Monday, May 17, 2021

MEUS PASSOS DA PAIXÃO (crônica de Guilherme de Faria)

Creio que para ser um pintor é preciso amar profundamente a Natureza, se não Deus, ou no mínimo amar as cores, se não as formas. De família católica, quando criança eu não gostava da missa, por achá-la monótona (era em latim e sempre igual). Em compensação gostava de ficar examinando a Igreja, olhando o seu teto pintado e os detalhados quadros dos Passos da Paixão. Minha mãe parecia compreender e não me chamava a atenção ou repreendia baixinho por estar olhando para todos os lados menos para o padre e a Eucaristia.
Acredito que a maneira de amar a Deus dos artistas é das mais legitimas e autênticas, pois consiste em reverenciar a matéria, os objetos, tanto quanto o espírito, o que só pode agradar a Deus, pois não há maior acolhimento de Suas obras inigualáveis, que entretanto tentamos tantas vezes imitar, produzindo, na verdade outra coisa, da qual imagino Deus sorrindo, condescendente, talvez também encantado.
A propósito, quero recordar aqui uma experiência que me ocorreu nos anos 90. Eu recebi uma chamada do interfone de uma senhora costureira que morava no prédio, alguns andares acima e que me disse estar com uma cliente sua, que sempre que vinha provar seus vestidos com ela, comentava como lhe agradavam as litografias emolduradas penduradas nos corredores das duas entradas do condomínio (a da Oscar Freire e a da Hadok Lobo). Então ela dissera à sua cliente que o artista morava no prédio e esta então disse que gostaria de visitar meu ateliê para fazer uma encomenda e se eu poderia recebê-la dali a uns minutos. Empolgado, eu disse que sim, que ela podia descer, que a estava esperando.
Quando soou a campainha, abri a porta e entrou uma verdadeira rainha, eu, impressionado e quase reverente ante a majestade natural daquela dama...

Era uma senhora de meia idade, quase idosa na verdade, com belos cabelos brancos muito bem penteados à antiga, e um porte distinto e ereto, um tanto contido, como manda a verdadeira nobreza de estirpe. Ela olhou em volta os meus quadros por todos os lados e parecendo ter gostado do que viu começou a falar:
"Senhor Guilherme, eu tenho uma fazenda antiga, de família, produtora de café, aqui no Estado, e que dispõe de um capelinha mais antiga ainda, muito simples, todo caiada, do tempo da colônia. Eu mandei recentemente restaurá-la e gostaria de colocar nela os catorze Passos da Paixão, sete telas em cada parede lateral. Vejo que o senhor tem aqui esta primeira queda de Jesus sob a cruz ...Acaso o senhor pintou já a série completa?"
Eu fiquei pasmo! Eu andava em grande dificuldade financeira, à beira da ruina, mas tinha há poucos dias pintado num impulso temático inusitado, aquela telinha de 70x70cm, com fundo infinito de uma só cor chapada , dentro da minha fase "primitiva" como eu chamava e que era já um passo da Via Crucis de Jesus, avulso, inexplicável, no contexto da minha produção daquela época. Uma incrível coincidência, ou um chamado providencial?
Aceitei imediatamente a encomenda com a condição de serem todas as telas naquele formato e dimensões, com as figuras contra fundo infinito, cada um de uma cor diferente e com aquele estilo. Dei o preço imediatamente e exigi receber contra a entrega de uma por mês, catorze prestações que me garantiria uma espécie de salário fixo por um ano e dois meses. A senhora aceitou sem hesitar todas as condições. Ela retirou-se satisfeita e confiante, e eu pus imediatamente mãos a obra, me sentido como um pintor italiano quinhentista, mas a serviço de uma Papisa...
Ao longo daqueles catorze meses pintei um por mês os Passos da Paixão de Jesus, e após ter entregue a última tela, dali há umas semanas encontrei no elevador minha amiga costureira que me contou o seguinte:
A Dona...... estava na sua fazenda com seus filhos adultos quando esta foi invadidas por uma quadrilha bandidos de terno e gravata (!!!) armados de carabinas e até metralhadoras que fizeram todos reféns por muitas horas. Afinal, depois de saquearem o casarão foram embora, felizmente sem matar ninguém, mas deixando-a traumatizada a um ponto de nunca mais querer voltar a pisar na sua fazenda.
Então liguei para minha cliente para saber se ela estava bem, e ela me contou que, os meus quadros estando ainda guardados dentro de um armário de seu apartamento, foi visitada por uma sobrinha querida, também fazendeira, que contou que estava coincidentemente também restaurando uma capela antiga na sua própria fazenda na região de Ribeirão Preto. Então ela doou à sua sobrinha as telas para colocar na tal capelinha. Um destino feliz, por assim dizer, para as minhas obras. Lamentei por ela o incidente traumático mas me dei por satisfeito quanto ao desfecho de tudo, e por minhas obras irem afinal ficar expostas em igualmente sagradas paredes.
Passadas umas semanas recebi um telefonema da tal sobrinha, dizendo:
"Senhor Guilherme, meu nome é..... e sou sobrinha da Dona.... que encomendou ao senhor os catorze Passos da Via Crucis, que ela acaba de doar a mim, para por na capela antiga da minha fazenda em Ribeirão Preto. Gostaria visitar o seu ateliê com meus filhos. É possível?"
"Claro, com muito prazer, respondi. Hoje à tarde? Ás .... horas? Sim, pode ser, estou esperando."
Quando chegaram ao meu humilde e bagunçado ateliê, logo ela começou dizendo:
"Senhor Guilherme, o motivo desta visita é para encomendar um Passo da Paixão que ficou faltando porque o senhor pintou a Flagelação na Coluna como se fosse um dos Passos, e na verdade não faz parte da Via Crucis. O senhor pintaria o Terceiro Passo para completar a série? Quanto o senhor cobraria?"
Grato à minha falseta teológica, que assim me beneficiava, aceitei logo a encomenda, combinei o mesmo preço anterior, e acertados declamei um cordel meu de brinde, como costumo.... rrrssssss. Ficaram surpresos e foram embora meio perplexos com minha animação e naturalidade na pobreza, segundo me pareceu.
Dali a duas semanas, finalizada satisfatoriamente a nova tela, telefonei para ela vir buscar e pagar. Na ocasião ela disse:
"Senhor Guilherme, a tela da flagelação ficará ótima num nicho que tem na torre do sino, separada das outras nas paredes da capelinha. Foi muito bom o senhor a ter pintado....Vou inaugurar a capela, com uma consagração e missa, no dia .... numa grande festa para a família e convidados. Estou já imprimindo os convites."
Passadas umas semanas, não tendo recebido nenhum convite, telefonei à minha cliente e perguntei se eu poderia comparecer à inauguração, pois estava curioso para ver minhas telas na parede da capela, no mínimo para encerrar dentro de mim aquele feliz episódio. Ela respondeu:
"Senhor Guilherme, o senhor desculpe, mas a cerimônia será exclusivamente para a família e para os íntimos. O senhor ficaria deslocado. Posteriormente o convidarei especialmente para conhecer a capelinha com suas obras..."
Fiquei um tanto decepcionado, e como logo previ tal convite nunca veio (já se passaram vinte anos). Nunca pude ver minha única obra sacra nas paredes de uma capela.
Na verdade consolei-me com a ideia humorística de um Michelangelo não convidado pelo Papa para inauguração de sua obra na Capela Sistina. Afinal os artistas sempre entraram na casa dos ricos pela porta da cozinha, no máximo para comer com os criados...
A consciência de fazer parte de uma ilustre casta histórica de rejeitados, era para mim, paradoxalmente, motivo de orgulho, não de ressentimento. A tal senhora passaria, anônima na sua nobreza de estirpe, e minhas obras provavelmente ficariam, o que, afinal é tudo o que ainda me interessa... um naco de eternidade...

FIM
20/05/2021




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