Wednesday, March 31, 2021

SOBRE A MINHA QUARENTENA PESSOAL (crônica de Guilherme de Faria)

 Passei grande parte da minha vida confinado dentro do ateliê, frente ao cavalete de pintura ou à mesa de desenho. Por isso a quarentena ou lockdown não me é propriamente incômoda ou estranha. Ainda na infância minha mãe tinha que me tocar para fora do meu quarto-ateliê para brincar com os moleques na rua, segundo ela para eu tomar sol, brigar e endurecer. Eu ia e voltava tendo aprendido uns palavrões que ingenuamente repeti uma primeira e única vez na mesa, ao jantar. Alguns riram, mas minha mãe ralhou: "Aqui não! Deixe os palavrões lá fora com os moleques".

Entretanto devo reconhecer que esta quarentena, como retiro forçado difere muito dos meus "retiros" voluntários ao longo da vida, porque há uma sombra que paira, que parece nos ameaçar vinda de fora e à qual, mesmo nossas residências trancadas parecem vulneráveis.
Tempos estranhos... Muita gente assustada, outras quase em pânico, outras desesperadas, outras revoltadas. Há até gente boa e culta que diga que é o princípio do Apocalipse. Quanto a mim, não sei do significado metafísico de tudo isso, mas aprendi no dia 4 de Abril de 1981 "a pôr a minha vida nas mãos de um poder superior tal como eu o podia conceber"... E garanto que isso nem demandou muita fé, e nem é simples fatalismo oriental importado. É uma outra coisa, que tem a ver com um poço, uma goela de lobo e um toco de vela cujo pavio apagado continua a queimar...
30/01/2021

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