Memórias de Guilherme de Faria, pintor e poeta
Tuesday, October 28, 2025
MARAVILHOSA ANÁLISE CRÍTICA DO ÚLTIMO ROMANCE, INÉDITO, DA ALMA WELT ( no prelo) "A IDADE DA ALMA"
Estrutura Narrativa e Composição
_______________________________________
A obra apresenta uma arquitetura narrativa ambiciosa que entrelaça prosa romanesca e poesia lírica de forma orgânica e inovadora. Estruturada em nove capítulos, a narrativa segue uma progressão que parte do encontro inesperado com Natália até a reunião apoteótica do "elenco completo" de personagens que povoam o universo da protagonista. O romance se distingue pela integração de duas extensas coleções temáticas de sonetos – sobre o Tempo e sobre a Amizade – que funcionam não como meros interlúdios líricos, mas como elementos estruturantes que aprofundam a reflexão filosófica e emocional da narrativa. A construção temporal da obra revela notável complexidade. O prólogo estabelece a voz narrativa em primeira pessoa de Alma Welt aos 35 anos, posicionando-a após os eventos da trilogia anterior. A narrativa avança linearmente pelos capítulos, mas incorpora analepses estratégicas que recuperam episódios formativos da juventude da narradora, criando uma teia de significações que enriquecem a compreensão do presente narrativo. A inserção de cartas, como aquela de Lucia a Guilherme de Faria, e de poemas escritos por outras personagens, como o poema "Manhã orvalhada" de Lucia, amplifica as vozes narrativas e oferece perspectivas múltiplas sobre a protagonista, construindo-a simultaneamente de dentro e de fora. A decisão de incluir a fotografia do túmulo de Alma e a narrativa de sua morte violenta seguida pela continuidade da existência em uma "dimensão paralela" constitui um dos elementos mais ousados da estrutura. Este recurso ao realismo fantástico, mencionado no prefácio de Guilherme de Faria, não rompe com o caráter memorialístico da obra, mas o expande para territórios metafísicos, sugerindo que a escrita e a memória podem transcender a mortalidade física. Temas Centrais O romance orbita em torno de constelações temáticas densas e interconectadas, sendo o tempo o núcleo gravitacional mais evidente. Os vinte e cinco sonetos da série "O Tempo" exploram obsessivamente a temporalidade em suas múltiplas facetas: o tempo cronológico que escoa inexorável, o tempo subjetivo da memória, o tempo cíclico da natureza e dos rituais agrários, e o tempo mítico que suspende a narrativa em momentos de epifania. Em "O Tempo Suspenso", a narradora dialoga com Lamartine e Ronsard, inscrevendo-se em uma tradição lírica europeia que medita sobre a fugacidade. A tensão entre o desejo de suspender o tempo e a consciência aguda de sua passagem permeia toda a narrativa, manifestando-se tanto nos versos quanto nos episódios romanescos. A solidão emerge como tema recorrente e estruturante. Apesar de cercada por uma constelação de amores, amigos e familiares, Alma experimenta uma solidão ontológica que não pode ser preenchida pelas relações humanas. Esta solidão não é meramente circunstancial – produto do isolamento geográfico da estância – mas existencial, própria da condição do artista que, como ela própria reconhece, carrega "através dos milênios" a tocha da poesia. O soneto "O Poeta e o levante" expressa esta consciência: "A solidão aumenta a cada século, / Que, nós, milênios dentro carregamos, / Que ser poeta é ser como um espéculo / Da espécie que o saber e dor herdamos." A identidade e a multiplicidade do ser constituem outro eixo temático fundamental. Alma se vê e é vista como "todas as mulheres do mundo", arquétipo que condensa experiências femininas diversas e contraditórias. Esta identidade plural manifesta-se nas múltiplas máscaras e papéis que assume: filha órfã, irmã incestuosa, amante lésbica e bissexual, esposa, mãe, poetisa, estancieira, sedutora involuntária, vítima de violência sexual, mártir e sobrevivente. A narrativa não resolve estas contradições em uma síntese unificadora, mas as mantém em tensão produtiva, sugerindo que a identidade é performática e situacional. A beleza como fardo e poder atravessa a narrativa de forma ambivalente. A excepcional beleza física de Alma é constantemente mencionada e descrita como fonte de admiração, desejo, inveja e violência. Ela reconhece sua beleza como "uma espécie de maldição", poder involuntário de sedução que atrai tanto o amor quanto a destruição. Esta consciência da beleza como duplo gume relaciona-se com a tradição literária das femmes fatales, mas com a inversão significativa de que a protagonista é simultaneamente agente e vítima desta dinâmica. Linguagem e Estilo A prosa do romance oscila entre o coloquial e o lírico, entre o registro confessional direto e a elaboração poética. Esta maleabilidade estilística permite que a narrativa transite com fluidez entre cenas de ação dramática, reflexões filosóficas e contemplação lírica. O uso frequente de expressões gauchescas e regionalismos – "báh", "gáltcho", "buenas", "guri" – ancora a narrativa em seu espaço geográfico e cultural específico, conferindo autenticidade à voz narrativa. A autorreflexividade constitui traço marcante do estilo. A narradora frequentemente comenta o próprio ato de narrar, estabelecendo um pacto de veracidade com o leitor: "meus leitores, portanto, me conhecem bem, e sabem que não minto nem aumento." Esta estratégia de autenticação convive paradoxalmente com elementos fantásticos, criando um jogo entre ficção e autobiografia que mantém o leitor em permanente ambiguidade interpretativa. Os sonetos integrados à narrativa demonstram domínio técnico considerável. Escritos em decassílabos com esquemas rímicos variados, privilegiando o soneto shakespeariano (três quartetos e um dístico final) e o petrarquiano (dois quartetos e dois tercetos), revelam um trabalho consciente com a forma fixa. A linguagem poética emprega tropos clássicos – a vida como rio, o tempo como senhor implacável, o poeta como portador da tocha – mas os atualiza através de dicção contemporânea e referências pessoais. Em "Nightmare", por exemplo, a meditação sobre a morte ganha concretude sensorial: "E esse silêncio atroz me desespera / Pois deve ser o mesmo dentro a tampa / Fechada do caixão que nos espera." A intertextualidade enriquece significativamente o texto. Referências explícitas a Balzac, Flaubert, Brontë, Borges, Nietzsche, Camões, Keats, Baudelaire, Rimbaud, Whitman, entre outros, inscrevem a obra em uma genealogia literária ocidental. Estas referências não são ornamentais, mas funcionam como chaves interpretativas que orientam a leitura e estabelecem filiações estéticas. A comparação implícita entre Alma e Emily Brontë, ambas ligadas visceralmente a suas paisagens (o pampa e a charneca), sugere uma consciência aguda das ressonâncias entre vida, lugar e escrita. Personagens A galeria de personagens que povoa o romance constitui um dos seus pontos de maior interesse, funcionando quase como um sistema de espelhos onde a protagonista se reflete e se reconhece fragmentada. Alma Welt: A narradora-protagonista é construída através de camadas sucessivas de revelação e ocultamento. Apresenta-se como figura contraditória: poetisa confessional que expõe impudicamente sua intimidade, mas que ainda guarda "nichos trancados"; mulher de "beleza desmesurada" consciente de seu poder de atração, mas vulnerável à solidão e à necessidade de ser amada; defensora feroz de sua liberdade sexual e afetiva, mas capaz de auto-recriminação e vergonha. Sua trajetória no romance move-se de um momento de relativa pacificação após as batalhas narradas na trilogia anterior para novos conflitos gerados por sua incapacidade de renunciar ao desejo. O episódio do julgamento revela aspecto central de seu caráter: a necessidade de assumir culpa mesmo quando inocentada, gesto que indica tanto orgulho quanto masoquismo moral. Natália: A jovem admiradora funciona como espelho da própria juventude de Alma, mas também como catalisadora de conflitos. Sua devoção obsessiva, que a leva a fugir de casa em "peregrinação de amor", replica o padrão de paixões absolutas que caracteriza o universo narrativo. A mentira que conta aos pais sobre ter se tornado amante de Alma, acompanhada da traição fotográfica no poço da cascata, revela tanto imaturidade quanto astúcia manipuladora. Seu retorno no final do romance, aos dezenove anos, completa um ciclo e sugere a impossibilidade de Alma de romper com os padrões de atração e sedução que a definem. Dario: O "marido ideal" é caracterizado por uma compreensão e aceitação quase sobre-humanas das complexidades de Alma. Sua tolerância às infidelidades, aos arranjos poliamorosos e às excentricidades da esposa poderia soar inverossímil, mas a narrativa o constrói como figura olímpica, "pairando" acima das contingências. Ele representa a possibilidade de um amor não possessivo, baseado na liberdade mútua. Seu gesto de carregar Alma desfalecida no ombro durante a Festa da Vindima, transformando um momento de vergonha em comédia picaresca, exemplifica sua função protetora e salvadora. Aline: A ex-amante e mãe do primeiro filho de Rodo (concebido com a participação genética de Alma através de métodos reprodutivos não convencionais) representa o grande amor lésbico de Alma. Sua beleza, descrita em termos eróticos intensos, e sua disponibilidade para experiências sexuais ousadas (como posar nua para Guilherme) a estabelecem como contraparte sensual de Alma. O casamento de conveniência com Rodo e a mudança para a Toscana representam uma traição afetiva que Alma experimenta como abandono, reativando sua ferida primordial de não ter sido suficientemente amada pela mãe. Rodo (Rudolf): O irmão amado, com quem Alma teve experiências incestuosas na infância, personifica a figura do aventureiro irresponsável mas adorável. Jogador profissional de pôquer, errante pelos cassinos da Europa, ele representa a possibilidade de uma vida livre das amarras sociais. Seu gesto de vender a Ferrari para pagar a multa de Alma demonstra lealdade fraternal incondicional. A transformação final em vinhateiro na Toscana sugere que mesmo os espíritos mais livres podem ser domesticados pelas circunstâncias. Lucia: A irmã sobrevivente funciona como voz da razão e da responsabilidade familiar. Sua carta necrológica, transcrita no romance, oferece uma visão externa de Alma que confirma e amplifica a autoimagem da protagonista. O poema "Manhã orvalhada", que Lucia escreve em memória da irmã, revela a profundidade de seu amor e a percepção aguda da beleza e vulnerabilidade de Alma. Matilde e Galdério: Os empregados fiéis representam a continuidade e a memória da casa dos Welt. Matilde, a "bá shakespeariana", com seu quarto repleto de santos e velas, incorpora a religiosidade popular e a sabedoria prática. Galdério, que carrega o corpo nu de Alma morta nos braços através da campina em gesto de "paternidade" simbólica, representa o amor devoto e desinteressado. Guilherme de Faria: O pintor e poeta paulistano idoso que "descobriu" Alma funciona como figura mentora e testemunha privilegiada. Seu prefácio ao romance oferece chave interpretativa importante ao situar a obra na tradição do "realismo lírico" e ao comparar Alma com Emily Brontë. Sua presença no último capítulo, com seu fetichismo decadentista, adiciona dimensão erótica e artística, sugerindo que a beleza de Alma transcende as categorias morais convencionais.Destaques Entre os momentos de maior força expressiva do romance, destaca-se o capítulo do segundo julgamento de Alma. A cena no tribunal atinge densidade dramática notável, com a reversão inesperada do testemunho de Natália, que nega ter sido vítima e declara seu amor pela poetisa. A confissão paradoxal de Alma – "EU ME DECLARO CULPADA" após ter sido inocentada pela testemunha – constitui momento de grande impacto emocional e complexidade psicológica. Ao assumir culpa por fantasias íntimas e desejos não realizados, Alma revela a profundidade de sua integridade moral e sua recusa em se esconder atrás de tecnicismos jurídicos: "sou culpada porque me apaixonei por Natalia, por sua beleza e aparente candura, e intimamente a desejei, sim desejei estar com ela no meu leito, mas não o fiz, mais por covardia do que por escrúpulo." A cena do parto selvagem de Alma na coxilha pampiana constitui outro momento memorável. A descrição visceral do nascimento de Zoé – cortando o cordão umbilical com os dentes, deixando a placenta para o lobo-guará, caminhando com o bebê ensanguentado até a casa – investe a maternidade de dimensão primitiva e sagrada. A fúria inicial de Alma contra aqueles que tentam medicalizar o que ela vivencia como experiência mística exemplifica sua recusa às normas civilizatórias. O "satori" que experimenta ao amamentar pela primeira vez, compreendendo "tudo do mundo e da vida ao mesmo tempo", alcança intensidade epifânica rara na literatura contemporânea. A carta de Lucia narrando a morte de Alma e o velório do corpo nu sobre a mesa de jantar atinge qualidade quase operística de patetismo. A descrição da alvura marmórea do cadáver, venerado pelos peões e trabalhadoras que invadem a sala, transforma a morta em ícone sacralizado. A intervenção de Matilde, que cobre o corpo com toalha de renda gritando "Afastem-se da minha guria, seus ímpios!", adiciona camada de realismo emocionalmente carregado que ancora a cena no afeto genuíno. O soneto premonitório "Visão", datado de três semanas antes da morte e descrevendo exatamente o velório que ocorrerá, introduz dimensão de mistério e predestinação que desafia interpretação racionalista. A sequência final da Festa da Vindima oferece contraponto trágico-cômico notável. A transformação de Alma em bacante possessa, pisoteando uvas com fúria descontrolada e fazendo o sumo espirrar nos circundantes, seguida pelo resgate por Dario que a carrega no ombro transformando vergonha em picardia, demonstra a habilidade narrativa de transitar entre registros emocionais distintos. A semana de depressão subsequente "de pura vergonha" humaniza a protagonista, revelando que mesmo uma figura tão arquetípica pode experimentar a humilhação banal. As coleções de sonetos integrados representam conquista formal significativa. A série sobre o Tempo desenvolve variações sobre o tema com sofisticação crescente, desde a meditação inicial sobre o desejo de suspender o fluxo temporal até a aceitação final da efemeridade em "Sinopse": "Se morro todo dia também nasço, / Como uma sinopse da estória / Cujo tema é só o Tempo-Espaço..." A série sobre a Amizade complementa a primeira ao deslocar o foco da temporalidade individual para as relações intersubjetivas. Sonetos como "Os amigos voltam" e "Velhos amigos" revelam consciência aguda da passagem do tempo inscrita nos rostos e corpos dos amados: "E procuro aquele toque de candura / Disfarçado nas palavras e risinhos / Onde o cinismo agora se pendura..." A cena das sessões de pose para Guilherme de Faria, em que Alma e Aline, excitadas pelas posições eróticas exigidas, vazam fluidos sobre o leito, e o pintor usa esses fluidos como "aguada" para desenhar, atinge franqueza erótica rara na literatura em língua portuguesa. A ausência de pudor narrativo, a descrição sem eufemismos e a transformação do sexual em artístico exemplificam a estética de desnudamento que caracteriza a obra.
CONSELHO EDITORIAL DA IPÊ DAS LETRAS
IpêdasLrasi C
Tuesday, October 21, 2025
PREFÁCIO ao romance A IDADE DA ALMA, de Alma Welt (Por Guilherme de Faria)
Existem coisas curiosas na Literatura clássica, quase idiossincrasias, como a de Os Três Mosqueteiros (de Alexandre Dumas) que eram quatro (!): Athos, Porthos, Aramis, e... D’ Artagnan. Assim também a Trilogia A HERANÇA, de Alma Welt: O Sangue da Terra; Vinha de Dioniso, A Ara dos Pampas, comportaria perfeitamente este quarto volume, A IDADE DA ALMA, que é uma nítida e digna continuação da saga de família da autora protagonista no seu Pampa real e Mítico, como ela mesma, na sua dimensão arquetípica, que confere tanta beleza e profundidade à sua linguagem expressiva, que se, situa, às vezes, numa fronteira tênue entre o coloquial e o lírico, ou entre a prosa e a poesia. Também ela aborda, com propriedade, simbólica e com legitimidade, sem abuso, com moderação, momentos de “realismo fantástico” sul americano, como (com algum “spoiler”) cito a sua sobrevivência muito natural e contínua, em uma dimensão quântica paralela, após a trágica e chocante descrição de sua própria morte assassinada. Mas, neste romance realista, nada de fantasmagoria espectral como, por exemplo, o encontro finalmente em espírito de Cathy Earnshaw e Heathclift. após a morte de ambos, vagando na charneca amada no Morro dos Ventos Uivantes, a obra prima de Emily Brönte, romance que percebemos que Alma Welt tanto ama, como ama a sua campanha gaúcha, das coxilhas e também de um uivante vento Minuano. A continuação plácida e, insisto: realista, após a descrição tão chocante de violência brutal de seu assassinato, confere uma originalidade magistral ao sentido geral deste novo romance da gaúcha. O realismo de sua descrição dos acontecimentos, segue sempre um encadeamento lógico que guia a narrativa, sempre com um sabor, não de fantasia, mas de memória e confissão, que é a característica peculiar, geral, de seus textos, em todas as suas obras. No entanto, literariamente, ela não se assemelha ao naturalismo de um Zola, mas ao realismo lírico de um Flaubert, que ela parece amar.
Nesta obra, ainda fazendo parte da saga familiar A Herança, vemos ainda um original atrativo: a autora apresenta uma extraordinária inovação no gênero romance: duas grandes coleções temáticas de sonetos integrados aos enredos desenvolvidos: sobre o Tempo e sobre Amigos. São sonetos belíssimos que exibem a riqueza e a profundidade de suas variações sobre os temas. Eu diria que Alma Welt é especialmente magistral neste gênero poético nascido na Idade Média e que ela cultiva de maneira idiossincrática a ponto de ter produzido incríveis 5.000 sonetos dodecassílabos originais, e quase sempre confessionais .
Como vêm, eu saúdo esta escritora gaúcha, excepcional, que tive o privilégio, em 2001 de descobrir em seu “auto-exilio” paulistano, e lançar seu primeiro livro de contos em 2004, os Contos da Alma, de Alma Welt, uma coletânea de obras primas do gênero, a maioria de contos urbanos de sua experiência existencial na capital paulista, ela que veio do meio rural gaúcho, tão diferente da “Paulicéia desvairada” do nosso Mario de Andrade.
Sim, eu diria que esta Alma carrega consigo o seu Pampa, como aquela inglesa rural carrega até os nossos dias a sua charneca. Ambas nos encantam de maneira semelhante e nostálgica, num mesmo “realismo romântico”, que preservam e perpetuam gloriosamente, numa época de realismo sórdido como o destes nossos tempos.
Guilherme de Faria
10/10/2025
Friday, October 10, 2025
Manhã Orvalhada (de Lucia Welt para a amada Alma)
Nesta manhã orvalhada
caminhei pela campina como outrora
quando tudo parecia mais autêntico e vivo
pois a Alma estava entre nós
e eu podia segurar a sua mão ao caminhar.
Ainda ouvi sua respiração arfante
não tanto pelo andadura
como pelas emoções de seu olhar
sobre detalhes da paisagem, da relva e do céu
que me passavam despercebidos.
Senti novamente seu perfume
de mulher jovem inconcebivelmente linda
que só por isso já nos comovia
tanto quanto aos peões
que ao vê-la caminhando paravam seu trabalho
e tiravam o chapéu
ao seu riso cristalino.
Ah! Doce irmã das pradarias, tu eras a alma
que agora nos falta!
Tu, o elo de ligação entre este pampa e nossas vidas
entre a paisagem e nosso alento
que todavia persiste sem teu respiro mais amplo
em teu voo a um tempo gracioso e sobranceiro,
de branca garça pampiana
guria de cabelos flamejantes, de pele alva
de paraísos suspeitados, ah! cobiçados mesmo...
Esta foi, além de teus poemas
tua prenda maior mas tua desgraça,
pois também os maus te viram
e cobiçaram...
Mas não quero pensar senão em ti, na tua caminhada,
quando rindo de alegria te afastavas de súbito
virando-te para mim
para logo me estenderes as duas mãos para rodopiarmos na campina
por puro prazer de viver.
Ah! Como eras preciosa, meu amor, minha irmã!
Que poema posso eu te escrever
senão evocar-te tal qual eras em tua beleza
cheia de secretos encantos
que no entanto prodigalizavas?
Quanto te desnudavas em tua generosidade,
pois bem sabias que o olhar do povo,
deslumbrado te vigiava, respeitoso contudo,
como não seria com nenhuma outra prenda!
Quem, entre os mortais que te viram nua (e talvez alguns deuses)
não sonhou secretamente ter-te nos braços para sugar-te o hálito divino
e fruir de tua pele de seda de impossível brancura
sob este sol do Pampa, ou mais amiúde sob a lua
e as estrelas peregrinas do teu negrinho padroeiro?
(Ai! Na grande cidade também foste amada,
mas também violada
em tua comovente vulnerabilidade,
criatura exótica perdida no caos.)
Ah! Não poder nunca defender-te,
preservar-te do mal e dos maus,
cobrir teu corpo de ninfa com meu corpo maternal
e nunca mais deixar-te ir-se!...
Caminhei esta manhã na pradaria orvalhada
e por um segundo tu, Alma, tocaste a minha mão,
senti teu beijo em meus lábios,
o hálito fresco da pradaria
e soube que continuas por aqui.
E chorei consolada...
(Lucia Welt)
28/05/2008
Thursday, October 2, 2025
MINHA PROFISSÃO DE FÉ ( crônica- depoimento de Guilherme de Faria)
Como artista, eu passei a minha vida toda (agora estou idoso, mas continuo) tentando expressar, não a mim mesmo, mas o humano, a beleza do humano, a beleza ideal das mulheres, minha admiração física suprema. Por vezes, mais raramente, o grotesco do humano quando masculino, mas quase nunca o ridículo: não explorei a caricatura do humano. Amor pela Natureza? Persegui a paisagem, tentei imitá-la... imaginária: não fui "un plenairiste" apesar de admirá-los e à sua devoção e rigor. Tentei expressar o meu amor pela Cultura Universal, pela Alta Literatura (os clássicos) e pelos grandes pintores, minha admiração máxima. Em meio a minha produção, muita coisa eu destruiria se pudesse, pois me causa vergonha, mesmo que ainda cause admiração a muitos. Com isso quero dizer que não me prostitui, mas fui, algumas vezes, auto-indulgente, o que é quase a mesma coisa.
Mas, finalmente, devo dizer que fui um profissional: insisti desde o princípio em ganhar a vida com a Arte, pois senti que aos diletantes falta, talvez, a obseção necessária, o quase fanatismo que nos leva à dedicação total à Arte... ou nada.
(Guilherme de Faria)
01/10/2025
Sunday, September 7, 2025
A PERSISTÊNCIA DO MISTÉRIO ALMA WELT (crônica de Guilherme de Faria)
Meus amigos, até hoje não sei se fiz bem ou mal em revelar ao público o segredo da minha ALMA WELT, isto é, a autoria de sua obra literária, que guardei durante dez anos na internet, e revelei aqui no nosso facebook em 2009, aparentemente causando mais aplausos do que desilusões. Sim, porque também, até hoje desconfio que ela existe, ou existiu mesmo, pelo menos numa dimensão ou universo quântico paralelo, lá no seu amado Pampa, na sua decantada estância, seu jardim da Frida, seu pomar da inocência perdida, e do seu vinhedo, visivelmente arquetípicos, todos esses elementos. Quero dizer com isso, que, entre a Alma ser minha própria alma, ou minha "anima" (no sentido junguiano do termo), ou minha encarnação passada, ou uma Poetisa que, falecida (encontrei uma foto do seu túmulo abandonado, com a placa de bronze fundido a inscrição em relevo ALMA M (de Morgado) Welt e duas datas estranhamente gastas: 1972- 2007). Um velho amigo de juventude (desde os anos 70), grande poeta, me disse acreditar que a Alma Welt é uma encarnação minha, passada... Mas como seria possível ela ter morrido tão recentemente, em 2007? Não bate para a tese de reencarnação. Ela teria que ter falecido, no mínimo, em 1942...
A existencia real (em carne e osso) da escritora gaúcha Alma Welt, e sua imensa obra literária em prosa e versos, em processo de divulgação e consagração, agora que foi traduzido (também por mim) para o inglês, o seu belo romance autobiográfico ( The HERITAGE: The Blood of the Earth), lançado no mundo inteiro (vide Google) continuam sendo grande Mistério. Por outro lado, a hipótese inicialmente defendida por mim na revelação, dela ser um simples mas profundo heterônimo, constitui também um mistério... e não menos, eu diria. Por exemplo: por quê ser ela uma gaúcha autêntica, pampiana, teuto-açoriana-brasileira, rural, se eu, Guilherme de Faria, sou um paulista, paulistano, de 460 anos, descendente de Brás Cubas ( o fundador da cidade de Santos), sem ter sequer parentes ou ascendes gaúchos? E por quê a minha grande atração desde sempre, pelo Rio Grande do Sul, sua cultura e cenários?
O Tempo e a História revelarão? Há Mistérios que duram para sempre...
(Guilherme de Faria)
06/09/2025
Monday, August 4, 2025
UMA HISTÓRIA SUCINTA DA TRAJETÓRIA DA ALMA (Crônica de Guilherme de Faria)
Um heterônimo literário (como a Alma Welt, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro, Ossian, Bilitis, Soror Mariana Alcoforado, Conte de Lautrèamont, e outros) não é como um simples pseudônimo: não se cria ou se inventa, mas surge, e quando menos se espera. Encantado com o fenômeno que me ocorreu com o surgimento da vida e obras de uma gaúcha pampiana teuto-brasileira, surgida de dentro de mim em Julho de 2001, quando eu me encontrava em pleno "surto" cordelístico sertanejo, homônimo ( outro estranho fenômeno), passei a publicar suas obras em livro (em 2004) e em 2006 em portais literários da Internet (como o "Leia Livro", da Fundação Padre Anchieta, e o Recanto das Letras) guardando, com todo direito, o segredo dessa minha heteronomia, por dez anos até revelá-la depois de mais dois anos (em 2010) na minha página aberta em 2008 no nosso querido facebook .
A revelação súbita de um velho e conhecido artista plástico paulistano, através do qual se manifestava uma jovem gaúcha, linda, poetisa e prosadora prolífica, talentosa, e encantadora em sua candura, sensibilidade e inteligência (com excepcionais dons narrativos) sua coragem e liberdade erótica, explícita sem vulgaridade... tudo isso pareceu, por um momento, desvanecer-se na mente impactada de alguns des fãs desiludidos da poetisa, a quem já cultuavam intimamente como sua diva ou musa.
Sofremos (na ocasião da revelação por mim), eu e ela (Alma), ataques furibundos, ressentidos, e creio até que ainda não fomos perdoados até hoje por alguns desses fãs, que se sentiram "enganados" e tomaram a coisa como uma espécie de "falsidade ideológica", com prejuízos morais ou emocionais para eles. Não sei como não fui processado na época, coisa que, sincera e cinicamente eu adoraria que ocorresse, porque me permitiria, em juízo público, me defender a mim mesmo, como no século XIX Flaubert o fez no seu julgamento no Tribunal de Justiça de Paris, em defesa de sua maior personagem ("Madame Bovary, c'ést moi!"). Tal atitude me pouparia anos de esforços despendidos na divulgação e promoção da maior criação da minha vida inteira, neste trabalho de Sísifo, que é a carreira de um Artista neste nosso país...
Agora, depois de passados 24 anos do surgimento da Alma Welt, minha Musa começa a ficar conhecida no mundo lusófano com seus livros em português e no Mundo inteiro, de Ocidente ao Oriente, com o seu romance autobiográfico a HERANÇA: O Sangue da Terra vertido por mim para o inglês, e publicado pela grande Editora inglesa Internacional EUROPE BOOKS (THE HERITAGE. The Blood of the Earth). (vide Google).
Uma curiosidade: meu empenho em publicá-la em livros e em divulgá-la e promovê-la, é desgastante, quase exaustivo, ao contrário de escrevê-la, isto é, de dar à luz os textos de sua abundante obra, que é extremamente prazerosa, porque surgem de maneira espontânea, rápida, sem emendas nem rasuras, sem precisar correções (!!!), quase automática, como se estivesse psicografando. Sim, creio que estou realmente psicografando, mas, a minha própria "anima" pessoal, no sentido Junguiano de termo (de Carl Jung), vinda do meu inconsciente profundo, que se confunde com a minha própria alma e que ainda por cima tem a conotação de uma anima universal, arquetípica, do "eterno feminino" Goetheano (de Goethe), portanto, como seu próprio nome alemão ao ser revelado num dos seus primeiros contos, indica: Alma Welt, Alma Mundo, Alma do Mundo, Anima Mundi.
Confiram... Leiam-na, se encantem, aprendam, comovam-se, divirtam-se, chorem e riam com ela, como estão atestando aqueles que já a estão lendo habitualmente...
Não estou pedindo nenhum favor, nenhum sacrifício, nem um esforço. Estou oferecendo quase de graça aos amigos e ao público em geral, a "graça" que me foi concedida, dessas belas obras que, milagrosa e misteriosamente tenho o privilégio de intermediar.
Há mais coisas entre o Céu e a Terra... (W.S.)
_________________________
Guilherme de Faria
04/08/2025
Thursday, June 12, 2025
O QUARTO (Conto de Guilherme de Faria, de 1962)
O QUARTO
(Conto de Guilherme de Faria, de 1962)
Devo agora abrir a porta. Ela deverá sair. Não nos é mais possível permanecer no quarto que, subitamente, se tornou nítido, cujos contornos precisos nos expulsam ou simplesmente nos fazem ver outras necessidades. O mundo lá fora... Mas, o Mundo? Ele deixara de existir durante esta eternidade.
Aqui nos encerramos, quase sem perceber. Estamos na cama há um século. Sobre esta cama nos abismamos um no outro, ininterruptamente. Os lençóis rescendem a nossos corpos e suores. Aqui nos possuímos um milhar de vezes, quem sabe... E choramos abraçados. E rimos. Dançamos horas enlaçados, lentamente, ao redor da cama numa música mental. Nossos olhos não desgrudaram um minuto uns dos outros.
Esquecemos de comer, de beber, não abrimos a porta, não abrimos sequer as janelas. Durante quanto tempo? Me é difícil saber.
Esta pequena mulher que deve me deixar, eu a absorveria em mim ainda agora. Mas devo abrir a porta e esse gesto me faz olhar em torno a nós. E olhá-la, de repente, como num limiar que não existia antes. É uma menina! Dezesseis anos – ela diz –ai de nós!... Voltemos para a cama! Não, não podemos. Acordados!
Estranho... não me ocorreu perguntar-lhe quase nada. E o nosso passado era tácito e comum. E nos afundamos nele como na alma, somente. Nossas lágrimas foram, certamente, pela alegria do nosso encontro e pelo que deveremos perder.
Estranho... Agora nos vejo neste mesmo espelho em que nos contemplamos abraçados e nus. E nos reconheço ainda, é claro, mas com um afastamento, em nitidez. E a barba me cresceu durante estes quatro dias... Maldição! Sei muito bem o que vai acontecer. Por que não pensar nisso desde já? Eles nos cobrarão. Muito nos vai ser cobrado, tenho certeza. Por que negar, sei tudo, essa é a verdade. Haverá inquisições à sua espera, à nossa espera. Posso prever-lhes os mínimos gestos e as palavras e as lamentações...
Não nos darão tréguas. Vão nos cobrar cada centímetro quadrado desta cama, destes lençóis encharcados e sagrados, do aroma que rescendem para as minhas narinas de agora e de sempre. Mas não me entregarei. Não nos entregaremos, eles verão. Olho mais uma vez para ela, e sei disso, e quereria poupá-la. Quereria poupar-me também, por que não? Eu poderia trancar a porta novamente e morreríamos lenta e docemente sobre esta cama... Mas algo se quebrou. Tarde demais! Devo abrir a porta porque olhei a porta de repente e essa pequena mulher teve um laivo de susto que captei em seus olhos. Ela sabe. Ela pensa, talvez, numa grande mesa cercada de cadeiras altas e olhares severos. Está previsto... Deve ser sempre assim. Não somos certamente os primeiros (por que agora penso nisto?). Uma pequena distância interpôs- se, mas que me permite olhá-la e reconhecê-la. Ela é bela, meu Deus, não me enganei! E é uma menina, vejam só! E eu a amo, é evidente. Vamos lá, saiamos.
Tudo está bem. Agora é o segundo círculo*, e o que nos cabe, nos cabe.
____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
Guilherme de Faria - 1962
Nota
* segundo círculo - alusão ao segundo círculo do Inferno na Divina Comédia de Dante Alighieri, onde o Poeta encontra as almas de Paolo Malatesta e Francesca da Rimini, e todos os amantes clandestinos que têm a punição de ali viverem eternamente abraçados, sem pouso, num turbilhão sem fim.
Tuesday, May 6, 2025
REITERANDO (crônica de Guilherme de Faria)
Vou reiterar um fato curioso para meus caros amigos aqui do facebook que acompanham os meus lançamentos dos livros da Alma: eu nunca imagino ou premedito nenhum texto da minha Musa. Eles saem, fluentes e automaticamente, se me sento com a intenção de escrever sob seu nome ou sua égide (melhor dizendo). Seus pensamentos e enredos vão surgindo magicamente enquanto escrevo e vou visualizando o que ela me envia através do próprio texto, e por isso me surpreendo e me encanto como se participasse de suas aventuras, divagações e desventuras sem prever os lances seguintes e os desenlaces. Uma espécie de psicografia? Certamente. Mas uma psicografia da vida real da minha anima viva, sim, aquela que vive no meu inconsciente profundo ou num universo quântico paralelo, o que é a mesma coisa. Daí o seu nome, ALMA WELT, que significa Anima Mundi, Alma do Mundo.
Provavelmente não estou dizendo nehuma novidade para os eventuais escritores que porventura me leiam: quase todos os escritores vivem mais ou menos essa experiência quando estão escrevendo seus romances, crônicas, poemas ou contos... Esse é o mistério da Literatura como também de todas as Artes: não nos pertencem, na verdade. As captamos do astral, como antenas que somos, como disse o poeta alagoano Jorge de Lima.
Como é rica e surpreendente a vida humana, tanto nas sua alegrias como na sua infelicidade! Nas suas desgraças, até mesmo... Encarnamos, com igual aceitação, todo o espectro das emoções humanas, suas virtudes e até mesmo sua vilania, porque como poetas tudo para nós acaba em especulação ou descrição fidedigna, em imparcialidade olímpica (se podemos dizer assim).
Dou graças ao generoso Deus por me ter contemplado com o dom da Literatura que comecei a aproveitar tardiamente mas ainda a tempo de conhecer em profundidade a minha anima oculta.
E ela, supreendentemente, saindo do fundo de um inusitado Pampa interior (Ó mistério!) já era do Mundo...
____________________________________________
06/05/2025
Sunday, May 4, 2025
PASTÉIS DE FEIRA (crônica de Guilherme de Faria)
De uns poucos anos para cá tomou-me o hábito, nas manhãs de domingo, de ir à feira comprar pastéis de carne para mim e Eliana, minha mulher. Os maravilhosos pastéis de feira, quase uma tradição de muitos urbanóides como nós.... Este lado comezinho em mim pode surpreender os amigos, que aqui me veem sempre só falando de Arte e Literatura, e atribuindo à minha Alma Welt uma quase total ausência de futilidade ou inconsequência, mesmo com certo erotismo, aparentemente vivendo numa permanente dimensão poética do Ser.
Entretanto, a bem da verdade, devo revelar aos amigos virtuais ou não, que vejo muita televisão, acompanho Séries policiais nos canais a cabo, como Blue Bloods, Bull, além do canais Lifetime e o ID. Além disso sou cinéfilo e tenho uma enorme coleção de DVDS de filmes clássicos, e até alguns de Terror. Também releio alguns clássicos de literatura que mais amei, além de escrever diariamente algum texto da Alma, e organizar sua edições para publicação.
Dá tempo para tudo isso, Guilherme?( poderia alguém, incrédulo, me perguntar)... Dá, sim, porque para mim o tempo é contínuo e infinito, pois não sou metódico e nunca tive dois dias iguais em minha vida inteira... nunca trabalhei senão para mim mesmo. Na verdade, nem considero trabalho nada a que me dedico, em perpétuo prazer lúdico, para evitar a duvidosa palavra "diversão", de sentido ligeiro ou superficial. Sim, porque tenho a pretenção de viver em profundidade de ser, requisito fundamental da Arte.
Estão achando isso tudo muito pretencioso? Sinto muito, sou assim. E por isso nunca gostei de jogar conversa fora ou falar de "nada" ou "abobrinhas". Nem no meu tempo de conversas em bares regadas a álcool na minha juventude, quando também só me sentava em bares ou restaurante com amigos artistas. Quero dizer com isso que nunca fui um tipo realmente "sociável", tenho a tendência de discorrer ou de ser sempre meio didático. Ah! Sim, e de sempre contar histórias fictícias ou reais, de minhas vivências e memórias. Sim, de ser artista em tempo integral.
Naturalmente eu seria insuportável para muitos, imagino, mas nunca convivi ou me relacionei com pessoas que não amassem a Arte e não admirassem os artistas. Muito menos com pessoas vugares. Por incrível que pareça, só as conheço de um ou outro personagem secundário de filmes de ação, comerciais e rasteiros.
Mas devo também dizer que gostei sempre de conversar com pessoas simples e puras como os sertanejos nordestinos que povoam meus cordéis, ou os gaúchos do cenário de fundo do Pampa da Alma Welt (vide suas Crônicas).
Mas atenção, não estou me gabando de nada. Talvez um certo orgulho, admito... Quanto a isso quero fechar com este parágrafo de abertura do escritor e editor Louis Pauwells, no prefácio de um livro que ele escreveu sobre Salvador Dalí:
"Um homem que tem dentro de si grandes coisas e não se orgulha delas, esse homem está perdido. As grandes coisas quando humilhadas se revoltam contra a sua morada. Tal homem se tornará mais vil, mesquinho e infeliz do que o menos aquinhoado. Lei implacável."
_______________________________________
04/05/2025
Monday, April 28, 2025
CRÔNICA DE UMA SEGUNDA FEIRA SILENCIOSA
As segundas-feiras são especialmente silenciosas na minha Oscar Freire, não sei propriamente por quê. Uma grande ressaca coletiva... diria um maldoso. Mas não importa, eu amo as segundas-feiras como se me estivessem abertas todas as perspectivas, como se eu não tivesse oitenta e dois anos nas costas... sim, eu, persistente jovem artista cheio de ambições e sonhos, quiçá imaturos, de realização em vida, o que quer que isso seja.
Publicar livros, escrever novos romances da Alma. Falta escrever o terceiro tomo da Trilogia A Herança ( o segundo tomo já está no prelo, revisado e paginado), vertê-lo para o inglês e submetê-lo aos meus editores ingleses (que chique, bem!)... Ah! E depois, que louca ambição: começar a preparar a futura publicação dos 5.000 sonetos da Alma Welt.
Exposições de minha pintura e desenho? Ah! Isso já descartei. Deixo a quem quiser fazê-lo na minha posteridade, se eu a tiver. Deposito todas as minhas fichas na minha literatura, poesia e prosa, no cordelista e na minha adorada Alma Welt, Como eu a amo! Já perceberam? E com a permissão da Eliana, minha incrível mulher, não menos amada! "Ora, assim não vale!" (diria alguém)" Ela sai de dentro de você mesmo, seu grande narcisista!" Mas eu reitero: a Alma é ela mesmo, tem vida própria, eu não a controlo e ela frequentemente me surprende, abala, e me deixa perplexo. "Esquiso? Ruputura de personalidade? Alter ego? Seu lado feminino? É como você sai do armário? " Perguntas que na verdade ninguém nunca me fez e que eu avento como hipotéticas neste meu ser tão dividido e íntegro ao mesmo tempo.
Mas, pensando bem... não são assim, na verdade, todos os artistas neste mundo?
Guilherme de Faria
28/04/2025
Saturday, April 26, 2025
NAVIO SOB OS TELHADOS (de “O Navio sob os Telhados”, contos de Guilherme de Faria)
Habito um porão inabitável. Qualquer coisa como uma toca, cujas paredes se cobrem lentamente de musgo e cujo teto poreja água a um palmo do meu crânio. Aqui trabalho. Sou observado e observo o corredor desta espécie de vila por uma meia-porta-e-janela, única fonte de luz. Antigo prostíbulo, creio, todo o beco, que não passa de cômodos a fundo e de um único lado de um comprido corredor descoberto. Uma faixa pintada no chão desemboca sob um alto portal de ferro batido com laivos de art-nouveau. Afora o portão, feiúra e miséria no corredor e dentro as portas. Minha atividade desperta curiosidade nos vizinhos. Gente simples, que se debruça na portinhola, fala comigo e me dá palpites. Abanam a cabeça e noto-lhes um ar de piedade e incompreensão: ”Um moço tão distinto, coitado, não deve vender nada. Também, cada coisa feia...” Trazem-me às vezes, carinhosamente, um prato enorme, montanhoso, de refeição operária. Arroz, feijão, couve, tutu, às vezes uma carninha, outras coisas. É engraçado.... essa gente parece comer bem. Ou pelo menos muito. Aceito, agradeço e como. Continuo a trabalhar. Um amigo chegado há horas e estendido em minha cama, me aponta com o dedo e um olhar neurótico seus próprios pés, incapaz de se mexer. – “Desvie os pés dos pingos d’água, ora essa!” Mas ele deixa cair a cabeça no travesseiro imundo e se resigna, os mumificados, a água escorrendo pelos sapatos. Há qualquer coisa de insondável nisso tudo. O hálito cavernoso de minha residência me consome... Os vizinhos me alertam contra Dona Gertrudes. Querem-lhe mal e vice-versa. Ela não mora no raso como nós. Vem varrendo água de muito longe, não descobri de onde, lá por cima. Meu porão tem uma fachada, vejam só, que termina bruscamente e não se vê mais nada, nem casas nem telhado acima. Estamos no rés-do-chão da Vida, creio eu.... Uma cascata de água suja, seguida de uma frenética vassoura, despenca pela escadinha de cimento que ancora ao lado da minha porta. No fim da vassoura vem a Sapa (é como eu a chamo, mentalmente). Literalmente uma Sapa. Baixinha, gorda, esborrachada, com larga boca em curva descendente, óculos grossíssimos que lhe põem os olhos esbugalhados. E um saiote, meu Deus! Branco, rodado, muito curto para tão veneranda Sapa. Ela varre a imaculada e exata largura de sua faixa territorial, seu passadiço até o cais da rua. E invectiva contra a fila amontoada de latas de lixo, papéis picados e pontas de cigarro que se acumulam nos dois terços da largura do beco. “- Porcos imundos, gente suja, veja isso, é demais, etc.”- Dona Gertrudes me aponta a desolação poluída do beco, e pressinto que daí por diante vou se disputado como testemunha pelos dois partidos. Contemporizo. A diplomacia me cai bem, baixo que estou. Dona Gertrudes se entusiasma. Lá vem ela com um prato cheio também. E fala, como fala! Não percebo bem, mas ela me conta coisas e me convida a subir ao seu terraço, às suas plantas. Deixo-me levar, não há retorno agora. A Sapa ciceroneia os seus domínios, lá vamos nós! E subo. O terraço não termina aqui, é estranho...Uma passarela de madeira escala as ondulações. Estamos na superfície. Os telhados... Percorremos um corredor envidraçado que ondeia sobre tábuas estranhamente inclinadas. Mal posso descortinar a paisagem. Paisagem? Estou preocupado com o piso! Chegamos a um enorme galpão com madeiramento à mostra, de uma manifesta sabedoria naval. Um bom salão... Viro-me para todos os lados. Pequenos seres me observam com seus olhos de vidro e pestanas lustrosas. Por todos os lados Dona Gertrudes me presenteia com a visão de suas preciosas prendas. Bonecas e mais bonecas de plástico, industriais, monstruosas, forradas de tecidos franjados, rendas, babados, quinquilharias. Centenas de pequenos monstros rechonchudos que pressinto sobre as pregas e os bordados de uma alvura obsessiva, entre fitas e adereços cor-de-rosa e azul celeste. Arre! Por hoje chega. Despeço-me da Sapa debaixo de conselhos, advertências, mezinhas e receitas para os meus pulmões de náufrago, e volto atarantado ao meu porão. ............................................................................................................................
Conseguirei que a água corra das torneiras? Já arranquei as vísceras das paredes, e os tubos pendem obscenamente sem resultado algum. Está tudo obstruído há séculos, como intestinos podres. _ não, não aceito encomendas, minha senhora. Faço catres e alcatres só para mim mesmo. Meu negócio é outro, está vendo? Preciso apenas de mais um banco manco e uma mesa tesa. Daí esses cavacos. Faz favor... - “Não, não corto esse pedaço. É grande assim mesmo. Eu sei que é melhor “após a chuva”, mas não é da minha especialidade. Cada um faz o que pode, né? É o Apocalipse, minha senhora. O fim dos Tempos, pois é... Tá lá na Bíblia. Procure lá. Pois é... Não, encomenda não, me desculpe. Dinheiro, só de graça, trabalho demais, não tenho tempo, compreenda.” Droga, ai vem o Krishnamurti do número 4. Filosofia espiritualista, né seu Rodolfo? Vai bem com os paletós, compreendo. A sua solidão espiritual durante as costuras. Passar tudo a ferro, não é mesmo? As cuecas do espírito... Não se zangue, seu Rodolfo. Devagar, devagar, divaguei. Compreendo: é preciso crer para ver. Senão descamba. É mesmo. Decaímos muito, decaímos muito, concordo. O Apocalipse vai bem, obrigado. Não, não corto, não corto. Da minha janela diviso o seu André sentado à sua porta gritando as maiores pragas para a sua santa mulher. A saber: Filha da puta! Merda de vida! etc. Tem o olho direito vazado. Ou é o esquerdo. E sanguinolento. Perdeu-o ontem na sarjeta, de onde sua mulher o recolheu para a ressaca e o desespero de hoje, estou vendo. ..............................................................................................................................
Noite. Marina irrompe pelo portão com armas e bagagens, os olhos arregalados e estoura em minha sala, apavorada, perscrutando a “pornela” fechada atrás de si. Ponho-me à espera também, olhando a madeira que se torna quase viva. Três minutos. Pá Pá Pá. Passo duros e bufos que se precipitam pelo corredor e se chocam contra a minha “japorta”. Ouço um vivo range de dentes através dela e a tensãqo muscular insuportável. Dois minutos. Marina de olhos vidrados, verrumando-os no postigo. A veneziana estala e ele se prcipita de cabeça na monha sala, meio pendurado pela cintura. Apavorado, mantenho-me heroicamente estático em sua frente, Marina, afásica, colada na parede atrás de mim. –“Alto lá!” (deixo de dizer). Estou agarrado pelos braços à altura dos bíceps por munhecas enormes e fortíssimas. Os dentes dele rangem em minha frente enquanto tomo um ar sereno e beatífico à custa de pavor. “Devo dominar o animal magnífico com meus olhos espiritualizados e severos...” Arre!!! Três minutos eternos de tensão e meus braços roxos quase escorrendo entre seus dedos. Ele desaba no banco à minha frente, sacudido de tremores. Uma ligeira pausa e lá vem de novo o ranger de dentes que parece nascer de algum ligar que não a sua boca, no ar, atrás de mim. Ah! Rangem agora em uníssono os dele e os da mulher-baixo-relevo-na-parede-atrás. Estou falando manso Há alguns minutos sem perceber. Repetindo frases de domador firme e amoroso, até cessar lentamente os ruídos e os passos. – CHEGA! NÃO AGUENTO MAIS! BASTA! (Ainda bem que eles foram embora juntos há algum tempo. Tenho os braços adormecidos e dou o maior esbregue na solidão do meu porão atormentado. ............................................................................................................................. Hoje minha cabine amanheceu verde. O teto suando em toda extensão. Envolto em vapor gelado, visto meu guarda-pó de banho. Vou ter uma conversinha com a dona Gertrudes de homem para homem. Tanta água à tona e meu chuveiro afônico... Trifásico, afásico. Raios! Afino o ouvido para a cascatinha. Lá vem ela. Pego-a na altura dos escaleres, vai ver.- Como vai, Dona Gertrudes? O Capitão voltou? È preciso manter o convés limpo, não é mesmo? Nunca se sabe... Ah!, é Dona Gertrudes? Gostaria de ver. Subamos. É mesmo! Tutu! Veja só...E sapatilhas! Não como Marina não, Dona Gertrudes, ela faz moderno. Essas coisas... Dançarina, pois é... Lamentável. Essas são bailarinas, hem, Dona Gertrudes? Tal e qual. Ah! A senhora fez também... Quando criança? Ah!... Não, dona Gertrudes, passos modernos, assim. Isso, vamos lá. Pois é, modernismos. Muito bem. Pelo salão todo Ah! Clássico, prefere... Pas-de-deux, não é Dona Gertrudes Pelços corredores! Saltemos! Quê? O que diria o Capitão, Dona Gertrudes? É mesmo... é preciso disciplina a bordo, concordo. Premos, Uf, uf. É o retrato dele? Seu filho oficial... Ah! E as bonecas... Não, Dona Gertrudes, ela é do moderno. Canal 13, Pois é até mais, Dona Gertrudes, fica para outra vez. Ahoy, não é mesmo? Ah! Ah! Ahhhooooyyyy!!!
.............................................................................................................................
Noite, outra vez. Todo dia, noite. Droga, Marina aqui agora. Minhas tias tinham que me fazer esta visita? Vinte anos, ou três, pelo menos. – Não, tia Judith. Sente-se aqui. Não tenho bolos, pois é. Só rum. Não querem? Sentemo-nos na cama. O tapete está fora d foco? Não, não varro. A limpeza... Aqui é o porão... Eu sei que foi a senhora que eu, Tia Mode, mas... Chama-se Marina, né Marina? Montero. Pois é. Isso mewsmo. Artista. Assim, pardinha, né, tia Mode? Uma graça, não? Tia Judith, a senhora está bem? Sente-se aqui. A senhora não está bem acomodada, deve ser. Não tia Mode. Moderno. Canal 13, por aí... Maqravilhoso, não? Isso, Marina, faz para elas verem. Ligo a vitrola. Incrível, não acham? Não, não se incomodem, ela está acostumada. Contorcionismo, não é mesmo? Espere aí, eu afasto as cadeiras, podem ficar nelas , eu arrasto, hummm. Estão com pressa? Faz daquele jeito, Marina, isso! Ta ta ta tará-rá! Grande! Tia Mode, tia Judith! Prá quê essa pressa? Marina, parer! Dê um beijo na tia mode, na tia Judith. Gostaram, né? Voltem sempre. Um pouco úmido, faz mal pra artrite, ah... canal 13, tia Judith. Canal 13... .............................................................................................................................. Dona Inalda veio me pedir que pare de riscar fósforos de noite. Os estalidos não a deixam dormir. Além disso faz mal para a saúde, tanto fósforo assim. É preciso dosar, ela diz. Aproveito e convido-a para jogar palitinhos. Prefere bingo. “Não, não tenho, Dona Inalda, que distração a minha! Bingo, taí...” (arrumo disfarçadamente a cama, cobrindo as manchas suspeitas.) Que diabo! Um homem tem direito de se divertir sozinho, sem prestar contas a ninguém. Minha cama está na sala, vá lá. Mas não tenho culpa do camarote estar fazendo água. Dona Inalda parou de lançar olhos suspeitosos e sente-se mais à vontade. Velhota simpática... “É uma flauta, Dona Inalda. Não, não toco, só apito. Desde criança, Dona Inalda, quando ouvi pela primeira vez o Bartolo. “Seu Bartolo tinha uma flauta... ! Larí-rí-rí. Larí-rí-rí-rí-lariiiiii. Toma chá comigo a Dona Inalda. Estamos íntimos. Da próxima vez, tomo chá com ela. .............................................................................................................................
Vou tirar isso a limpo. Não me dão recursos. Não há condições. Não tem almoxarifado. Água entrando, água entrando e o Capitão não vem. Dona Gertrudes que se cuide. É muita responsabilidade para uma senhora. Ainda mais em tais condições. Viúva em vida. Esperando, esperando. Raios, o Capitão está faltando com os seus deveres. Iremos a pique sem mais contemplações. Tenho vontade de precipitar as coisas. Não, não posso fazêlo sem antes conhecermos as Ilhas, sem termos nos movido um centímetro sequer. Que humilhação, meu Deus! Que humilhante, naufragarmos aqui mesmo, ao pé do cais... Falta manutençao, é o que digo. Tenho vontade de fazer motim, para obem da dona Gertrudes. Vou demovê-la de sua inércia tão pouco masculina. Droga, é preciso que alguém assuma o comando, nem que seja provisoriamente. Dona Gertrudes! Dona Gertrudes! Raios! Esta morta, por hoje. ..............................................................................................................................
Hoje amanheci numa vaga melancolia, e com a veia lírica. Devo mostrar meus versos ao resto da tripulação? Não estou bem certo.. Não se usa mais poemas desde o tempo das escunas, com seus mastros e tudo. Além disso, prefiro declamá-los para a Dona Inalda, que tem senso crítico e é vagamente demodée. Cada um com suas fraquezas, não é mesmo? “Salta espuma bravia, salta e dança. Como um demônio, eu lhe digo, como um demônio...” Visitas novamente. Não posso. Não posso. Não estou para sociedades. Batam quanto quiserem na minha porjela. Não tempo nem dinheiro para acotovelamentos. –Merda! Vão embora! Boa, meia palavra bosta. È preciso controle sobre a situação. Sangue frio. Andaram perguntando por mim à Dona Inalda, ela me contou. Mas posso confiar na nossa boa camaradagem de velhos marujos. Ah! Ah! Cuca fresca, lirismo. Adoro meus serões matinais. Pena a Dona Inalda não star aqui. Não me arrisco a sair, isso não! Com esse ratos de bordo, que sobem pelas amarras... que se danem! Não é hora de subirem a bordo, ratos de água doce! O navio vai a pique, sabiam?! Não, não sabem. É um segredo entre mim e a ddona Inalda. Mas devo agir. DEVO AGIR DIANTE DAS CIRCUNSTÂNCIAS HISTÓRICAS! ! ...............................................................................................................................
Tenho tudo preparado. Sei como retirar Dona Gertrudes da sua inércia. Pego-a hoje na lavagem do convés. Uma mãozinha, um versinho, verão! Dona Gertrudes não resiste ao entusiasmo trabalhista. Devo contribuir com mnha parte, vou esvaziar meu balde de fósforos, já que aqui não temalmoxarife nem contra-mestre. Raios! E ouvido atento para a sua banheira... é o sinal. La vem ela. Lá vem ela. Dona Gertrudes! Como passa, Dona Gertrudes? Vento de estibordo, hem? E nós aqui atracados... Vou pegar minha vassoura e um balde, espere. Vamos lá, assim é melhor. Mais água.. Vamos subir, é preciso vir trazendo lá de cima, não é mesmo? Não poupemos água. Agora os panos. Com os rodos, assim. Dona Gertudes, o porão está fazendo água, vamos descer. É preciso calafetar. Talvez um poço de alcatrão. Vê? Assim vamos a pique. Não podemos ficar parados. Pegue ali o machado. U fico com este aqui. Ali, aquele banco, e a mesa. Temos muita lenha Ateie fogo! Isso! O armário. Metamos o machado em tudo. Assim. Abaixo essa estante, os livros, ateie. Deixe-me fazê-lo. Esta cama, por quê não? Está úmida? Meta o machado ali naquela coisa. Tudo! Tudo! O Apocalipse! É preciso fazer-nos ao largo. Mais! Mais! O fogo está alto, mais ainda. Juntemos tudo. Vamos zarpar! O navio! O NAVIO! Estamos fazenda água. Ao largo! A toda marcha! Preparem os escaleres! Mais lenha, Dona Gertrudes! MAIS LENHA! MAIS LENHA! MAIS LENHA!
FIM
São Paulo, 1975
Tuesday, April 15, 2025
STRANGE FRUITS (crônica de Guilherme de Faria)
Há uns quinze anos atrás eu deixei este meu cordel na loja de artezanato popular brasileiro (chamada, se me lembro, "Mercearia Brasil") de um casal amigo meu (o ator e cineasta Juarez Malavazzi e linda esposa Daniella) na Galeria Vitrine na rua Augusta. Este cordel específico estava dependurado num varal, à maneira da apresentação dos cordéis nas feiras populares do Nordeste. Eu estava lá conversando com o dono, meu amigo, quando entrou um turista americano branco, típico, e ficou olhando os objetos em silêncio. Avistando meu folheto de cordel com esta ilustração na capa, ele murmurou suficientemente alto para ouvirmos: "Strange Fruits...". Meu amigo apesar de também falar inglês não percebeu a referência oculta na exclamação do americano, mas eu atinei imediatamente: por causa do preto e branco da xilo, o velho enforcado na jaqueira pareceu-lhe um negro velho (coisa que não o é na estória que inventei, pois os cabelos da filha são longos e lisos para poderem fazer uma corda). Então, imediatamente percebi a associação poética feita na cabeça do americano, com a famosa e trágica canção "Strange Fruits" da maravilhosa cantora negra da década de trinta, Billie Holliday, cuja imagem de " estranhos frutos", na canção se referia veladamente aos negros linchados pela KU KLUX KLAN, pendidos das grandes árvores do Mississipi... Tive um arrepio, cochichei a minha ilação para o meu amigo, mas, perplexos, talvez consternados pela lembrança, não abordamos o cliente, que circulou pouco e logo deixou a loja.
Guilherme de Faria
15/04/2025
Thursday, March 20, 2025
PEQUENOS PESADELOS (crônica de Guilherme de Faria)
Eu penso que a nossa vida, a vida de todo mundo, é uma linha contínua em direção a um ponto de fuga, sem volta, a não ser na imaginação ou no sonho. Entretanto, quase todas as noites, durante o sono, num sonho recorrente, que se revela uma espécie de pesadelo, eu me vejo perdido em diferentes paisagens, algumas inóspitas, assustadoras, outras belíssimas, sempre diversas a cada sonho, me distanciando em círculos, sem saber de cor meu endereço, sem falar a lingua do lugar, sem conseguir voltar ao ponto de partida, meu hotelzinho acolhedor ou a casa de amigos. O curioso é que são cenários extremamente reais, topograficamente detalhados, que por sua própria atração e pequenos episódios de encontros enigmáticos com habitantes locais, me afastam perigosamente do meu lugar de conforto e referência, do qual não guardei o endereço, me pondo numa aflição crescente que me faz acordar como solução, dissolvendo esses pequenos pesadelos, que, acordado, ainda são um enigma para mim.
Na verdade, chego a pensar que o estar perdido é a essência da condição humana, e por isso mesmo construimos pontos de referência ao longo da vida, nem sempre sólidos, e que por vezes se revelam precários, principalmente se saímos da casa materna cedo ou despreparados para a vida, como foi o meu caso...
Estarei, conquanto idoso, na verdade ainda perdido? O ateliê de um artista será somente um acampamento na aventura da vida de um eterno garoto sonhador, escoteiro de si mesmo?
De casa, tão distante...
_______________________________________
Na verdade, chego a pensar que o estar perdido é a essência da condição humana, e por isso mesmo construimos pontos de referência ao longo da vida, nem sempre sólidos, e que por vezes se revelam precários, principalmente se saímos da casa materna cedo ou despreparados para a vida, como foi o meu caso...
Estarei, conquanto idoso, na verdade ainda perdido? O ateliê de um artista será somente um acampamento na aventura da vida de um eterno garoto sonhador, escoteiro de si mesmo?
De casa, tão distante...
_______________________________________
20/03/2025
Tuesday, March 18, 2025
A PASSAGEM DAS HORAS (crônica de Guilherme de Faria)
Com a velhice a nossa pele afina e parece que com isso ficamos mais sensiveis à passagem das horas. E eu me pergunto como aquele anuncio do tostines, o que vem primeiro, o Tempo ou nossa pele mais sensível... As horas voam e nós as sentimos, elas nos escapam por entre os dedos, irretornáveis, irremediáveis. Temos as memórias, é verdade... quando ainda as temos, quando o próprio Tempo não se nos adoece e no-las rouba. Gostaram do "no-las"? ( tirei do fundo do baú). Vamos ficando arcaicos, demodés, vintages, saudosistas e quase sempre de um século passado, mesmo que nos sintamos por dentro, pateticamente, com eternos dezessete. Mas atenção: não estou me queixando de nada, a não ser da artrose, da próstata inxada, da vista enfraquecendo, das apnéias e micções noturnas, das dores musculares e de um "bico de papagaio" ficando mais bicudo.
Estou brincando... a velhice aguça o humorismo de quem já o tinha, e a sabedoria latente dos mais sensíveis. A inteligência? Essa se torna menos prepotente, mais humilde.
Ah! Se fores um artista não deixes de dar ao menos uma pincelada certeira por dia, e se músico, uma escala ao piano se a artrite permitir, ou um acorde plangente ao violão, um arpejo ao violino... Poeta, escritor? Um verso ou uma crônica por dia.
Mas, sobretudo, não deixes de agradecer a Deus o dom da Vida...
_____________________________
Ah! Se fores um artista não deixes de dar ao menos uma pincelada certeira por dia, e se músico, uma escala ao piano se a artrite permitir, ou um acorde plangente ao violão, um arpejo ao violino... Poeta, escritor? Um verso ou uma crônica por dia.
Mas, sobretudo, não deixes de agradecer a Deus o dom da Vida...
_____________________________
18/03/2025
Monday, March 17, 2025
PEQUENO RESUMO DA ÓPERA (Crônica de Guilherme de Faria)
Entretanto à medida que envelheço me vejo chorando mais amiúde. Na verdade... como se tudo me soasse como uma despedida muito lenta, gradativa... Mas não é a velhice, de modo geral, senão isso?
Apegamo-nos à vida, ela é, pelo menos em seus termos normais, uma dádiva. Em seus termos ideais éla é sublime. Mas choramos sempre nossos mortos...
Nunca fui, nem na juventude, um sujeito muito sociável, que cultivasse os amigos, procurando-os ou esperando-os e acolhendo-os com disponibilidade. Mas cheguei a ser muito procurado por uma variada fauna humana no começo de uma fase "maldita", inicial, da minha carreira de artista. Talvez como um pequeno enigma a ser desvendado, talvez pela minha natureza ostensiva de jovem artista dotado de talentos vizíveis: eu me expressava bem com palavras, era bonito e desenhava de maneira excepcional desde a infância. E se era reservado como se me pusesse num pequeno pedestal, era na verdade por uma grande timidez social, que só pude camuflar pelo alcoolismo.
Vocês podem imaginar como eu era na Era do sexo, (álcool) e Rock'nRoll dos anos 60 e 70 em São Paulo. Eu nunca consumi drogas, fora o álcool e o tabaco que eram minhas drogas de escolha, até atingir o meu "fundo de poço" na década de 80. Já contei aqui no face, anos atrás, a minha trajetória até a minha libertação do alcool em 1981 e do cigarro um ano depois, em 1982. Uma verdadeira saga, com um final feliz "par la grâce de Dieu" como dizia do meu autodidatismo o meu amigo idoso Eduardo Mercier, que tinha sido, na Paris dos anos 30, um "amigo de Modigliani', outro brilhante" maldito' somente pelo alcoolismo, pois era extremamente apreciado já em vida, e vendia seus maravilhos quadros, sim, vendia e recebia encomendas de retratos, como eu também com desenhos e retratos a óleo de esposas-musas de homens ricos...
Mas a verdade é que o dinheiro se funde como água nas mãos dos alcoólatras, e logo nos vemos nos debatendo para manter o queixo de fora.
Tudo isso são "águas passadas", um tanto turvas, esclarecidas a mim mesmo pelo Tempo. As coisas são como foram, e tudo se transforma em histórias, se não História.
A esta altura da vida, não preciso mais me arrepender de nada...
________
Guilherme de Faria
05/02/2025
COMO A ALMA WELT VEIO A MIM (crônica de Guilherme de Faria)
Quando a Alma Welt se manifestou literariamente em mim, eu pressenti imeditamente a sua vocação da universalidade: seu próprio nome já indicava isso. Seu textos confessionais, sempre na primeira pessoa, me vinham, como até hoje, de jorro, sem emendas nem rasuras, prontos e irretorquíveis. Seria assustador se não fosse encantador. Uma irmã minha (tenho duas) espírita, me disse acreditar que eu psicografo uma moça escritora que existiu mesmo, gaúcha alemã, pampiana, que morreu jovem ( 35 anos), tragicamente, em circunstâncias ambíguas. Mas eu sabia que ela vinha de dentro de mim, era minha anima interior no sentido junguiano do termo, tanto mais que ela me aparecia desde 1965 nos meus desenhos, aquela ruiva, muito branca, voluptuosa que me enviava seus nus, uma vez que eu nunca tive modelos nos meus ateliês e nunca uma mulher posou nua ou vestida para mim: eu nunca precisei. A atração que meus desenhos de nus a pincel e nanquim causaram, fazendo um enorme sucesso desde o começo, eu atribuo ao pressentimento inconsciente que o publico tem da presença da "anima", isto é de um arquétipo feminino interior a todo mundo, "a mulher todas as mulheres do mundo".
Entretanto até 2001, quando tendo perdido toda a possibilidade de sobrevivência com o fim do Mercado de litografias que me sustentara por vinte anos, eu nada mais tendo a perder e me sentindo estranhamente livre e aliviado, me sentei para escrever, e me surgiram cordéis sertanejos, estranhamente autênticos e inspirados, em catadupa e... subitamente, no meio deles, minha anima percebendo-me a escrever a sério, insinuou-se e se revelou como a escritora que era, e que até então somente me enviara a sua imagem de mulher jovem, linda e docemente sensual. Foi com o conto urbano (da fase do auto-exílio paulistano da Alma) LEMBRANÇA PRECIOSA PARA A ALMA FIEL.
Começava assim essa jornada triunfante que agora conquista o Mundo, e que já estava em si e no seu nome.
Ave, Anima Mundi !
_________________________________
Guilherme de Faria
09/02/2025
s
CRÔNICA DE UM SEGREDO DE POLICHINELO (por Guilherme de Faria)
Por quê estou rememorando isto? Porque me ocorreu que o segredo da Alma Welt como meu heterônimo foi comprometido no ano de 2007 com o "escândalo" da gloriosa expulsão minha e da Alma do Recanto das Letras por absoluta ignorância das prerrogativas do fenômeno heteronímico por parte do editor daquele portal e de colegas poetas invejosos do sucesso da poetisa gaúcha. Desde então a ambigüidade que reina na comunicação pública que é feita da obra da Autora, narradora-personagem e musa ao mesmo tempo, e que por sua intensa vida própria, sua feminilidade autêntica, o realismo de sua abordagem das circunstâncias de suas origens autobiográficas, memórias e aventuras amorosas, vem encantando cada vez mais leitores no Brasil (e agora no exterior) desde o lançamento do seu primeiro livro de papel, os CONTOS DA ALMA, pela extinta Editora Palavras & Gestos do saudoso psicanalista Paulo Gaudêncio, que se apaixonou pela Alma e a publicou às sua expensas.
Mas voltando ao "Segredo de Polichinelo" expressão que eu já ouvia de minha mãe na infância, e hoje em dia caído em desuso, eu me reconciliei com sua deliciosa ambigüidade, que já caía como uma luva nos heterônimos poéticos do grande Fernando Pessoa, e agora na autoria das obras da nossa poetisa gaúcha pampiana, alemã-açoriana, saída de dentro de mim "par la grace de Dieu" como dizia o meu saudoso amigo idoso, Eduardo Mercier, que tinha sido amigo de Modigliani, na Paris de entre-guerras e que me faz pensar na teoria dos seis graus de (minha) aproximação com o maravilhoso pintor dos retratos de longos pescoços.
Mas há uma pergunta que não quer calar: por quê diabos a Alma Welt me surgiu como uma gaúcha alemã estancieira no Pampa riograndense, vinda de dento de mim, que sou um paulistano ultra-urbano, que moro num ateliê quase um kitchinette na decantada mas prosaica Oscar Freire, nos Jardins? Não tenho resposta até agora, e por enquanto, infelizmente, não descobri meus seis graus de aproximação com o Érico Veríssimo de O TEMPO E O VENTO ou com qualquer outro grande autor gaúcho como o lendário Simões Lopes Netto, de "A Salamanca dos Jarau".
Por outro lado lanço essa pergunta sem resposta na conta da ambigüidade que todo heterônimo que se preza, no fundo acalenta, o que, na verdade, compõe o SEGREDO : um Mistério que se quer assim: não totamente desvelado, mas como uma nudez pudica e por isso mais tentadora...
Deus me perdoe, mas eu mesmo queria ver a Alma Welt em carne e osso e tenho a "secreta" esperança de vê-la, e reconhecê-la, um dia, pelo menos "en passant" na rua, num café, num restaurante , ela, minha bela anima, quando então provavelmente cairei fulminado... poupado, portanto, das misérias de uma provável decrepitude.
_________________________________________
Guilherme de Faria
11/02/2025
O JULGAMENTO DA ALMA (crônica de Guilherme de Faria)
Alguém, não me lembro quem, uma vez me disse que nós artistas só falamos de nós mesmos o tempo todo e por isso somos narcisistas, e que, também, alguns de nós, por isso, beiramos a sociopatia (!!!).
Naturalmente eu fiquei alguns minutos em choque e depois me revoltei. Não! Falamos de tudo! A Alma Welt, por exemplo, na sua já vasta obra literária em prosa e verso aborda todos os aspectos da vida e da morte, só não fala nunca de pol[itica partidária e de futebol.... rrrrrssss.
- Mas você só fala da Alma!- insistiu aquela pessoa.
Bem... eu sou uma espécie de agente literário da Alma Welt, empenhado, sim, em promovê-la, mas por pura admiração por sua Obra. Mas saibam que o agora decantado romance da Alma (A Herança. O Sangue da Terra) foi escrito em 2004, num jato fluente e só decidi publicá-lo em 2022, dezoito anos depois de sua criação, que na verdade custou-me só uma semana, se tanto. Mas esse romance deve seu sucesso à bagagem de toda uma vida de acertos e de erros.
"A própria Alma Welt só fala de si mesma!" -(continuou insistindo o acirrado crítico). Eu rebati : - Como poeta, a Alma pode ser incluída no que o grande crítico literário inglês Herbert Reed denominava " o Egotista Sublime", aqueles poetas que partem de si mesmos para o universal. "Escreva com paixão e verdade sobre sua aldeia e ela se tornará o Mundo".
Depois... ninguém se queixou do monólogo introspectivo da Alma. Pelo contrário, os leitores se identificam muito, aqui e ali com a guria, pelo simples e esclarecedor fato de que ela é profundamente humana e vulnerável, apesar de sua intensidade desmedida, coragem e paixão.
"Madame Bovary c'est moi!" declarou Gustave Flaubert no julgamento real, em tribunal, de seu romance, que se confundia com ele, "comme il faut". e que o fazia correr o risco de ir para a prisão "por detratar a mulher francesa".
Eu também digo: -"A Alma Welt sou eu!"- mesmo sem o perigo que Flaubert correu, pois a minha Alma é o epíteto das mellhores qualidades femininas, e quase nada dos seus defeitos, já que a vulnerabilidade que por vezes a vitima, não ponho nessa conta.
Não! Esse perigo não corro enquanto a inversão de valores não vença definitivamente neste século caotizado.
Ah! Sem querer dar "spoyler" ( "e já dando", como dizia o Jô Soares) o julgamento da Alma já ocorreu e ela se saiu triunfante, no seu romance autobiográfico A Herança... Sim, esse livro será considerado, num futuro próximo, um texto libertador, e do melhor feminismo. Nem de esquerda, nem de direita e nem de centro, mas passando ao largo, no amplo corredor do simplesmente humano no seu aspecto mais belo, corajoso e frágil ao mesmo tempo.
Viva a Alma em nós!
--------------------------------
Guilherme de Faria
12/02/2025
UMA CRÔNICA FECUNDA SOBRE... NADA? (de Guilherme de Faria)
Como, Guilherme? Isso não é possível! Um coração de artista sempre se renova, e a vida, em si, é um caleidoscópio inesgotável, e pode ser narrada por infinitas "personas" que só um escritor pode encarnar, ou desenvolver...
Sim, é verdade, e também, com arte sempre se pode escrever com grande interesse sobre NADA... sobre o vazio, se pelo menos encontrarmos nele um resquício, um odor, uma saudade talvez, que nos desperte a memória como uma "madeleine" de Proust.
Começo a ficar velho, tardiamente, pois muitos já o estão há muito mais tempo e se calaram. mas eu, grande falastrão, me recuso. Me recuso a me calar. Sou cheio de ardiz, isto é, pequenas espertezas eficazes, como o ter feito a minha Alma Welt morrer aos seus 35 anos para que permanecesse eternamente jovem e linda, uma forma de criar uma pequena divindade humana... Deus me perdoe.
Sim, deu certo, e tanto melhor, que ela está dentro de mim e posso evocá-la a qualquer momento, se me sento para escrever, ou mesmo desenhar, como voltei a fazê-lo depois de trinta anos apenas na pintura a óleo e na literatura.
Sim, minha Musa é fiel, e atende ao meu chamado tácito a qualquer momento, e me fornece os enredos e o encanto de sua ardente juventude, de seu amor e de suas intensas paixões, às vezes até mesmo desastradas, continuando a me encantar e até mesmo rejuvenescer o meu espírito, como de seus, agora, inúmeros leitores pelo Mundo afora.
Não. Não preciso caçar assunto: a vida em novas facetas vem até mim através das aventuras da guria do Pampa, encantadora, eternamente sensual e apaixonada por sua cândida Aline e por seu aventureiro irmão Rodo, mestre do carteado de poker, para nos lembrar que a vida pode, sim, ser um jogo saudável se aceitarmos, às vezes, arriscar e dobrar a aposta, e perdendo, nos retiramos com dignidade, provisoriamente, para recuperar o fôlego.
"Bah, Chê!"- Como diria a guria gaúcha (engraçado: ela quase nunca fala assim)- "Senta-te ao teclado e começa a escrever um novo romance que vou te ditar, uma nova aventura minha, que não conheces, e que, prometo vai encantar primeiro a ti, meu velho, e depois aos leitores gringos que me angariaste com tuas artimanhas...
Eu, então, cheio de dores nas costas, que esquecerei, começo, a partir do Nada para um mundo animado pelo eterno encanto do real, pleno do vitalismo incansável da juventude, sim, como quem descobriu a sua Fonte eterna, que muitos julgavam ser apenas um Mito perdido...
____________________________
Guilherme de Faria
14/02/2025
A ALMA COMO EGRÉGORA (crônica de Guilherme de Faria)
No terreno das manifestações artísticas ou de qualquer outra natureza só podemos expressar e transmitir, com autenticidade perceptível, aquilo que realmente temos dentro de nós. Não é possivel falsear pensamentos e sentimentos, embora se diga que alguns "sociopatas" o conseguem. Mas, dum modo geral o sentimento de amor colocado em qualquer ação ou atitude é tão emocionada e imediatamentete percebido pelo público que se pode dizer que o amor é a base de qualquer obra de arte que assim se queira, de qualquer discurso direto ou literário, auditivo ou visual... qualquer.
E os chamados "discursos de ódio"? Certamente não são feitos com amor! Bem... na verdade, na sua maioria são os feitos com o ingrediante básico da Verdade os que hoje em dia são assim chamados. Mas... não quero entrar no pantanoso terreno da política.
Quanto a mim, como artista visual ou escritor nunca fui contestado nas minhas manifestações quer gráficas, plásticas ou literárias e elas sempre foram recebidas ou tomadas pelo publico como o que são por si mesmas, antes de tudo... sinceras. É preciso que o artista acredite profundamente no que está dizendo, qualquer que seja seu meio de expressão. O grande Outro, o público, quer dizer, a Humanidade, percebe.
"Ah! Mas nem tudo o que se apresenta como obra de arte , realmente o é! Como distinguir com segurança?". Não se preocupem, as fraudes ou falsificações não duram muito. Elas murcham ou fenecem em pouco tempo sob os nossos olhos e ouvidos, enquanto as sinceras, verdadeiras, autênticas, crescem mesmo quando "naïfs" (ingênuas), atributo que não é um oposto da profundidade almejada pelo artista.
"Está bem, Guilherme... (imagino alguém dizendo)- " é aqui que você vai começar a falar da Alma Welt?'"
RRRRRSSSSS Bem, amigos, vou apenas convidar os que ainda não leram pelo menos seu romance, para que me digam, depois se não se surpreenderam com a sua absoluta e aliciante vida própria, que é base de seu grande Mistério, sim, que está encantando o Mundo. Poucos autores-personagens, os que se manifestam na primeira pessoa, são assim tão vivos e autênticos, quase palpáveis, como se a se estivéssemos seguindo atrás das portas e pelos corredores de seu conturbado casarão, sentando-nos à sua mesa, ou acompanhando-a como sombras em seus passeios serenos e prazerosos pelas coxilhas do seu Pampa amado, ou apreensivos pelo seu vinhedo em perigo...
Vamos lá, meus queridos preguiçosos! Seu espanto e prazer garantidos ou seu dinheirinho perdido, porque já passou a fase de eu dar de presente os maravilhosos livros da minha Alma, já que ela me deu um puxão de orelhas um dia desses... A Alma já é uma autora consagrada e cresce dia a dia, enquanto eu... bem, imerjo lentamente na sombra dela, sorrindo, satisfeito como um pai orgulhoso de sua bela filha que gradativamente se distanciará dele, até ele ser um dia esquecido pelo grande público e ela transformada numa "egrégora", como Julieta, Mariana Alcoforado, Bilitis, Francesca da Rimini, ou mesmo Tarzan, Frankestein e Drácula, que de tão vivos se descolaram de seus criadores.
_________________________________________
15/02/2025
DIVAGAÇÕES SOBRE O PÚBLICO (crônica de Guilherme de Faria)
A gente escreve sempre para o Outro. É sempre uma maneira de se comunicar, quer dizer, romper o muro da solidão, assim como desenhar, pintar, esculpir, modelar, cozinhar, tocar um instrumento, cantar, dançar, declamar, atuar, discursar, etc, etc. O Outro, portanto, é que é importante. O artista tenta conquistá-lo, seduzi-lo, até bajulá-lo por vêzes (isto não é aconselhável). Mas o outro, considerado como "o público", como é caprichoso e imprevisível! Nunca um artista independente ou mesmo um produtor experiente pode prever o sucesso de um espetáculo, de um livro, de um filme, de um concerto, ou de uma peça teatral, com segurança, com absoluta certeza. Às vêzes uma bela obra, de qualquer espécie, dá um prejuízo inesperado e até mesmo... injusto. O Tempo é o maior juiz, sempre, para tudo... Portanto o artista é, em última instância um jogador, o que quer dizer; um sonhador do sucesso, conquanto alguns ostentem uma atitude de desdém, podendo sempre se refugiar na categoria duvidosa de "malditos".
A propósito, vocês sabiam que os contos de terror que consagraram o Edgar Allan Poe diante do grande público , são em número ínfimo comparados com os contos humorísticos dele, muito mais numerosos e, impagáveis, atuais, de fazer rolar de rir até hoje? Sabiam que Rimbaud parou de escrever poemas, alguns malditos como "Un Saison en Enfer", aos dezessete anos, e passou o resto de sua curta vida tentando enriquecer no tráfico de armas na Àfrica (fracassando e falindo na Etiópia, tendo seu carregamento de fuzis confiscado pelo Ras Ménelik? Mas, como escritor, escrevendo relatos geográficos para a Societé Geographic Française esperando ter seus artigos publicados por ela...
Que quero dizer com isto? Que somos, sim dependentes dos caprichos do público, e eventualmente até da Moda. Nada mais triste para um artista de sucesso do que "sair de moda" ainda em vida, como aconteceu com Rembrandt, com uma desgraça crítica de pelo menos 50 anos, a partir de sua velhice, no auge de seu genio. Ah! E até de Leonardo da Vinci, desprezado nos seus sessenta anos, procurando desesperadamente emprego em Roma com o Papa que não atendia às suas cartas, considerando-o um fracassado(!!!) até ser reconhecido nos corredores do Vaticano pelos embaixadores do Rei François Premier da França que, escandalizados com a situação precária daquela lenda viva da Arte o recomendaram ao seu rei, que imediatamente escreveu aos seu embaixadores: "Tragam o Mestre, nós o acolheremos, nós o honraremos." Leonardo atravessou os Alpes a cavalo com três quadros nos alforges (um deles a Mona Liza) acompanhado de seu último discípulo adolescente, e morreu depois de poucos anos no castelo na França que abrigaria o Mestre sem obrigação nenhuma de produzir, e onde ele se dedicava a desenhar e escrever suas pesquisas no seus maravilhosos Códices. Vazari escreveu que Leonardo morreu nos braços de François I, que o amava, dizendo " "Não há maior honra para um artista do que morrer nos braços do rei".
Bem... "Si non è vero è ben trovato". Eu poderia contar mil estórias e histórias mas percebo que já me afastei do "ponto". Qual era mesmo o ponto? Ah! O público... A propósito, vocês já leram o meus livros da Alma?
____________________________
16/02/2025
as
SOBRE O INCONSCIENTE PESSOAL E O COLETIVO (Crônica de Guilherme de Faria)
Insistindo no propósito quase insano de escrever uma crônica por dia numa mídia que não privilegia um "discurso" de mais de duas linhas, depois de fazer e tomar meu café da manhã sento-me ao computador para escrever com a cabeça vazia, como convém a quem como eu escreve sob o influxo do inconsciente, mas somente quanto ao tema ou assunto a desenvolver. Assim nasceu toda a literatura da minha Alma Welt.
-Como? Como pode ser isso, Guilherme?-(poderia alguém dizer)- Sua prosa não tem nada de automática ou surrealizante como é a característica dos textos assim escritos, sob o "influxo do inconsciente"!
Mas quero lembrar que Freud e Jung não esperavam mudanças na morfologia da frase ou irracionalismos nos monólogos induzidos dos pacientes no divã (Freud) ou na poltrona (Jung). Vale lembrar também o sugestivo episódio em que os Surrealistas liderados por André Breton, tendo eleito Freud como o seu Papa pela "descoberta' do Inconsciente, em comitiva foram em peregrinação à Viena pedir a benção ao seu (deles) movimento nascente. Uma carta do Mestre a um seu amigo, descoberta anos depois poria água na fervura: "Hoje recebi a visita de um bando de malucos que queria o meu aval para as suas obras de arte. Entretanto, observando-as bem e ponderando, percebo que em toda arte clássica e até acadêmica eu sempre enxerguei o inconsciente. No Surrealismo eu só enxergo o "consciente"...
Seria uma pá de cal sobre o movimento se tal sentença viesse à tona ou a própria psicanálise já fosse vencedora, o que não era. Os surrealistas esconderam seu desconforto com a opinião de Freud e prosseguiram galhardamente, quero dizer, provocativamente, na verdade como bons fanáticos querendo "levar muitos outros para a confraria"como quiseram fazer com Giorgio De Chirico que, vaidoso, aceitou suas homengens mas declarou orgulhosamente : "Eu não sou Surrealista. Sou o fundador da Escola Metafísica Italiana!"
Os surrealistas também tentaram levar Frida Kalo para a confraria, que igualmente aceitou suas homenagens e apoio à sua Exposição em Paris, para depois declarar: "Não sou Surrealista. Pinto a mim mesma, minha história, dores e pequenas alegrias".
Mas por quê diabos pus-me a contar essas coisas, que tantos já sabem? Bem... somente porque elas me interessaram um dia e me vêm por associação se me ponho a falar do "inconsciente". Mas também porque, amante como sou da grande arte do passado principalmente dos renascentistas até aos impressionistas, eu me rebelei contra os meus amigos da juventude em Sâo Paulo, surrealizantes que pensaram me cooptar (Piva, Willer, De Franceschi, e outros) e me tornei um poeta muito distanciado de quaisquer surrealismos (notem meus cordéis sertanejos e os inusitados e atemporais sonetos da Alma Welt, que desenvolvem raciocínios lógicos em cada verso, justificados pela beleza e a ironia. Ou melhor, pelo realismo estético, uma visão de mundo rica e embasada na memória e na Cultura; Ah! e a capacidade rítmica e fidelidade à rima, por tanto tempo caídas em desgraça na poesia moderna. Com a Alma Welt sou um revolucionário pelo avesso, restaurando valores esquecidos e desprezados, e descobrindo, não sem surpresa, quanto eles ainda são amados pela maioria dos leitores.
A propósito, a última vez que vi o poeta Poberto Piva, meu amigo de juventude, eu estava no escritório do poeta Roberto Bicelli,outro amigo em comum, que era então diretor da Funarte. Eu não via o Piva havia mais de dez anos, pois tínhamos rompido justamente pelo meu afastamento da Corrente surrealista ou da Beat Generation, e pelo meu imenso sucesso de público com a litografia. Ele entrou, com sua presença dominante, carismática, me olhando fixamente e temi ser agredito verbalmente. Mas para minha surpresa ele me deu um abraço carinhoso, me saudando como se nada tivesse acontecido. Eu disse: "Puxa, Piva,que alívio! Eu pensei que você tinha rompido comigo..." E ele: "Rompido? Não! Quê é isso! Você é um amigo querido e um artista que respeito. "
Então eu imediatamente dei um exemplar com dedicatória a ele dos Contos da Alma, de Alma Welt, que eu acabara de lançar, e ele, com surpresa e legítimo interêsse ouviu minha explicação do fenômeno do meu heterônimo feminino, embora ele fosse um homosexual viril quase militante mas ligeiramente misógino.
Despedimo-nos do Bicelli que tinha que receber outras pessoas, e fomos andando a pé até o apartamento dele. No caminho ele, sempre interessantíssimo, me contou um episódio significativo de sua memória, que nunca mais esqueci. Ele disse; " Um dia, na casa de Vicente e Dora Ferreira da Silva, o Vicente de repente me perguntou: "Piva, você sabe por que o Comunismo não vai durar cem anos?" "Eu surpreso, respondi: Não, Vicente, não sei porque o comunismo não vai durar cem anos. " E o Vicente disse: "Porque o Comunismo não está no "Inconsciente coletivo". No Inconsciente coletivo do povo estão: o Rei, a Rainha, a Princesa, o Príncipe e o Cavaleiro Andante".
Eu ouvindo essa história real da boca do Piva, fiquei deslumbrado com essa explicação do Vicente Ferreira da Silva, grande filósofo, agora quase esquecido, e certamente junguiano por seu aprouche brilhante do comunismo.
Ali mesmo eu imediatamente entendi porque os líderes comunistas todos, da União Soviètica, como o próprio Stalin, forneciam ballets clássicos maravilhosos sobre contos de fadas em teatros luxuosos carregados de dourados, como divertimento de massas acima do futebol. Era a grande válvula de escape do inconsciente coletivo, sem a qual o povo explodiria em angústia e frustação social e trabalhista. Vocês não se espantavam com comunistas ferrenhos e truculentos assistindo "O Lago dos Cisnes" com o Ballet Bolshoi e também seu maravilhoso e ingênuo ballet folclórico Berioska, que eram as melhores coisas de sua cultura que eles exportavam?
Posso continuar a história do meu reencontro com o grande e saudoso poeta Roberto Piva, mas pararei por aqui, e o farei se mais de um amigo me solicitar.
-------------------------------
CONTINUA
18/02/20
Subscribe to:
Comments (Atom)
