Tuesday, November 28, 2023

Uma pessoa me perguntou como pode a Alma Welt me enviar novos textos e poemas dela, tão vívidos e recentes, tendo já falecido em 2007. Eu respondo: Na intercecção de um dos seus universos paralelos me foram enviadas seus textos antes de sua morte até à perturbadora e comovente foto de seu túmulo, enquanto em outro ela continua viva e em contato comigo me enviando suas novas obras e até notícias (!!!). Acreditem se quiserem... Eu vivo esperando ocorrer a intercecção final com esse mundo onde eu a verei viva, em carne e osso, e ajoelharei aos seus pés, ou a abraçarei... não sei...
A propósito: numa das intercções do seu unverso com outro dela mesma, Alma se viu às voltas com as notícias vivas de uma "outra si mesma", isto é, o seu "duplo", e, ao que parece, o confrontou. Isso está contado no incrível conto "O Duplo da Alma " que consta da antologia CONTOS E CRÔNICAS DE ALMA WELT, que lancei este ano (em Agosto ) na Livraria da Vila da Alameda Lorena. Deve ter algum exemplar ainda lá, à venda.
Guilherme de Faria
28/11/2023

Wednesday, November 22, 2023

Duas Teorias Complementares



A excelente qualidade das reproduções fotográficas das obras de arte que o mundo moderno atingiu com sua tecnologia a partir do século XX, atingindo o seu ápice com a HD (Alta Definição) digital, popularizou até as obras clássicas num verdadeira democratização da fruição de imagens, assim como divulga os pintores contemporâneos que ainda não têm acesso a um verdadeiro Mercado (coisa difícil desde sempre). Entretanto, no universo das Artes Plásticas bem como no da Literatura, a luta por um lugar ao sol é a mesma desde a Antiguidade. Nada mais dificil para um artista do que ser reconhecido e consumido ao ponto de prover sua sobrevivência material com os frutos de sua arte. Essa situação é quase a mesma desde Van Gogh e de Gauguin, pelo menos, exemplos trágicos dessa dificuldade em seu tempo. Todavia é preciso notar que certos pintores e escritores ainda jovens conseguiram em todas as épocas viver de sua arte desde muito cedo, com enorme sucesso, precocemente, com notável e até misteriosa facilidade. O quê explicaria isso? É neste momento que eu lanço mão de duas teorias complementares e convergentes, uma, do grande escritor Hermam Hesse, que no seu magnífico livro O Lobo da Estepe, classifica os artistas em duas categorias: os "trágicos" e os "olímpicos". Em sua visão, ele denomina de trágicos aqueles artistas que não fazem nenhuma concessão à sua época e ao público, se incendeiam no primeiro embate e ficam iluminando para a eternidade. Alguns deles também são chamados de "malditos". Hesse cita somente Mozart (na música), e eu citaria como exemplos: Caravaggio, Van Goh, Gauguin, Modigliani (na pintura); François Villon, Edgar Allan Poe, Isidore Ducasse (Lautrèamont) e Arthur Rimbaud, Oscar Wilde, na literatura. Artistas a quem bastou falecerem para começar a sua escalada para o sucesso, isto é, para a glória póstuma e duradoura. Quanto aos "olimpicos" assim denominados por Hesse, estão aqueles artistas fecundos, que segundo ele descobriraram o "humor". Hesse define o humor, assim, de modo paradoxal: "A mais genial criação da humanidade, o humor é sempre um tanto burguês, embora o verdadeiro burguês seja incapaz de tê-lo". O humor, para Hesse, consiste, ao meu ver , numa espécie de cínica concessão: "Viver no mundo como se não fosse o mundo; respeitar a lei e os costumes, todavia se alçando intimamente acima e além deles". Os artistas que descobrem o humor são imediatamente acolhidos pela sociedade e recebem grantes tributos e recompensas (como disse Salvador Dalí a respeito de si mesmo): "...de repente uma chuva de papéis verdes caiu sobre mim". Entre esses artistas estãos os que conseguiram grande sucesso, realização, e até riqueza material em vida. E são inúmeros. Eu poderia citar, como exemplos de sucesso em vida: Ticiano, Michelângelo, Rafael (Leonardo está mais para um trágico), Bernini, Rubens, Turner, Millais, Alma-Tadema, Bouguereau, Corot, Manet, Monet, Sargent, Boldini, Degas, Renoir, etc... No século XX: Picasso, Braque, Matisse, Chagall, Dalí, Bacon, Lucien Freud, Balthus, Portinari, Di Cavalcanti. Brecheret, etc. Na literatura: Voltaire, Goethe, Jules Verne, Victor Hugo, Charles Dykens, Wells, Lewis Carroll, Bernard Shaw, Mark Twain, Jack London, Hemingway, Steinbeck Fitzgerald, Tenesse Williams, Salinger... No Brasil : Machado de Assis, Monteiro Lobato, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Cecília Meirelles,... não tem fim o número de artistas que atingiram enorme sucesso em vida, e se contam aos milhares em todas as artes. Mas eu gostaria de citar, complementarmente, a espantosa explicação do psicanalista Carl Jung desse fenômeno do sucesso material e existencial, ou do fracasso, com uma decorréncia de um fator na sua "Teoria dos Arquétipos". Todos nós, humanos, temos pelo menos cinco arquétipos no nosso inconsciente profundo: a anima, o animus, o velho sábio, a criança e a sombra (estranhamente Jung os denomina assim, em minúsculas). Mas, no que concerne ao sucesso ou ao fracasso material nas Artes, os arquétipos responsáveis são a anima e o animus. Da anima derivam as qualidades feminimas: o amor, o erotismo, a maternalidade, a devoção, a pazes de prover o seu sustento pelo rebaixamento das qualidades do animus, morrem literalmsensibilidade, a criação artística, etc. Do animus derivam o pai, o provedor, o guerreiro, o aventureiro, o explorador , o navegante, o construtor, o comerciante, etc. Portanto o equilíbrio da personalidade consiste na harmonia interna profunda entre anima e animus na alma do ser humano. Muitos artistas, fecundos e criativos, se concentram tanto no âmbito da anima, que ficam (como dizia Jung) "anima possuídos", sofrendo um rebaixamento do animus. Tais artistas, conquanto geniais, ficam impossibilitados de" vender o seu peixe", isto é, a sua arte. Incaente de fome, na miséria no meio de seus tesouros. É o caso dos chamados "trágicos", de Hesse.
Assim vejo as coisas, eu, que como artista me debato entre a anima e o animus, contemplado que fui pela descoberta de minha anima viva, a poetisa e prosadora Alma Welt, que desde 2001 derrama sobre mim a sua prolífica e profícua obra literária, seu rico universo feminino, culto, pleno, encantador, universal... que não me rende um centavo, e ao qual me devoto, surpreso, gratificado, e finalmente... feliz.
(Guilherme de Faria)
21/11/2023

A INTERCECÇÃO DOS MUNDOS

 As ricas histórias que saem de minha mente (vide as obras da Alma Welt e a do cordelista) eu as sinto como se realmente vividas por mim. Quem disse que temos somente uma vida para viver? É verdade que alguns indivíduos portadores de "mitomania" chegam a acreditar nas suas histórias, que são mentiras quase sempre interesseiras, com segundas intenções ou puramente delirantes. Quanto às histórias que conto, reparem, essas são realistas, interessantes e desinteressadas, de teor universal, não privilegiando um fundo moral, mas sim a "poiesis" por vezes terna, às vezes patética da natureza humana. A tragédia também está presente em muitas dessas histórias. Sim, lanço mão alternadamente das duas arquetípicas máscaras gregas, e algumas vezes as sobreponho, gerando o tragicômico. Mas advirto: nunca de caso pensado, premeditado. As histórias, ou estórias, saem de mim espontaneamente e me surpreendem. Sim, freqüentemente eu me surpreendo com elas e me pergunto: "De onde saiu isso? Nunca pensei em tais situações e pessoas, como essas! De onde elas estão vindo?" Entretanto, é também verdade que qualquer artista sente isso, pois a inspiração é apenas o dom de captação, como uma antena, de um "plano astral" onde pairam as "formas-pensamentos".

Estou convencido também que tudo aquilo que escrevo quando não experimentado mesmo por mim, na minha vida, pertence a um universo paralelo vívido, intenso, cuja intercecção com este nosso me encontrou com a pena (o teclado melhor dizendo) ou o pincel na mão.
Um exemplo, perturbador: quando encontrei nalgum lugar agora perdido da Internet, o túmulo abandonado da Alma Welt, com sua placa de bronze fundido, eu, que fora noticiado de sua morte em 2007, e das circunstâncias do encontro de seu corpo e de seu espantoso velório nu, estremeci até a base.
"Como então"- poderia alguém perguntar- "a Alma continua lhe enviando suas histórias, poemas e até pensmentos?" Eu respondo: Os mundos paralelos são múltiplos e num deles minha Musa continua viva, e em contato e sintonia com a minha anima interior, que, aliás, é ela mesma, em pemanente contato com alguns desses mundos. Sendo assim, não duvido que a encontrarei, um dia, em carne e osso, numa "intercecção", como acontece rara e eventualmente com o nosso "duplo". Nesse dia cairei aos seus pés e pedirei que me leve com ela ao seu pampa amado, à sua estância, seu vinhedo, ao jardim florido da Frida e adentrando o casarão me deixe ouvir o som do piano Steinway do Vati, na biblioteca de mil livros, sagrada, silenciosa, finalmente em paz...
(Guilherme de Faria)
20/11/2023

Sunday, November 19, 2023

Nós, que vivemos os turbulentos anos 60, nossa geração ainda continua vivendo intensamente e criando. Nossos netos e bisnetos, de celular na mão, infelizmente não bebem na nossa rica fonte. O elo foi quebrado pela tecnologia... crianças não querem mais ouvir nossas histórias.

(Guilherme de Faria)
18/11/2023
O mundo é muito ruim. Sempre foi. Quase todo mundo verdadeiramente adulto sabe disso. Entretanto nos resta o recurso, desde que espontâneo, de cultivar um belo e justo mundo interior e a possibilidade de coletivamente refletir um pouco no mundo exterior. Antigamente isso era chamado de 'idealismo'. Agora é pura sobrevivência psíquica.

(Guilherme de Faria)

18/11/2023

A SUSTENTÁVEL LEVEZA

(Crônica de Guilherme de Faria)

Como me sinto aos 80 anos? Agora sim, de posse plena da minha arte, e pronto para recomeçar. Purgado já ao longo das três últimas décadas da escória dos meus erros existenciais passados, me sinto mais leve por dentro, aos oitenta, em contradição com o peso maior deste corpinho de seus oitenta e cinco... Mas como é bom, pelo menos na horizontal, com a cabeça no travesseiro, essa "sustentável leveza do ser". Não trocaria este meu momento interior por nenhuma outra época da minha vida, nem de quando eu era até considerado bonito pelas mulheres. Por quê? Eu não tinha paz de espírito quando era jovem. Mas, na verdade, que jovem a tem? Guimarães Rosa botou na boca de seu Riobaldo no Grande Sertâo: "Mas, juventude é tarefa para mais tarde se desmentir... "
Amo minha atual sociabilidade de facebook, eu, que, jovem, era um solitário no meio do caos... um jovem Lobo da Estepe, de Hermann Hesse. E como são reluzentes e belas, nossas pepitas lavadas de sua escória!...
(Guilherme de Faria)
18/11/2023

EU E MEU ANJO

(crônica de Guilherme de Faria)

O popular cantor e compositor falecido, Erasmo Carlos, o "Tremendão", tinha pelo menos um verso notável, a meu ver: "meu coração é do tamanho de um trem"... Em sã consciência não posso dizer isso do meu coração, mas o digo com sinceridade do meu Anjo da Guarda. Quando jovem, bebendo muito, eu tive a vida e a reputação salvas algumas vêzes pelo meu imenso Anjo, mesmo que a rigor não tivesse merecimento para isso. Talvez Deus tenha uma complacência especial com os artistas... não sei. Sâo histórias que não vou contar aqui ou em qualquer lugar, naturalmente, embora eu possa ser bastante franco e confessional nas minhas memórias narradas aqui no face, até certo ponto. Nem tudo deve ser dito. Nossas memórias se nos incomodarem muito, ainda temos a alternativa do confessionário, com seu segredo inviolável. Talvez também de um psicanalista, que ao meu ver não tem a mesma eficácia, pois elimina o sagrado, quero dizer, o mistério espiritual da confissão religiosa nem que seja de um só momento. Quando lembro de certas situações perigosas e de como escapei ileso, me lembro de manifestar intimamente, por alguns segundos, minha gratidão pelo meu Anjo do tamanho de um bonde elétrico, daqueles tipo "camarão", da minha infância...
(Guilheme de Faria )
18/11/2023

TÁ TUDO BEM

(crônica de Guilherme de Faria)

Engraçado... ocorreu-me recentemente que eu não nasci adiantado para minha época, como ocorreu com alguns artistas na História da Arte. Ao contrário, para ser sincero, se me senti deslocado não foi por me sentir incompreendido, tanto mais que desfrutei de um grande sucesso precocemente, e vendia o meu trabalho, muito elogiado, desde muito jovem, nos anos 60. Entretanto eu vivi sempre com uma secreta nostalgia do passado, como se fosse um jovem saído de um século XIX literário, que eu amava, transportado no tempo e exilado numa época e num espaço decadentes no pior sentido. Por isso, naqueles anos 60 do inicio da minha vida "profissional", eu usando cabelos e barba compridos, ouvi um comentário de um intelectual mais velho: "É estranho rapaz, você usa os cabelos e a barba assim, mas você não parece um hippie, como agora há tantos por aí. Você parece saído das páginas de um romance de Dostoiévsky, uma espécie assim de Raskolnicov, do Crime e Castigo"... e eu me reconheci nesse comentário porquê realmente eu não me identificava nada com os hippies e sua arte psicodélica, e muito menos com a POP Art que estava começando a chegar, influenciando toda a minha geração de jovens artistas em São Paulo e Rio. Como o meu desenho e pintura não acompanhavam em estilo e conteúdo a vanguarda do momento, os críticos da época reconhecendo uma força em meu desenho me encaixaram a grosso modo numa denominação mais genérica de "Nova Figuração", na verdade uma vertente já tardia do Expressionismo europeu.
Sim, eu gosto de pensar que pertenço a uma grande tradição plástica e literária européia, com direito, por formação e temperamento, saído, na verdade, da biblioteca clássica dos meus pais, muito cultos e poliglotas. Eu li a Ilíada e a Odisséia com 15 anos, e Os irmãos Karamazov, com 16. Mas me identifiquei artística e animicamente com A Vida de Michelangelo, de Romain Roland, e O Romance de Leonardo da Vinci, de Dimitri Merejkowsky. Eu jamais me sentiria à vontade no meu século mas fiz tanto esforço para me adaptar que no começo da velhice abracei a chegada dos computadores sem ter passado pela datilografia. Escrevo muito rapidamente com um dedo só e numa linguagem que poderia ser de um escritor do começo do século vinte, segundo me disse alguém... Meus textos refletem talvez um mundo que a rigor não existe mais. Mas... "está tudo bem" como repetem à exaustão os americanos nos seus piores filmes, quando na verdade o mundo se esboroa ao nosso redor...
(Guilherme de Faria)
18/11/2023