Todas as manhãs abro o facebook e logo me defronto com a pergunta em forma lusa: "Em que estás a pensar?" Então me lembro da Ceia dos Cardeais, famosa peça estreada em1902, em um ato, toda rimada, do português Júlio Dantas (1876-1962), em que três velhos cardeais, um espanhol, um francês e um português ceiam juntos numa sala do Vaticano (diga-se de passagem uma lauta e caríssima ceia de vinhos finos, lagostas e iguarias), depois que dois deles recordaram suas cavalheirescas ou mirabolantes aventuras amorosas da juventude, um deles pergunta ao cardeal português que permanecera silencioso: "Em que pensas, Cardeal?" E ele responde, lentamente:
"Em como é diferente o amor em Portugal..."E começa a recordar em tom lento e nostálgico seu único, singelo e ingênuo amor de adolescência, em sua aldeia, com o indefectível banco da pracinha, pombos e soar de sinos da capelinha, e que mal começara termina com a morte de sua doce e virginal amada adolescente... E o religioso português termina o seu triste relato, cheio de ternura piegas mas tocante, com a conclusão: "E foi este anjo que ao morrer me fez Cardeal..." E os outros dois em uníssono exclamam:
"Foi ele de nós três o único que amou!" Cai o pano.
Lembrando dessa peça célebre e bisonha, que li na infância e que depois seria encenada muitas vezes no Brasil dos anos 50 a 70 eu mais uma vez me dou conta de como o mundo foi perdendo sua inocência e grande parte de sua alta cultura. Quem leria ou assistiria hoje em dia um peça como essa, sem rir e até debochar? Ainda no começo do século XX tal peça encontrou o deboche numa paródia do jornalista paulistano de pseudônimo Juó Bananère que escrevia numa espécie de dialeto italiano do Brás, um livro de versos paródicos que termina com aquela peça inteira satirizada: "A Ceia dos Avacagliados"... Era realmente muito engraçado, e denotava o humor irreverente dos brasileiros, humor esse que entretanto minou nossas fontes culturais lusitanas e o respeito pela nossa maravilhosa língua herdada.
Você devem ter notado que sou, junto com a Alma Welt um dos últimos que escrevem num português castiço, não fora o uso do gerúndio, habito brasileiro, que o facebook, estranhamente despreza:
"Em que estás a pensar, Guilherme?"
E eu respondo:
Em como é diferente o mundo interior em que ainda vivo...
05/04/2021
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