Do meu passado me arrependo de algumas atitudes e ações, mas muito mais do tempo que gastei em ninharias. Este é o único para o qual não tive remédio...
(Guilherme de Faria)
Monday, August 26, 2019
O mundo é mau
Quando adolescente, artista precoce, bebendo numa mesa de bar com jornalistas boêmios, já um tanto alto, senti subitamente um "insight" e declarei solenemente que acabara de descobrir que "o mundo é mal". Produzi uma hilaridade geral na mesa, quase levei uma vaia. Exclamavam: "Só agora o garoto percebeu isso! " E gargalhavam... Fiquei envergonhado, mas no estado alcoólico inicial em que me encontrava ainda pude perceber que todos sabiam disso desde sempre e ainda se permitiam ser fúteis, e até felizes. "Não, não! - eu pensei- acabo de descobrir que diante dessa verdade trágica não se pode ser feliz, não temos esse direito!"
Mas a verdade é que isso tudo se dissipou no dia seguinte na ressaca, que uma vez passada me permitiu também ser um cínico em busca da felicidade...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Mas a verdade é que isso tudo se dissipou no dia seguinte na ressaca, que uma vez passada me permitiu também ser um cínico em busca da felicidade...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Primeiras identificações
Quando eu tinha treze anos li o maravilhoso romance biográfico A Vida de Michelangelo, de Romain Rolland (1866 — 1944) que começava assim: "Era um burguês florentino.." Em seguida, na mesma época, li O Romance de Leonardo da Vinci, de Dimitri Merejkowski (1865-1941). Minha identificação com estes dois "personagens artistas" foi tão intensa e misteriosa que eu senti que esses livros falavam de mim mesmo de maneira profunda e absoluta. Tais leituras fizeram completar-se meu processo de inadaptação ao contexto social provinciano e inculto do bairro paulistano em que eu vivia. Dali por diante eu não conseguia mais me conformar com a pobreza cultural, e o que bem mais tarde eu consideraria a "breguice" brasileira, daqueles anos 50. Dotado naturalmente para o desenho, eu me identificara de tal maneira com Miguel Angelo e Leonardo da Vinci, descritos naquelas páginas que recriavam vividamente aquela maravilhosa época de uma Florença no auge do seu esplendor cultural, de modo que eu precisaria de muitos anos para me sentir novamente brasileiro e de certa forma reintegrado no meu país. Isso somente se daria durante minha viagem ao sertão de Pernambuco e Paraíba em 1972, aventura que daria nascimento trinta anos mais tarde (2001) à minha inusitada fase de cordelista sertanejo, fase essa que se deu paralelamente à continuidade de minha carreira de pintor e desenhista...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
"Ninguém é profeta em em sua própria terra"
Quando eu era menino, ouvi minha mãe, a respeito de um incidente de que não me lembro, repetindo um ditado popular cujo sentido ainda era ligeiramente obscuro para mim: "NINGUÉM É PROFETA EM SUA PRÓPRIA TERRA." Curioso sobre tudo, como eu era, perguntei a ela o significado ou a origem daquele ditado. Minha mãe então me contou esta estorinha, que vou tentar recontar aqui com o máximo de aproximação das palavras dela, tal como me lembro:
" Quando Jesus estava no auge de sua missão em Jerusalém, um discípulo periférico, daqueles curiosos e observadores, que testemunhara deslumbrado alguns milagres do Mestre e sua fama crescente como "o Messias", resolveu solucionar o enigma das origens daquele que se revelava, no mínimo, um grande profeta. Sabendo que o Mestre era também chamado "O Nazareno", viajou até a cidade de Nazaré para ver se encontrava familiares ou vizinhos da família de Jesus que ele pudesse entrevistar para saber detalhes da infância de Jesus, de seus pais e de sua criação. Entretanto teve dificuldades de obter informações pois as pessoas não sabiam quem era esse tal "Jesus" ou não se lembravam de quase nada. Afinal encontrou umas pessoas que puderam dar a ele algumas respostas. Um homem de meia idade disse, olhando ao mesmo tempo para sua mulher:
"Ah! O Jesus, aquele molequinho? Sim, a gente se lembra, sim, não é Mariah? Um garotinho catarrento, até bonitinho, de pés descalços, perambulando à toa, muito quieto, com um olhar meio estatelado para tudo. A gente achava o garoto muito ingênuo, na melhor das hipóteses. Era filho do carpinteiro, o José que tinha a casa e oficina ali no fim desta rua. A família se mudou faz tempo. Agora tá tudo vazio e em ruínas ali. Mas ninguém dava nada por aquele menino... Por que pergunta? O garoto cresceu e se deu mal, certamente, não?... "
Ouvindo esta estória, eu, que era talvez tão ingênuo quanto aquele menino, me lembro de ter rido muito (Deus me perdoe) e nunca mais ter esquecido. Minha mãe era assim: apesar de católica devota, tinha muito senso de humor...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
" Quando Jesus estava no auge de sua missão em Jerusalém, um discípulo periférico, daqueles curiosos e observadores, que testemunhara deslumbrado alguns milagres do Mestre e sua fama crescente como "o Messias", resolveu solucionar o enigma das origens daquele que se revelava, no mínimo, um grande profeta. Sabendo que o Mestre era também chamado "O Nazareno", viajou até a cidade de Nazaré para ver se encontrava familiares ou vizinhos da família de Jesus que ele pudesse entrevistar para saber detalhes da infância de Jesus, de seus pais e de sua criação. Entretanto teve dificuldades de obter informações pois as pessoas não sabiam quem era esse tal "Jesus" ou não se lembravam de quase nada. Afinal encontrou umas pessoas que puderam dar a ele algumas respostas. Um homem de meia idade disse, olhando ao mesmo tempo para sua mulher:
"Ah! O Jesus, aquele molequinho? Sim, a gente se lembra, sim, não é Mariah? Um garotinho catarrento, até bonitinho, de pés descalços, perambulando à toa, muito quieto, com um olhar meio estatelado para tudo. A gente achava o garoto muito ingênuo, na melhor das hipóteses. Era filho do carpinteiro, o José que tinha a casa e oficina ali no fim desta rua. A família se mudou faz tempo. Agora tá tudo vazio e em ruínas ali. Mas ninguém dava nada por aquele menino... Por que pergunta? O garoto cresceu e se deu mal, certamente, não?... "
Ouvindo esta estória, eu, que era talvez tão ingênuo quanto aquele menino, me lembro de ter rido muito (Deus me perdoe) e nunca mais ter esquecido. Minha mãe era assim: apesar de católica devota, tinha muito senso de humor...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
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