Wednesday, March 31, 2021

MEMÓRIAS NUMA MANHÃ DE QUARENTENA (crônica de Guilherme de Faria)

 Tem manhãs em que acordo sem nenhuma ideia na cabeça como se estivesse oco, vazio. Não é, em si, uma sensação desagradável, pois o vazio, por definição, não costuma causar dor. Saindo da cama vou até a janela e olho a minha Oscar Freire desolada, sem "vivalma" (como se dizia) ou com um ou dois passantes de máscara, apressados, para ir ao trabalho. Que trabalho seria? Tenho uma leve curiosidade. Na verdade, a própria portaria do meu prédio está em obras, reformando para ficar mais bonita e mais chic, já que originalmente o prédio era bem modesto para uma zona 1. Mas... se nem podemos receber visitas!... A propósito: o arquiteto contratado pela síndica projetou nichos retangulares já prontos nas paredes do corredor de entrada, iluminados por cima com três focos de luz que achei apetitosos para os meus quadrinhos de paisagens deste ano. Infelizmente, experimentados eles ficaram na sombra, pois, já emoldurados os focos de luz excessivamente perpendiculares não os iluminaram e a sombra projetada das molduras mais os obscureceram. Tão lindos que eles estão nas minha modestas e solitárias paredes a que talvez estejam condenados!... Voltarei um dia a ser visitado no ateliê? O mundo de sociabilidade direta e ao vivo, que conhecíamos, não vai acabar de vez? A sensação que tenho, de um certo pessimismo, é que não. O progressivo isolamento das pessoas veio para ficar, assim o projetou a tal nova ordem global...

Mas, por quê? O ser humano isolado, por acaso é mais passivo, mais obediente? Não é o que víamos na infância nos filmes de faroeste, de cavaleiros solitários e rebeldes, de longa linhagem de pistoleiros lindamente sinistros, concluída magnificamente com o belo e alto Klynt Eastwood nos anos 70...
Ah! Que saudades de algumas coisas, eu, que não me adaptei facilmente ao meu tempo, e meus cabelos da juventude, compridos até os ombros e minha barba e bigode, não enganaram um arguto sujeito, intelectual, que me disse nos anos 60: "Curioso... você usa cabelo e barba compridos, usa jeans, mas não se parece com um hippie, nem sequer parece estar na moda... Você parece com um russo melancólico do século XIX, saído de um livro de Dostoiévsky, uma espécie... assim... de Raskolnicov."
Na verdade, criado no meio dos livros, rato de biblioteca na infância, eu gostei de ouvir isso e quando comecei a minha trajetória profissional de artista, pintor e desenhista, meu primeiro ateliê foi num úmido e mofado porão aos rés do chão de um cortiço na rua Mato Grosso, atrás do Cemitério da Consolação *, em que, antigo prostíbulo na Bela Époque paulistana tardia dos anos 20, se adentrava através de um lindo remanescente alto portão de ferro batido Art Nouveau. Meus primeiros apoiadores, jornalistas do Estadão, diziam: "Guilherme, é incrível, seu ateliê é no Bateau Lavoir! Você parece que vive no entre guerras da École de Paris!
Juro que tudo isso é verdade, por incrível que pareça, e eu vivia realmente assim. E era também laborioso e beberrão, mas apenas não bebia absinto, e nem sequer bons vinhos, mas um vinho barato de garrafão, Sangue de Boi, que ficava no chão do meu ateliê de porão cujo teto era a um palmo do meu crânio. Eu estava na minha patética "fase heroica" de "artista quando jovem cão", como disse o poeta irlandês Dylan Thomas *...
CONTINUA
30/03/2021
Notas
*Naquela época, na mesma rua Mato Grosso, perto meu ateliê-porão, numa pequena vila não sórdida como o meu cortiço e porão, ficava numa casinha o ateliê compartilhado de dois jovens artistas contemporâneos meus: o Naum Alves de Sousa e o Claudio Kupermam, que raramente visitei e que por alguma razão eram reticentes diante da minha loquacidade e me olhavam com desconfiança. Nunca ficamos realmente amigos, apesar de estarmos na mesma batalha...

* Dylan Thomas 1914-1953 grande poeta galês da primeira metade do século XX, escreveu suas memórias com o titulo "Retrato do Artista quando Jovem Cão", parodiando o título das memórias de juventude do célebre escritor irlandês James Joyce, que escreveu o notável "Retrato do Artista Quando Jovem". Dylan Thomas suicidou-se relativamente jovem. O poeta, compositor e cantor judeu americano Bob Dylan, de nome Robert Zimmerman, adotou seu nome artístico em homenagem ao poeta Dylan Thomas cuja poesia ele admirava.

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