Wednesday, August 26, 2020
FRAGMENTOS DE UMA SAGA (das Memórias de Guilherme de Faria)
Mas, retomando, em 1968, no auge da ditadura, os inimigos do Baccaro, seus rivais invejosos de seu sucesso no Mercado de Arte, armaram para ele o acusando falsamente de promover festas orgíacas com drogas em sua "mansão", na verdade um sobrado grande mas modesto na rua Bela Cintra abaixo da Oscar Freire, onde hoje é o restaurante Le Lapin Rouge. Baccaro amargou quase dois meses de prisão e perdeu seus"amigos "colecionadores" que evaporaram diante de sua desgraça,
Baccaro saiu profundamente desiludido com as mentiras do Mercado de Arte, e decepcionado com seus falsos amigos num momento de desgraça, menos comigo que tive o privilégio de emprestar a ele para que pagasse o advogado uma grande quantia em dinheiro da venda de um ap que eu tinha adquirido em sociedade com a Jomara, minha companheira; e com o colecionador Luiz Arrobas Martins, homem de grande caráter, que, arriscando sua reputação, escreveu uma carta de recomendação a favor do Baccaro que a necessitou para sair da prisão. Baccaro saiu e, grato, veio me pagar de uma vez a quantia toda que lhe emprestei (amor com amor se paga).
O italiano, com essa experiência que poderia ser traumática, sendo muito forte teve uma profunda modificação espiritual, um verdadeira epifania e se voltou para o Cristianismo católico de suas raízes rurais, de pastores dos Abruzzi e se tornou, além de um filantropo, um vegetariano convicto e, na verdade, extremado. Foi para Olinda onde fundou e montou a Fundação Casa das Crianças de Olinda"para fornecer quatro refeições por dia e ensino de profissões artesanais e artes populares (pintura, escultura,santaria, tecelagem, cerâmica, teatro de rua, de arena e de mamulengos, música, e até cordel) às crianças de um mocambo ex "Vila dos Piolhos". Baccaro sustentou durante quarenta anos essa Fundação que criou sozinho, com a venda, até o seu esgotamento, de seu acervo milionário de obras do modernismo brasileiro e pinturas religiosas da "escola cuzquenha" (do Perú colonial) da melhor estirpe, autênticos dos séculos XVI, XVII e XVIII, que ele comprara em quantidade, sem molduras e fora dos chassis, das mãos de "fornecedores" em São Paulo, no auge do fenômeno de "exportação" dessas para o próspero Mercado de Arte brasileiro .Nesse filão dos cuzquenhos, que ele contratou entalhadores de grande destreza para fazer as molduras de estilo barroco tipicas, para aquelas telas) ele foi ajudado nas vendas pela marchand e decoradora pernambucana do Recife, Janete Borsoi, que ganhava comissão para colocá-los na suas decorações de solares dos pernambucanos ricos de Casa Caiada. A propósito Baccaro acabou se casando pela quarta vez (?) com a filha da Janete Borsoi, com quem teve também filhos. Baccaro teve muitos filhos, de diversas mulheres. Conheci em Olinda, quando ali vivi por quatros anos (de 1970 a 1974) a seu convite, ainda pequenos os que ele teve com a italiana Fiorella Giovagnolli, que antes fora casada com o cineasta Hector Babenco nos seus começos, o Thomas e o Mateus (este, pintor, que morreu tragicamente há dez anos atrás). O mundo dá voltas: Thomas, excelente artista fotógrafo e também marchand, agora na casa dos quarenta, é meu amigo aqui no facebook há alguns anos...
CONTINUA
CONSIDERAÇÕES PANDÊMICAS II (de Guilherme de Faria)
Entretanto, a conclusão é de que os poderosos deste mundo, que manipulam a pandemia e a quarentena, sabiam poder contar com esses paliativos para evitar a rebelião das massas, já que o objetivo deles é calá-las enquanto estabelecem firmemente através da destruição das Economias e soberanias nacionais as bases da sua Nova Ordem Mundial. Não é "teoria da conspiração". É fato. Mas o alarmante é também o fato, denunciado por muitos comentaristas conservadores, de que essa Nova Ordem está promovendo um "sutil" genocídio através dessa mesma pandemia e a perspectiva de uma suspeita vacinação assassina em massa, que faz parte de sua agenda, em prol da diminuição da população mundial (!!!).
Entre a lucidez política e a paranoia inevitável que nos traz o terror, e de outro lado os prazeres lúdicos e culturais da Era da Comunicação, permanecemos confusos e perplexos, na verdade, impotentes, como nós, o povo, raramente o fomos através da História...
25/08/2020
Guilherme de Faria
Monday, August 24, 2020
SEM CÃES NEM GATOS (das Memórias de Guilherme de Faria)
Mas, voltando ao aspecto geral do sonho projetado de minha mãe, ao contrário da figura solitária imaginada (talvez por secreto ciúmes de seu queridinho) me vejo agora "casado" há 25 anos com a Eliana, união que deu certo, além do companheirismo realmente existente por ser fruto de uma afinidade profunda e inusitada, além de uma tolerância e prudência maiores, adquiridas com a idade, sem cachorro nem gatos (falarei destes numa outra crônica). E certamente sem a solidão no seu aspecto deprimente, o qual, de tão extremo, reparem, nem foi incluído por Deus na punição e exílio de Adão e Eva...
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24/08/2020
(Guilherme de Faria)
Sunday, August 23, 2020
Saturday, August 22, 2020
DOS OLHOS PARA PINTURA (crônica de Guilherme de Faria)
Quando eu morava em casas, casado, frequentemente as visitas familiares ou sociais da minha mulher do momento, muito mais frequentes que as minhas, jamais sequer olhavam para as minhas obras que cobriam as paredes, como se nada houvesse ali, e nem se interessavam em me conhecer, indo direto conversar sobre futilidades com a minha mulher. Confesso que eu me enchia imediatamente de um desprezo intimo e secreto por aquelas pessoas medíocres, que eram tão apreciadas pelas minhas mulheres, e que deviam igualmente me desprezar como um esquisitão anti-social, ou sei lá o quê, jamais saberei. Tais características fizeram de mim um indivíduo intrinsecamente solitário, só capaz de alguma amizade por outros artistas de quem eu admirasse a obra.
Para falar a verdade eu nunca deveria ter constituído família, pois tal coisa era algo estranho ao meu temperamento e aos meus verdadeiros interesses. Resultado: confesso que fracassei redondamente como homem de família, marido e pai.
Continuo a perseguir o mesmo sonho de infância de me tornar um pintor quando crescesse, e estou quase chegando lá. Se tudo der certo, apesar de tantos descaminhos; fraquezas, desvios e atalhos, eu ainda me tornarei um pintor completo para mim mesmo, para o meu próprio gosto e aprovação. E pintarei um dia, finalmente, o quadro que ficarei olhando, olhando, ao deixar esta vida...
(Guilherme de Faria)
22/08/2020
PINTOR, PINTA ! " (crônica de Guilherme de Faria )
Entretanto, é preciso reconhecer que cada um constrói a sua biografia com os elementos que lhe são dados por destino, e não adianta lamentar as desvantagens de saída nem se orgulhar dos eventuais privilégios. Foram tantos os artistas que tiveram que lutar com a pobreza, com a miséria mesmo, e que no entanto deixaram uma obra imensa e admirável! Não preciso nem citá-los.
Salvador Dali, do qual admiro mais o humor e a obra escrita, escreveu nalgum lugar uma notável lista dos "Mandamentos do Pintor", em que o primeiro mandamento é simplesmente:
"Pintor, pinta!"
Muito nos dispersamos, e frequentemente caímos na esparrela de acreditar nos cânones da sociedade burguesa, que, por sua vez, só acredita na Arte consagrada, que é sempre a dos falecidos e cumpridos, nunca a de seus loucos filhos, jovens sonhadores. Uma das várias sogras que tive na vida, se referindo a um jovem namorado de uma outra de suas filhas disse com desprezo: "Ela perde tempo com um rapaz que canta umas músicas esquisitas que ninguém fez... "(o rapaz em questão, compunha as músicas que cantava ao violão). Na ocasião ri muito com a frase naïve da digna senhora, independente do fato de que as composições do rapaz eram muito ruins mesmo...
Quando, a certa altura, depois de um período longo de miséria e de secretas humilhações (que jamais revelarei) comecei a vender regularmente os meus "trabalhos", senti que comecei a ser levado a sério.
Entretanto, o que sempre me moveu não foi o dinheiro como forma de sobrevivência, mas uma ambição muito maior, a de simplesmente ser pintor, que sempre me pareceu a maior ambição do mundo, quase irrealizável, como arrasar uma montanha, dado que o mundo da pintura teve tantos titãs, ou verdadeiros deuses inalcançáveis, como Leonardo, Rafael, Ticiano, Caravaggio , Rembrandt, Vermeer, Turner, Manet , Monet, Van Gogh, Gauguin, Hopper, Wieth e na verdade uma plêiade inumerável de deuses de um Olimpo inatingível.
Não os atingi, portanto, nem cheguei perto, mas posso dizer que afinal cheguei a ser um pintor e poeta, pequeno, orgulhoso e humilde ao mesmo tempo... mas um artista, que posso exigir de mim mesmo:
PINTOR, PINTA! ... e, POETA, ESCREVE!
Guilherme de Faria
22/08/2020
Friday, August 21, 2020
CONSIDERAÇÕES PANDÊMICAS (crônica de Guilherme de Faria)
Thursday, August 20, 2020
VISITANDO SOCIALMENTE UM ANALISTA (das Memórias de Guilherme de Faria)
"Você, Guilherme, quando está pintando, gosta de botar a mão nas tintas, manuseá-las direto com as mãos?"
E sua mulher reiterou, ilustrando com as mãos: "Assim, mexer nelas com os dedos, melecando-os?"
Eu, que era jovem mas não era bobo, e lia muito, percebi logo que o casal de psicanalistas estava querendo comprovar comigo a tese freudiana de que os pintores são pessoas fixadas na fase anal do desenvolvimento psico-sexual, e que por isso gostam de manipular as tintas pastosas como as crianças nesta fase gostam de mexer com as mãozinhas as próprias fezes. Então respondi:
"Mexer nas tintas com as mãos? Hummm... não, não gosto. Eu gosto mesmo é de fazer isso com as minhas fezes..."
Foi um gargalhada geral. E o psicanalista, ainda rindo me estendeu a mão para me cumprimentar. Sem nojo, me pareceu...
19/08/2020
Guilherme de Faria)
Sunday, August 16, 2020
ESCLARECIMENTO TALVEZ INÚTIL (crônica de Guilherme de Faria)
O curioso é que a Vania, com uma bela filha já moça que está morando na França, se tornou minha amiga há uns dois anos aqui no facebook, está acompanhando assiduamente sua história comigo narrada em capítulos e até agora parecia (e dizia) estar gostando muito. Vejam como a vida dá voltas...
Esclareço também que eu tenho um enorme carinho e mesmo gratidão por todas as ex-mulheres da minha vida, e que as admiro tanto, seres tão diversos de nós homens, a ponto de ter criado um heterônimo literário feminino em 2001, a gaúcha pampiana universal Alma Welt (Anima Mundi), prosadora e poeta com quatro romances, centenas de contos, vinte e.books pela amazon, um livro de papel de contos publicado por editora em 2004, crônicas, 500 hai-kais e nada menos que 5.000 sonetos, tudo publicado na Internet em 50 blogs para caber tão prolifera obra, já "cult" e amada por um público seleto. No entanto é interessante notar que a minha Alma Welt, sendo meu heterônimo, é também minha "anima", no sentido junguiano do termo, e portanto minha musa perfeita, o que faz como que minhas ex-mulheres detestem a priori esta minha espécie de auto-suficiência específica (rrrrsss) e tenham quase todas uma atitude de "não li e não gostei", afinal, compreensível, já que elas é que reivindicam secretamente, creio, o titulo de "musas" do artista que passou, embora desastradamente, por suas vidas. Apenas a Eliana, minha mulher há já ininterruptos 25 anos (desde 1994) gosta da Alma Welt a ponto de eu ter reservado para ela, por sua escolha, as postagens dos hai-kais da poetisa.
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16/08/2020
Saturday, August 15, 2020
OS DESASTRES DA IDADE DO LOBO (das Memórias de Guilherme de Faria)
Estávamos no ano de 1993, e eu estava há alguns anos sozinho, sem namorada, e comecei a sentir os primeiros sinais de depressão, já que nunca pude viver sem uma mulher ao meu lado, como já antes confessei. Para piorar, eu estava entrando na chamada "Idade do Lobo" quando os cinquentões ficam vulneráveis às paixões por mulheres muito jovens, às vezes até "ninfetas" (vide o romance Lolita, de Wladimir Nabokov).
Eu estava tão a perigo que resolvi investir na conquista de uma jovem vizinha catarinense, do andar de cima, com quem eventualmente cruzava no elevador e que parecia flertar comigo com seus belos olhos verdes de gata, malgrado uma pele do rosto deplorável pela acne visivelmente de fundo emocional, confessadamente.
Um dia ela me convidou para ir a um barzinho de mesas na calçada e ali ela pediu vodka pura, enquanto eu, abstêmio desde 1981, pedi o que ela considerou um ridículo refrigerante. Como isso aconteceu mais de uma vez percebi que ela era uma alcoólatra no primeiro estágio. Um dia fui convidado por ela para tomar um café em seu apartamento, quando então instigado pelo charme dúbio que me lançava, tentei transar com ela, encontrando uma forte resistência, igualmente dúbia pois entremeada de suas gargalhadas às minhas tentativas de vencer o verdadeiro cinto de castidade que era o jeans forte, muito justo e inexpugnável que ela talvez premeditadamente vestia. Frustrado em meu desejo desisti, e me retirei de seu apartamento, ouvindo suas desculpas por não não estar "pronta" pois estava saindo dolorosamente de uma relação com um namorado, que durara anos.
Dei por encerrado dentro de mim tal "projeto" amoroso, após essa tentativa frustrada.
Foi então que comecei a notar na Gráfica Glatt-Ymagos onde eu ia diariamente fazer minhas litografias desde 1974, a presença recente de uma moça de 33 anos, desenvolta e independente, muito sensual, de bela cabeleira ondulada escura e corpo bonito muito branco, mignon, que tinha sido contratada como competente preparadora de serigrafias, departamento que a Ymagos tinha acabado de abrir, além do de gravura em metal.
Enquanto eu desenhava nas pedras litográficas da Bavária, ela, na mesma sala preparava, cortando com estilete folhas de acetato para fazer as máscaras ou fotolitos manuais para as serigrafias de pinturas encomendadas por artistas a ela. Nessas horas trocava comentários e brincadeiras com ela, bastante desbocada e divertida, entre os poucos artistas que compartilhavam a sala.
Comecei, por minha vez a jogar charme. Ah! Se eu pudesse prever o que iria acontecer daí por diante...
Eu estava com 51 anos, e me achava velho. Tinha parado de beber e fumar havia já treze anos. Estava com a sobriedade estabilizada e a considerava garantida, mas a poderosa libido da Idade do Lobo me pegou. Eu precisava transar logo ou morreria, assim sentia.
De repente apaixonei-me por aquela garota, da qual nada sabia, somente que era de um meio social diferente e que trabalhava desde menina, e vivia às suas próprias custas, sem contar contar com pai (militar) nem mãe, que esta ela perdera cedo (de câncer), saindo adolescente grávida, de casa, imediatamente à morte da mãe.
Eu estava, como disse, apaixonado, e numa fase sem dinheiro, pois o mercado de litos praticamente acabara depois do plano Collor.
Então dentro de um novo projeto amoroso que se descortinava, confidenciei-me na Gráfica mesmo com a minha amiga Cecília Suzuki que achou graça na minha paixão tardia e súbita recaída em adolescência, e me emprestou dinheiro para eu enfrentar um período sem produtividade ou proventos que previmos que me ocorreria. Assim, em seguida, curiosamente na presença da minha amiga Cecília, declarei-me à garota preparadora, que para minha surpresa, não me rejeitou, ao contrário parecia apaixonada também por mim. Saímos juntos da gráfica, já aos beijos no táxi rumo ao meu pequeno ateliê na Oscar Freire. Quando abri a porta do ap, ela não simplesmente entrou, mas graciosa e afoitamente invadiu e tive a visão e impressão inesquecível que ela explodiu suas roupas atirando-as ao ar, deixando o rastro delas, sapatos, blusa, saia, calcinha e soutien pelo chão da sala (no que a imitei) rumo à minha cama onde se atirou de pernas muito abertas e no ar, e onde com sofreguidão de um comum atraso de mais de um ano, nos possuímos como doidos, sem camisinha. Eu estava em êxtase, principalmente porque ela "gostava do esporte" como ela dizia com franqueza e liberdade encantadoras...
Entretanto, naqueles tempos desta narrativa, o álcool tinha sido excluído já havia muito anos, tendo sobrado, sem que eu percebesse, uma tendência à co-dependência física, amorosa e sexual por mulheres adictas.
Sim, eu deveria pagar caro, se não a minha devassidão (termo antigo), a minha tendência ao excesso, e como já confessei, à luxúria, o meu pecado capital, não de escolha propriamente, mas de conformação, quer dizer, de nascença..
Arrumei um quarto só para ela, e quando ela dormia, eu, comovido com sua presença que me salvara de uma solidão desesperada e pessimista, agradecia a Deus por Sua dádiva de uma mulher jovem e bonita no que eu considerava o começo do ocaso da minha vida. E nas manhãs, quando ela, nua, escovava os dentes diante da pia do banheiro com a porta aberta, antes de entrar no chuveiro, eu olhava por trás o seu lindo corpo branco, a sua cintura fina, a sua bunda maravilhosa, e me comovia... e mais me apaixonava. Eu estava mesmo na "Idade do Lobo", quando ficamos, malgrado toda nossa experiência passada de homens supostamente maduros, mais idiotas, mais românticos e mais vulneráveis que um adolescente na puberdade. E quando eu a elogiava por seu desempenho sexual, ela retrucava sorrindo, com este bordão: "Sabendo usar não vai faltar". Ela tinha senso de humor...
Até essa altura do nosso relacionamento, Vania, se sentia apaixonada mesmo, pois a ouvi falando com uma amiga ao telefone: "Ah! menina, estou apaixonada, não sei o que esta acontecendo! "
Eu até ali gostava de tudo nela, e descobri que ela, embora inculta, gostava de ler e me pediu para que eu escolher um livro da minha biblioteca para ela ler, Peguei um romance histórico maravilhosamente bem descrito que eu acabara de ler sobre o Marquês de Sade e sua época pouco antes da Revolução Francesa, que tinha um capítulo descritivo explícito em detalhes (onde eu estava com a cabeça?) da tortura e execução em praça pública em Paris, de Damiens, o homem que atentou contra a vida do rei da França, espetáculo assistido com convidados, de um camarote luxuoso alugado pelo Marquês de Sade para tal evento. Vania devorou o livro sem comentá-lo e pediu mais.
Num outra ocasião, em casa fomos visitados pela minha mãe que veio conhecê-la, e para minha agradável surpresa elas, de cara, à primeira vista, se adoraram, e sentadas na nossa cama começaram a conversar e rir como duas garotinhas, duas meninas encantadas uma com a outra, com afinidade insuspeitada, que eu fiquei duplamente pasmo observando, pois nunca tinha vista aquela faceta emocional infantil, oculta, de minha velha mãe, considerada madura e sábia por toda família e os filhos. Mas o mais curioso é que assim que minha mãe se despediu e partiu, Vania me olhou séria e arrematou, como se estivesse com um pouco de raiva: "Gostei da sua mãe. Ela devia ser minha mãe, não sua."
Esse clima idílico durou duas ou três semanas. Mas eu logo fiquei subserviente e cheguei a renunciar ao uso de meu ateliê e limpei a minha mesa de desenho para ela trabalhar em casa, quando quisesse ou precisasse, para ela preparar os fotolitos manuais das serigrafias da quais ela tinha muitas encomendas, como grande preparadora serigráfica que era. Na verdade eu estava me tornando gradativamente o seu escravo sexual, seu "homem objeto". Ela era extremamente independente e não admitia que eu lhe pagasse nada, absolutamente nada no supermercado ou qualquer loja e reagia com certa rudeza, quase violência, quando eu tentava fazê-lo. Mas também me lembro quando um dia eu estando com ela na rua Augusta tive que entrar num caixa eletrônico, e ela entrando junto, atrás de mim conseguiu enxergar o meu saldo e disse curto e grosso com visível ar de desprezo: "Você é pobre."
Acreditem se quiserem, mas eu não fiquei abalado nem ofendido com aquilo, porque nunca na vida tive outra afirmação que não fosse da minha qualidade de artista, da qual tive a vida inteira uma segurança talvez descabida, agora vejo, mas sem nunca duvidar de mim.
Mas eu estava, na verdade, vivendo a volúpia da "servidão humana", traço masoquista oculto e desconhecido até então de mim mesmo na minha personalidade.
As coisas começaram a parecer menos bonitas, quando eu percebi que Vania, era adicta do álcool de fim de semana, de cerveja em grandes quantidades a partir do final do expediente da sexta feira, quando ela saía da Gráfica não comigo mas com os impressores, operários especializados mas simples, para começar a cervejada pelo bar do lado. Na sexta-feira, à noite, ela não voltava para casa e sumia até o domingo quando retornava com uma terrível ressaca que fazia com que ficasse o dia todo na cama, deprimida mas ainda erotizada, do que eu vergonhosamente me aproveitava.
Eu, que conhecia bem o alcoolismo e aparentemente o superara em mim, me encontrava agora co-dependente e portanto extremamente condescendente com a forma de beber já de longa data da minha complicada jovem namorada, que tinha aquela característica da dupla personalidade emergente, de um Dr. Jekill e Mr. Hide (O médico e o Monstro). Vania quando começava a beber mudava imediatamente de personalidade e se transformava numa megerinha que me agredia horrivelmente com palavras depreciativas, humilhantes, que pela reincidência foi fazendo gradativamente minha auto estima cair até chegar aos pés. Quando passava a ressaca ela voltava a ficar carinhosa num processo repetitivo semanal de "morde e assopra", tão desconcertante e desgastante que foi me destruindo, na minha dependência do seu amor e de seu sexo, me transformando num "farrapo humano", como naquele famoso romance inglês "Of Human Bondage, (Servidão Humana) de W. Sommerset Maughan...
Entretanto, apesar de todo o sofrimento que passei, devo antecipar aos meus leitores que, estranhamente, ela nunca me despertou raiva, ou mesmo ressentimento, apenas uma grande e secreta vergonha de mim mesmo, não dela. Aquilo tudo estava revelando a mim mesmo minha fraqueza, minha vulnerabilidade.
Mas muita água ainda havia de correr...
De volta a São Paulo, nossas maratonas sexuais adquiriram um complemento que eu, desavisado, achava apenas curioso e até terno. Vania após nossas transas ficava um tempo de cabeça para baixo, nua, ou de quatro com a cabeça pousada no colchão, a bundinha bem empinada e o torso abaixado. Eu, idiota, não sabia o porquê daquilo. Demorou para eu atinar que ela só queria engravidar de mim, que planejava isso e ir embora para criar sozinha a criança.
Mas por alguma razão do destino, pois eu não tomava nenhuma a precaução, talvez por incompatibilidade, talvez mesmo por infertilidade causada por anos de excessos de cigarro e álcool, embora já distantes, o fato é que eu não a engravidava e ela foi ficando mais e mais rancorosa. E tome maltratos, ofensas e humilhações seguidas de arrependimento e pedidos de desculpas, até que um dia ela, na verdade frustrada por mim nas suas verdadeiras expectativas, resolveu ir embora, fez sua mala e dizendo gentilmente que não havia nada de errado comigo, que ela é que era difícil, etc. E foi-se de volta para o seu apartamento fechado, que ela estrategicamente mantivera pagando em dia o aluguel.
Quanto a mim, eu continuava apaixonado e estava um trapo...
EPÍLOGO
Depois que a Vania foi embora eu ainda tentei voltar com ela, vergonhosamente, mas fui rejeitado. Esta história iria mergulhar num longo e doloroso anti-clímax para, certamente, decepção de vocês, meus amigos leitores aqui do face, pois que sofrendo os efeitos dolorosos da co-dependência eu levaria um ano de sofrimento psíquico e emocional, para me recuperar dos efeitos da minha desastrosa relação amorosa e sexual com uma adicta cruzada (álcool e drogas) instável. Passado um ano ou dois a Vania um dia me telefonou soluçando, pedindo ajuda, em nítido desespero. Eu, condoído, como se esperasse isso por ter muito falado com ela a respeito do alcoolismo do qual sou doutor por experiência própria, me prontifiquei a ajudá-la e levá-la a uma sala de AA, mas ela não devia estar pronta e desligou subitamente. Não mais a vi por muitos anos. Soube apenas que ela foi morar numa cidade praiana, como gerente de uma pousada e ali conheceu alguém que se prontificou a dar-lhe um filho, uma outra menina, que um amigo francês, mais velho, que ela fez naquela pousada ou região, não sei, (segundo ela me contou num breve encontro quando voltou a São Paulo), prontificou-se a ser uma espécie de padrinho da menina (não sei se ele não é o pai mesmo). Passaram-se mais de vinte anos e, há um ano, Vania, recuperada graças à intervenção providencial de um sobrinho generoso que há anos atrás a internou numa clínica de reabilitação, salvando-a (como ela disse) reapareceu aqui no facebook pedindo minha amizade para minha grata surpresa. Sua filha, já moça, está morando na França, o que reforça meu palpite de que o tal francês seja mesmo o pai, mas, como disse, nada sei. Agora Vania está seguindo a nossa história, que estou narrando pela primeira vez aqui no face, com a permissão explícita e incondicional que corajosamente ela me deu inbox.
Vania é extremamente inteligente e cheia de senso de humor, e estou feliz por ela, embora saiba que está passando apuros financeiros com a quarentena, como todos nós, mas sua coragem, vitalidade e fé, sua busca obstinada e triunfante da maternidade, são coisas que sempre admirei nela. Não deploro, portanto, nem um pouco a nossa relação, que afinal, não resultou totalmente fracassada mas enriquecedora para ambos, mesmo que sofrida e por linhas tortas.
Deus não põe ninguém gratuitamente no nosso caminho, pois deve ser um jogador excelente que mesmo levando em conta o nosso livre arbítrio, dado por Ele mesmo, faz jogadas com seus peões, bispos, cavalos, torres e até rainha, que somos nós, com antecipações planejadas de até sete lances, como Grande Mestre enxadrista insuperável. Mas do que estou falando? Mal jogo xadrez... Viva Deus!
FIM
Minha fake news humorística autoral preferida
Tuesday, August 11, 2020
MUITOS SÃO OS CHAMADOS (crônica de Guilherme de Faria)
Hoje me lembrei de quando, nos anos sessenta, eu, jovem artista, conheci o físico e crítico de arte Mario Shemberg. Ele tinha escrito umas palavras elogiosas sobre o meu trabalho, numa espécie de apresentação crítica condescendente (que era o seu costume como crítico) que assinou sobre os jovens artistas atuantes naquele momento em São Paulo. Então, por vias que não me lembro mais, me levaram a visitá-lo numa casinha que ele morava e tinha seu escritório, minúscula, pobre, mas entulhada de milhares de telas à óleo (ninguém ainda pintava a acrílico) de centenas de artistas paupérrimos como eu mesmo, de quem ele, assalariado da USP, adquiria as obras que lhe ofereciam a baixos preços, só para os ajudar, sem se preocupar com a qualidade nem nada. A telas, sem molduras, ficavam encostadas em múltiplas filas desde a parede e empilhadas até o teto. Uma verdadeira alucinação, absurda como uma cena de peça de Ionesco. Não me lembro do que conversamos, só sei que o velho falava peculiarmente de olhos fechados, sobre filosofia ou física, e eu não me lembro senão que, eu impressionado com a torre de telas rente às minhas costas e seus olhos semicerrados, não conseguia prestar atenção no conteúdo de suas palavras. Saí dali meio atarantado, e depois nunca mais o encontrei novamente. Duas décadas mais tarde, eu soube que, de toda aquela pilha alucinante, anódina e anônima, somente meia dúzia de quadros muito bons dos artistas do grupo Santa Helena, finalmente valorizados, ali descobertos e vendidos em leilões garantiram um fim de vida tranquilo ao velho, numa casa própria afinal assim adquirida. Alguma coisa me diz que o velho premeditou isso, que como físico devia ser afeito a estatísticas e sabia que entre mil telas, uma poucas emplacariam um dia no mercado. Mas não seria o caso ainda das minhas, que, que eu saiba, não o recompensaram por sua generosidade ambígua, talvez calculista, de conhecido socialista militante...
(Guilherme de Faria)
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Monday, August 10, 2020
NOTAS SOBRE UM APOCALIPSE
E ao que parece, para o Apocalipse não existe solução, mas somente uma dolorosa espera, como em geral nos cataclismos naturais sobre os quais nunca tivemos poder algum.
Espera, espera, somente... para a Besta ir se esvaindo devagarinho de dentro de nós... Porque de onde vocês acham que a besta viria? De fora?
(Guilherme de Faria)
PERPLEXO VIRTUAL E VIVO (crônica de Guilherme de Faria)
Entretanto, como eu disse, me sinto perplexo, como se diante de invasões bárbaras no fim do Império Romano, ou um francês assistindo o exército nazista alemão desfilar pelos Champs-Elysées passando por baixo do Arc du Triomphe, certamente o desolador fim de uma Era.
Sempre me considerei um extemporâneo, um tardio, um homem do século XIX, nostálgico da Belle Époque, perdido nos séculos XX e XXI, ou melhor ainda: um pintor italiano do século XV em Florença. Sim, o que me resta senão persistir na minha loucura mansa de pintar telas como se houvesse compradores habituais, encomendas burguesas, nobres e papais, e eu tivesse um ateliê cheio de discípulos moendo pigmentos em óleo de linhaça enquanto esboço maravilhas que farão o povo sonhar acordado, renovando sua fé...
Por outro lado, no entanto, tenho uma faceta bem contemporânea, tirando o máximo partido deste facebook para permanecer vivo como artista sob os olhos de um público aparentemente entusiasta do meu modesto "catalogue raisonné", constituído de fotos das minhas obras na maioria recuperadas de leilões divulgados na Internet.
Como veem, não posso me queixar: usufruo ainda do melhor de dois mundos, do modo virtual que na verdade foi sempre, de um jeito ou de outro a minha maneira de viver esta vida desde muito antes do advento do computador e da Internet.
Um perpétuo sonhador de mim mesmo...
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10/08/2020
Sunday, August 9, 2020
UMA CRÔNICA AMENA (de Guilherme de Faria)
Eu sei que tenho um lado quase perverso, que apareceu já em minhas fases iniciais de gravura e desenho e até na minha pintura, que me faz amar o expressionismo alemão, os contos góticos de Edgar Allan Poe, Hoffmann, Bran Stocker e certo filão mais requintado dos filmes de terror, como os do Tim Burton e do M. Night Shiamalan. Ah! E não posso esquecer que criei um blog inteiro de sonetos "góticos", intitulado "A Dança Macabra, de Alma Welt".
Entretanto são raras as pessoas que apreciam esse meu lado sombrio, e a maioria prefere me ver como o desenhista de belas mulheres, de suave e respeitosa sensualidade.
Não os decepcionarei, porque este meu lado é tão verdadeiro quanto o outro.
Na verdade, uma constante da minha sensibilidade é a admiração que tenho pela beleza física e anímica (ideal, naturalmente) das mulheres, desde a infância, quando venerei intimamente, como uma pequena deusa, uma menina do meu quarteirão, história que já contei nas minhas memórias aqui no face.
Devo entretanto confessar que na juventude uma forte libido me levou a cobiçar muitas mulheres. O curioso é que nunca tive modelos de atelíê , pintando e desenhando sempre "de imaginação", mesmo porque vivendo sempre maritalmente com alguma, elas, conhecendo essa minha libido, não me permitiriam te-las. Até cobicei, confesso, num certo momento, a "mulher do próximo", cometendo adultério. Sou um miserável pecador, mal arrependido, na verdade, porque me lembro disso com carinho e saudades, porque no seio dela adormeci, após, com o seu terno e paciente acalento, o sono longo e profundo de um bebê...
Misteriosa é a vida... e fascinante. Tudo já escrevemos sobre ela e continuaremos escrevendo para compartilhá-la com os que no entanto, têm as suas próprias vidas para viver e talvez contar.
Somos todos, potencialmente, contadores de histórias, contando-as alternadamente, uns para os outros, em torno à nossa fogueira noturna primordial, para adormecemos como a eterna criança que persiste em nós...
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09/08/2020
PRÓLOGO PARA UMA FUTURA CRÔNICA ESCABROSA (de Guilherme de Faria)
Reparem, as pessoas que não tem o juiz dentro de si, são doces criaturas que existem, sim, embora minoritárias na população. Dizem as lendas que o Diabo não consegue tentá-las, e nem costuma tentar fazê-lo, pois os ingênuos e os puros não entendem bem as propostas de moral inversa, ou daquilo que chamamos de Mal. O Diabo fica muito irritado com elas e vai embora. Em resumo: para ser tentado é preciso já se ter o Mal profundo dentro de si, ainda que reprimido. Por isso o Diabo se apresenta quase sempre como um Libertador, não nosso, na verdade, mas desse Mal dentro de nós. Daí as palavras finais da oração do Pai Nosso.
Sei que todo esse arrazoado parece ser um prólogo para um relato ou uma memória escabrosa prestes a ser contada, isto é, libertada...
Não cairei na armadilha de ser meu próprio Diabo. Nem como no pacto de Fausto com Mefistófeles, direi jamais ao minuto que passa: "Pára! És tão belo!" .
Não quero parar o Tempo com as minhas memórias e nem sequer voltar nele. O que quero então? Nada... não me levem a sério, sou apenas um artista, um saltimbanco, um jogral, um trovador. Entro pela porta da frente, apresento-me no salão de vocês... mas como na cozinha com a criadagem. Não me levem muito a sério, repito: sou o que hoje em dia chamam de "enterteiner".
Entretanto percebo que a crônica de hoje ainda não foi escrita, e isto aqui parece ser mesmo um prólogo...
Meu Deus, o que será que tenho ainda a escrever, que mereça ser lido?
09/08/2020
Saturday, August 8, 2020
UMA NOVA ERA DA CRÔNICA? (de Guilherme de Faria)
Na verdade, esse acesso à informação sempre esteve ao alcance de quem estivesse interessado, pois as bibliotecas públicas sempre existiram, desde pelo menos a de Alexandria, que por sinal foi queimada por um indivíduo que provavelmente tinha ódio à memória ou ao conhecimento.
Mas não posso esquecer que nasci privilegiado, numa família de classe média empobrecida mas culta, que tinha uma boa biblioteca em casa, de clássicos indispensáveis, a que tive acesso bem cedo. Me lembro até, que quando menino,minha mãe culta e católica, quis fazer um Índex pessoal, tirando das minhas mãos um livro de Nietzsche, se não me engano o Anti-Cristo, e me deu os Evangelhos (com vantagem, reconheço). Mas não adiantou, eu devorava tudo...
Também não desenhei como toda criança, desenhos ingênuos de casinhas, sóis amarelos e montanhas, com bonequinhos, a família toda perfilada na frente. Não... eu tentava ilustrar com desenhos anatômicos pretensiosos, a lápis e muita borracha, os cavaleiros da Távola Redonda do rei Arthur, desenhos de uma precocidade detestável para a minha idade, mas que eram incensados pela família: "Ele vai ser artista! Vai ser pintor como o avô dele!"
Meu avô materno, Adelardo Soares Caiuby, engenheiro arquiteto e pintor amador, aquarelista de fins de semana, "plenairiste" (ao ar livre), era um ícone na família. Dele herdei talvez a vocação, as primeiras tintas já meio usadas e espremidas e um pequeno estojo de madeira, com seu nome entalhado a canivete, que acabei presenteando muito anos mais tarde, já na minha "hora do lobo" da falsa maturidade, uma jovem amante vinte anos mais nova, somente porque não podia lhe negar nada e ela soube dar valor e uso ao pequeno objeto, justiça seja feita. Ah! E a moça em questão, caso que durou cinco meses de paixão adolescente tardia, muita luxúria, e depois para mim um ano inteiro de dores, reapareceu vinte anos depois aqui no facebook, é agora minha amiga sem mais ressentimentos de parte parte, e deve estar lendo esta crônica.
A verdade é que esta quarentena e o facebook nos instigam, a muitos da minha geração, às memórias e as crônicas pessoais e cotidianas, como já percebo que estão proliferando aqui no face. Estou conhecendo melhor alguns amigos da minha juventude, pois, por incrível que pareça, ninguém é levado a mentir quando escreve uma crônica, gênero que não exige de nós senão memória, franqueza e espontaneidade. E um pouco de arte da narrativa, convenhamos...
(Guilherme de Faria)
Friday, August 7, 2020
HUMANO, DEMASIADO HUMANO (crônica de Guilherme de Faria)
Na minha imaginação, que talvez permaneça infantil, não posso conceber uma peste que se manifeste sob um céu azul ensolarado deste e não sob um teto baixo de chumbo, sombrio, nórdico, medieval, miasmático e sinistro como numa história de Conde Drácula.
Mas com um pequeno ajuste de percepção caio na real, e na tristeza intrínseca desta época que ninguém, que eu saiba, previu, e que veio interromper nossos planos, sonhos e delírios, que imagino muito difíceis de serem retomados quando este intermezzo acabar.
O mundo será o mesmo de antes? Sinceramente não seria nada bom, como uma recaída num vício longamente acalentado, e que reencontra o toco da vela bem mais curto, porque continuou queimando escondido, nas sombras...
Às vezes penso que eu não poderia voltar (estou meio paralisado) a pintar e desenhar as mesmas coisas um tanto ingênuas (não como estilo mas como conteúdo temático), flores, panoramas e mulheres lindas, que agora reconheço como uma característica minha, de integrado, longe dos tempos apocalípticos da minha juventude.
Mas, perscrutando a minha alma um pouco envelhecida, é verdade, constato que a minha essência não mudou, não me transformarei jamais num cínico desencantado, e continuarei como uma espécie de pre-rafaelita tropical cultuando a beleza, mesmo que perdida, deste nosso mundo humano, demasiado humano...
(Guilherme de Faria)
Monday, August 3, 2020
O ESPIÃO (crônica de Guilherme de Faria)
Mas de que posso me queixar, não é verdade? A vida inteira olhei este bairro, esta cidade, este país, este mundo, um pouco de fora ou de esguelha, sempre os comparando com os universos dos livros amados com desvantagem e em perpétua nostalgia do mundo imaginário que, este sim, me parecia mais real, ou pelo menos mais verdadeiro. Eu saio às vezes, devidamente mascarado para ir ao supermercado, e troco algumas simpatias rápidas com os porteiros, que parecem não desconfiar que sou um extra-terrestre, ou pelo menos um estrangeiro no sentido camusiano, um perpétuo outsider me movimentando apenas na camada absurda deste mundo. Ah! Se eles pudessem me ver como eu sou... não me reconheceriam, porque sou-lhes realmente simpático como os espiões parecem sempre ser às pessoas comuns do seu dia a dia, à sua vizinhança. Mas o problema é que sou um espião sem propósitos, sem bandeira, e um contra-espião de mim mesmo. Vou acabar me traindo a qualquer momento, tirando a máscara e gritando na portaria a plenos pulmões, absurdamente:
"Eu sou um poeta! Que querem de mim! Simpatia? Eu a tenho para o mundo, sim, mas sou um terrível espião: só sei espiá-los e entregá-los a si mesmos, se puderem me ler. Mas você jamais me lerão, não é mesmo?"
Mas, por enquanto, sigo passando pela portaria cumprimentando os porteiros e até perguntando por suas famílias. E sorrindo rápido para eventuais vizinhos de décadas, que entram, passam para entrar no elevador, e com quem nunca conversei, mas que que parecem simpatizar comigo, o velho pintor de sorriso fácil, nada rabujento, na verdade desconhecido, inadvertido, bem disfarçado de mim mesmo...
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03/08/2020
(Guilherme de Faria)