Thursday, July 15, 2021

DEGRADÉ (Sobre a cor nas minhas litos) e sobre os meus cordéis.

Me lembro que o Marcelo Grassmann, que tinha sido meu amigo a partir de 1962, me disse quando comecei a colorir as minhas litos a partir de 1976: "Guilherme, se você continuar a usar degradé em suas litos eu rompo com você. Pare com isso. Eu tenho ódio de degradé. Não serei mais seu amigo." Grassmann era um purista, preconizava o preto e branco, segundo ele "a nobreza da gravura". Eu insisti no degradé e perdi a sua amizade, que só recobrei nos anos 90, quando ele me perdoou ao conhecer os meus cordéis. Essa é uma outra história que um dia contarei aqui. Adianto somente que o Grassmann ficou surpreso com os meus cordéis sertanejos, mas a literatura não sendo a sua praia me recomendou que procurasse o Paulo Vanzolini que era seu amigo e que, segundo ele, era um expert em cordel. Mas eu, àquela altura, não queria críticas nem bênçãos e perdi a oportunidade de conhecer pessoalmente o grande autor de "Ronda". Entretanto, passado um tempo fui, recomendado por uma amiga em comum, procurar o Jorge Mello no seu escritório no largo de Santo Amaro, e sabendo-o cordelista (e até repentista) expert e colecionador do cordel nordestino, me apresentei com modéstia, e declamei um cordel meu para ele, que me ouviu contando sílabas mentalmente e em seguida me apontando alguns pés quebrados. Eu tinha trazido com a intenção de presenteá-lo, um Kit cordel. Então eu lhe disse: "Eu sei que meus cordéis não são dignos da sua coleção". Ele então abraçando a caixinha de madeira recheada dos meus folhetos, por cima da mesa puxou-a para si dizendo: "Ao contrário. Já está incorporado!"
Eu me iluminei, ganhei meu dia, e um inusitado amigo especialista, que avalizou o meu cordel de amador...

No comments:

Post a Comment