Monday, December 6, 2021

PORQUE HOJE É SABADO (crônica de Guilherme de Faria

 Hoje é de novo Sábado, dia que parece dividir minha semana, ou quase onipresente talvez por ser o Sexto Dia da Criação, e para o artista, como para Deus, (guardadas as proporções, claro) não há realmente, o Domingo, o dia de Descanso. Lembro, então, o conhecido e engraçado poema de Vinicius de Moraes, que repete como um refrão: "Porque hoje é Sábado." Igualmente para o artista não há aposentadoria, que seria como um sinônimo de morte da criatividade e do infinito labor que é nossa glória, benção e, ao mesmo tempo, maldição... Sim, porque a vida toda não pude passar mais que umas poucas horas seguidas longe da visão de minhas obras acabadas ou em andamento, me cercando nas paredes, sob pena de correr o risco de desintegrar-me como se eu não fosse senão um reflexo delas, uma miragem de mim mesmo. Loucura? Sim, loucura "braba" e mansa, quase tão dolorosa quanto prazerosa.

Ser um artista profissional, pela absoluta incapacidade emocional de ser qualquer outra coisa, de exercer qualquer outra profissão, é uma espécie de maldição, como andar perpetuamente numa corda bamba ou na beira do abismo...
Mas, atenção, não me queixo de nada. Nunca me queixei de viver nesta pobreza dourada, numa gaiolinha de ouro empoeirada, sobre esta minha Oscar Freire tão prosaica e comercial, e no entanto... tão amada.
Talvez porque, além de pintor sou poeta, a banalidade não pode destruir-me, já que a transmuto imediatamente em poesia como um alquimista do cotidiano, que todo verdadeiro poeta o é...
Sim, posso conversar sem prejuízo da minha alma, sobre o tempo e a temperatura com os eventuais companheiros de elevador, ou os porteiros do prédio. E (pasmem!) até não guardar desprezo pela senhorinha costureira do andar de cima, que me perguntou o que faço, e tendo recebido a resposta: "Eu pinto", replicou imediatamente, querendo ser simpática: "Pinta o Sete?" Aaaaaiiiii...
Bom dia a todos!

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