Tuesday, October 28, 2025
MARAVILHOSA ANÁLISE CRÍTICA DO ÚLTIMO ROMANCE, INÉDITO, DA ALMA WELT ( no prelo) "A IDADE DA ALMA"
Estrutura Narrativa e Composição
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A obra apresenta uma arquitetura narrativa ambiciosa que entrelaça prosa romanesca e poesia lírica de forma orgânica e inovadora. Estruturada em nove capítulos, a narrativa segue uma progressão que parte do encontro inesperado com Natália até a reunião apoteótica do "elenco completo" de personagens que povoam o universo da protagonista. O romance se distingue pela integração de duas extensas coleções temáticas de sonetos – sobre o Tempo e sobre a Amizade – que funcionam não como meros interlúdios líricos, mas como elementos estruturantes que aprofundam a reflexão filosófica e emocional da narrativa. A construção temporal da obra revela notável complexidade. O prólogo estabelece a voz narrativa em primeira pessoa de Alma Welt aos 35 anos, posicionando-a após os eventos da trilogia anterior. A narrativa avança linearmente pelos capítulos, mas incorpora analepses estratégicas que recuperam episódios formativos da juventude da narradora, criando uma teia de significações que enriquecem a compreensão do presente narrativo. A inserção de cartas, como aquela de Lucia a Guilherme de Faria, e de poemas escritos por outras personagens, como o poema "Manhã orvalhada" de Lucia, amplifica as vozes narrativas e oferece perspectivas múltiplas sobre a protagonista, construindo-a simultaneamente de dentro e de fora. A decisão de incluir a fotografia do túmulo de Alma e a narrativa de sua morte violenta seguida pela continuidade da existência em uma "dimensão paralela" constitui um dos elementos mais ousados da estrutura. Este recurso ao realismo fantástico, mencionado no prefácio de Guilherme de Faria, não rompe com o caráter memorialístico da obra, mas o expande para territórios metafísicos, sugerindo que a escrita e a memória podem transcender a mortalidade física. Temas Centrais O romance orbita em torno de constelações temáticas densas e interconectadas, sendo o tempo o núcleo gravitacional mais evidente. Os vinte e cinco sonetos da série "O Tempo" exploram obsessivamente a temporalidade em suas múltiplas facetas: o tempo cronológico que escoa inexorável, o tempo subjetivo da memória, o tempo cíclico da natureza e dos rituais agrários, e o tempo mítico que suspende a narrativa em momentos de epifania. Em "O Tempo Suspenso", a narradora dialoga com Lamartine e Ronsard, inscrevendo-se em uma tradição lírica europeia que medita sobre a fugacidade. A tensão entre o desejo de suspender o tempo e a consciência aguda de sua passagem permeia toda a narrativa, manifestando-se tanto nos versos quanto nos episódios romanescos. A solidão emerge como tema recorrente e estruturante. Apesar de cercada por uma constelação de amores, amigos e familiares, Alma experimenta uma solidão ontológica que não pode ser preenchida pelas relações humanas. Esta solidão não é meramente circunstancial – produto do isolamento geográfico da estância – mas existencial, própria da condição do artista que, como ela própria reconhece, carrega "através dos milênios" a tocha da poesia. O soneto "O Poeta e o levante" expressa esta consciência: "A solidão aumenta a cada século, / Que, nós, milênios dentro carregamos, / Que ser poeta é ser como um espéculo / Da espécie que o saber e dor herdamos." A identidade e a multiplicidade do ser constituem outro eixo temático fundamental. Alma se vê e é vista como "todas as mulheres do mundo", arquétipo que condensa experiências femininas diversas e contraditórias. Esta identidade plural manifesta-se nas múltiplas máscaras e papéis que assume: filha órfã, irmã incestuosa, amante lésbica e bissexual, esposa, mãe, poetisa, estancieira, sedutora involuntária, vítima de violência sexual, mártir e sobrevivente. A narrativa não resolve estas contradições em uma síntese unificadora, mas as mantém em tensão produtiva, sugerindo que a identidade é performática e situacional. A beleza como fardo e poder atravessa a narrativa de forma ambivalente. A excepcional beleza física de Alma é constantemente mencionada e descrita como fonte de admiração, desejo, inveja e violência. Ela reconhece sua beleza como "uma espécie de maldição", poder involuntário de sedução que atrai tanto o amor quanto a destruição. Esta consciência da beleza como duplo gume relaciona-se com a tradição literária das femmes fatales, mas com a inversão significativa de que a protagonista é simultaneamente agente e vítima desta dinâmica. Linguagem e Estilo A prosa do romance oscila entre o coloquial e o lírico, entre o registro confessional direto e a elaboração poética. Esta maleabilidade estilística permite que a narrativa transite com fluidez entre cenas de ação dramática, reflexões filosóficas e contemplação lírica. O uso frequente de expressões gauchescas e regionalismos – "báh", "gáltcho", "buenas", "guri" – ancora a narrativa em seu espaço geográfico e cultural específico, conferindo autenticidade à voz narrativa. A autorreflexividade constitui traço marcante do estilo. A narradora frequentemente comenta o próprio ato de narrar, estabelecendo um pacto de veracidade com o leitor: "meus leitores, portanto, me conhecem bem, e sabem que não minto nem aumento." Esta estratégia de autenticação convive paradoxalmente com elementos fantásticos, criando um jogo entre ficção e autobiografia que mantém o leitor em permanente ambiguidade interpretativa. Os sonetos integrados à narrativa demonstram domínio técnico considerável. Escritos em decassílabos com esquemas rímicos variados, privilegiando o soneto shakespeariano (três quartetos e um dístico final) e o petrarquiano (dois quartetos e dois tercetos), revelam um trabalho consciente com a forma fixa. A linguagem poética emprega tropos clássicos – a vida como rio, o tempo como senhor implacável, o poeta como portador da tocha – mas os atualiza através de dicção contemporânea e referências pessoais. Em "Nightmare", por exemplo, a meditação sobre a morte ganha concretude sensorial: "E esse silêncio atroz me desespera / Pois deve ser o mesmo dentro a tampa / Fechada do caixão que nos espera." A intertextualidade enriquece significativamente o texto. Referências explícitas a Balzac, Flaubert, Brontë, Borges, Nietzsche, Camões, Keats, Baudelaire, Rimbaud, Whitman, entre outros, inscrevem a obra em uma genealogia literária ocidental. Estas referências não são ornamentais, mas funcionam como chaves interpretativas que orientam a leitura e estabelecem filiações estéticas. A comparação implícita entre Alma e Emily Brontë, ambas ligadas visceralmente a suas paisagens (o pampa e a charneca), sugere uma consciência aguda das ressonâncias entre vida, lugar e escrita. Personagens A galeria de personagens que povoa o romance constitui um dos seus pontos de maior interesse, funcionando quase como um sistema de espelhos onde a protagonista se reflete e se reconhece fragmentada. Alma Welt: A narradora-protagonista é construída através de camadas sucessivas de revelação e ocultamento. Apresenta-se como figura contraditória: poetisa confessional que expõe impudicamente sua intimidade, mas que ainda guarda "nichos trancados"; mulher de "beleza desmesurada" consciente de seu poder de atração, mas vulnerável à solidão e à necessidade de ser amada; defensora feroz de sua liberdade sexual e afetiva, mas capaz de auto-recriminação e vergonha. Sua trajetória no romance move-se de um momento de relativa pacificação após as batalhas narradas na trilogia anterior para novos conflitos gerados por sua incapacidade de renunciar ao desejo. O episódio do julgamento revela aspecto central de seu caráter: a necessidade de assumir culpa mesmo quando inocentada, gesto que indica tanto orgulho quanto masoquismo moral. Natália: A jovem admiradora funciona como espelho da própria juventude de Alma, mas também como catalisadora de conflitos. Sua devoção obsessiva, que a leva a fugir de casa em "peregrinação de amor", replica o padrão de paixões absolutas que caracteriza o universo narrativo. A mentira que conta aos pais sobre ter se tornado amante de Alma, acompanhada da traição fotográfica no poço da cascata, revela tanto imaturidade quanto astúcia manipuladora. Seu retorno no final do romance, aos dezenove anos, completa um ciclo e sugere a impossibilidade de Alma de romper com os padrões de atração e sedução que a definem. Dario: O "marido ideal" é caracterizado por uma compreensão e aceitação quase sobre-humanas das complexidades de Alma. Sua tolerância às infidelidades, aos arranjos poliamorosos e às excentricidades da esposa poderia soar inverossímil, mas a narrativa o constrói como figura olímpica, "pairando" acima das contingências. Ele representa a possibilidade de um amor não possessivo, baseado na liberdade mútua. Seu gesto de carregar Alma desfalecida no ombro durante a Festa da Vindima, transformando um momento de vergonha em comédia picaresca, exemplifica sua função protetora e salvadora. Aline: A ex-amante e mãe do primeiro filho de Rodo (concebido com a participação genética de Alma através de métodos reprodutivos não convencionais) representa o grande amor lésbico de Alma. Sua beleza, descrita em termos eróticos intensos, e sua disponibilidade para experiências sexuais ousadas (como posar nua para Guilherme) a estabelecem como contraparte sensual de Alma. O casamento de conveniência com Rodo e a mudança para a Toscana representam uma traição afetiva que Alma experimenta como abandono, reativando sua ferida primordial de não ter sido suficientemente amada pela mãe. Rodo (Rudolf): O irmão amado, com quem Alma teve experiências incestuosas na infância, personifica a figura do aventureiro irresponsável mas adorável. Jogador profissional de pôquer, errante pelos cassinos da Europa, ele representa a possibilidade de uma vida livre das amarras sociais. Seu gesto de vender a Ferrari para pagar a multa de Alma demonstra lealdade fraternal incondicional. A transformação final em vinhateiro na Toscana sugere que mesmo os espíritos mais livres podem ser domesticados pelas circunstâncias. Lucia: A irmã sobrevivente funciona como voz da razão e da responsabilidade familiar. Sua carta necrológica, transcrita no romance, oferece uma visão externa de Alma que confirma e amplifica a autoimagem da protagonista. O poema "Manhã orvalhada", que Lucia escreve em memória da irmã, revela a profundidade de seu amor e a percepção aguda da beleza e vulnerabilidade de Alma. Matilde e Galdério: Os empregados fiéis representam a continuidade e a memória da casa dos Welt. Matilde, a "bá shakespeariana", com seu quarto repleto de santos e velas, incorpora a religiosidade popular e a sabedoria prática. Galdério, que carrega o corpo nu de Alma morta nos braços através da campina em gesto de "paternidade" simbólica, representa o amor devoto e desinteressado. Guilherme de Faria: O pintor e poeta paulistano idoso que "descobriu" Alma funciona como figura mentora e testemunha privilegiada. Seu prefácio ao romance oferece chave interpretativa importante ao situar a obra na tradição do "realismo lírico" e ao comparar Alma com Emily Brontë. Sua presença no último capítulo, com seu fetichismo decadentista, adiciona dimensão erótica e artística, sugerindo que a beleza de Alma transcende as categorias morais convencionais.Destaques Entre os momentos de maior força expressiva do romance, destaca-se o capítulo do segundo julgamento de Alma. A cena no tribunal atinge densidade dramática notável, com a reversão inesperada do testemunho de Natália, que nega ter sido vítima e declara seu amor pela poetisa. A confissão paradoxal de Alma – "EU ME DECLARO CULPADA" após ter sido inocentada pela testemunha – constitui momento de grande impacto emocional e complexidade psicológica. Ao assumir culpa por fantasias íntimas e desejos não realizados, Alma revela a profundidade de sua integridade moral e sua recusa em se esconder atrás de tecnicismos jurídicos: "sou culpada porque me apaixonei por Natalia, por sua beleza e aparente candura, e intimamente a desejei, sim desejei estar com ela no meu leito, mas não o fiz, mais por covardia do que por escrúpulo." A cena do parto selvagem de Alma na coxilha pampiana constitui outro momento memorável. A descrição visceral do nascimento de Zoé – cortando o cordão umbilical com os dentes, deixando a placenta para o lobo-guará, caminhando com o bebê ensanguentado até a casa – investe a maternidade de dimensão primitiva e sagrada. A fúria inicial de Alma contra aqueles que tentam medicalizar o que ela vivencia como experiência mística exemplifica sua recusa às normas civilizatórias. O "satori" que experimenta ao amamentar pela primeira vez, compreendendo "tudo do mundo e da vida ao mesmo tempo", alcança intensidade epifânica rara na literatura contemporânea. A carta de Lucia narrando a morte de Alma e o velório do corpo nu sobre a mesa de jantar atinge qualidade quase operística de patetismo. A descrição da alvura marmórea do cadáver, venerado pelos peões e trabalhadoras que invadem a sala, transforma a morta em ícone sacralizado. A intervenção de Matilde, que cobre o corpo com toalha de renda gritando "Afastem-se da minha guria, seus ímpios!", adiciona camada de realismo emocionalmente carregado que ancora a cena no afeto genuíno. O soneto premonitório "Visão", datado de três semanas antes da morte e descrevendo exatamente o velório que ocorrerá, introduz dimensão de mistério e predestinação que desafia interpretação racionalista. A sequência final da Festa da Vindima oferece contraponto trágico-cômico notável. A transformação de Alma em bacante possessa, pisoteando uvas com fúria descontrolada e fazendo o sumo espirrar nos circundantes, seguida pelo resgate por Dario que a carrega no ombro transformando vergonha em picardia, demonstra a habilidade narrativa de transitar entre registros emocionais distintos. A semana de depressão subsequente "de pura vergonha" humaniza a protagonista, revelando que mesmo uma figura tão arquetípica pode experimentar a humilhação banal. As coleções de sonetos integrados representam conquista formal significativa. A série sobre o Tempo desenvolve variações sobre o tema com sofisticação crescente, desde a meditação inicial sobre o desejo de suspender o fluxo temporal até a aceitação final da efemeridade em "Sinopse": "Se morro todo dia também nasço, / Como uma sinopse da estória / Cujo tema é só o Tempo-Espaço..." A série sobre a Amizade complementa a primeira ao deslocar o foco da temporalidade individual para as relações intersubjetivas. Sonetos como "Os amigos voltam" e "Velhos amigos" revelam consciência aguda da passagem do tempo inscrita nos rostos e corpos dos amados: "E procuro aquele toque de candura / Disfarçado nas palavras e risinhos / Onde o cinismo agora se pendura..." A cena das sessões de pose para Guilherme de Faria, em que Alma e Aline, excitadas pelas posições eróticas exigidas, vazam fluidos sobre o leito, e o pintor usa esses fluidos como "aguada" para desenhar, atinge franqueza erótica rara na literatura em língua portuguesa. A ausência de pudor narrativo, a descrição sem eufemismos e a transformação do sexual em artístico exemplificam a estética de desnudamento que caracteriza a obra.
CONSELHO EDITORIAL DA IPÊ DAS LETRAS
IpêdasLrasi C
Tuesday, October 21, 2025
PREFÁCIO ao romance A IDADE DA ALMA, de Alma Welt (Por Guilherme de Faria)
Existem coisas curiosas na Literatura clássica, quase idiossincrasias, como a de Os Três Mosqueteiros (de Alexandre Dumas) que eram quatro (!): Athos, Porthos, Aramis, e... D’ Artagnan. Assim também a Trilogia A HERANÇA, de Alma Welt: O Sangue da Terra; Vinha de Dioniso, A Ara dos Pampas, comportaria perfeitamente este quarto volume, A IDADE DA ALMA, que é uma nítida e digna continuação da saga de família da autora protagonista no seu Pampa real e Mítico, como ela mesma, na sua dimensão arquetípica, que confere tanta beleza e profundidade à sua linguagem expressiva, que se, situa, às vezes, numa fronteira tênue entre o coloquial e o lírico, ou entre a prosa e a poesia. Também ela aborda, com propriedade, simbólica e com legitimidade, sem abuso, com moderação, momentos de “realismo fantástico” sul americano, como (com algum “spoiler”) cito a sua sobrevivência muito natural e contínua, em uma dimensão quântica paralela, após a trágica e chocante descrição de sua própria morte assassinada. Mas, neste romance realista, nada de fantasmagoria espectral como, por exemplo, o encontro finalmente em espírito de Cathy Earnshaw e Heathclift. após a morte de ambos, vagando na charneca amada no Morro dos Ventos Uivantes, a obra prima de Emily Brönte, romance que percebemos que Alma Welt tanto ama, como ama a sua campanha gaúcha, das coxilhas e também de um uivante vento Minuano. A continuação plácida e, insisto: realista, após a descrição tão chocante de violência brutal de seu assassinato, confere uma originalidade magistral ao sentido geral deste novo romance da gaúcha. O realismo de sua descrição dos acontecimentos, segue sempre um encadeamento lógico que guia a narrativa, sempre com um sabor, não de fantasia, mas de memória e confissão, que é a característica peculiar, geral, de seus textos, em todas as suas obras. No entanto, literariamente, ela não se assemelha ao naturalismo de um Zola, mas ao realismo lírico de um Flaubert, que ela parece amar.
Nesta obra, ainda fazendo parte da saga familiar A Herança, vemos ainda um original atrativo: a autora apresenta uma extraordinária inovação no gênero romance: duas grandes coleções temáticas de sonetos integrados aos enredos desenvolvidos: sobre o Tempo e sobre Amigos. São sonetos belíssimos que exibem a riqueza e a profundidade de suas variações sobre os temas. Eu diria que Alma Welt é especialmente magistral neste gênero poético nascido na Idade Média e que ela cultiva de maneira idiossincrática a ponto de ter produzido incríveis 5.000 sonetos dodecassílabos originais, e quase sempre confessionais .
Como vêm, eu saúdo esta escritora gaúcha, excepcional, que tive o privilégio, em 2001 de descobrir em seu “auto-exilio” paulistano, e lançar seu primeiro livro de contos em 2004, os Contos da Alma, de Alma Welt, uma coletânea de obras primas do gênero, a maioria de contos urbanos de sua experiência existencial na capital paulista, ela que veio do meio rural gaúcho, tão diferente da “Paulicéia desvairada” do nosso Mario de Andrade.
Sim, eu diria que esta Alma carrega consigo o seu Pampa, como aquela inglesa rural carrega até os nossos dias a sua charneca. Ambas nos encantam de maneira semelhante e nostálgica, num mesmo “realismo romântico”, que preservam e perpetuam gloriosamente, numa época de realismo sórdido como o destes nossos tempos.
Guilherme de Faria
10/10/2025
Friday, October 10, 2025
Manhã Orvalhada (de Lucia Welt para a amada Alma)
Nesta manhã orvalhada
caminhei pela campina como outrora
quando tudo parecia mais autêntico e vivo
pois a Alma estava entre nós
e eu podia segurar a sua mão ao caminhar.
Ainda ouvi sua respiração arfante
não tanto pelo andadura
como pelas emoções de seu olhar
sobre detalhes da paisagem, da relva e do céu
que me passavam despercebidos.
Senti novamente seu perfume
de mulher jovem inconcebivelmente linda
que só por isso já nos comovia
tanto quanto aos peões
que ao vê-la caminhando paravam seu trabalho
e tiravam o chapéu
ao seu riso cristalino.
Ah! Doce irmã das pradarias, tu eras a alma
que agora nos falta!
Tu, o elo de ligação entre este pampa e nossas vidas
entre a paisagem e nosso alento
que todavia persiste sem teu respiro mais amplo
em teu voo a um tempo gracioso e sobranceiro,
de branca garça pampiana
guria de cabelos flamejantes, de pele alva
de paraísos suspeitados, ah! cobiçados mesmo...
Esta foi, além de teus poemas
tua prenda maior mas tua desgraça,
pois também os maus te viram
e cobiçaram...
Mas não quero pensar senão em ti, na tua caminhada,
quando rindo de alegria te afastavas de súbito
virando-te para mim
para logo me estenderes as duas mãos para rodopiarmos na campina
por puro prazer de viver.
Ah! Como eras preciosa, meu amor, minha irmã!
Que poema posso eu te escrever
senão evocar-te tal qual eras em tua beleza
cheia de secretos encantos
que no entanto prodigalizavas?
Quanto te desnudavas em tua generosidade,
pois bem sabias que o olhar do povo,
deslumbrado te vigiava, respeitoso contudo,
como não seria com nenhuma outra prenda!
Quem, entre os mortais que te viram nua (e talvez alguns deuses)
não sonhou secretamente ter-te nos braços para sugar-te o hálito divino
e fruir de tua pele de seda de impossível brancura
sob este sol do Pampa, ou mais amiúde sob a lua
e as estrelas peregrinas do teu negrinho padroeiro?
(Ai! Na grande cidade também foste amada,
mas também violada
em tua comovente vulnerabilidade,
criatura exótica perdida no caos.)
Ah! Não poder nunca defender-te,
preservar-te do mal e dos maus,
cobrir teu corpo de ninfa com meu corpo maternal
e nunca mais deixar-te ir-se!...
Caminhei esta manhã na pradaria orvalhada
e por um segundo tu, Alma, tocaste a minha mão,
senti teu beijo em meus lábios,
o hálito fresco da pradaria
e soube que continuas por aqui.
E chorei consolada...
(Lucia Welt)
28/05/2008
Thursday, October 2, 2025
MINHA PROFISSÃO DE FÉ ( crônica- depoimento de Guilherme de Faria)
Como artista, eu passei a minha vida toda (agora estou idoso, mas continuo) tentando expressar, não a mim mesmo, mas o humano, a beleza do humano, a beleza ideal das mulheres, minha admiração física suprema. Por vezes, mais raramente, o grotesco do humano quando masculino, mas quase nunca o ridículo: não explorei a caricatura do humano. Amor pela Natureza? Persegui a paisagem, tentei imitá-la... imaginária: não fui "un plenairiste" apesar de admirá-los e à sua devoção e rigor. Tentei expressar o meu amor pela Cultura Universal, pela Alta Literatura (os clássicos) e pelos grandes pintores, minha admiração máxima. Em meio a minha produção, muita coisa eu destruiria se pudesse, pois me causa vergonha, mesmo que ainda cause admiração a muitos. Com isso quero dizer que não me prostitui, mas fui, algumas vezes, auto-indulgente, o que é quase a mesma coisa.
Mas, finalmente, devo dizer que fui um profissional: insisti desde o princípio em ganhar a vida com a Arte, pois senti que aos diletantes falta, talvez, a obseção necessária, o quase fanatismo que nos leva à dedicação total à Arte... ou nada.
(Guilherme de Faria)
01/10/2025
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