Sunday, July 26, 2020

MEDITAÇÃO OCIOSA DE UM DOMINGO DE QUARENTENA (crônica de Guilherme d Faria)

Nestes domingos de quarentena, como hoje, olho pela janela do ateliê a minha Oscar Freire absolutamente deserta, e em que os bem-te-vis nem alardeiam, de desconfiados que estão (eles não são sabiás mas estão ressabiados)... E me ocorre que o mundo não acabou, não, como eu cheguei a pensar, mas que passamos inadvertidamente para uma mundo paralelo ou para a quarta dimensão, como diriam os adeptos da física quântica. Sim, deve ser isto, porque passei a encontrar de volta pequenos objetos perdidos aqui dentro de casa, e que deviam ter estado o tempo todo debaixo dos meus olhos, e eu não os via.

Como por um lado é bom o mundo ter parado pela metade! Ter virado uma espécie de cidade de interior, em que espero de repente enxergar pela janela passar aquele burrinho com dois enormes latões de leite (pensando bem... coitadinho) um de cada lado no lombo, puxado pelo cabresto por um caipira descalço com calças de pular brejo, que estavam desaparecidos desde as minhas férias de infância...

Eu, que fui sempre sedentário e meditativo, e levei uma vida de ateliê, de pé a maior parte do tempo diante do cavalete de pintura ou meio reclinado em má posição na cama lendo, coisa que me cobra agora, na chegada da terceira idade, grandes dores musculares e de coluna... sim, agora não tenho o direito de me queixar de quarentena nenhuma, que sempre foi mais ou menos a minha realidade pessoal.

De que poderia me queixar, se sempre fui um individualista e não um idealista, pois amo mais o escritor picaresco Cervantes do que o seu personagem Dom Quixote com seu quixotismo alienado do qual o próprio o romance é a crítica?

Entretanto devo talvez revelar que um certo otimismo pessoal me voltou desde ontem, quando tomei uma milagrosa injeção na farmácia, aplicada com maestria por uma gentil e compassiva mocinha atendente, que percebi até mesmo bonita através de sua máscara. Foi como tirar as dores com a mão ao prazo de uma hora, e o meus movimentos que estavam travados, voltarem. Eu proporia um premio Nobel da Paz senão de Medicina, para quem inventou o medicamento injetável Diprospan 5. Não terei desculpa para parar de pintar, e me aposentar, porque assim como um ator deveria morrer sempre no palco, como a nossa grande atriz Cacilda Becker o fez praticamente durante a peça "Esperando Godot" de Beckett (que eu assisti no última seção, aquela da sua morte) de derrame por ter ficado de ponta cabeça num certo momento da peça, assim também um pintor deveria morrer crucificado no seu cavalete com dois pincéis cravados nas mãos, e os pés chafurdando nas tintas da paleta... (apaga tudo, que imagem mais grotesca e patética (!!!) rrrrsssss

Bem... meu amigos, como vêem a falta de assunto rende muito assunto para um ser meditativo e ocioso como eu, para os seres também gentis, ociosos e igualmente meditativos que me leem, com um ganho imponderável para todos, advindo do ato gratuito e reconfortante de pensar e exprimir nossos pequenos pensamentos de filósofos falhados, afinal um direito inalienável de todos...

(Guilherme de Faria)

Friday, July 24, 2020

O ARISTOCRATA DE PORTARIA

Eu sempre tive sorte com duas categorias de profissionais: os porteiros (pelo menos os do meu prédio) e os choféres de táxi. Destes últimos deixarei para falar outra hora. Eu digo isso, porque sempre colhi boas estórias, além de simpatia, respeito e até distinção no trato desses profissionais para comigo... de modo mútuo, claro.Na portaria do condomínio em que habito há mais de quarenta anos domina um grupo de irmãos nordestinos de uma mesma família, em que estranhamente, todos, absolutamente todos são educados e prestativos, cada um no seu turno, a ponto de me saudarem e abrirem a porta do elevador e apertarem o botão do meu andar quando chego. Chega a ser estranho, não é verdade? Então dou-me conta de que é porque os trato muito bem, com simpatia autêntica e eles sentem isso. Deve ser porque vivi quatro anos em Olinda PE e a partir daquela cidade colonial fiz uma expedição pelo sertão de Pernambuco e Paraíba, que gerou, trinta anos mais tarde, a minha inusitada fase de cordelista sertanejo. De algum modo eu captei a alma sertaneja nordestina que é a raiz dessa família de porteiros servindo nesta paulistérrima Oscar Freire próxima da Augusta.
Mas agora, provando que não é apenas isso, mas sim uma estranha sorte mesmo, há um novo contratado (há uns dois meses) pela sindica para um horário noturno específico, que é um negrão bonito de 1,96 de altura, esguio, musculoso (faz musculação) e que já foi jogador de basquete e segurança. O rapaz é um gentleman e excede todos os outros em cortesia para comigo.
Graças a esses serviçais modelo, eu me sinto como um nobre decadente, mais ou menos como aquele do filme "Tristana" do Buñuel, que vivia há décadas de vender os móveis preciosos da mansão da família e estava já com a casa vazia, fazendo eco. Não é o meu caso quanto às circunstâncias, claro, mesmo porque meu ap é quase um kitinete de acumulador compulsivo, mas como tipo humano de aristocrata falido de uma belle époque imaginária, para ser sincero. Lembro que o tal aristocrata do filme dizia: "Eu vivo mal, mas pelo menos eu não trabalho"... Sim, dei-me conta de que no fundo nunca considerei a pintura um trabalho, mas um prazer, e ser tão bem servido por esses homens é um privilégio de nobres, que na verdade nem mereço...
CONTINUA

O TESTEMUNHO DO MEU VIZINHO

Ontem, na hora em que fui jogar o lixo na lixeira, topei com o meu vizinho do fim do corredor, que é uma rapaz precocemente envelhecido, com vasta cabeleira e grande barba grisalha, com oclinhos sem aro, redondos, sempre encapotado, uma figura interessante, que parece um poeta russo do século XIX. Sabendo pelos porteiros ser ele volta e meia vítima de depressão, perguntei por sua saúde, e ele, apesar da máscara obrigatória, me contou a seguinte história acontecida com ele, e que tentarei reproduzir fielmente conforme recordo suas palavras:

"Seu Guilherme, ontem estive no Hospital...* para retirar os pontos de uma operação a que me submeti há um mês. Estava um ambiente muito conturbado, com muita gente chegando em macas com sintomas do Covid ou não e, sendo atendidas por enfermeiros atarefados. Então notei um enfermeiro especialmente dedicado aos recém-chegados mais graves, e cheio de compaixão nos gestos e no semblante. Olhei-o com mais atenção e o reconheci claramente: Era Jesus, seu Guilherme! Me aproximei dele com dificuldade e o inquiri respeitosamente: "Senhor, desculpe, eu o reconheci, e vejo que está muito ocupado, mas não posso deixar de perguntar : O Senhor não poderia praticar um último milagre e fazer cessar este pandemônio... digo, esta pandemia? "
Jesus levantou os olhos, continuando a aplicar uma compressa na testa de um paciente, e respondeu:
"Cidadão, eu fui proibido desta vez, pelo Pai, de lançar mão de milagres. Estou reduzido a exercer a simples compaixão humana."
Eu, inconformado, insisti e perguntei: "Por quê, Senhor?" Mas nesse momento não o vi mais, perdido naquela confusão. Procurei longamente com os olhos naquele saguão tumultuado, mas em vão... "

Eu fiquei olhando nos olhos do meu vizinho para ver se ele estava falando a verdade, se não estava inventando uma historinha.
Mas, o que vi me surpreendeu tanto que quase esqueci das minhas mazelas físicas de velho pintor em fim de carreira.

E fiquei perplexo, olhando o meu exótico vizinho se distanciar e entrar no seu misterioso apartamento, a que nunca me convidou para entrar, e que muito menos o faria agora...

(Guilherme de Faria)

Monday, July 6, 2020

VIAGEM À RODA DO MEU QUARTO" (crônica de Guilherme de Faria)

Meus amigos... lendo o título emprestado desta crônica não pensem que vou fazer um ensaio ou resenha do famoso livro de Xavier de Maistres. Na verdade, somente não encontro melhor título para a minha vida privada, que teve sempre a nota de uma solidão renitente, conquanto eu tenha sido ao mesmo tempo "un homme de femmes", não propriamente um mulherengo, mas um assumido carente perpétuo da companhia feminina. A mulher, espelho da "anima", sempre me foi absolutamente necessária, primordial, essencial, no dia a dia como nas longas noites, e sem a qual eu simplesmente me desintegraria...PUFFF

Quando criança, o meu quarto era já uma paixão, tanto que embora tendo mais três irmãos, sendo duas irmãs gêmeas mais novas e um irmão dois anos mais velho, logo dei um jeito de ter um quarto só para mim, que eu enchi de livros e aeromodelos, e mantinha uma pequena bancada improvisada de marceneiro para trabalhos manuais que eram a minha paixão depois dos livros. Romances clássicos de aventuras, poesias, contos e novelas de grandes autores, povoavam minha cabeça a ponto de eu não querer mais sair do quarto e minha mãe, grande leitora e incentivadora das minhas leituras, ela mesma volta e meia me expulsar dizendo: "Vai tomar sol! Vai pra rua brincar com os moleques! Você está se tornando um rato de biblioteca! "
Fui para a rua e me apaixonei como um pequemo Werther sofredor por uma menina vizinha, linda... estória que já contei há anos atrás e voltarei um dia a contar. Meu primeiro amor...

Sim, era verdade... eu estava ficando um tanto frágil e muito branco (eu era louro,vejam só...)
Percebendo o perigo, meus pais me mandaram, aos onze ou doze anos, para uma conhecida colônia de férias, o "Paiol Grande", dos padres oblatos canadenses, dirigida por um prestigioso e distante Father Leising. Nunca sofri tanto por um interminável mês, em que nos primeiros quinze dias meu corpo doía inteiro, pelo regime de exército, por intermináveis sessões de exercícios, esportes competitivos, e excursões exaustivas a cavalo e a pé. Ao fim de um mês (férias de Julho) eu estava afinal enrijecido para o resto da vida, e tenho que reconhecer que meus pais tiveram razão. Eu escapara de ficar efeminado ou de me tornar "avant-la-lettre" o que nos tempos atuais chamamos de um "nerd".
Entretanto a necessidade da vida de quarto, que logo se transformou em ateliê de pintura e desenho, dominou meu modo de vida para sempre. Eu durmo onde trabalho, para acordar de noite e olhar o quadros em andamento no cavalete e dar pinceladas antes de voltar a dormir. Preciso viver cercado de livros acumulados de uma vida, dos quais não consigo me desapegar de nem um único, uma verdadeira biblioteca... e de meu quadros pelas paredes ou encostados a elas em pilhas que me ameaçam bloquear no escuro, como naquela peça "A Mudança", do Yonesco...
Assim, diariamente percorro a vista "à roda de meu quarto" e viajo no mesmo sonho inesgotável desde a infância, pelo mundo que construí e que para mim supera em encanto as experiências reais das poucas viagens que fiz ao estrangeiro, em que, embora com inegável proveito (sobretudo pelas visitas aos maravilhosos museus), me senti verdadeira e desconfortavelmente... um estrangeiro.
Todavia, recentemente, nesta minha viagem sem fim, por estar escrevendo sobre ela abriu-se uma nova perspectiva e ocorreu-me que alguns dos meus eventuais leitores estarão ponderando sobre um provável sentido narcísico, e portanto vicioso, desta minha projeção contínua no meu entorno, como um mero processo autofágico, e afinal, socialmente estéril...

Mas, vejam, senhores, nesse caso eu teria que ser julgado juntamente com todos os artistas do mundo, de todas as épocas! E então, absurdamente me vejo num imenso julgamento público como aqueles da Máfia italiana: todos nós numa imensa jaula, protestando, mordendo os punhos manchados de tinta...

Não! A VIAGEM À RODA DO MEU QUARTO, não pode ter sido o perpétuo debruçar de Narciso sobre o lago, e as mulheres que dela participaram, ainda que dolorosamente, não foram transformadas em pedra, exaustas de ecoarem seus chamados...

O que faz o artista, afinal, senão doar-se, ainda que multiplicando espelhos?

Olho em volta, e percebo que as minhas memórias clamam por serem compartilhadas, assim como meus quadros e... não posso senão fazê-lo, sim, com o mesmo direito do artista que diariamente sobe ao palco, realiza o seu show, e espera legitimamente os aplausos da platéia.

E curva-se em agradecimentos, humildemente...vaidosamente... humildemente...


FIM

(Guilherme de Faria)




OS ÚLTIMOS ANOS (crônica de Guilherme de Faria)

Nos últimos anos, quando saio na minha agora qualidade de idoso para andar um pouco pelo bairro, noto cada vez mais a falta gradativa de certas figuras familiares, algumas com quem trocava palavras e notícias, outras que eu só conhecia de vista mas com alguma familiaridade pelo número de anos desses falsos "encontros". Sim, essas figuras foram desaparecendo, e deduzo que morreram, pois pareciam bem mais velhas do que eu. Em breve já não conhecerei ninguém no meu bairro, e isto me faz lembrar do velho mestre Degas, que era visto muito velho e cego andando amparado por sua bengala pelo seu bairro (Quartier Latin?) em Paris, olhado com reverência distante por alguns vizinhos que ouviram falar de sua celebridade por seus avós... até que também sumiu como a última visão do Impressionismo, ilustre movimento do final de um século passado...
Não quero me comparar com o grande Degas... Comparado com ele sou apenas um pintor de rodapés, e pior: do Terceiro Mundo. Mas a essa visão seria pertinente do ponto de vista subjetivo, e de uma crescente solidão, se não fosse o milagre de uma segunda vida social, esta, do "mundo virtual" da nossa época, do nosso facebook...
Não posso portanto me queixar: há até um razoável número de acompanhantes fiéis de minhas "memórias", o que, confesso, funciona como carícias no meu Ego...
Entretanto, de um modo ou de outro tudo leva a crer que eu também irei desaparecendo devagar e minhas últimas notícias serão dadas pelo porteiro do meu prédio para algum morador de meia-idade:
"O senhor soube? O velho pintor do ap... *, aquele velhinho desarrumado, o seu Guilherme? Foi encontrado morto, pelo cheiro, depois de uma semana! Foi difícil entrar no apartamento de tanto quadro e tranqueira. Foi quase preciso fazer um rescaldo... Uma semana antes ele deu pra mim este quadrinho, olha... por tantos anos aqui na portaria. Estou vendendo, é bonitinho ... o senhor se interessa? "

(Guilherme de Faria)

Sunday, July 5, 2020

PEQUENA HISTÓRIA DE ESQUINA (crônica de Guilherme de Faria)


Nestes dias de quarentena eu começo a me lembrar cada vez mais de pequenos episódios vivenciados em diversas épocas da minha vida, que nunca mencionei antes por considerar irrelevantes. Entretanto sua persistência em minha memória desmentem esse juízo precipitado e começo a enxergar algum sentido nesses "pequenos lances", à primeira vista comezinhos.

Ontem, de máscara, andando uns quarteirões até o Supermercado, lembrei-me do encontro casual que tive uma vez numa esquina, no exato lugar em que agora passava, com o velho pintor concretista geométrico Hércules Barsotti que eu via sempre passeando pela Oscar Freire e transversais olhando vitrines e comentando-as com o seu companheiro de uma vida, Willis de Castro. Eram duas figuras conhecidas no bairro. Nesse dia, que agora lembro, ele estava acompanhado de um outro pintor conhecido, bem mais jovem, que era um seu fiel amigo, e sabendo eu do falecimento do seu companheiro Willis de Castro, achei por bem comentar, dizendo "eu soube, sinto muito"... dando-lhe os "meus pêsames" de maneira um tanto convencional.
Hércules, duramente, eu diria até rispidamente, atalhou-me com estas exatas palavras: "Não sinta!. Por quê dizer isso? Nós todos somos para a Morte."

Fiquei desconcertado... e mesmo envergonhado da minha possível falsidade ou hipocrisia, de que não me havia dado conta. Eu não conhecia bem o velho pintor, e as poucas vezes que trocamos palavras ele sempre me pareceu bastante antipático, mas de um jeito que me fazia crer que ele tinha muita personalidade e caráter, embora eu não apreciasse a sua prestigiosa arte fria e racional, que não me dizia nada. Justamente por isso eu não deveria ter lhe dado os pêsames que na verdade não sentia. Eu acabara de levar uma lição. Nunca mais daria pêsames a ninguém: "Somos todos para a Morte"... o velho tinha razão.

(Guilherme de Faria)