Wednesday, March 31, 2021

A RESPEITO DA FALTA DE CONSENSO NO MUNDO (de Guilherme de Faria)

Impressionante é como no mundo não há consenso sobre absolutamente nada. É desesperador. Nem sobre Arte. Querem um exemplo? Quem diria que nem a Capela Sistina, uma obra máxima da Humanidade, ficou fora de polêmica e controvérsias. Por exemplo: ainda no final do século XVI, o pintor grego Domenicos Teotokopoulos, depois chamado El Greco, a caminho da Espanha, onde se fixaria em Toledo, visitou a Capela Sistina. A pintura de El Greco é uma espécie de ancestral do expressionismo do século XX, pois distorcia e alongava dramaticamente os corpos humanos e deliberadamente manchava e decompunha as cores desses corpos, quase como cadáveres vivos. Pois bem... perguntado sobre o que achou sobre a capela e a pintura de Michelangelo, respondeu: "Michelangelo? Um bom homem que não sabia pintar... "

El Greco viu nas figuras da Capela Sistina, apenas esculturas pintadas em corpos monocromáticos, o contrário do seu próprio conceito precursor de pintura.
Não que eu concorde com ele, cuja pintura também me impressiona, mas cito esse fato para demonstrar como nada escapa de controvérsia. Outro exemplo: Leonardo Da Vinci, hoje uma unanimidade, na sua época sofreu longo período de subestima e menosprezo. Depois de um longo período de altos e baixos, já velho e pobre chegou a Roma em busca de trabalho, desesperado pelo patrocínio do Papa que estava encantado com Rafael e despejando ouro e encomendas sobre o jovem gênio prolífico tanto da pintura de cavalete como dos enormes afrescos nas paredes do Vaticano. O Papa não recebeu Leonardo, desprezando-o e dizendo para um intercessor: "Esse homem nunca fará nada..." Evidentemente o Papa estava enganado, e dois diplomatas da corte de Francisco I da França, percebendo a situação de Leonardo, escreveram ao seu rei recomendando o gênio menosprezado, que já era uma lenda que sobrevivera a si mesmo na miséria (as pessoas pensavam que ele tinha morrido no século anterior). Francisco I que era um grande mecenas enviou imediatamente uma resposta: "Mandem vir o grande Leonardo. Nós o acolheremos, nós o honraremos."
Uma curiosidade: esses dois brilhantes embaixadores de Francisco I da França foram retratados magnificamente num duplo retrato célebre de Hans Holbein.
Para concluir, Leonardo, já velho, viajou a cavalo acompanhado apenas de um último jovem discípulo fiel, fazendo a perigosíssima travessia dos Alpes. Nos alforjes em sua montaria levava apenas três quadros: a Mona Lisa, Santana a Virgem e o Menino Jesus, e um estranho e andrógino São João Batista. Francisco I o alojou num castelo com um grande ateliê, onde nada pintou mas continuou escrevendo e desenhando febrilmente nos seus maravilhosos códices, que também felizmente levara consigo...
O pintor e historiador da Arte da Renascença Italiana, Giorgio Vasari escreveu que Leonardo (com seus longos cabelos e barba branca, parecendo um ancião de noventa) morreu com apenas 64 anos nos braços de Francisco I, dizendo: "Não há maior honra para um artista que morrer nos braços do rei."
Curiosamente, em 1818, o grande pintor neoclássico francês Jean Baptiste Dominique Ingres, pintou um quadro menor, ilustrativo dessa cena descrita por Vasari, entitulado "A morte de Leonardo Da Vinci."
CONTINUA
28/03/2021

No comments:

Post a Comment