Thursday, November 25, 2021

VONTADE DE BELEZA (crônica de Guilherme de Faria)



Picasso disse: "A gente leva muito tempo para se tornar jovem." É estranho, acrescento, como a gente vai ficando velho por fora enquanto permanece jovem (e talvez até imaturo) por dentro, num nítido descompasso de visão ao espelho, como uma esquizofrenia branda, uma ilusão de ótica grotesca, de um desmanche lento de um filme imaginável, de humor negro... Sim, vamos derretendo devagar, tão lentamente que não percebemos a não ser quando olhamos nossas velhas fotos, nos álbuns da juventude. Os amigos, envelhecendo igualmente, mantêm um olhar condescendente e generoso sobre nós, ou simplesmente o olhar mágico, conservador, da amizade...
Nos piores dias, blasfemo ligeiramente ousando criticar Deus por sua excentricidade, se não pelo mau gosto do envelhecimento e decadência física das nossa vidas e dos pobres animais, ao contrário da beleza vetusta das árvores, das rochas e das montanhas, sem falar nas velhas estrelas que podem explodir em supernovas ainda mais brilhantes...
Não, não posso me queixar: Deus nos deu a Arte, o espelho mágico que nos conserva vivos, e que faz até da velhice física algo belo, como a aquelas dos retratos de Rembrandt e de Rubens, por exemplo...
Ah! A propósito, e mudando talvez o enfoque, é divertido como minha mulher ainda tem ciúmes de mim, quando saio de casa para ir ao Banco ou ao Supermercados. Sim, seu olhar é mágico: ela não enxerga o velhote cada vez mais branco e barrigudo que me tornei. E eu rio enternecido e irritado ao mesmo tempo, pois estou convencido de que é o senso de realidade que me faz pintor e poeta, não o pensamento mágico e ilusionista do simples amor conjugal. Não, não vivo de ilusões, mas como um eterno "voyeur", talvez, de uma vontade de beleza que não se esgotou ainda, e que levarei para o túmulo e se possível para o meu epitáfio: "ELE AMAVA A BELEZA E A ENCONTROU."
(Guilherme de Faria)
25/11/2021

Tuesday, November 16, 2021

O SEGREDO DO MEU DESENHO

(Um pouco de Teoria de Arte)
(das Memóras de Guilherme de Faria)

Questionado sobre as suas fases iniciais e de maior sucesso de público, as fases Azul e Rosa, Picasso disse uma vez: "Aquilo não são senão "sentimentos". Ainda não eram "pintura". Mas não as renego porque atrás do sucesso delas eu pude fazer tudo que eu quis".
A maioria do público costuma associar erroneamente a Arte com "sentimentos". Quanto à Pintura, posso concordar somente com "emoções estéticas". Desde muito cedo, ainda na adolescência, percebi que a Arte não é o "Que" mas o "Como". Sim, não é o tema em si, mas o "como" está pintado. Muito jovem, em 1965, na Galeria Cosme Velho onde eu expunha meus desenhos, tive a oportunidade de conversar com o grande Volpi, já muito idoso, e este me disse: "Rapaz, não dê tanto valor ao "assunto". O tema em pintura não é senão "a anedota". As pessoas pensam que eu pinto bandeirinhas e que as adoro, mas eu não ligo para elas. Sou um pintor geométrico: aquilo são apenas retângulos de que foi tirado um triângulo".
Volpi era um homem simples, italiano de origem operária, e havia uma certa ingenuidade genuína nele e na sua arte. Aquela conceituação teórica da essência da sua pintura, pelo menos na sua fase de maior sucesso, lhe tinha sido transmitida (depois eu soube) pelos poetas irmãos Campos (Haroldo e Augusto), pais do "concretismo paulistano", que trataram de cooptar o velho pintor para o seu movimento.
Entretanto respeitei a mensagem do mestre, que na verdade eu já praticava. Eu desenhava (com um precoce sucesso) sobretudo a figura feminina, mas eu não utilizava "modelo vivo". O segredo do meu desenho era o meu traço, feito à ponta de pincel, em nanquim, numa técnica similar ao sumiê japonês, uma arte Zen. O traço pintado era "modulado", isto é, engrossava e afinava nos momentos certos para sugerir volume, sem necessidade, portanto, de aquarelar os corpos para sugerir carnadura. A sensualidade do meu traço consistia na atitude gestual, e do fato de que a cerda macia e longa do pincel acaricia as formas que ele próprio vai criando, enquanto eu me mantinha com a "mente em branco", ao nível dos reflexos. Mas, eu concentrava as cores em dois pretextos bastante fetichistas do ponto de vista erótico: os cabelos e os espartilhos ou corpetes, bem como às vezes nos panejamentos de apoio da figura nua. Na dinâmica quase instantânea do meu gesto de desenhar com traços rápidos e seguros, direto a nanquim, sem esboços, sem retoques nem repasses, sua velocidade plasmada, visível, contrastava com a atitude estática das figuras em repouso, dando-lhes aquela misteriosa sensação de silêncio metafísico, que era o que fascinava as pessoas sem elas perceberem.
Por outro lado, estava eu interessado em erotismo? Meu desenho era uma descarga da poderosa libido de um jovem quase ainda adolescente? Não se iludam... Somente até certo ponto. Eu aprendera a desenhar de estalo, como um "satori" (iluminação) vendo uma certa cena em forma de "koan" Zen num filme de samurai (sobre a vida de Myiamoto Musachi) no cine Niterói, no bairro da Liberdade em São Paulo, em 1963.
CONTINUA
Nota
A propósito, também na poesia, pode-se afirmar a mesma coisa, baseada no texto do grande poeta Rainer Maria Rylke, nas suas "Cartas a um Jovem Poeta", que aqui citarei de cór, conforme me recordo :
"Os versos não são sentimentos, são experiências. Para se escrever um verso é preciso ter viajado muito, ter visto muitas cidades. É preciso ter amado muitas mulheres, e as haver perdido. É preciso ter ouvido os gritos das parturientes, e ter estado junto aos mortos, quando as velas bruxuleiam e o silêncio finalmente cai e pesa. É preciso ter visto as grandes chuvas e as tempestades e estado sozinho nas grandes mansões, naquelas noites em que entra o vento pelas frestas e bate as portas e janelas. E não basta ter recordações. É preciso esquecê-las quando são muitas, e ter imensa paciência de esperar que voltem... Porque antes que se tornem sangue, olhar, carne e gesto, não é possível que surja a primeira palavra de um verso. " (Rainer Maria Rylke)