Assim, para rememorar, estou desde 2008 diária e ininterruptamente postando aqui minhas obras, textos, memórias e pensamentos, além das do meu heterônimo feminino, a poetisa Alma Welt. Quanto a ela, acredito estar ganhando tempo de divulgação, de maneira preparatória para um grande lançamento, algum dia, finalmente em livro de papel, de seus romances, crônicas, poemas, haikais e abundantíssimos sonetos (cerca de 5.000).
Na verdade ela já foi publicada em papel, quando em Dezembro de 2004 lancei o livro Contos da Alma, de Alma Welt, contendo doze contos da fase urbana paulistana da poetisa gaúcha criada por mim (e eu ainda inda não havia revelado o seu segredo) e tive uma boa resposta da sua aceitação com um belo e bem recebido lançamento numa tarde de autógrafos regada a vinho branco gaúcho, gelado, doado à poetisa pelo Supermercado Santa Luzia, cujo gentilíssimo gerente da época, recebendo o pedido de patrocínio através de uma carta da poetisa, e o presente de um exemplar do livro com dedicatória a ele, disponibilizou quatro caixas daquele vinho conterrâneo com recomendações de sucesso à talentosa autora estreante... Não venha alguém me dizer que cometi uma fraude para obter o patrocínio etílico (rrrrrsssss). Seria o mesmo que acusar o Fernando Pessoa de fraude por ter escrito um prefácio ao engenheiro poeta Álvaro de Campos, contando como o conheceu numa reunião na casa do pintor Almada Negreiros, amigo comum a ambos. A obra e o encanto da Alma também são verdadeiros e não se evaporaram com aqueles vinhos de estreia. Sua obra não parou de crescer e de conquistar admiradores...
Ainda a propósito, muita coisa engraçada aconteceu naquele lançamento na Livraria Nobel da rua Augusta esquina com a Alameda Itu, nos Jardins. Depois de ter deixado naquela livraria ao seu dono de nome Salvador Juvenal, uma graciosa caixinha de madeira recheada de poemas de uma desconhecida poetisa gaúcha pampiana descendente de alemães por parte de pai, chamada Alma Welt, ilustrados em cores por mim fui levando novos folhetos ilustrados para acrescentar à caixinha ao longo daquele ano de 2004. A caixinha era manuseada e lida por alguns fregueses curiosos, mas não adquirida. A cada novo folheto que eu trazia, o Salvador Juvenal encantado com a leitura me cobrava eu apresentar a ele a linda jovem poetisa e musa ruiva que eu lhe descrevia. Ele dizia: "Qual é, Guilherme, pare de enrustir a moça, seu ciumento, e traga-a aqui para eu conhecê-la!" Eu dizia: Ela mora numa estância no Pampa, e aparece raramente em São Paulo, me visita rapidamente no ateliê, me deixa novos textos e poemas, me encanta, deslumbra e como um cometa, apressada, some por mais um ano. Eu tentei, mas não consegui trazê-la aqui para você conhecê-la." Ele ficava me olhando... (serei eu um grande mentiroso?)
Finalmente em Novembro, eu, com o livro Contos da Alma no prelo pela Editora Palavras & Gestos, revelei a ele o segredo da Alma. Ele, espantado, disse: "Ah! eu já vinha desconfiando, mas depois que você trouxe aquele folheto incrível chamado "Pampa (memórias da Alma)", com três poemas epistolares longos, em verso livre, um ao pai, outro à mãe e outro ao Pampa, tão viscerais e comoventes que eu pensei: "Sim, a Alma existe em carne e osso... E agora você me vem com essa?"
Salvador, homem inteligente, acabou reconhecendo que como heterônimo a Alma era um fenômeno mais interessante ainda e aceitou lançá-la em sua livraria (era uma franquia). Mas como lançá-la mantendo o segredo? As pessoas cobrariam a presença da autora na tarde de autógrafos, claro, senão seria uma desfeita impensável ao público numa estreia...
Mas eu já sabia o que fazer, tinha um plano simples e engenhoso e começamos a preparar o lançamento...
Quando os textos da Alma começaram a espocar dentro de mim, a partir de Julho de 2001, profundamente entusiasmado e seguro do fenômeno, eu precisava não de uma avaliação crítica (coisa a que nunca me submeti) mas simplesmente de leitores. Encontrei-os logo na figura de um casal de artistas amigos, a fotógrafa Norma Guimarães e o pintor Helenos, com quem eu convivia um pouco na Gráfica Ymagos, a Editora de gravuras onde fazíamos litografias. Assim que eu produzia um texto da Alma, eu o digitava, imprimia, copiava vários exemplares em xerox, encadernava com espiral e os distribuía entre amigos mais chegados. Norma e Helenos se mostraram os mais receptivos e se apaixonaram logo pela Alma a ponto de me pedirem mais textos. Helenos chegou a dizer: "Guilherme, me traga mais. A Alma é um tesão! "
Feliz com essa receptividade, continuei a fazê-lo, e como todo escritor, a sonhar com a publicação por uma Editora.
Foi então, que passados quase um ano, encontrei a Norma por acaso descendo a Augusta, e que me disse: "Guilherme, eu sou amiga do casal Paulo Gaudêncio, o psicanalista, e sua mulher Cristina. Há alguns dias, jantando com eles, Paulo me contou que fundou uma Editora há dois anos para publicar seus próprios livros de psicologia, e agora pensava em abrir sua Editora para outros escritores. Imediatamente pensei em você e sua Alma, Guilherme, mas nada disse, deixei passar alguns dias e telefonei ao Paulo no seu Instituto, contando do prazer que nos dava a mim e ao Helenos a sua literatura. Ele ficou curioso e me pediu seu telefone, que passei. Ele disse que vai contatá-lo."
Fiquei imensamente agradecido à Norma, e realmente dali a alguns dias recebi o telefonema do Paulo Gaudêncio, simpaticíssimo, que me disse: "Guilherme, a Norma Guimarães me falou com entusiasmo de seus textos e eu queria conhecê-los . Você poderia trazê-los aqui no meu Instituto, digamos, amanhã às 10 horas da manhã? Eu terei um intervalo de uma hora entre consultas e poderei ouvi-lo. Dá pra você me explicar tudo nesse prazo? E traga os textos, por favor. "
Empolgado, eu respondi que sim, que dava, e estaria lá. Juntei uma então já enorme quantidade de contos e poemas da minha Alma, e seguro improvisador que me sei, esperei tranquilo, sem nenhum ensaio, pelo encontro. Por alguma razão eu sabia que daria certo...
Encontrei-me com o Paulo Gaudêncio, que eu não conhecia pessoalmente e do qual só tinha visto uma palestra numa edição do programa Café Filosófico da TV Cultura. No seu Instituto, que leva o seu nome, no Pacaembú, esperei-o por poucos minutos numa bela e silenciosa biblioteca, com uma grande mesa de reuniões deserta. Ele chegou logo, me parecendo bastante idoso, simpático e disse: "Guilherme, pode me contar essa história..."
Eu discorri fluente e apaixonadamente sobre a minha Alma Welt, sua origem, sua biografia e até seu gênio (!!!). Gaudêncio com um dedo na têmpora ouvia em silêncio absoluto, sem nunca me interromper, bom ouvinte, psicanalista que era. Tinha um leve sorriso que denunciava sua aprovação. Após uma hora, quando terminei de discorrer, ele, homem objetivo, direto, disse:
"Fascinante, Guilherme! Gostei muito, estou agradavelmente impressionado... Quero publicar tudo. Mas você trouxe tanto material... O quê, daqui, você quer que publique primeiro? "
Eu separei o livro dos primeiros contos da Alma, urbanos, passados no seu autoexílio paulistano de quatro anos pela morte do "Vati " ( pron. fáti = papai, em alemão).
Paulo pegou o caderno digitado e espiralado, e disse: "Está bem, então leva todo o resto embora. Mas... aqui tem tanta coisa... eu não terei tempo de ler. Quem vai fazê-lo é a Cristina, minha mulher, que cuida da Editora. Ela é que lê e escolhe os textos. Eu terei tempo para ler apenas um conto. Qual você me recomenda, para meu prazer? "
Eu, olhando bem para o rosto dele, achei-o com um ar de homem do interior (depois descobri que ele nascera no antigo bairro do Bexiga em São Paulo (Bela Vista) e apontei no Índice: "Este aqui!"
Era o conto "Na Trilha dos Menestréis", o único conto do livro que não se passava em São Paulo, mas numa fabulosa expedição da Alma no sertão de Pernambuco em busca do Pavão Misterioso (na verdade baseada numa experiência real da minha vida, quando morei em Olinda por quatro anos e fiz uma expedição de sete dias pelos sertões de Pernambuco e Paraíba junto com violeiros repentistas numa perua fretada, rumo a um Congresso de cantadores, violeiros, repentistas e cordelistas de todo o Nordeste, em Campina Grande, na Paraíba. Viagem minha, real, fabulosa e inesquecível que relato fiel e minuciosamente botando na conta e na boca da Alma, naquele conto do livro que eu queria publicar por ser cronologicamente o primeiro que a Alma me "enviou".
"Está bem- ele disse- Lerei. Aguarde daqui a uma semana o nosso chamado. Até lá."
Retirei-me feliz e esperançoso. Na verdade dando como certa a publicação do primeiro livro da Alma.
Dali a um semana recebi o telefonema esperado:
"Guilherme, aqui é a Cristina mulher do Paulo. Você pode vir amanhã às 11 horas se encontrar com a gente aqui no Instituto? Sim? Então até lá! "
No dia e hora combinados fui ao encontro do casal no Instituto Paulo Gaudencio. Introduzido por uma secretária, esperei um longo minuto na biblioteca sentado numa das inúmeras cadeiras da longa mesa de reuniões. Afinal entraram o Paulo e a Cristina, sorrindo, ela com o meu livro na mão. Ela disse: "Guilherme, quando o Paulo me recomendou ler este livro sem dizer nada, eu, lendo o título e a autoria na capa, perguntei: "Mas quem é essa Alma Welt? Nunca ouvi falar dessa autora..." E o Paulo respondeu: "É o Guilherme de Faria..." Então eu perguntei: Guilherme de Faria ? O pintor e desenhista? O artista plástico? Ele disse simplesmente: "Sim, ele mesmo..." Então, Guilherme, eu pensei: "Será que um artista plástico pode ser um escritor de verdade, que se possa levara sério?" Eu fiquei com um pé atrás, mas como tenho um compromisso com o Paulo de ler os livros que ele recomenda, comecei a lê-lo. Fui fisgada. Não podia parar. Eu me punha a ler um conto, e chegando lá pelo meio, tendo tanta coisa que fazer, parava mas minha cabeça continuava no conto, eu queria saber como acabava! Seus contos têm um certo suspense e terminam de uma maneira surpreendente, que a gente não espera. Gostei e acho que as pessoas podem também gostar. Vou publicar às nossas expensas.
Então Paulo, atalhou: E, Guilherme, aquele conto que você separou para eu ler, me comoveu até às lágrimas."
Olhei nos olhos do Paulo e ele estava com os olhos marejados ali mesmo, naquele momento, só de lembrar! Por minha vez fiquei emocionado, e impressionado com a sensibilidade daquele homem...
A Cristina continuou: "Mas... você vai publicar com o seu nome, claro... ninguém sabe ainda quem é essa personagem, uma suposta autora Alma Welt, não é?"
Eu respondi: "Não Cristina. Tem que ser com o nome dela. Essa é a graça do heterônimo. Eu quero torná-la conhecida e ficar na sombra. Quero aparecer apenas como o seu descobridor, apoiador, capista e prefaciador. Quero cultivar o seu mistério, que é um dos elementos de sua existência fascinante, entre o mítico e o real. Quero fazer dela uma Musa, além de autora."
Cristina argumentou que nenhuma Livraria aceitaria uma tarde de autógrafos sem a presença da autora. E eu respondi:
"Pode deixar comigo, eu já tenho um plano para o lançamento sem a presença física dela. Já combinei tudo com o meu amigo Salvador Juvenal, dono da Livraria Nobel da rua Augusta.."
Cristina suspirou, e acabou aceitando minhas estranhas condições...
E me encaminhei para os fundos da loja, entrando sozinho no minúsculo escritório, entulhado de livros, inacessível aos olhos do publico. Voltei depois de um longo minuto declarando alto para todos ouvirem: "Gente, a Alma não vem! Consegui falar com ela ao celular a caminho do aeroporto de Congonhas. O irmão dela, o Rôdo, sofreu um sério acidente: o seu carro esporte chocou-se contra uma árvore numa estrada do pampa e ele quase morreu, e está hospitalizado em Alegrete, ferido gravemente. Ela é ligadíssima ao irmão, está desesperada, preocupadíssima, indo para vê-lo no hospital, e pediu que a desculpem, e que se for possível, na qualidade de prefaciador eu assine os livros. Pessoal, estou desolado, mas se a alguém interessar meu humilde autógrafo, na qualidade de prefaciador do livro, estou à disposição."
Dito isso, no meio de um burburinho cheio de surpresa dos presentes, eu me sentei à mesa com a caneta em punho, e a fila se formou para os autógrafos.
Devo acrescentar que, por alguma misteriosa razão, eu comecei a escrever carinhosas dedicatórias personalizadas a cada um que trazia o seu exemplar adquirido no caixa, e assinava ALMA WELT, com a caligrafia dela, redonda, de pé, diferente da minha própria... O Incrível é que ninguém pareceu se surpreender e estranhar isso e saíam contentes com as dedicatórias e a assinatura da Alma. Será que mesmo sendo o meu segredo, inconscientemente todo mundo já sabia e era simplesmente meu cúmplice numa grande pantomima?
Enquanto isso, meu querido sobrinho Rafael Cortez que ainda não era CQC, e portanto não roubou a cena como, famoso, o faria anos mais tarde, tocava violão, ali, ao vivo para homenagear a Alma. E eu, ainda naquela noite, acompanhado por ele, declamaria uns poemas da musa, antes de encerrarmos o evento.
Foi um sucesso. Vendemos mais de 70 livros. Paulo Gaudencio e Cristina, meus editores, me olhavam, sorrindo perplexos com a minha "cara de pau", eu presumi.
Mas o mais curioso e quase sem explicação é que ninguém se queixou ou estranhou que eu dedicasse e assinasse por ela, Alma, a misteriosa poetisa, de fascinante beleza já mítica, que todo mundo esperava e ninguém jamais viu, somente eu, seu fiel e dedicado servidor...
FIM
03/04/2021
Eu discorri fluente e apaixonadamente sobre a minha Alma Welt, sua origem, sua biografia e até seu gênio (!!!). Gaudêncio com um dedo na têmpora ouvia em silêncio absoluto, sem nunca me interromper, bom ouvinte, psicanalista que era. Tinha um leve sorriso que denunciava sua aprovação. Após uma hora, quando terminei de discorrer, ele, homem objetivo, direto, disse:
"Fascinante, Guilherme! Gostei muito, estou agradavelmente impressionado... Quero publicar tudo. Mas você trouxe tanto material... O quê, daqui, você quer que publique primeiro? "
Eu separei o livro dos primeiros contos da Alma, urbanos, passados no seu autoexílio paulistano de quatro anos pela morte do "Vati " ( pron. fáti = papai, em alemão).
Paulo pegou o caderno digitado e espiralado, e disse: "Está bem, então leva todo o resto embora. Mas... aqui tem tanta coisa... eu não terei tempo de ler. Quem vai fazê-lo é a Cristina, minha mulher, que cuida da Editora. Ela é que lê e escolhe os textos. Eu terei tempo para ler apenas um conto. Qual você me recomenda, para meu prazer? "
Eu, olhando bem para o rosto dele, achei-o com um ar de homem do interior (depois descobri que ele nascera no antigo bairro do Bexiga em São Paulo (Bela Vista) e apontei no Índice: "Este aqui!"
Era o conto "Na Trilha dos Menestréis", o único conto do livro que não se passava em São Paulo, mas numa fabulosa expedição da Alma no sertão de Pernambuco em busca do Pavão Misterioso (na verdade baseada numa experiência real da minha vida, quando morei em Olinda por quatro anos e fiz uma expedição de sete dias pelos sertões de Pernambuco e Paraíba junto com violeiros repentistas numa perua fretada, rumo a um Congresso de cantadores, violeiros, repentistas e cordelistas de todo o Nordeste, em Campina Grande, na Paraíba. Viagem minha, real, fabulosa e inesquecível que relato fiel e minuciosamente botando na conta e na boca da Alma, naquele conto do livro que eu queria publicar por ser cronologicamente o primeiro que a Alma me "enviou".
"Está bem- ele disse- Lerei. Aguarde daqui a uma semana o nosso chamado. Até lá."
Retirei-me feliz e esperançoso. Na verdade dando como certa a publicação do primeiro livro da Alma.
Dali a um semana recebi o telefonema esperado:
"Guilherme, aqui é a Cristina mulher do Paulo. Você pode vir amanhã às 11 horas se encontrar com a gente aqui no Instituto? Sim? Então até lá! "
No dia e hora combinados fui ao encontro do casal no Instituto Paulo Gaudencio. Introduzido por uma secretária, esperei um longo minuto na biblioteca sentado numa das inúmeras cadeiras da longa mesa de reuniões. Afinal entraram o Paulo e a Cristina, sorrindo, ela com o meu livro na mão. Ela disse: "Guilherme, quando o Paulo me recomendou ler este livro sem dizer nada, eu, lendo o título e a autoria na capa, perguntei: "Mas quem é essa Alma Welt? Nunca ouvi falar dessa autora..." E o Paulo respondeu: "É o Guilherme de Faria..." Então eu perguntei: Guilherme de Faria ? O pintor e desenhista? O artista plástico? Ele disse simplesmente: "Sim, ele mesmo..." Então, Guilherme, eu pensei: "Será que um artista plástico pode ser um escritor de verdade, que se possa levara sério?" Eu fiquei com um pé atrás, mas como tenho um compromisso com o Paulo de ler os livros que ele recomenda, comecei a lê-lo. Fui fisgada. Não podia parar. Eu me punha a ler um conto, e chegando lá pelo meio, tendo tanta coisa que fazer, parava mas minha cabeça continuava no conto, eu queria saber como acabava! Seus contos têm um certo suspense e terminam de uma maneira surpreendente, que a gente não espera. Gostei e acho que as pessoas podem também gostar. Vou publicar às nossas expensas.
Então Paulo, atalhou: E, Guilherme, aquele conto que você separou para eu ler, me comoveu até às lágrimas."
Olhei nos olhos do Paulo e ele estava com os olhos marejados ali mesmo, naquele momento, só de lembrar! Por minha vez fiquei emocionado, e impressionado com a sensibilidade daquele homem...
A Cristina continuou: "Mas... você vai publicar com o seu nome, claro... ninguém sabe ainda quem é essa personagem, uma suposta autora Alma Welt, não é?"
Eu respondi: "Não Cristina. Tem que ser com o nome dela. Essa é a graça do heterônimo. Eu quero torná-la conhecida e ficar na sombra. Quero aparecer apenas como o seu descobridor, apoiador, capista e prefaciador. Quero cultivar o seu mistério, que é um dos elementos de sua existência fascinante, entre o mítico e o real. Quero fazer dela uma Musa, além de autora."
Cristina argumentou que nenhuma Livraria aceitaria uma tarde de autógrafos sem a presença da autora. E eu respondi:
"Pode deixar comigo, eu já tenho um plano para o lançamento sem a presença física dela. Já combinei tudo com o meu amigo Salvador Juvenal, dono da Livraria Nobel da rua Augusta.."
Cristina suspirou, e acabou aceitando minhas estranhas condições...
Finalmente o livro estava pronto, e na livraria Nobel tudo estava preparado para o coquetel de lançamento do livro da Alma. Quanto a mim, estava falido, sem um tostão, pusera todos os meus esforços naqueles últimos anos, desde 2001, a serviço da minha visionária criação, sem ter nenhum retorno financeiro. Já contei como consegui o patrocínio do vinho branco para servir gelado, naquela tarde linda e quente que se apresentou.
Então, na hora certa, pontualmente, fui com a Eliana para receber os convidados, que eu tinha feito um por um por telefone para poder contar com a presença com mais segurança.
A Livraria estava lotada de amigos, parentes e artistas. Estavam também presentes o Paulo Gaudencio e a Cristina Pereira, os editores, curiosos para ver como eu me sairia daquela enrascada, da qual eu guardara segredo até para eles. Eu iria revelar a verdadeira Alma? Ela, afinal, existia mesmo?
Como a livraria era pequena, se aglomeravam até na calçada, todos com taça na mão, última despesa que tive, além do gelo para o vinho branco e o farto mix de castanhas, nozes e amendoim. Todos esperavam curiosos a musa ruiva de que ouviram falar. Por quem? Por mim mesmo ao telefone durante os convites um a um. O boca a boca sempre foi a melhor propaganda...
A pessoas conversavam animadamente enquanto eu circulava entre elas, aumentando com pequenos comentários o mito e a expetativa quanto à autora, a belíssima escritora, a poetisa ruiva, jovem musa vinda dos pampas, que morara, escrevera e amara durante quatro anos em São Paulo sem que ninguém, senão eu, soubesse na ocasião, e que agora contava suas aventuras num belíssimo livro de contos, que eu, Guilherme de Faria, seu descobridor e fã, prefaciara e fizera o sugestivo desenho para sair na capa: a ascensão de Eros e Psiqué ao Olimpo.
O tempo foi passando e as pessoas começaram a estranhar e a questionar sobre o atraso da autora. Quando chegava alguma moça ruiva, me perguntavam: "É ela? É a Alma?" Eu respondia: "Não, não... A Alma é muito mais bonita, vocês vão ver... "
A curiosidade e a impaciência do público crescia...
Então, na hora certa, pontualmente, fui com a Eliana para receber os convidados, que eu tinha feito um por um por telefone para poder contar com a presença com mais segurança.
A Livraria estava lotada de amigos, parentes e artistas. Estavam também presentes o Paulo Gaudencio e a Cristina Pereira, os editores, curiosos para ver como eu me sairia daquela enrascada, da qual eu guardara segredo até para eles. Eu iria revelar a verdadeira Alma? Ela, afinal, existia mesmo?
Como a livraria era pequena, se aglomeravam até na calçada, todos com taça na mão, última despesa que tive, além do gelo para o vinho branco e o farto mix de castanhas, nozes e amendoim. Todos esperavam curiosos a musa ruiva de que ouviram falar. Por quem? Por mim mesmo ao telefone durante os convites um a um. O boca a boca sempre foi a melhor propaganda...
A pessoas conversavam animadamente enquanto eu circulava entre elas, aumentando com pequenos comentários o mito e a expetativa quanto à autora, a belíssima escritora, a poetisa ruiva, jovem musa vinda dos pampas, que morara, escrevera e amara durante quatro anos em São Paulo sem que ninguém, senão eu, soubesse na ocasião, e que agora contava suas aventuras num belíssimo livro de contos, que eu, Guilherme de Faria, seu descobridor e fã, prefaciara e fizera o sugestivo desenho para sair na capa: a ascensão de Eros e Psiqué ao Olimpo.
O tempo foi passando e as pessoas começaram a estranhar e a questionar sobre o atraso da autora. Quando chegava alguma moça ruiva, me perguntavam: "É ela? É a Alma?" Eu respondia: "Não, não... A Alma é muito mais bonita, vocês vão ver... "
A curiosidade e a impaciência do público crescia...
Então, quando os convidados já mostravam sinais de estranheza ou impaciência, eu, que fazia as honras da casa, disse alto, para todos ouvirem:
"Pessoal, a Alma está demorando muito, vou telefonar no escritório para saber o que está acontecendo" (eu ainda não tinha celular).E me encaminhei para os fundos da loja, entrando sozinho no minúsculo escritório, entulhado de livros, inacessível aos olhos do publico. Voltei depois de um longo minuto declarando alto para todos ouvirem: "Gente, a Alma não vem! Consegui falar com ela ao celular a caminho do aeroporto de Congonhas. O irmão dela, o Rôdo, sofreu um sério acidente: o seu carro esporte chocou-se contra uma árvore numa estrada do pampa e ele quase morreu, e está hospitalizado em Alegrete, ferido gravemente. Ela é ligadíssima ao irmão, está desesperada, preocupadíssima, indo para vê-lo no hospital, e pediu que a desculpem, e que se for possível, na qualidade de prefaciador eu assine os livros. Pessoal, estou desolado, mas se a alguém interessar meu humilde autógrafo, na qualidade de prefaciador do livro, estou à disposição."
Dito isso, no meio de um burburinho cheio de surpresa dos presentes, eu me sentei à mesa com a caneta em punho, e a fila se formou para os autógrafos.
Devo acrescentar que, por alguma misteriosa razão, eu comecei a escrever carinhosas dedicatórias personalizadas a cada um que trazia o seu exemplar adquirido no caixa, e assinava ALMA WELT, com a caligrafia dela, redonda, de pé, diferente da minha própria... O Incrível é que ninguém pareceu se surpreender e estranhar isso e saíam contentes com as dedicatórias e a assinatura da Alma. Será que mesmo sendo o meu segredo, inconscientemente todo mundo já sabia e era simplesmente meu cúmplice numa grande pantomima?
Enquanto isso, meu querido sobrinho Rafael Cortez que ainda não era CQC, e portanto não roubou a cena como, famoso, o faria anos mais tarde, tocava violão, ali, ao vivo para homenagear a Alma. E eu, ainda naquela noite, acompanhado por ele, declamaria uns poemas da musa, antes de encerrarmos o evento.
Foi um sucesso. Vendemos mais de 70 livros. Paulo Gaudencio e Cristina, meus editores, me olhavam, sorrindo perplexos com a minha "cara de pau", eu presumi.
Mas o mais curioso e quase sem explicação é que ninguém se queixou ou estranhou que eu dedicasse e assinasse por ela, Alma, a misteriosa poetisa, de fascinante beleza já mítica, que todo mundo esperava e ninguém jamais viu, somente eu, seu fiel e dedicado servidor...
FIM
03/04/2021
Nota
Agora mesmo passados anos daquele evento devo talvez explicar a algumas pessoas. que toda aquela elaborada encenação que fiz, não deve ser confundida com fraude, estelionato autoral, ou falsidade ideológica. Nem sequer com simples mentira. O mistério da heteronomia é que tudo se passa no terreno da criação artística total, senão num plano anímico em que o escritor cria a obra e seu autor, que não é ele, mas real em espírito e verdade. E esse fenômeno ainda foi não totalmente desvendado pelos estudiosos da Literatura. A Alma Welt é real, de verdade, sua já imensa obra (publicada em blogs na Internet e no facebook) e sua vida possuem grandeza, beleza e profundidade. Tudo na Alma é verdadeiro, ela só não é de carne e osso.
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