Saturday, November 16, 2019

O SEGREDO DO MEU DESENHO (Um pouco de Teoria de Arte)

(das Memórias de Guilherme de Faria)

Questionado sobre as suas fases iniciais e de maior sucesso de público, as fases Azul e Rosa, Picasso disse uma vez: "Aquilo não são senão "sentimentos". Ainda não eram "pintura". Mas não as renego porque atrás do sucesso delas eu pude fazer tudo que eu quis".

A maioria do público costuma associar erroneamente a Arte com "sentimentos". Quanto à Pintura, posso concordar somente com "emoções estéticas". Desde muito cedo, ainda na adolescência, percebi que a Arte não é o "Que" mas o "Como". Sim, não é o tema em si, mas o "como" está pintado. Muito jovem, em 1965, na Galeria Cosme Velho onde eu expunha meus desenhos, tive a oportunidade de conversar com o grande Volpi, já muito idoso, e este me disse: "Rapaz, não dê tanto valor ao "assunto". O tema em pintura não é senão "a anedota". As pessoas pensam que eu pinto bandeirinhas e que as adoro, mas eu não ligo para elas. Sou um pintor geométrico: aquilo são apenas retângulos de que foi tirado um triângulo".

Volpi era um homem simples, italiano de origem operária, e havia uma certa ingenuidade genuína nele e na sua arte. Aquela conceituação teórica da essência sua sua pintura, pelo menos na sua fase de maior sucesso, lhe tinha sido transmitida (depois eu soube) pelos poetas irmãos Campos (Haroldo e Augusto), pais do "concretismo paulistano", que trataram de cooptar o velho pintor para o seu movimento.

Entretanto respeitei a mensagem do mestre, que na verdade eu já praticava. Eu desenhava (com um precoce sucesso) sobretudo a figura feminina, mas eu não utilizava "modelo vivo". O segredo do meu desenho era o meu traço, feito à ponta de pincel, em nanquim, numa técnica similar ao sumiê japonês, uma arte Zen. O traço pintado era "modulado", isto é, engrossava e afinava nos momentos certos para sugerir volume, sem necessidade, portanto, de aquarelar os corpos para sugerir carnadura. A sensualidade do meu traço consistia na atitude gestual, e do fato de que a cerda macia e longa do pincel acaricia as formas que ele próprio vai criando, enquanto eu me mantinha com a "mente em branco", ao nível dos reflexos. Mas, eu concentrava as cores em dois pretextos bastante fetichistas do ponto de vista erótico: os cabelos e os espartilhos ou corpetes, bem como às vezes nos panejamentos de apoio da figura nua. Na dinâmica quase instantânea do meu gesto de desenhar com traços rápidos e seguros, direto a nanquim, sem esboços, sem retoques nem repasses, sua velocidade plasmada, visível, contrastava com a atitude estática das figuras em repouso, dando-lhes aquela misteriosa sensação de silêncio metafísico, que era o que fascinava as pessoas sem elas perceberem.

Por outro lado, estava eu interessado em erotismo? Meu desenho era uma descarga da poderosa libido de um jovem quase ainda adolescente? Não se iludam... Somente até certo ponto. Eu aprendera a desenhar de estalo, como um "satori" (iluminação) vendo uma certa cena em forma de "koan" Zen num filme de samurai (sobre a vida de Myiamoto Musachi) no cine Niterói, no bairro da Liberdade em São Paulo, em 1963.
CONTINUA


Nota
A propósito, também na poesia, pode-se afirmar a mesma coisa, baseada no texto do grande poeta Rainer Maria Rylke , nas suas "Cartas a um Jovem Poeta" , que aqui citarei de cór, conforme me recordo :
"Os versos não são sentimentos, são experiências. Para se escrever um verso é preciso ter viajado muito, ter visto muitas cidades. É preciso ter amado muitas mulheres, e as haver perdido. É preciso ter ouvido os gritos da parturientes, e ter estado junto aos mortos, quando as velas bruxuleiam e o silêncio finalmente cai e pesa. É preciso ter visto as grandes chuvas e as tempestades e estado sozinho nas grandes mansões, naquelas noites em que entra o vento pelas frestas e bate as portas e janelas. E não basta ter recordações. É preciso esquecê-las quando são muitas, e ter imensa paciência de esperar que voltem... Porque antes que se tornem sangue, olhar, carne e gesto, não é possível que surja a primeira palavra de um verso. " (Rainer Maria Rylke)


Wednesday, November 13, 2019

UMA VIAGEM INFERNAL QUE NÃO FIZ

Quando eu era um pré-adolescente, um dia, meu pai que era médico (e um cientista pesquisador de doenças do sangue) me repetiu um dito que muito mais tarde eu vim a saber ser uma máxima dos anarquistas: “O mundo será bem melhor no dia que enforcarem o último comunista nas tripas do último padre”. Ele disse isso e gargalhou. A frase impactante e cruel apesar de ser dita como piada talvez fosse corroborada por ele, que na Infância e adolescência estudara em colégio de padre e adquirira um nítido anticlericalismo (talvez fruto de ressentimento) aliado a um ateísmo cientificista quase militante, ao contrário da minha mãe, católica praticante.
Muito anos mais tarde, em 1966, na chamada época da contracultura, eu já um jovem artista plástico atuante em São Paulo, não tendo herdado por temperamento o anticlericalismo do meu pai, fui procurado e recebi no meu ateliê um padre psicólogo brasileiro, recém chegado de longa temporada nos Estados Unidos, com a missão (auto-imposta ou não) de introduzir o LSD (ácido lisérgico) no meio artístico paulistano para uma pesquisa místico-científica que ele acompanhava com vista a uma tese de doutorado em psiquiatria por uma Universidade católica americana. Ele acompanhava as “viagens” que ele dizia serem altamente criativas e reveladoras quando experimentadas por artistas plásticos, pintores.
Entretanto, justiça seja feita, o que exime o tal padre de charlatanismo, ele que por seus argumentos aliciantes me deixara tentado a me submeter à experiência que já fizera com sucesso com alguns outros artistas paulistanos (como o Wesley Duke Lee, por exemplo) foi o fato de que me recomendou que eu antes me submetesse, por segurança, a um teste de Horshardt.
Procurei um Instituto conhecido, e me submeti ao tal teste cuja análise revelou “traços esquizoides de personalidade”, que me afirmaram serem comuns em artistas, já que “viajamos” imaginativamente naqueles famosos borrões. Portanto o técnico psiquiatra me desaconselhava a experiência com LSD.

Assim graças à Providência Divina, fui salvo de uma possível “bad trip” que poderia ser definitiva, desencadeando o pesadelo esquizofrênico infernal que levou ao suicídio inúmeros jovens naquela década. Meu Anjo sempre foi muito forte e presente em minha vida...

(das Memórias de Guilherme de Faria)