Estive pensando... a única coisa que me tiraria o gosto da vida, seria perder o dom da Arte com que fui agraciado ao nascer. O grande poeta Rainer Maria Rilke escreveu na sua primeira carta a um jovem poeta: "Você deve se perguntar: ""Eu morreria se me fosse vedado escrever? Se a resposta for "não"... não tens mais o direito de fazê-lo".
Creio que pintar e escrever, ou o exercício de qualquer arte, deve ser visceral, ou... nada. O diletantismo e o hobby sempre me foram suspeitos, uma forma de descompromisso não referente aos colecionadores apaixonados, estes, sim, necessários às artes como os mecenas de outrora.
Eu tive, por períodos, alguns mecenas na minha vida, que me ajudaram a sobreviver em momentos dramáticos (já narrei aqui, em fragmentos das minhas memórias, esses períodos sombrios, subitamente iluminados por esses homens). Queria poder dizer a eles (alguns há muito falecidos) o quanto sou grato: eles adquiriram muitas obras minhas, oportunamente, sem que eu pedisse, talvez pelo meu excessivo orgulho.
A pintura é uma arte cara. Não tanto, é verdade, como as artes cênicas, mas ainda assim dispendiosa. A maioria das pessoas não tem ideia do preço exorbitante das telas, tintas e pincéis... Van Gogh só conseguiu realizar sua maravilhosa obra graças a um dos maiores mecenas da História: seu irmão Theo, a quem a humanidade reconheceu o mérito, e deve tributo.
Na verdade estou descrevendo isso tudo de modo geral, pois não posso ter certeza da posteridade das minhas modestas obras, mas confesso que deposito maiores esperanças nas da minha poetisa, a Alma Welt, meu heterônimo feminino, autora entre contos crônicas e romances, de cinco mil sonetos notáveis, ao me ver. O falecido poeta Paulo Bomfim ao ler doze de seus contos no livro "Contos da Alma" (editora Palavras&Gestos) publicado em 2004, me afirmou ser a Alma Welt o maior fenômeno da heteronomia da História da literatura (desde Fernando Pessoa) de que ele jamais teve notícia (literalmente palavras dele).
Por que estou escrevendo isso? Certamente porque só acredito na "vocação de eternidade", que é a única coisa que justifica o predomínio do homem como ser vivo na Natureza, sobre a Terra. Sem a Arte o homem perderia o sentido, e Deus certamente nem nos teria criado...
(Guilherme de Faria)
31/05/2021
Monday, May 31, 2021
Saturday, May 29, 2021
A PASSAGEM DAS HORAS (crônica de Guilherme de Faria)
Os dias e as semanas estão passando depressa demais, todo mundo já notou (ainda ontem era Domingo, e eu escrevia sobre o amanhecer modorrento da minha Oscar Freire e os chamados dos invisíveis bemtevis). Trata-se talvez de um dos fenômenos decorrentes da Internet. Vocês já repararam como as horas desaparecem quando estamos "on line"? Estamos cada vez mais tempo nessa condição sem paralelo na história humana, inédita até então para quase todos, com exceção dos escribas do antigo Egito, ou do Balzac no Século XIX, que escreveu tanto compondo A Comédia Humana, que um homem comum precisaria mil vidas (e sem o mesmo resultado, claro)... Entretanto estamos quase sempre lançando palavras ao vento, como há não muito tempo jogávamos conversa fora nas mesas dos botecos, virando copos de chope.
Mas, não há nada a lamentar, senão os que se vão antes de nós, vitimas ou não da Peste, enquanto jogamos um xadrez virtual com a Morte, mas com o mesmo sentido do jogo do cavaleiro do filme do Bergman. Ou a mesma falta de sentido, senão a inusitada poesia daquela imagem...
A trágica condição humana seria isso, talvez: não sabermos o sentido da Vida, diante da inevitabilidade da Morte.
Quanta a mim, como muitos, agarro-me à Arte, que faz algum sentido em si mesma, já que dura tanto que parece imortal ou pelo menos bastante tolerada por Deus...
Mas devo dizer que continuo achando heroico o nosso esforço humano em buscar a alegria e até mesmo a felicidade terrena como algo duradouro.
Nietzsche escreveu estes versos imortais:
"... A dor diz : Passa e acaba.
Mas toda alegria quer eternidade.
A profunda eternidade..."
29/05/2021
Mas, não há nada a lamentar, senão os que se vão antes de nós, vitimas ou não da Peste, enquanto jogamos um xadrez virtual com a Morte, mas com o mesmo sentido do jogo do cavaleiro do filme do Bergman. Ou a mesma falta de sentido, senão a inusitada poesia daquela imagem...
A trágica condição humana seria isso, talvez: não sabermos o sentido da Vida, diante da inevitabilidade da Morte.
Quanta a mim, como muitos, agarro-me à Arte, que faz algum sentido em si mesma, já que dura tanto que parece imortal ou pelo menos bastante tolerada por Deus...
Mas devo dizer que continuo achando heroico o nosso esforço humano em buscar a alegria e até mesmo a felicidade terrena como algo duradouro.
Nietzsche escreveu estes versos imortais:
"... A dor diz : Passa e acaba.
Mas toda alegria quer eternidade.
A profunda eternidade..."
29/05/2021
Thursday, May 27, 2021
Ocorreu-me o seguinte: a vida social estaria reentrando em normalidade, com todos voltando ao trabalho e o comércio funcionando, se não fosse pelas máscaras e a distância social mantidas. Estas condições são a principal meta almejada e atingida em parte pela nova Ordem Mundial: todo mundo sem individualidade visual plena e sem afetividade pública.
(Guilherme de Faria)
(Guilherme de Faria)
27/05/2021
Monday, May 17, 2021
MEUS PASSOS DA PAIXÃO (crônica de Guilherme de Faria)
Creio que para ser um pintor é preciso amar profundamente a Natureza, se não Deus, ou no mínimo amar as cores, se não as formas. De família católica, quando criança eu não gostava da missa, por achá-la monótona (era em latim e sempre igual). Em compensação gostava de ficar examinando a Igreja, olhando o seu teto pintado e os detalhados quadros dos Passos da Paixão. Minha mãe parecia compreender e não me chamava a atenção ou repreendia baixinho por estar olhando para todos os lados menos para o padre e a Eucaristia.
Acredito que a maneira de amar a Deus dos artistas é das mais legitimas e autênticas, pois consiste em reverenciar a matéria, os objetos, tanto quanto o espírito, o que só pode agradar a Deus, pois não há maior acolhimento de Suas obras inigualáveis, que entretanto tentamos tantas vezes imitar, produzindo, na verdade outra coisa, da qual imagino Deus sorrindo, condescendente, talvez também encantado.
A propósito, quero recordar aqui uma experiência que me ocorreu nos anos 90. Eu recebi uma chamada do interfone de uma senhora costureira que morava no prédio, alguns andares acima e que me disse estar com uma cliente sua, que sempre que vinha provar seus vestidos com ela, comentava como lhe agradavam as litografias emolduradas penduradas nos corredores das duas entradas do condomínio (a da Oscar Freire e a da Hadok Lobo). Então ela dissera à sua cliente que o artista morava no prédio e esta então disse que gostaria de visitar meu ateliê para fazer uma encomenda e se eu poderia recebê-la dali a uns minutos. Empolgado, eu disse que sim, que ela podia descer, que a estava esperando.
Quando soou a campainha, abri a porta e entrou uma verdadeira rainha, eu, impressionado e quase reverente ante a majestade natural daquela dama...
Era uma senhora de meia idade, quase idosa na verdade, com belos cabelos brancos muito bem penteados à antiga, e um porte distinto e ereto, um tanto contido, como manda a verdadeira nobreza de estirpe. Ela olhou em volta os meus quadros por todos os lados e parecendo ter gostado do que viu começou a falar:
"Senhor Guilherme, eu tenho uma fazenda antiga, de família, produtora de café, aqui no Estado, e que dispõe de um capelinha mais antiga ainda, muito simples, todo caiada, do tempo da colônia. Eu mandei recentemente restaurá-la e gostaria de colocar nela os catorze Passos da Paixão, sete telas em cada parede lateral. Vejo que o senhor tem aqui esta primeira queda de Jesus sob a cruz ...Acaso o senhor pintou já a série completa?"
Eu fiquei pasmo! Eu andava em grande dificuldade financeira, à beira da ruina, mas tinha há poucos dias pintado num impulso temático inusitado, aquela telinha de 70x70cm, com fundo infinito de uma só cor chapada , dentro da minha fase "primitiva" como eu chamava e que era já um passo da Via Crucis de Jesus, avulso, inexplicável, no contexto da minha produção daquela época. Uma incrível coincidência, ou um chamado providencial?
Aceitei imediatamente a encomenda com a condição de serem todas as telas naquele formato e dimensões, com as figuras contra fundo infinito, cada um de uma cor diferente e com aquele estilo. Dei o preço imediatamente e exigi receber contra a entrega de uma por mês, catorze prestações que me garantiria uma espécie de salário fixo por um ano e dois meses. A senhora aceitou sem hesitar todas as condições. Ela retirou-se satisfeita e confiante, e eu pus imediatamente mãos a obra, me sentido como um pintor italiano quinhentista, mas a serviço de uma Papisa...Ao longo daqueles catorze meses pintei um por mês os Passos da Paixão de Jesus, e após ter entregue a última tela, dali há umas semanas encontrei no elevador minha amiga costureira que me contou o seguinte:
A Dona...... estava na sua fazenda com seus filhos adultos quando esta foi invadidas por uma quadrilha bandidos de terno e gravata (!!!) armados de carabinas e até metralhadoras que fizeram todos reféns por muitas horas. Afinal, depois de saquearem o casarão foram embora, felizmente sem matar ninguém, mas deixando-a traumatizada a um ponto de nunca mais querer voltar a pisar na sua fazenda.
Então liguei para minha cliente para saber se ela estava bem, e ela me contou que, os meus quadros estando ainda guardados dentro de um armário de seu apartamento, foi visitada por uma sobrinha querida, também fazendeira, que contou que estava coincidentemente também restaurando uma capela antiga na sua própria fazenda na região de Ribeirão Preto. Então ela doou à sua sobrinha as telas para colocar na tal capelinha. Um destino feliz, por assim dizer, para as minhas obras. Lamentei por ela o incidente traumático mas me dei por satisfeito quanto ao desfecho de tudo, e por minhas obras irem afinal ficar expostas em igualmente sagradas paredes.
Passadas umas semanas recebi um telefonema da tal sobrinha, dizendo:
FIM
20/05/2021
Acredito que a maneira de amar a Deus dos artistas é das mais legitimas e autênticas, pois consiste em reverenciar a matéria, os objetos, tanto quanto o espírito, o que só pode agradar a Deus, pois não há maior acolhimento de Suas obras inigualáveis, que entretanto tentamos tantas vezes imitar, produzindo, na verdade outra coisa, da qual imagino Deus sorrindo, condescendente, talvez também encantado.
A propósito, quero recordar aqui uma experiência que me ocorreu nos anos 90. Eu recebi uma chamada do interfone de uma senhora costureira que morava no prédio, alguns andares acima e que me disse estar com uma cliente sua, que sempre que vinha provar seus vestidos com ela, comentava como lhe agradavam as litografias emolduradas penduradas nos corredores das duas entradas do condomínio (a da Oscar Freire e a da Hadok Lobo). Então ela dissera à sua cliente que o artista morava no prédio e esta então disse que gostaria de visitar meu ateliê para fazer uma encomenda e se eu poderia recebê-la dali a uns minutos. Empolgado, eu disse que sim, que ela podia descer, que a estava esperando.
Quando soou a campainha, abri a porta e entrou uma verdadeira rainha, eu, impressionado e quase reverente ante a majestade natural daquela dama...
Era uma senhora de meia idade, quase idosa na verdade, com belos cabelos brancos muito bem penteados à antiga, e um porte distinto e ereto, um tanto contido, como manda a verdadeira nobreza de estirpe. Ela olhou em volta os meus quadros por todos os lados e parecendo ter gostado do que viu começou a falar:
"Senhor Guilherme, eu tenho uma fazenda antiga, de família, produtora de café, aqui no Estado, e que dispõe de um capelinha mais antiga ainda, muito simples, todo caiada, do tempo da colônia. Eu mandei recentemente restaurá-la e gostaria de colocar nela os catorze Passos da Paixão, sete telas em cada parede lateral. Vejo que o senhor tem aqui esta primeira queda de Jesus sob a cruz ...Acaso o senhor pintou já a série completa?"
Eu fiquei pasmo! Eu andava em grande dificuldade financeira, à beira da ruina, mas tinha há poucos dias pintado num impulso temático inusitado, aquela telinha de 70x70cm, com fundo infinito de uma só cor chapada , dentro da minha fase "primitiva" como eu chamava e que era já um passo da Via Crucis de Jesus, avulso, inexplicável, no contexto da minha produção daquela época. Uma incrível coincidência, ou um chamado providencial?
Aceitei imediatamente a encomenda com a condição de serem todas as telas naquele formato e dimensões, com as figuras contra fundo infinito, cada um de uma cor diferente e com aquele estilo. Dei o preço imediatamente e exigi receber contra a entrega de uma por mês, catorze prestações que me garantiria uma espécie de salário fixo por um ano e dois meses. A senhora aceitou sem hesitar todas as condições. Ela retirou-se satisfeita e confiante, e eu pus imediatamente mãos a obra, me sentido como um pintor italiano quinhentista, mas a serviço de uma Papisa...Ao longo daqueles catorze meses pintei um por mês os Passos da Paixão de Jesus, e após ter entregue a última tela, dali há umas semanas encontrei no elevador minha amiga costureira que me contou o seguinte:
A Dona...... estava na sua fazenda com seus filhos adultos quando esta foi invadidas por uma quadrilha bandidos de terno e gravata (!!!) armados de carabinas e até metralhadoras que fizeram todos reféns por muitas horas. Afinal, depois de saquearem o casarão foram embora, felizmente sem matar ninguém, mas deixando-a traumatizada a um ponto de nunca mais querer voltar a pisar na sua fazenda.
Então liguei para minha cliente para saber se ela estava bem, e ela me contou que, os meus quadros estando ainda guardados dentro de um armário de seu apartamento, foi visitada por uma sobrinha querida, também fazendeira, que contou que estava coincidentemente também restaurando uma capela antiga na sua própria fazenda na região de Ribeirão Preto. Então ela doou à sua sobrinha as telas para colocar na tal capelinha. Um destino feliz, por assim dizer, para as minhas obras. Lamentei por ela o incidente traumático mas me dei por satisfeito quanto ao desfecho de tudo, e por minhas obras irem afinal ficar expostas em igualmente sagradas paredes.
Passadas umas semanas recebi um telefonema da tal sobrinha, dizendo:
"Senhor Guilherme, meu nome é..... e sou sobrinha da Dona.... que encomendou ao senhor os catorze Passos da Via Crucis, que ela acaba de doar a mim, para por na capela antiga da minha fazenda em Ribeirão Preto. Gostaria visitar o seu ateliê com meus filhos. É possível?"
"Claro, com muito prazer, respondi. Hoje à tarde? Ás .... horas? Sim, pode ser, estou esperando."
Quando chegaram ao meu humilde e bagunçado ateliê, logo ela começou dizendo:
"Senhor Guilherme, o motivo desta visita é para encomendar um Passo da Paixão que ficou faltando porque o senhor pintou a Flagelação na Coluna como se fosse um dos Passos, e na verdade não faz parte da Via Crucis. O senhor pintaria o Terceiro Passo para completar a série? Quanto o senhor cobraria?"
Grato à minha falseta teológica, que assim me beneficiava, aceitei logo a encomenda, combinei o mesmo preço anterior, e acertados declamei um cordel meu de brinde, como costumo.... rrrssssss. Ficaram surpresos e foram embora meio perplexos com minha animação e naturalidade na pobreza, segundo me pareceu.
Dali a duas semanas, finalizada satisfatoriamente a nova tela, telefonei para ela vir buscar e pagar. Na ocasião ela disse:
"Senhor Guilherme, a tela da flagelação ficará ótima num nicho que tem na torre do sino, separada das outras nas paredes da capelinha. Foi muito bom o senhor a ter pintado....Vou inaugurar a capela, com uma consagração e missa, no dia .... numa grande festa para a família e convidados. Estou já imprimindo os convites."
Passadas umas semanas, não tendo recebido nenhum convite, telefonei à minha cliente e perguntei se eu poderia comparecer à inauguração, pois estava curioso para ver minhas telas na parede da capela, no mínimo para encerrar dentro de mim aquele feliz episódio. Ela respondeu:
"Senhor Guilherme, o senhor desculpe, mas a cerimônia será exclusivamente para a família e para os íntimos. O senhor ficaria deslocado. Posteriormente o convidarei especialmente para conhecer a capelinha com suas obras..."
Fiquei um tanto decepcionado, e como logo previ tal convite nunca veio (já se passaram vinte anos). Nunca pude ver minha única obra sacra nas paredes de uma capela.
Na verdade consolei-me com a ideia humorística de um Michelangelo não convidado pelo Papa para inauguração de sua obra na Capela Sistina. Afinal os artistas sempre entraram na casa dos ricos pela porta da cozinha, no máximo para comer com os criados...
A consciência de fazer parte de uma ilustre casta histórica de rejeitados, era para mim, paradoxalmente, motivo de orgulho, não de ressentimento. A tal senhora passaria, anônima na sua nobreza de estirpe, e minhas obras provavelmente ficariam, o que, afinal é tudo o que ainda me interessa... um naco de eternidade...
"Claro, com muito prazer, respondi. Hoje à tarde? Ás .... horas? Sim, pode ser, estou esperando."
Quando chegaram ao meu humilde e bagunçado ateliê, logo ela começou dizendo:
"Senhor Guilherme, o motivo desta visita é para encomendar um Passo da Paixão que ficou faltando porque o senhor pintou a Flagelação na Coluna como se fosse um dos Passos, e na verdade não faz parte da Via Crucis. O senhor pintaria o Terceiro Passo para completar a série? Quanto o senhor cobraria?"
Grato à minha falseta teológica, que assim me beneficiava, aceitei logo a encomenda, combinei o mesmo preço anterior, e acertados declamei um cordel meu de brinde, como costumo.... rrrssssss. Ficaram surpresos e foram embora meio perplexos com minha animação e naturalidade na pobreza, segundo me pareceu.
Dali a duas semanas, finalizada satisfatoriamente a nova tela, telefonei para ela vir buscar e pagar. Na ocasião ela disse:
"Senhor Guilherme, a tela da flagelação ficará ótima num nicho que tem na torre do sino, separada das outras nas paredes da capelinha. Foi muito bom o senhor a ter pintado....Vou inaugurar a capela, com uma consagração e missa, no dia .... numa grande festa para a família e convidados. Estou já imprimindo os convites."
Passadas umas semanas, não tendo recebido nenhum convite, telefonei à minha cliente e perguntei se eu poderia comparecer à inauguração, pois estava curioso para ver minhas telas na parede da capela, no mínimo para encerrar dentro de mim aquele feliz episódio. Ela respondeu:
"Senhor Guilherme, o senhor desculpe, mas a cerimônia será exclusivamente para a família e para os íntimos. O senhor ficaria deslocado. Posteriormente o convidarei especialmente para conhecer a capelinha com suas obras..."
Fiquei um tanto decepcionado, e como logo previ tal convite nunca veio (já se passaram vinte anos). Nunca pude ver minha única obra sacra nas paredes de uma capela.
Na verdade consolei-me com a ideia humorística de um Michelangelo não convidado pelo Papa para inauguração de sua obra na Capela Sistina. Afinal os artistas sempre entraram na casa dos ricos pela porta da cozinha, no máximo para comer com os criados...
A consciência de fazer parte de uma ilustre casta histórica de rejeitados, era para mim, paradoxalmente, motivo de orgulho, não de ressentimento. A tal senhora passaria, anônima na sua nobreza de estirpe, e minhas obras provavelmente ficariam, o que, afinal é tudo o que ainda me interessa... um naco de eternidade...
FIM
20/05/2021
Saturday, May 15, 2021
ÚLTIMOS ECOS DA PROVÍNCIA (crônica de Guilherme de Faria)
No meu quarteirão, que compreende um trecho da rua Augusta, da Lorena e da Haddok Lobo, o anonimato atual das máscaras só não se instalou totalmente por uns raros exemplos de resistência, como o do mineiro entregador do mercadinho, seu Milton, que não usa máscara e ninguém liga como se fosse o seu privilégio de arauto tácito e necessário. No percurso, carregando as compras, ele conversa com os clientes com intimidade e aquela simpatia mineira das pequenas cidades, e sabe quase tudo no que respeita à saúde de seus velhos clientes e o transmite de uns para os os outros, de modo que fico sabendo quem está mal e quem acaba de morrer...
Também os porteiros do meu prédio, de inusitada simpatia e prestatividade, me fazem ver que o mundo ainda conserva seu lado bom e provinciano, pelo menos em nichos dentro dos bairros da cidade grande, e que nem tudo está perdido...
Por outro lado, estarei talvez sendo ingênuo e essas pequenas coisas são a despedida do mundo de pessoalidade e individualidade que conhecíamos, nós da nossa geração que não se comunica apenas telegraficamente por mensagens de celular, uns com os outros como os adolescentes, mas ainda conversa sobre o tempo e a saúde, e abana as cabeças contra a insensatez atual do mundo e da política. A propósito, eu nunca antes me imaginei começar a gostar de falar sobre o tempo (faz frio, faz calor, está ventando, vai chover), que antes julgava ser a extrema falta de assunto, típica de velhos banais. Enfim, começo a compreender a velhice, o que é sinal seguro de que estou eu mesmo envelhecendo, e se tudo correr bem, me tornarei finalmente simples e mais humano, quando tudo parece caminhar na direção contrária. Mas também conto com a possibilidade de estar enganado sobre tudo, já que ainda não há o recuo necessário para analisarmos o sentido dessa nossa época de triunfante tecnologia e esvaziamento das individualidades. Enquanto isso, por minha vez, por resistência agarro-me à pintura figurativa, às crônicas talvez passadistas, e aos sonetos de uma Musa criada por mim mesmo, e que, reconheço, já parecia antiga até para o século passado onde localizei a sua bela e imaginária culta juventude...
(Guilherme de Faria)
15/05/2021
Também os porteiros do meu prédio, de inusitada simpatia e prestatividade, me fazem ver que o mundo ainda conserva seu lado bom e provinciano, pelo menos em nichos dentro dos bairros da cidade grande, e que nem tudo está perdido...
Por outro lado, estarei talvez sendo ingênuo e essas pequenas coisas são a despedida do mundo de pessoalidade e individualidade que conhecíamos, nós da nossa geração que não se comunica apenas telegraficamente por mensagens de celular, uns com os outros como os adolescentes, mas ainda conversa sobre o tempo e a saúde, e abana as cabeças contra a insensatez atual do mundo e da política. A propósito, eu nunca antes me imaginei começar a gostar de falar sobre o tempo (faz frio, faz calor, está ventando, vai chover), que antes julgava ser a extrema falta de assunto, típica de velhos banais. Enfim, começo a compreender a velhice, o que é sinal seguro de que estou eu mesmo envelhecendo, e se tudo correr bem, me tornarei finalmente simples e mais humano, quando tudo parece caminhar na direção contrária. Mas também conto com a possibilidade de estar enganado sobre tudo, já que ainda não há o recuo necessário para analisarmos o sentido dessa nossa época de triunfante tecnologia e esvaziamento das individualidades. Enquanto isso, por minha vez, por resistência agarro-me à pintura figurativa, às crônicas talvez passadistas, e aos sonetos de uma Musa criada por mim mesmo, e que, reconheço, já parecia antiga até para o século passado onde localizei a sua bela e imaginária culta juventude...
(Guilherme de Faria)
15/05/2021
Friday, May 14, 2021
AO MINUTO QUE PASSA (crônica de Guilherme de Faria)
Em tempos como este, de quarentena, é difícil para mim escrever a crônica do dia sem recorrer às memórias dos tempos idos, embora eu não seja um saudosista (longe disso). Como um Fausto* de mim mesmo, raramente gostei plenamente de um momento e não me lembro de jamais ter dito ao minuto que passa: "Pára! És tão belo!" * Talvez por isso mesmo não tenha perdido a minha alma, pois como alcoólatra ao mesmo tempo laborioso e fecundo, teria feito talvez, sem perceber, de certo modo, um pacto perigoso... Por isso não tenho saudades da minha louca juventude, em que, imprudente, hedonista, excessivo e luxurioso, escapei sempre por milagre a imensos perigos, da decadência precoce e da morte mesmo...
Entretanto, curiosamente, eu não apagaria uma linha dos meus desenhos e gravuras ou uma pincelada de meus quadros daquela insana época (de 1962 a 1981) que, apesar de tudo, me parecem, em si mesmos estranhamentos incólumes, intocados pelos meus excessos alcóolicos e desvarios. Atribuo isso, de maneira teórica, ou fato da Arte ser o último baluarte do espírito, o último a cair. Quando a arte é afinal atingida pelo álcool, o artista morre junto, finalmente derrotado, já que impenitente...
Devo pois revelar, que, em Abril de1981, no meu fundo de poço, de repente, vendo já face do lobo, escolhi viver com o risco inerente a uma sobriedade desconhecida, e a um estilo de vida paciente, de uma verdadeira reforma interna, e entrei desde então numa etapa igualmente fecunda, mas não dolorosa. Renunciei à Tragédia. Escolhi ser um Corot e não um Van Gogh. Talvez para poder dizer, não ao minuto que passa, mas ao derradeiro: "Espero que no Céu haja pintura... "
(Guilherme de Faria)
14/05/2021
Nota
*No Fausto de Goethe. o pacto feito com Mefistófeles consistia em acompanhar aquele diabo em aventuras e experiências de desejos formulados até que diante de um que o satisfizesse, Fausto afinal dissesse "ao minuto que passa": Para! És tão belo! . , Nesse momento ele cairia morto e sua alma caberia ao Diabo para levá-la consigo para o Inferno. Fausto, finalmente, depois de muitas experiências insatisfatórias, e até um crime ( o abandono de Margarida que a conduziu a um fim trágico), diz finalmente deslumbrado, no término de sua cidade ideal do Futuro, ao minuto: "Pára! ´És tão belo!". E caiu morto.
Entretanto, Deus ludibriaria o Diabo e regataria seu servo com um truque engenhoso e engraçado, lançando mão de serafins voluptuosos, que em evoluções dançantes entorno do cadáver, distraíram o luxurioso Mefistófeles e escamotearam no último momento a alma de Fausto que saía como uma luzinha de sua boca, e a levariam para o Céu.
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Entretanto, curiosamente, eu não apagaria uma linha dos meus desenhos e gravuras ou uma pincelada de meus quadros daquela insana época (de 1962 a 1981) que, apesar de tudo, me parecem, em si mesmos estranhamentos incólumes, intocados pelos meus excessos alcóolicos e desvarios. Atribuo isso, de maneira teórica, ou fato da Arte ser o último baluarte do espírito, o último a cair. Quando a arte é afinal atingida pelo álcool, o artista morre junto, finalmente derrotado, já que impenitente...
Devo pois revelar, que, em Abril de1981, no meu fundo de poço, de repente, vendo já face do lobo, escolhi viver com o risco inerente a uma sobriedade desconhecida, e a um estilo de vida paciente, de uma verdadeira reforma interna, e entrei desde então numa etapa igualmente fecunda, mas não dolorosa. Renunciei à Tragédia. Escolhi ser um Corot e não um Van Gogh. Talvez para poder dizer, não ao minuto que passa, mas ao derradeiro: "Espero que no Céu haja pintura... "
(Guilherme de Faria)
14/05/2021
Nota
*No Fausto de Goethe. o pacto feito com Mefistófeles consistia em acompanhar aquele diabo em aventuras e experiências de desejos formulados até que diante de um que o satisfizesse, Fausto afinal dissesse "ao minuto que passa": Para! És tão belo! . , Nesse momento ele cairia morto e sua alma caberia ao Diabo para levá-la consigo para o Inferno. Fausto, finalmente, depois de muitas experiências insatisfatórias, e até um crime ( o abandono de Margarida que a conduziu a um fim trágico), diz finalmente deslumbrado, no término de sua cidade ideal do Futuro, ao minuto: "Pára! ´És tão belo!". E caiu morto.
Entretanto, Deus ludibriaria o Diabo e regataria seu servo com um truque engenhoso e engraçado, lançando mão de serafins voluptuosos, que em evoluções dançantes entorno do cadáver, distraíram o luxurioso Mefistófeles e escamotearam no último momento a alma de Fausto que saía como uma luzinha de sua boca, e a levariam para o Céu.
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Wednesday, May 5, 2021
TRIBUTO ÀS MARAVILHOSAS MULHERES DA MINHA VIDA (crônica de Guilherme de Faria)
Todas as manhãs quando acordo, depois do café, antes de começar a pintar tenho vontade de escrever algo aqui no nosso face. Em geral uma crônica, uma memória ou um soneto da minha Alma Welt (que pra quem não sabe sou eu mesmo). Entre a pintura e a literatura, meu coração só não balança porque considero uma a extensão da outra, pelo menos no meu caso. É preciso dizer que desde menino mostrei minha obras com desenvoltura e segurança, e fui recebido com uma aceitação bastante grande talvez pela minha atitude mesma, de certeza absoluta, provavelmente me auto superestimando, reconheço.
Mesmo com essa aceitação fácil desde jovem, meu caminho foi atribulado, e bastante sofrido por uma luta interna comigo mesmo noutros planos, que não propriamente na arte em si. Já revelei muito dessa minha jornada ao longo destes meus 78 anos, nas minhas memórias fragmentadas neste facebook nos últimos doze anos.
Casei muitas vezes mas estou no meu sétimo casamento há já 27 anos. É preciso dizer, a bem da verdade, que considero "casamento" cada vez que coabitei com uma mulher nos meus consecutivos ateliês, ou que elas trouxeram suas escovas de dentes e colocaram no armarinho de espelho do banheiro.
Sempre necessitei da intimidade de uma mulher no meu cotidiano... elas, por sua vez, espelhos fundamentais da anima masculina. Entretanto como já contei em outras ocasiões, num momento de solidão, exausto do embate da difícil convivência com elas, descobri a identidade ou personificação da minha própria anima pessoal, em Julho de 2001, e revelei imediatamente ao meu pequeno círculo de amigos a inesperada poetisa e prosadora gaúcha pampiana Alma Welt, de aparente inexplicável (em mim) ascendência alemã por parte de pai e açoriana por parte de mãe. Estranho fenômeno, reconheço, ainda não totalmente esclarecido. Ainda mais que ela me apareceu (se insinuou com um inesperado conto confidencial quando me viu sentado escrevendo também inusitados cordéis sertanejos em catadupa) se revelando como escritora e finalmente a identidade misteriosa da "modelo" ruiva desconhecida e sem nome, de meus desenhos, gravuras e pinturas desde 1964. Uma curiosidade: as minhas ex-mulheres a detestaram à primeira vista, numa atitude de "não li e não gostei", com exceção justamente da Eliana, minha atual e definitiva companheira, que com surpreendente desprendimento se afeiçoou à que ela chama "a Alminha", e tomou para si publicar na sua página os haikais da Alma, para o qual ela escolhe graciosas ilustrações na internet. Em quase todas as outras presumi logo que, revelando uma Musa maravilhosa, ao mesmo tempo poetisa notável surgida de dentro de mim mesmo, despertei nelas muita mágoa e ressentimento... e talvez, mesmo, despeito. Compreensível...
Belas e queridas mulheres da minha vida!... Queria que soubessem o quanto lhes sou grato e o quanto sinto tê-las decepcionado. Reconheço que o artista é, sim, uma espécie de monstro psicológico um tanto sugador, difícil de conviver. Mas também quero que reconheçam o quanto as cantei como arquétipo feminino, difuso embora, em pintura, desenho, gravura, prosa e versos... o que provavelmente continuarei fazendo até o fim, já que vocês são, na verdade, inalcansáveis como também as paisagens imaginárias da minha pintura.
Agora vou revelar uma última fantasia impossível, talvez patética: vê-las no fim, eu invisível pairando de cima, todas juntas no meu velório em torno do meu caixão, tagarelando, amigas... e talvez uma ou outra lágrima quase secreta...
Risos, risos, e risos...
05/05/2021
Mesmo com essa aceitação fácil desde jovem, meu caminho foi atribulado, e bastante sofrido por uma luta interna comigo mesmo noutros planos, que não propriamente na arte em si. Já revelei muito dessa minha jornada ao longo destes meus 78 anos, nas minhas memórias fragmentadas neste facebook nos últimos doze anos.
Casei muitas vezes mas estou no meu sétimo casamento há já 27 anos. É preciso dizer, a bem da verdade, que considero "casamento" cada vez que coabitei com uma mulher nos meus consecutivos ateliês, ou que elas trouxeram suas escovas de dentes e colocaram no armarinho de espelho do banheiro.
Sempre necessitei da intimidade de uma mulher no meu cotidiano... elas, por sua vez, espelhos fundamentais da anima masculina. Entretanto como já contei em outras ocasiões, num momento de solidão, exausto do embate da difícil convivência com elas, descobri a identidade ou personificação da minha própria anima pessoal, em Julho de 2001, e revelei imediatamente ao meu pequeno círculo de amigos a inesperada poetisa e prosadora gaúcha pampiana Alma Welt, de aparente inexplicável (em mim) ascendência alemã por parte de pai e açoriana por parte de mãe. Estranho fenômeno, reconheço, ainda não totalmente esclarecido. Ainda mais que ela me apareceu (se insinuou com um inesperado conto confidencial quando me viu sentado escrevendo também inusitados cordéis sertanejos em catadupa) se revelando como escritora e finalmente a identidade misteriosa da "modelo" ruiva desconhecida e sem nome, de meus desenhos, gravuras e pinturas desde 1964. Uma curiosidade: as minhas ex-mulheres a detestaram à primeira vista, numa atitude de "não li e não gostei", com exceção justamente da Eliana, minha atual e definitiva companheira, que com surpreendente desprendimento se afeiçoou à que ela chama "a Alminha", e tomou para si publicar na sua página os haikais da Alma, para o qual ela escolhe graciosas ilustrações na internet. Em quase todas as outras presumi logo que, revelando uma Musa maravilhosa, ao mesmo tempo poetisa notável surgida de dentro de mim mesmo, despertei nelas muita mágoa e ressentimento... e talvez, mesmo, despeito. Compreensível...
Belas e queridas mulheres da minha vida!... Queria que soubessem o quanto lhes sou grato e o quanto sinto tê-las decepcionado. Reconheço que o artista é, sim, uma espécie de monstro psicológico um tanto sugador, difícil de conviver. Mas também quero que reconheçam o quanto as cantei como arquétipo feminino, difuso embora, em pintura, desenho, gravura, prosa e versos... o que provavelmente continuarei fazendo até o fim, já que vocês são, na verdade, inalcansáveis como também as paisagens imaginárias da minha pintura.
Agora vou revelar uma última fantasia impossível, talvez patética: vê-las no fim, eu invisível pairando de cima, todas juntas no meu velório em torno do meu caixão, tagarelando, amigas... e talvez uma ou outra lágrima quase secreta...
Risos, risos, e risos...
05/05/2021
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