Monday, December 6, 2021

Das CRÔNICAS DO SILÊNCIO II (de Guilherme de Faria)



Nestas manhãs melancólicas (serão as manhãs ou serei eu?) eu abro as persianas de rolo, cedinho, e olho lá embaixo a minha Oscar Freire, que ainda não está enfeitada para o Natal, e logo lembro daquele verso de Fernando Pessoa: "em dias tristes como sentir-se viver..." Não, não sou e nunca fui um depressivo como o seu Álvaro de Campos, e daqui a pouco estarei retocando o meu novo quadro lançado, uma bela e torturada árvore solitária no meio da neblina. A propósito, não queiram ver nela um disfarçado autorretrato... É pura fantasia pictórica, mera procura da plasticidade, que é o que motiva realmente os pintores.
Enquanto preparo o meu café, aguardo minha mulher, a Eliana, acordar, para dizer-lhe sempre as mesmas palavras, e depois de saudá-la carinhosamente, como um ritual jocoso propor-lhe: "Vamos falar do Tempo? Como é bom falar do tempo!" E ela sorri condescendente, seu belo sorriso que me acompanha nos últimos vinte e sete anos...
Como disse na crônica de ontem, já não me resta muito a dizer e começo a entrar naquela agradável falta de assunto que acompanha a rotina crescente da velhice. Como é bom já não ter muito o que dizer! Principalmente por ter vivido muito e dito quase tudo o que eu pude, o que a vivência e os bons modos me permitiram. Vocês repararam que eu nunca na vida escrevi um palavrão?
Da Simone de Beauvoir, que eu nunca li, me lembro de um título sugestivo de um livro seu: "Memórias de uma moça bem comportada", e lembro, ao contrário, como fui um moço mau comportado, sem nunca dizer palavrões ou apelar para a vulgaridade... Ah! Isso não! Em compensação, igualmente sem ter lido, me identifico com aquele título do livro (de memórias?) do poeta galês Dylan Thomas, que se suicidou e cujo nome, em homenagem, foi adotado pelo Bob Dylan: "Retrato do Artista quando Jovem Cão", parodiando o título do famoso livro de James Joyce, "Retrato do Artista quando Jovem".
Reparem que até aqui eu continuo fiel à minha nova proposta de escrever crônicas sobre nada, e consequentemente sobre tudo, num processo de livre associação de ideias, recomendada no divã pelos psicanalistas de outrora. Divagando, divagando, me reencontro comigo mesmo num novo autorretrato: "Retrato do artista quando velho."
Ou não... (como dizia o Caetano, quando era interessante e a gente não percebia que ele era socialista caviar... rrrrrrsss

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