Em tempos como este, de quarentena, é difícil para mim escrever a crônica do dia sem recorrer às memórias dos tempos idos, embora eu não seja um saudosista (longe disso). Como um Fausto* de mim mesmo, raramente gostei plenamente de um momento e não me lembro de jamais ter dito ao minuto que passa: "Pára! És tão belo!" * Talvez por isso mesmo não tenha perdido a minha alma, pois como alcoólatra ao mesmo tempo laborioso e fecundo, teria feito talvez, sem perceber, de certo modo, um pacto perigoso... Por isso não tenho saudades da minha louca juventude, em que, imprudente, hedonista, excessivo e luxurioso, escapei sempre por milagre a imensos perigos, da decadência precoce e da morte mesmo...
Entretanto, curiosamente, eu não apagaria uma linha dos meus desenhos e gravuras ou uma pincelada de meus quadros daquela insana época (de 1962 a 1981) que, apesar de tudo, me parecem, em si mesmos estranhamentos incólumes, intocados pelos meus excessos alcóolicos e desvarios. Atribuo isso, de maneira teórica, ou fato da Arte ser o último baluarte do espírito, o último a cair. Quando a arte é afinal atingida pelo álcool, o artista morre junto, finalmente derrotado, já que impenitente...
Devo pois revelar, que, em Abril de1981, no meu fundo de poço, de repente, vendo já face do lobo, escolhi viver com o risco inerente a uma sobriedade desconhecida, e a um estilo de vida paciente, de uma verdadeira reforma interna, e entrei desde então numa etapa igualmente fecunda, mas não dolorosa. Renunciei à Tragédia. Escolhi ser um Corot e não um Van Gogh. Talvez para poder dizer, não ao minuto que passa, mas ao derradeiro: "Espero que no Céu haja pintura... "
(Guilherme de Faria)
14/05/2021
Nota
*No Fausto de Goethe. o pacto feito com Mefistófeles consistia em acompanhar aquele diabo em aventuras e experiências de desejos formulados até que diante de um que o satisfizesse, Fausto afinal dissesse "ao minuto que passa": Para! És tão belo! . , Nesse momento ele cairia morto e sua alma caberia ao Diabo para levá-la consigo para o Inferno. Fausto, finalmente, depois de muitas experiências insatisfatórias, e até um crime ( o abandono de Margarida que a conduziu a um fim trágico), diz finalmente deslumbrado, no término de sua cidade ideal do Futuro, ao minuto: "Pára! ´És tão belo!". E caiu morto.
Entretanto, Deus ludibriaria o Diabo e regataria seu servo com um truque engenhoso e engraçado, lançando mão de serafins voluptuosos, que em evoluções dançantes entorno do cadáver, distraíram o luxurioso Mefistófeles e escamotearam no último momento a alma de Fausto que saía como uma luzinha de sua boca, e a levariam para o Céu.
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