "
Feliz com essa receptividade, continuei a fazê-lo, e como todo escritor, a sonhar com a publicação por uma Editora.
Foi então, que passados quase um ano, encontrei a Norma por acaso descendo a Augusta, e que me disse: "Guilherme, eu sou amiga do casal Paulo Gaudêncio, o psicanalista, e sua mulher Cristina. Há alguns dias, jantando com eles, Paulo me contou que fundou uma Editora há dois anos para publicar seus próprios livros de psicologia, e agora pensava em abrir sua Editora para outros escritores. Imediatamente pensei em você e sua Alma, Guilherme, mas nada disse, deixei passar alguns dias e telefonei ao Paulo no seu Instituto, contando do prazer que nos dava a mim e ao Helenos a sua literatura. Ele ficou curioso e me pediu seu telefone, que passei. Ele disse que vai contatá-lo."
Fiquei imensamente agradecido à Norma, e realmente dali a alguns dias recebi o telefonema do Paulo Gaudêncio, simpaticíssimo, que me disse: "Guilherme, a Norma Guimarães me falou com entusiasmo de seus textos e eu queria conhecê-los . Você poderia trazê-los aqui no meu Instituto, digamos, amanhã às 10 horas da manhã? Eu terei um intervalo de uma hora entre consultas e poderei ouvi-lo. Dá pra você me explicar tudo nesse prazo? E traga os textos, por favor. "
Empolgado, eu respondi que sim, que dava, e estaria lá. Juntei uma então já enorme quantidade de contos e poemas da minha Alma, e seguro improvisador que me sei, esperei tranquilo, sem nenhum ensaio, pelo encontro. Por alguma razão eu sabia que daria certo...

Encontrei-me com o Paulo Gaudêncio, que eu não conhecia pessoalmente e do qual só tinha visto uma palestra numa edição do programa Café Filosófico da TV Cultura. No seu Instituto, que leva o seu nome, no Pacaembú, esperei-o por poucos minutos numa bela e silenciosa biblioteca, com uma grande mesa de reuniões deserta. Ele chegou logo, me parecendo bastante idoso, simpático e disse: "Guilherme, pode me contar essa história..."
Eu discorri fluente e apaixonadamente sobre a minha Alma Welt, sua origem, sua biografia e até seu gênio (!!!). Gaudêncio com um dedo na têmpora ouvia em silêncio absoluto, sem nunca me interromper, bom ouvinte, psicanalista que era. Tinha um leve sorriso que denunciava sua aprovação. Após uma hora, quando terminei de discorrer, ele, homem objetivo, direto, disse:
"Fascinante, Guilherme! Gostei muito, estou agradavelmente impressionado... Quero publicar tudo. Mas você trouxe tanto material... O quê, daqui, você quer que publique primeiro? "
Eu separei o livro dos primeiros contos da Alma, urbanos, passados no seu autoexílio paulistano de quatro anos pela morte do "Vati " ( pron. fáti = papai, em alemão).
Paulo pegou o caderno digitado e espiralado, e disse: "Está bem, então leva todo o resto embora. Mas... aqui tem tanta coisa... eu não terei tempo de ler. Quem vai fazê-lo é a Cristina, minha mulher, que cuida da Editora. Ela é que lê e escolhe os textos. Eu terei tempo para ler apenas um conto. Qual você me recomenda, para meu prazer? "
Eu, olhando bem para o rosto dele, achei-o com um ar de homem do interior (depois descobri que ele nascera no antigo bairro do Bexiga em São Paulo (Bela Vista) e apontei no Índice: "Este aqui!"
Era o conto "Na Trilha dos Menestréis", o único conto do livro que não se passava em São Paulo, mas numa fabulosa expedição da Alma no sertão de Pernambuco em busca do Pavão Misterioso (na verdade baseada numa experiência real da minha vida, quando morei em Olinda por quatro anos e fiz uma expedição de sete dias pelos sertões de Pernambuco e Paraíba junto com violeiros repentistas numa perua fretada, rumo a um Congresso de cantadores, violeiros, repentistas e cordelistas de todo o Nordeste, em Campina Grande, na Paraíba. Viagem minha, real, fabulosa e inesquecível que relato fiel e minuciosamente botando na conta e na boca da Alma, naquele conto do livro que eu queria publicar por ser cronologicamente o primeiro que a Alma me "enviou".
"Está bem- ele disse- Lerei. Aguarde daqui a uma semana o nosso chamado. Até lá."
Retirei-me feliz e esperançoso. Na verdade dando como certa a publicação do primeiro livro da Alma.
Dali a um semana recebi o telefonema esperado:
"Guilherme, aqui é a Cristina mulher do Paulo. Você pode vir amanhã às 11 horas se encontrar com a gente aqui no Instituto? Sim? Então até lá! "

No dia e hora combinados fui ao encontro do casal no Instituto Paulo Gaudencio. Introduzido por uma secretária, esperei um longo minuto na biblioteca sentado numa das inúmeras cadeiras da longa mesa de reuniões. Afinal entraram o Paulo e a Cristina, sorrindo, ela com o meu livro na mão. Ela disse: "Guilherme, quando o Paulo me recomendou ler este livro sem dizer nada, eu, lendo o título e a autoria na capa, perguntei: "Mas quem é essa Alma Welt? Nunca ouvi falar dessa autora..." E o Paulo respondeu: "É o Guilherme de Faria..." Então eu perguntei: Guilherme de Faria ? O pintor e desenhista? O artista plástico? Ele disse simplesmente: "Sim, ele mesmo..." Então, Guilherme, eu pensei: "Será que um artista plástico pode ser um escritor de verdade, que se possa levara sério?" Eu fiquei com um pé atrás, mas como tenho um compromisso com o Paulo de ler os livros que ele recomenda, comecei a lê-lo. Fui fisgada. Não podia parar. Eu me punha a ler um conto, e chegando lá pelo meio, tendo tanta coisa que fazer, parava mas minha cabeça continuava no conto, eu queria saber como acabava! Seus contos têm um certo suspense e terminam de uma maneira surpreendente, que a gente não espera. Gostei e acho que as pessoas podem também gostar. Vou publicar às nossas expensas.
Então Paulo, atalhou: E, Guilherme, aquele conto que você separou para eu ler, me comoveu até às lágrimas."
Olhei nos olhos do Paulo e ele estava com os olhos marejados ali mesmo, naquele momento, só de lembrar! Por minha vez fiquei emocionado, e impressionado com a sensibilidade daquele homem...
A Cristina continuou: "Mas... você vai publicar com o seu nome, claro... ninguém sabe ainda quem é essa personagem, uma suposta autora Alma Welt, não é?"
Eu respondi: "Não Cristina. Tem que ser com o nome dela. Essa é a graça do heterônimo. Eu quero torná-la conhecida e ficar na sombra. Quero aparecer apenas como o seu descobridor, apoiador, capista e prefaciador. Quero cultivar o seu mistério, que é um dos elementos de sua existência fascinante, entre o mítico e o real. Quero fazer dela uma Musa, além de autora."
Cristina argumentou que nenhuma Livraria aceitaria uma tarde de autógrafos sem a presença da autora. E eu respondi:
"Pode deixar comigo, eu já tenho um plano para o lançamento sem a presença física dela. Já combinei tudo com o meu amigo Salvador Juvenal, dono da Livraria Nobel da rua Augusta.."
Cristina suspirou, e acabou aceitando minhas estranhas condições...

Finalmente o livro estava pronto, e na livraria Nobel tudo estava preparado para o coquetel de lançamento do livro da Alma. Quanto a mim, estava falido, sem um tostão, pusera todos os meus esforços naqueles últimos anos, desde 2001, a serviço da minha visionária criação, sem ter nenhum retorno financeiro. Já contei como consegui o patrocínio do vinho branco para servir gelado, naquela tarde linda e quente que se apresentou.
Então, na hora certa, pontualmente, fui com a Eliana para receber os convidados, que eu tinha feito um por um por telefone para poder contar com a presença com mais segurança.
A Livraria estava lotada de amigos, parentes e artistas. Estavam também presentes o Paulo Gaudencio e a Cristina Pereira, os editores, curiosos para ver como eu me sairia daquela enrascada, da qual eu guardara segredo até para eles. Eu iria revelar a verdadeira Alma? Ela, afinal, existia mesmo?
Como a livraria era pequena, se aglomeravam até na calçada, todos com taça na mão, última despesa que tive, além do gelo para o vinho branco e o farto mix de castanhas, nozes e amendoim. Todos esperavam curiosos a musa ruiva de que ouviram falar. Por quem? Por mim mesmo ao telefone durante os convites um a um. O boca a boca sempre foi a melhor propaganda...
A pessoas conversavam animadamente enquanto eu circulava entre elas, aumentando com pequenos comentários o mito e a expetativa quanto à autora, a belíssima escritora, a poetisa ruiva, jovem musa vinda dos pampas, que morara, escrevera e amara durante quatro anos em São Paulo sem que ninguém, senão eu, soubesse na ocasião, e que agora contava suas aventuras num belíssimo livro de contos, que eu, Guilherme de Faria, seu descobridor e fã, prefaciara e fizera o sugestivo desenho para sair na capa: a ascensão de Eros e Psiqué ao Olimpo.
O tempo foi passando e as pessoas começaram a estranhar e a questionar sobre o atraso da autora. Quando chegava alguma moça ruiva, me perguntavam: "É ela? É a Alma?" Eu respondia: "Não, não... A Alma é muito mais bonita, vocês vão ver... "
A curiosidade e a impaciência do público crescia...

Então, quando os convidados já mostravam sinais de estranheza ou impaciência, eu, que fazia as honras da casa, disse alto, para todos ouvirem:
"Pessoal, a Alma está demorando muito, vou telefonar no escritório para saber o que está acontecendo" (eu ainda não tinha celular).
E me encaminhei para os fundos da loja, entrando sozinho no minúsculo escritório, entulhado de livros, inacessível aos olhos do publico. Voltei depois de um longo minuto declarando alto para todos ouvirem: "Gente, a Alma não vem! Consegui falar com ela ao celular a caminho do aeroporto de Congonhas. O irmão dela, o Rôdo, sofreu um sério acidente: o seu carro esporte chocou-se contra uma árvore numa estrada do pampa e ele quase morreu, e está hospitalizado em Alegrete, ferido gravemente. Ela é ligadíssima ao irmão, está desesperada, preocupadíssima, indo para vê-lo no hospital, e pediu que a desculpem, e que se for possível, na qualidade de prefaciador eu assine os livros. Pessoal, estou desolado, mas se a alguém interessar meu humilde autógrafo, na qualidade de prefaciador do livro, estou à disposição."
Dito isso, no meio de um burburinho cheio de surpresa dos presentes, eu me sentei à mesa com a caneta em punho, e a fila se formou para os autógrafos.
Devo acrescentar que, por alguma misteriosa razão, eu comecei a escrever carinhosas dedicatórias personalizadas a cada um que trazia o seu exemplar adquirido no caixa, e assinava ALMA WELT, com a caligrafia dela, redonda, de pé, diferente da minha própria... O Incrível é que ninguém pareceu se surpreender e estranhar isso e saíam contentes com as dedicatórias e a assinatura da Alma. Será que mesmo sendo o meu segredo, inconscientemente todo mundo já sabia e era simplesmente meu cúmplice numa grande pantomima?
Enquanto isso, meu querido sobrinho Rafael Cortez que ainda não era CQC, e portanto não roubou a cena como, famoso, o faria anos mais tarde, tocava violão, ali, ao vivo para homenagear a Alma. E eu, ainda naquela noite, acompanhado por ele, declamaria uns poemas da musa, antes de encerrarmos o evento.
Foi um sucesso. Vendemos mais de 70 livros. Paulo Gaudencio e Cristina, meus editores, me olhavam, sorrindo perplexos com a minha "cara de pau", eu presumi.
Mas o mais curioso e quase sem explicação é que ninguém se queixou ou estranhou que eu dedicasse e assinasse por ela, Alma, a misteriosa poetisa, de fascinante beleza já mítica, que todo mundo esperava e ninguém jamais viu, somente eu, seu fiel e dedicado servidor...
FIM
03/04/2021

Nota
Agora mesmo passados anos daquele evento devo talvez explicar a algumas pessoas. que toda aquela elaborada encenação que fiz, não deve ser confundida com fraude, estelionato autoral, ou falsidade ideológica. Nem sequer com simples mentira. O mistério da heteronomia é que tudo se passa no terreno da criação artística total, senão num plano anímico em que o escritor cria a obra e seu autor, que não é ele, mas real em espírito e verdade. E esse fenômeno ainda foi não totalmente desvendado pelos estudiosos da Literatura. A Alma Welt é real, de verdade, sua já imensa obra (publicada em blogs na Internet e no facebook) e sua vida possuem grandeza, beleza e profundidade. Tudo na Alma é verdadeiro, ela só não é de carne e osso.

SOBRE A MINHA QUARENTENA PESSOAL (crônica de Guilherme de Faria)

 Passei grande parte da minha vida confinado dentro do ateliê, frente ao cavalete de pintura ou à mesa de desenho. Por isso a quarentena ou lockdown não me é propriamente incômoda ou estranha. Ainda na infância minha mãe tinha que me tocar para fora do meu quarto-ateliê para brincar com os moleques na rua, segundo ela para eu tomar sol, brigar e endurecer. Eu ia e voltava tendo aprendido uns palavrões que ingenuamente repeti uma primeira e única vez na mesa, ao jantar. Alguns riram, mas minha mãe ralhou: "Aqui não! Deixe os palavrões lá fora com os moleques".

Entretanto devo reconhecer que esta quarentena, como retiro forçado difere muito dos meus "retiros" voluntários ao longo da vida, porque há uma sombra que paira, que parece nos ameaçar vinda de fora e à qual, mesmo nossas residências trancadas parecem vulneráveis.
Tempos estranhos... Muita gente assustada, outras quase em pânico, outras desesperadas, outras revoltadas. Há até gente boa e culta que diga que é o princípio do Apocalipse. Quanto a mim, não sei do significado metafísico de tudo isso, mas aprendi no dia 4 de Abril de 1981 "a pôr a minha vida nas mãos de um poder superior tal como eu o podia conceber"... E garanto que isso nem demandou muita fé, e nem é simples fatalismo oriental importado. É uma outra coisa, que tem a ver com um poço, uma goela de lobo e um toco de vela cujo pavio apagado continua a queimar...
30/01/2021

A RESPEITO DA FALTA DE CONSENSO NO MUNDO (de Guilherme de Faria)

Impressionante é como no mundo não há consenso sobre absolutamente nada. É desesperador. Nem sobre Arte. Querem um exemplo? Quem diria que nem a Capela Sistina, uma obra máxima da Humanidade, ficou fora de polêmica e controvérsias. Por exemplo: ainda no final do século XVI, o pintor grego Domenicos Teotokopoulos, depois chamado El Greco, a caminho da Espanha, onde se fixaria em Toledo, visitou a Capela Sistina. A pintura de El Greco é uma espécie de ancestral do expressionismo do século XX, pois distorcia e alongava dramaticamente os corpos humanos e deliberadamente manchava e decompunha as cores desses corpos, quase como cadáveres vivos. Pois bem... perguntado sobre o que achou sobre a capela e a pintura de Michelangelo, respondeu: "Michelangelo? Um bom homem que não sabia pintar... "

El Greco viu nas figuras da Capela Sistina, apenas esculturas pintadas em corpos monocromáticos, o contrário do seu próprio conceito precursor de pintura.
Não que eu concorde com ele, cuja pintura também me impressiona, mas cito esse fato para demonstrar como nada escapa de controvérsia. Outro exemplo: Leonardo Da Vinci, hoje uma unanimidade, na sua época sofreu longo período de subestima e menosprezo. Depois de um longo período de altos e baixos, já velho e pobre chegou a Roma em busca de trabalho, desesperado pelo patrocínio do Papa que estava encantado com Rafael e despejando ouro e encomendas sobre o jovem gênio prolífico tanto da pintura de cavalete como dos enormes afrescos nas paredes do Vaticano. O Papa não recebeu Leonardo, desprezando-o e dizendo para um intercessor: "Esse homem nunca fará nada..." Evidentemente o Papa estava enganado, e dois diplomatas da corte de Francisco I da França, percebendo a situação de Leonardo, escreveram ao seu rei recomendando o gênio menosprezado, que já era uma lenda que sobrevivera a si mesmo na miséria (as pessoas pensavam que ele tinha morrido no século anterior). Francisco I que era um grande mecenas enviou imediatamente uma resposta: "Mandem vir o grande Leonardo. Nós o acolheremos, nós o honraremos."
Uma curiosidade: esses dois brilhantes embaixadores de Francisco I da França foram retratados magnificamente num duplo retrato célebre de Hans Holbein.
Para concluir, Leonardo, já velho, viajou a cavalo acompanhado apenas de um último jovem discípulo fiel, fazendo a perigosíssima travessia dos Alpes. Nos alforjes em sua montaria levava apenas três quadros: a Mona Lisa, Santana a Virgem e o Menino Jesus, e um estranho e andrógino São João Batista. Francisco I o alojou num castelo com um grande ateliê, onde nada pintou mas continuou escrevendo e desenhando febrilmente nos seus maravilhosos códices, que também felizmente levara consigo...
O pintor e historiador da Arte da Renascença Italiana, Giorgio Vasari escreveu que Leonardo (com seus longos cabelos e barba branca, parecendo um ancião de noventa) morreu com apenas 64 anos nos braços de Francisco I, dizendo: "Não há maior honra para um artista que morrer nos braços do rei."
Curiosamente, em 1818, o grande pintor neoclássico francês Jean Baptiste Dominique Ingres, pintou um quadro menor, ilustrativo dessa cena descrita por Vasari, entitulado "A morte de Leonardo Da Vinci."
CONTINUA
28/03/2021

MEMÓRIAS NUMA MANHÃ DE QUARENTENA (crônica de Guilherme de Faria)

 Tem manhãs em que acordo sem nenhuma ideia na cabeça como se estivesse oco, vazio. Não é, em si, uma sensação desagradável, pois o vazio, por definição, não costuma causar dor. Saindo da cama vou até a janela e olho a minha Oscar Freire desolada, sem "vivalma" (como se dizia) ou com um ou dois passantes de máscara, apressados, para ir ao trabalho. Que trabalho seria? Tenho uma leve curiosidade. Na verdade, a própria portaria do meu prédio está em obras, reformando para ficar mais bonita e mais chic, já que originalmente o prédio era bem modesto para uma zona 1. Mas... se nem podemos receber visitas!... A propósito: o arquiteto contratado pela síndica projetou nichos retangulares já prontos nas paredes do corredor de entrada, iluminados por cima com três focos de luz que achei apetitosos para os meus quadrinhos de paisagens deste ano. Infelizmente, experimentados eles ficaram na sombra, pois, já emoldurados os focos de luz excessivamente perpendiculares não os iluminaram e a sombra projetada das molduras mais os obscureceram. Tão lindos que eles estão nas minha modestas e solitárias paredes a que talvez estejam condenados!... Voltarei um dia a ser visitado no ateliê? O mundo de sociabilidade direta e ao vivo, que conhecíamos, não vai acabar de vez? A sensação que tenho, de um certo pessimismo, é que não. O progressivo isolamento das pessoas veio para ficar, assim o projetou a tal nova ordem global...

Mas, por quê? O ser humano isolado, por acaso é mais passivo, mais obediente? Não é o que víamos na infância nos filmes de faroeste, de cavaleiros solitários e rebeldes, de longa linhagem de pistoleiros lindamente sinistros, concluída magnificamente com o belo e alto Klynt Eastwood nos anos 70...
Ah! Que saudades de algumas coisas, eu, que não me adaptei facilmente ao meu tempo, e meus cabelos da juventude, compridos até os ombros e minha barba e bigode, não enganaram um arguto sujeito, intelectual, que me disse nos anos 60: "Curioso... você usa cabelo e barba compridos, usa jeans, mas não se parece com um hippie, nem sequer parece estar na moda... Você parece com um russo melancólico do século XIX, saído de um livro de Dostoiévsky, uma espécie... assim... de Raskolnicov."
Na verdade, criado no meio dos livros, rato de biblioteca na infância, eu gostei de ouvir isso e quando comecei a minha trajetória profissional de artista, pintor e desenhista, meu primeiro ateliê foi num úmido e mofado porão aos rés do chão de um cortiço na rua Mato Grosso, atrás do Cemitério da Consolação *, em que, antigo prostíbulo na Bela Époque paulistana tardia dos anos 20, se adentrava através de um lindo remanescente alto portão de ferro batido Art Nouveau. Meus primeiros apoiadores, jornalistas do Estadão, diziam: "Guilherme, é incrível, seu ateliê é no Bateau Lavoir! Você parece que vive no entre guerras da École de Paris!
Juro que tudo isso é verdade, por incrível que pareça, e eu vivia realmente assim. E era também laborioso e beberrão, mas apenas não bebia absinto, e nem sequer bons vinhos, mas um vinho barato de garrafão, Sangue de Boi, que ficava no chão do meu ateliê de porão cujo teto era a um palmo do meu crânio. Eu estava na minha patética "fase heroica" de "artista quando jovem cão", como disse o poeta irlandês Dylan Thomas *...
CONTINUA
30/03/2021
Notas
*Naquela época, na mesma rua Mato Grosso, perto meu ateliê-porão, numa pequena vila não sórdida como o meu cortiço e porão, ficava numa casinha o ateliê compartilhado de dois jovens artistas contemporâneos meus: o Naum Alves de Sousa e o Claudio Kupermam, que raramente visitei e que por alguma razão eram reticentes diante da minha loquacidade e me olhavam com desconfiança. Nunca ficamos realmente amigos, apesar de estarmos na mesma batalha...

* Dylan Thomas 1914-1953 grande poeta galês da primeira metade do século XX, escreveu suas memórias com o titulo "Retrato do Artista quando Jovem Cão", parodiando o título das memórias de juventude do célebre escritor irlandês James Joyce, que escreveu o notável "Retrato do Artista Quando Jovem". Dylan Thomas suicidou-se relativamente jovem. O poeta, compositor e cantor judeu americano Bob Dylan, de nome Robert Zimmerman, adotou seu nome artístico em homenagem ao poeta Dylan Thomas cuja poesia ele admirava.

A RESPEITO DA FALTA DE CONSENSO NO MUNDO (de Guilherme de Faria)

Impressionante é como no mundo não há consenso sobre absolutamente nada. É desesperador. Nem sobre Arte. Querem um exemplo? Quem diria que nem a Capela Sistina, uma obra máxima da Humanidade, ficou fora de polêmica e controvérsias. Por exemplo: ainda no final do século XVI, o pintor grego Domenicos Teotokopoulos, depois chamado El Greco, a caminho da Espanha, onde se fixaria em Toledo, visitou a Capela Sistina. A pintura de El Greco é uma espécie de ancestral do expressionismo do século XX, pois distorcia e alongava dramaticamente os corpos humanos e deliberadamente manchava e decompunha as cores desses corpos, quase como cadáveres vivos. Pois bem... perguntado sobre o que achou sobre a capela e a pintura de Michelangelo, respondeu: "Michelangelo? Um bom homem que não sabia pintar... "

El Greco viu nas figuras da Capela Sistina, apenas esculturas pintadas em corpos monocromáticos, o contrário do seu próprio conceito precursor de pintura.
Não que eu concorde com ele, cuja pintura também me impressiona, mas cito esse fato para demonstrar como nada escapa de controvérsia. Outro exemplo: Leonardo Da Vinci, hoje uma unanimidade, na sua época sofreu longo período de subestima e menosprezo. Depois de um longo período de altos e baixos, já velho e pobre chegou a Roma em busca de trabalho, desesperado pelo patrocínio do Papa que estava encantado com Rafael e despejando ouro e encomendas sobre o jovem gênio prolífico tanto da pintura de cavalete como dos enormes afrescos nas paredes do Vaticano. O Papa não recebeu Leonardo, desprezando-o e dizendo para um intercessor: "Esse homem nunca fará nada..." Evidentemente o Papa estava enganado, e dois diplomatas da corte de Francisco I da França, percebendo a situação de Leonardo, escreveram ao seu rei recomendando o gênio menosprezado, que já era uma lenda que sobrevivera a si mesmo na miséria (as pessoas pensavam que ele tinha morrido no século anterior). Francisco I que era um grande mecenas enviou imediatamente uma resposta: "Mandem vir o grande Leonardo. Nós o acolheremos, nós o honraremos."
Uma curiosidade: esses dois brilhantes embaixadores de Francisco I da França foram retratados magnificamente num duplo retrato célebre de Hans Holbein.
Para concluir, Leonardo, já velho, viajou a cavalo acompanhado apenas de um último jovem discípulo fiel, fazendo a perigosíssima travessia dos Alpes. Nos alforjes em sua montaria levava apenas três quadros: a Mona Lisa, Santana a Virgem e o Menino Jesus, e um estranho e andrógino São João Batista. Francisco I o alojou num castelo com um grande ateliê, onde nada pintou mas continuou escrevendo e desenhando febrilmente nos seus maravilhosos códices, que também felizmente levara consigo...
O pintor e historiador da Arte da Renascença Italiana, Giorgio Vasari escreveu que Leonardo (com seus longos cabelos e barba branca, parecendo um ancião de noventa) morreu com apenas 64 anos nos braços de Francisco I, dizendo: "Não há maior honra para um artista que morrer nos braços do rei."
Curiosamente, em 1818, o grande pintor neoclássico francês Jean Baptiste Dominique Ingres, pintou um quadro menor, ilustrativo dessa cena descrita por Vasari, entitulado "A morte de Leonardo Da Vinci."

28/03/2021

SOBRE AS MINHAS LITOS E O MERCADO (crônica de Guilherme de Faria)

Como os amigos puderam perceber pelas constantes postagens de minha litografias, nos últimos anos eu me reconciliei com parte delas, embora esconda as que me envergonham por excesso de concessão comercial. Quando acabou o grande "mercado" de gravuras após o plano Collor, eu fiquei desgostoso o suficiente para queimar milhares de exemplares delas na churrasqueira de um sítio que eu tinha, e que logo tive que trocar por um kitinete para abrigar um filho meu ator de teatro. Como eu era excessivamente prolífico, por ser um desenhista gestual zen e sem modelo, fiz mais de dez imagens e edições por mês, ininterruptamente por 20 anos, e faria muito mais se não as tivesse que assinar a lápis, datá-las, intitulá-las e numerá-las a lápis uma por uma, o que me tomava mais tempo que desenhá-las na pedra da Bavária, já que minhas imagens são quase instantâneas e as mais elaboradas exigiam apenas alguns minutos (acreditem se quiserem). Meu editor, o Elsio Motta, gostava de me exibir nessa performance na frente de visitantes da gráfica, a que eu acedia com prazer porque me divertia e resultava nas minhas mais rápidas e melhores imagens, e que mereciam as palmas dos presentes, como se tivesse sido um balé. Não, não posso me queixar, a gente se divertia e eu gostava do senso empresarial do Elsio Motta que apesar de seu interesse comercial, parecia gostar sinceramente de mim e admirar-me como artista, e que me tratava não somente como um rei mas carinhosamente e me trazia cafezinhos pessoalmente enquanto eu desenhava nas pedras, e me convidava para jantar e beber seu uísque doze anos em seu belo apartamento com alguns dos meus óleos em suas paredes. Eu ficava na gráfica por um máximo de três horas por dia em média e deixando prontas umas quatro ou cinco imagens. E a camaradagem com os outros artistas e os impressores eram também rica e compensadora. Eu teria sido muito mais solitário se não tivesse essa espécie de emprego por vinte anos...

Não, não há nada a lamentar nem sequer a me arrepender, não por isso. Constato que a minhas litos, relançadas na Internet em leilões e sites de vendas com constância cada vez maior, estão sendo arrematadas por uma nova geração, embora ainda com preços módicos. Elas continuam agradando a muita gente. Sei que isso é duvidoso, pois o verdadeiro mercado de arte é o de altos preços, quando os investidores adquirem a obra não porque gostem mas porque é um investimento, está valorizada financeiramente e promete valorizar muito mais. Enfim, para ser um pouco cínico: a glória de um artista é quando passa a ser adquirido avidamente por pessoas que detestam a sua obra. Não é ainda meu caso, continuo sendo adquirido por pessoas que adoram as minhas obras. Ai de mim! rrrrrrrsss
27/03/2021

 Já tomei a vacina Coronavac. No Brasil (ou no mundo) tudo é controverso, e já tem gente boa dizendo que essa vacina não adianta nada e que tomar Ivermectina é o que realmente previne o corona. Pelo sim, pelo não (como se diz) eu a estou tomando também. Me previno por todos meios, porque aos 78 anos estou na "aurora da minha vida" porque começo a sentir que estou aprendendo afinal a pintar, e descobrindo na minha vida onde foi que realmente eu errei...Tenho muito ainda que pintar e escrever porque apesar da minha obsessão, perdi muito tempo em ninharia...

27/03/2021

DESTINO (das Memórias de Guilherme de Faria)

Uma das coisas que mais me impressiona é o Destino. Sim, o próprio conceito de destino e suas implicações. Não tenho dúvida de que tudo é destino, que o destino rege nossas vidas a partir do nosso nascimento, pois o encadeamento de circunstâncias que o caracteriza, parte de quem são nossos pais, educação que tivemos, cultura, inteligência, talentos, casa, cidade, país, mês e ano, região, local e contexto politico da época. Qualquer mudança de uma variante sequer desses elementos resultaria noutro destino, na verdade outra pessoa. Mas o que me impressiona é que não podemos fugir do nosso destino, embora tenhamos eventualmente a ilusão de tê-lo conseguido, ou de até mesmo tê-lo construído.
Esta visão implica necessariamente na crença em Deus, e até nos seus anjos, que intervêm como protetores contra encrencas, e na correção do rumo pré-estabelecido do qual eventualmente estamos nos desviando. Tudo o que eu vivi até hoje me deu esta convicção, e acredito ter um anjo da guarda muito atento, pois escapei de coisas terríveis ao longo da minha vida, que ainda hesito em revelar nas memórias que publico...

DIÁRIO DA QUARENTENA III (crônica de Guilherme de Faria)

Um parênteses neste meu diário: Querem saber a razão de eu ter feito tanta litografia dentro da mesma fase, quase mil imagens (com tiragem média de 150 exemplares por imagem) ao longo de vinte anos (de 1974 a1995)? Não é um exagero? Uma obsessão? Não... simples necessidade de sobreviver e sustentar família. Minhas litos de mulheres tinham caído no gosto do público e contendo meu traço já consagrado no desenho por uma elite nas galerias, vendiam feito pãozinho quente na padaria. Enquanto houve mercado eu fui fazendo e enriquecendo meu editor, e, como editado eu ia pegando as sobras fartas do banquete de sua mesa. Deu pra criar os filhos até a pré-adolescência, quando então a fonte do mercado secou e a santa pobreza voltou. Minhas gravuras e as de outros artistas não valorizaram no mercado brasileiro e cheguei intima e vergonhosamente a me arrepender de ter dedicado duas décadas à litografia, um verdadeiro tiro no pé, uma atividade e uma fase prolífera que mercadologicamente deu com os burros n'água...
Quase cuspi no prato que comi. Fiquei com uma grande antipatia pelas minhas litos e queimei literalmente na churrasqueira do meu sítio grande parte da minha coleção pessoal. Fiquei com menos de cinquenta peças, as menos comerciais, em preto e branco, que não me envergonhavam.
Entretanto, passadas duas décadas, com o advento das redes sociais, verifico que as pessoas que as adquiriram, se apegaram afetivamente e mantiveram minhas litos em suas paredes e só agora estão se desfazendo delas em leilões da internet, acredito que por necessidade, já que quem as apreciava era a classe-média (os ricos raramente compram gravuras, a não ser as já supervalorizadas).
Minhas litos, que estavam "fora de moda", começam a ser readquiridas, arrematadas a preços módicos nos leilões e a serem elogiadíssimas nas minhas postagens delas aqui na minha página do facebook. Quase chego a me reconciliar com elas, apesar das nítidas concessões, que vejo nelas, a um gosto mais fácil, mais popular, ao contrário, por exemplo, da minha "fase baconiana" na pintura a óleo sobre tela.
Bem... o tempo dirá se minhas litos terão uma posteridade honrosa ou se desaparecerão na voragem do Tempo. Mas, afinal, também pessoalmente não somos todos assim? Sobreviveremos por quanto tempo na memória dos outros, mesmo na dos amigos (a mais duradora)? "Vanitas vanitatis, omnia vanitas", diz o Eclesiastes, e passamos como passa o vento, e nem os furacões perduram muito tempo na memória coletiva.
Bem... a Arte perdura muito mais, talvez até o fim dos tempos do homem na terra. Essa é, pelo menos, a nossa aposta...
24/03/2021

Tuesday, March 23, 2021

DIÁRIO DA QUARENTENA II (crônica de Guilherme de Faria)

Me meti numa encrenca... Como se fosse um jornalista contratado por um periódico, praticamente me comprometi a escrever uma crônica diária para entreter os leitores. Na verdade, eterno desempregado, desvinculado, o fiz a mim mesmo e talvez aos meus amigos aqui do face, que imagino esperem uma nova crônica diária, nestes tempos de ociosidade forçada, de tédio e desfastios...

Mas como escrever uma crônica diária quando nada acontece de relevante, ou de minimamente interessante, sem transformar a coisa num caderno de memórias, saudosas ou não, mas sempre recorrendo a um rico passado que em todos nós o é simplesmente pela generosa pátina do Tempo? Eu me lembrei agora de uma oportuna fala daquele caipira no maravilhoso filme brasileiro "A Marvada Carne" (do diretor André Klotzel): "Naquele tempo acontecia muita coisa..."
Agora, que aparentemente nada acontece, nestes monótonos dias caseiros, a não ser uma ou outra discussão com minha mulher por ninharias, irritadiços mas depressa reconciliados por amor, talvez também porque só podemos contar um com o outro, envelhecendo juntos às vezes com momentos de rabugice, logo superados quando no meio de uma discussão eu cito minha sábia mãe que interrompia nossas pequenas turras infantis na mesa, dizendo: "Vamos parar! Isso não dá assunto!..."
Bem.. eu vejo que ainda estou falando sobre nada, e então me lembro do pobre Mercuttio do Romeu e Julieta, que na noite do baile de Julieta, no bando, na rua junto com seu sonhador amigo, a caminho daquela aventura, começa a divagar delirantemente sobre uma "féerie" acerca de Queen Mab, a pequena parteira das fadas, na sua carruagem de casca de noz atravessando com sortilégios o sono dos dorminhocos importantes da cidade, Romeu depois de um vertiginoso e aflitivo minuto o interrompe, dizendo: "Quieto, quieto, Mercuttio! Você está falando de nada!"
Romeu era romântico mas não delirante, o que faria o seu amor mais palpável e eterno, que o reconhecemos no fundo de nós mesmos ainda hoje, passados tantos séculos...
Mas o que me resta se não ir recolhendo as pastas que saltam do arquivo da memória literária, que pelo menos em mim sempre representou mais da metade das minhas vivências, já que nunca diferenciei literatura da realidade? Bem... por outro lado sempre percebi que as melhores crônicas sempre se beneficiaram da falta de assunto, quando a mente ociosa divaga, liberando nossas memórias, e às vezes nossa verdadeira face embora filtrada pela nossa autoestima, quando não pela nossa vaidade...
A propósito, sei que sou um escritor que abusa das reticências, mas não consigo me livrar delas, pois tudo em mim são divagações episódicas e "flash backs", e construo meu rosto como aquele resultante do mapa de retalhos do mundo, do mini conto de Jorge Luiz Borges.
Sim, por que no fundo só sei falar de mim mesmo o tempo todo, embora justificado pela Arte, que, afinal, me universaliza e permite que alguns leitores pelo menos se identifiquem um pouco ou se reconheçam. Assim o espero...
23/03/2021

Sunday, March 21, 2021

CONSIDERAÇÕES OCIOSAS DE UM DOMINGO DE QUARENTENA (crônica de Guilherme de Faria)

Mais um domingo... (o último me parece que foi ontem). A passagem das horas, vertiginosas apesar de silenciosas como um filme mudo de Carlitos, também me parecem igualmente em preto e branco. Tento colori-las atirando tintas em minhas telas para depois descobrir nas manchas algum sentido, figuras paisagens ou flores, puro vício, como se isso fosse obrigatório, já que reconheço que pintura é algo essencialmente abstrato, puro ato de pintar, com ou sem alguma fantasia na cabeça...
Por quê razão de modo geral sou considerado um bom pintor por um público mais ou menos leigo? Desconfio que seja pelo fácil reconhecimento imediato do meu encanzinado figurativismo... Sim, porque não sou reconhecido pelos especialistas, críticos ou curadores contemporâneos, e por isso permaneço fora do "Mercado", vivendo apenas de dois ou três colecionadores fiéis. É verdade que isso aconteceu com muitos pintores que se consagraram postumamente, meta que todos os pintores sinceros acalentam mesmo quando ateus, já que a posteridade perseguida é mesmo deste mundo que nós pintores cultuamos apaixonadamente, essa é que é a verdade...
Não há pintores nihilistas ou desencantados... Para pintar bem é preciso amar o mundo, a natureza e se possível Deus, seus anjos e seus santos, que por sinal inspiraram algumas das melhores pinturas do mundo.
A propósito, não sou religioso, mas sim temeroso e desconfiado. Por exemplo: desconfio que haja mesmo Deus, e o Paraíso, já que tantos homens inteligentíssimos e geniais acreditavam e tinha verdadeira fé. Quem sou eu para desacreditar de Michelangelo e Leonardo Da Vinci, por exemplo? E até do maravilhoso Caravaggio, fervoroso apesar de delinquente e violento?
"Pobre pintor, a quem falta a Fé verdadeira, e que blasfema sem perceber com sua atitude às vezes irônica e complacente"... (imagino alguém pensando isso de mim).
Mas devo dizer que quero crer. Ah! Como desejo acreditar, ter fé, embora o mundo me pareça um tão belo Vale de Lágrimas, onde a felicidade é até permitida a quem dela fizer muita questão...
Enquanto isso ("enquanto Seu Mestre não vem, manda o tiro tiro lá"), pinto e escrevo sob a inspiração de minha própria "anima", coisa que por si só já deveria me convencer da existência de Deus e de seus anjos, embora também, infelizmente, de seus incontáveis demônios... *
21/03/2021
Nota
* ...seus incontáveis demônios- Com isso quero dizer que se acredito na existência da "anima" como um arquétipo feminino existente no inconsciente profundo (ou alma) das pessoas, segundo Carl Jung, então creio igualmente nos outros arquétipos que o grande psicanalista descobriu: o "animus" (arquétipo da masculinidade)", o "velho sábio", "a criança" e "a Sombra". Esta última é que é o problema da humanidade, responsável pelo que denominei "seus incontáveis demônios"...

Saturday, March 20, 2021

COMO ME VACINEI (crônica de Guilherme de Faria)

No dia 17 eu me vacinei com a coronavac, depois de ser convencido por um motorista de táxi, que após simpática conversa, em vez de me levar para casa me levou a meu pedido para um posto do SUS que ele me recomendou, na rua Purpurina, na Vila Madalena, que por sinal estava vazio. Minha faixa de idade para tal já até tinha passado, mas ninguém se importou, e fui maravilhosamente bem tratado pela carinhosa enfermeira e pela atendente, que até me perguntou com curiosidade e simpatia sobre o meu sobrenome do meio, materno, o Caiuby... Aliás sempre tive excelentes experiências no SUS, que (até estranhamente) me tratam como um príncipe (!!!) Já há muitos anos chego a estranhar quando falam mal do SUS... Será que na periferia é diferente? Poucas vezes na vida procurei hospitais, a Santa Casa, ou Pronto-Socorros do SUS onde entrei modestamente e fui sempre tratado como um "doutor", não sei por quê, já que nunca fui muito arrumado nem penteado, sempre de jeans e camisa polo meio gasta. Um mistério... Será que apesar do "out-sider" que me tornei quando abracei a Arte, algo em mim não consegue disfarçar minha origem social culturalmente privilegiada? Bem... sabemos que o Brasil é um país basicamente classista. Mas devo dizer que a simpatia dos motoristas de táxi (com quem adoro conversar), com os diligentes, prestativos e amistosos porteiros do meu prédio, e com atendentes de postos de saúde, enfermeiras, auxiliares, etc, sempre me soaram absolutamente sinceras e naturais... Viva o povo brasileiro!
17/03/2021

MINHA VIDA NA QUARENTENA (crônica de Guilherme de Faria)

Durante esta quarentena em que os dias dentro de casa se sucedem estranhamente iguais, monótonos e voláteis, mais percebo a rapidez do fluir do Tempo, como uma insólita corredeira lisa, sem rumores e sem pedras... monstruosa e inexorável.
Fui um pouco pedante nesta introdução? Na verdade busquei ser fiel à minha atual sensação cotidiana da vertigem do Tempo, que me parece mais fugaz que nunca... Entretanto, tenho um banal e comezinho instrumento de comparação para esta sensação da fugacidade das horas neste retiro forçado. Trata-se do meu aparelho de ginástica, um "pedalinho" com alavancas, que entope o já exíguo espaço do meu ateliê, instalado bem no meio dele, e que em seu uso estranhamente denuncia a relatividade desconcertante do Tempo: um minuto pedalando nele parece uma penosa eternidade...
Sempre fui, na verdade, um hedonista, vivendo minha vida toda pelo princípio do prazer, o que me fez na juventude ter ido "com muita sede ao pote", gastando minha quota de luxuria muito cedo, esgotando-a com apenas 38 anos, com uma recaída na "idade do lobo", aos 51. Nem por isso passei a ter uma vida espartana, como minha mãe preconizava... Desde aquela idade, em que podia ter morrido, "estou no lucro" (como se diz)...
Nos últimos dez anos vivo uma vida quase que inteiramente virtual, alternando entre tela, telinha e telão, isto é, minhas pinturas de telas no cavalete, o computador na internet, e a TV a cabo num televisor de bom tamanho. Agora, nesta quarentena, essa forma de viver apenas se acentuou, e como todo mundo, anseio por uma mobilidade e liberdade que eu já quase desprezava.
Bem... na verdade estou velho, e como tal, tenho momentos de exasperação, ou talvez daquela fantasia tardia que fez o velho Liev Tolstói, com sua comprida e ilustre barba branca, fugir de casa, de suas terras que ele não podia mais dispor para distribuir, e acabar morrendo sentado, numa noite gelada, no banco de madeira de uma deserta estaçãozinha, esperando o que seria o último trem de sua maravilhosa e produtiva vida de magistral escritor, que virtualmente captara a essência da vida e do mundo...
20/03/2021

Wednesday, March 10, 2021

Sobre a Pandemia

Ocorreu-me a ideia de que a pandemia sempre existiu. É simplesmente a Morte habitando entre nós desde o início dos tempos. Por isso nossa vida na Terra, com o cristianismo foi chamada de "o Vale de Lágrimas". Na Roma antiga a Morte era chamada pelos poetas de "Imperatrix Mundi". Por muitos séculos fingimos controlá-la. Apenas não havia a Internet, e não era politizada. Em outras palavras: a mortandade era mais ou menos oculta por pudor, ou mesmo pelo terror. As pessoas iam sumindo como se fossem meros casos de família. Fingíamos ou não sabíamos que a morte sempre foi coletiva...
(Guilherme de Faria)

Friday, March 5, 2021

Depoimento

A vida inteira eu só tive dois propósitos simultâneos: pintar, como meio de me cercar de coisas belas que me eram inacessíveis pela pobreza, e tentar viver delas, isto é, ganhar a vida com elas. Mais nada. A duras penas consegui, e me sinto realizado já há bastante tempo. A velhice me deu afinal paz, e os últimos vinte anos foram os melhores da minha vida nesse sentido: posso pintar e escrever sossegado sem que qualquer pessoa me possa cobrar, de algum maneira, esse meu modo individualista de viver...

(Guilherme de Faria)
É tão bom não desejar mais nada a sério na vida, senão pintar um novo quadro, ou aperfeiçoar o já pintado...
(Guilherme de Faria)

Nostalgia urbana

Até os anos 50 havia uma riqueza de sons como pregões anunciadores nas ruas. Havia o tequeteque, o rententém, o firinfinfim... e o realejo de periquito. Agora estamos reduzidos ao "Óia o guarda-chuuuva!" Fazer o quê... Na verdade um consolo, já que relacionado a uma relíquia, que não muda, e que os melhores ainda são pretos, e continuam estranhamente inspirados nas asas dos morcegos...
(Guilherme de Faria)

Publicado no facebook

Às vezes eu me olho no espelho e fico fascinado: Como estou velho! Vejo refletido um ancião de barba branca e longos cabelos brancos, olhos avermelhados, inflamados de tanto pintar e olhar telas, o telão e a telinha. Tenho 78, pareço ter uns 86 num corpinho de 90. Uma ruina... Se me der coragem e desprendimento, qualquer hora tirarei uma "selfie" para vocês verem. Sempre lembrando que por dentro tenho vinte anos...
( Guilherme de Faria)
Algo me diz que as "autoridades" jamais levantarão a quarentena, mesmo depois da pandemia passar. E jamais nos liberarão das máscaras: elas vieram pra ficar. Na História dos povos a liberdade nunca foi dada de presente, nem devolvida, sem que o povo unido a reconquistasse.
(Guilherme de Faria)
O que eu fiz realmente na vida... foi arte para mim mesmo. Sempre pintei e escrevi para mim mesmo, para me agradar, me satisfazer, me profissionalizando só para sobreviver materialmente. Sei que isso não é novidade: todo verdadeiro artista faz arte para si mesmo. O resto são circunstâncias...
(Guilherme de Faria)

PESADELOS BRANDOS

Há muitos anos, muitas noites, tenho um sonho, um pesadelo brando, recorrente, cada vez em uma nova paisagem minuciosa, às vezes maravilhosa, sempre desconhecida para mim, em que saindo de minha casa (também desconhecida mas estranhamente minha) me distancio andando a pé e vou me perdendo a ponto de chegar a lugar nenhum, sem mais referências e perdido, sem conseguir mais voltar. Aí, então, aflorando uma pequena angústia, acordo.

O que significará esse sonho estranhamente recorrente, sempre em novas topografias nítidas, precisas, às vezes belas, agrestes, desconhecidas, onde nunca estive em meu estado de vigília?
Serei eu um frustrado e não me dei conta? Mas... não me sinto assim em meu consciente! Não gostaria da interpretação de um psicanalista, que afinal, previsível, também não me levaria a nada. Sim, porque sinto que se trata de flash-backs ou retalhos de minhas vivências em universos paralelos, por enquanto insondáveis desde aqui...
(Guilherme de Faria)
Louis Pauwels (jornalista, escritor, pesquisador e biógrafo, fundador da revista Planète, justificando brilhantemente o orgulho e o exibicionismo extremos de Salvador Dalí, na introdução de uma biografia do pintor, escreveu:
"Um homem que carrega dentro de si grandes coisas e não se orgulha delas, esse homem está perdido. As grandes coisas quando humilhadas se revoltam contra a sua morada. Esse homem se tornará mais infeliz e mais miserável que o menos aquinhoado. Lei implacável."
____________________________________
A dançarina americana Isadora Duncan, no começo do século XX , já famosa na Europa, sempre ávida por conhecer pessoalmente as grandes personalidades artísticas do "Grand Monde" europeu , quando era apresentada a um desses famosos personagens geniais masculinos logo se oferecia para ter filhos com eles. Fez isso algumas vezes. Quando conheceu o dramaturgo George Bernard Shaw, já velhusco e muito célebre e admirado também por seu humor ferino e presença de espírito, Isadora lhe disse: "Senhor Shaw, quero ter um filho consigo, para que ele nasça com a minha beleza e com a sua inteligência". Ao que Shaw respondeu: "Minha senhora, é melhor evitarmos... A criança poderá nascer com a sua inteligência e a minha beleza. "
______________________________
Picasso quando morava em Cannes, no verão em sua mansão ateliê chamada "La Californie", ia muitas vezes à praia, cercado de uma entourage de amigos. Uma vez sentado na areia, contemplando o pôr do sol, uma senhora, amiga sua de ocasião, sentada ao seu lado, fez um gesto descortinando aquela visão e disse: "Olhe, Pablo, este poente! O quê você acha?" E Picasso, com seu sutil sarcasmo, respondeu: "Ah! Se eu fosse um pintor de arte!..."
Picasso quando morava em Paris, no entre guerras, uma vez, cercado de sua corte de amigos mais ou menos deslumbrados, entrando em um famoso bistrô frequentado por artistas, escritores, poetas e pintores, sentou-se numa mesa acercado de sua "entourage" tagarelante, e tendo pedido ao garçon uma bebida, talvez um licor numa tacinha minúscula que pousada na mesa ficou sem que ele a tocasse, com olhar perdido, displicente, calado, fumando sem parar. Então, uma senhora do grupo, forçando intimidade perguntou-lhe alto: "Pablo. o que você acha do impressionismo? " E Picasso, com o memo olhar distante, displicente, respondeu: "O Impressionismo? Ah!... É ótimo quando precisamos saber se devemos levar o guarda -chuva... "
Nota:
Picasso no seu genial e sutil sarcasmo habitual, neste episódio se referiu ao impressionismo como se fosse um mero barômetro climático, já que os pintores daquela escola se propunham a pintar a cor local, frequentemente na mesma cena, em variações de cor causadas pela mudança de hora e de clima.
Não é preciso dizer que no bistrô inteiro se fez um silêncio de cinco segundos e depois explodiu uma imensa gargalhada uníssona de todos os presentes. No dia seguinte, o "tout Paris" comentava e ria...