Umas poucas vezes na vida tive um medo não pessoal, mas digamos, coletivo, universal. É o caso agora da guerra Russia x Ucrania, que parece ter implicações mundiais ainda piores, sinistras. Quero estar redondamente enganado. A última vez que senti um medo assim, foi em 11 de setembro de 2001. Descendo para uma caminhada por volta do meio dia, eu tinha acabado de sair do elevador e passando pela portaria, o porteiro com uma televisãozinha portátil em cima do balcão apontou-a dizendo: "Seu Guilherme, olha o que está acontecendo agora lá nos Estados Unidos." Olhei e vi uma das torres gêmeas o com um enorme rombo, em chamas e com muita fumaça preta. Tive um sobressalto, e corri para fora do prédio para a porta ao lado na Oscar Freire, um restaurante chamado Toca do Mandioca (não existe mais ) que eu sabia que tinha um imenso telão voltado para a rua, sempre ligado na Globo. E parado ali na porta, estarrecido, entre mais alguns clientes e passantes, vi chegar outro avião e mergulhar na segunda torre numa imensa explosão de fogo e logo mais fumaça preta e vermelha como um vulcão. Por um segundo subiu-me quase um pânico, pois tive a nítida sensação ou o pensamento da Terceira Guerra Mundial (que afinal, não houve... somente meses depois, a invasão do Iraque). Corri de volta ao meu ap para alertar a Eliana e ligar o nosso televisor para ver aquelas cenas repetidas à saciedade...Agora, vemos uma invasão da Ucrania pela Russia, que pode ou não ter desdobramentos globais. Mas na verdade, nunca mais acreditei, como naquela fração de segundo, diante do telão da Toca do Mandioca, numa Terceira Guerra Mundial, pois esta (sabemos) seria o Apocalipse, o fim da Humanidade, ou pelo menos seu retorno à Idade da Pedra, ou na melhor ou pior das hipóteses como aqueles inventivos filmes de barbárie americana de Mad Max, com muita tranqueira no deserto e munição convencional abundante. De qualquer maneira (Deus é grande) ainda haverá lugar para novas pinturas nas cavernas...
(Guilherme de Faria)
27/02/2022
Sunday, February 27, 2022
Sunday, February 20, 2022
NOSSA DUPLA VIDA (crônica de Guilherme de Faria)
Ocorreu-me a ideia de que a criação de uma realidade de um mundo virtual paralelo, antes do advento da Internet e das redes sociais, era quase exclusiva atribuição dos artistas, se não também dos sonhadores, esquizofrênicos e estelionatários quando talentosos, mas principalmente dos escritores ficcionistas, pintores, cineastas e poetas, a quem cabia esse papel de mediadores ou reveladores de uma realidade expandida e mais rica, em que todas as possibilidades eram concomitantes e accessíveis a qualquer leitor apaixonado pela leitura ou expectador fisgado pelo telão.
Esse tempo, parece, foi superado: já vivemos todos numa triunfante virtualidade, ou na fronteira tênue e borrada de dois mundos paralelos em que os reflexos da realidade social e até da Natureza selvagem, chegam com igual teor e intensidade dos dois lados da fronteira, ou desse novo Espelho de Alice. *
Quanto a mim, que como artista plástico fecundo já convivia com essa dupla realidade desde sempre, primeiramente com o modelo nu, a ruiva muito branca, anônima e misteriosa dos meus desenhos e gravuras a partir de 1964, e depois ao descobrir também dentro de mim, como minha simultânea anima, musa e obra literária a partir de 2002, a poetisa gaúcho-germânica pampiana ALMA WELT... venho vivendo intensamente essa vida virtual verdadeira e legítima, mesmo antes de introduzi-la e fazê-la desabrochar na Internet a partir de 2006, e aqui no facebook a partir de 2010.
Entretanto, como já sugeri, é verdade que quase toda a humanidade atual vive essa dupla existência em dois mundo paralelos em que a realidade virtual cada dia mais prepondera e acabará por rebaixar a antiga ao nível quase da extinção ou, pasmem, do descrédito. Estou ciente, é claro, de que essa ideia já foi desenvolvida no confuso e prolixo filme americano "Matrix", quando na verdade poderia ser feita de modo bem mais poético, sem aqueles efeitos especiais violentos, redundantes e inúteis. Esta ideia ou interpretação da atual realidade do mundo, como já mais virtual do que portanto real, não sendo nova, mas gradativamente mais comprovada na última década, não deve, a rigor, alarmar ninguém. Eu mesmo a acalento, como vêm, de maneira bastante fecunda e até redentora com a Alma Welt, meu belo heterônimo feminino, que a esta altura avalio como já bem mais "real" que este velho artista que, lentamente, diante do cavalete e do teclado do computador, derrete, se esvai ou esvanece o seu "Ser" puramente real, nessa velhice que nos espera, infelizmente, a quase todos...
Guilherme de Faria e Alma Welt
19/02/2022
Nota
*...Espelho de Alice - alusão ao livro de Lewis Carrol, "Alice no País do Espelho", continuação de "Alice no País das Maravilhas", que já no século XIX explorava de maneira fantástica e nonsense essa ideia de virtualidade ou de mundos paralelos.
Esse tempo, parece, foi superado: já vivemos todos numa triunfante virtualidade, ou na fronteira tênue e borrada de dois mundos paralelos em que os reflexos da realidade social e até da Natureza selvagem, chegam com igual teor e intensidade dos dois lados da fronteira, ou desse novo Espelho de Alice. *
Quanto a mim, que como artista plástico fecundo já convivia com essa dupla realidade desde sempre, primeiramente com o modelo nu, a ruiva muito branca, anônima e misteriosa dos meus desenhos e gravuras a partir de 1964, e depois ao descobrir também dentro de mim, como minha simultânea anima, musa e obra literária a partir de 2002, a poetisa gaúcho-germânica pampiana ALMA WELT... venho vivendo intensamente essa vida virtual verdadeira e legítima, mesmo antes de introduzi-la e fazê-la desabrochar na Internet a partir de 2006, e aqui no facebook a partir de 2010.
Entretanto, como já sugeri, é verdade que quase toda a humanidade atual vive essa dupla existência em dois mundo paralelos em que a realidade virtual cada dia mais prepondera e acabará por rebaixar a antiga ao nível quase da extinção ou, pasmem, do descrédito. Estou ciente, é claro, de que essa ideia já foi desenvolvida no confuso e prolixo filme americano "Matrix", quando na verdade poderia ser feita de modo bem mais poético, sem aqueles efeitos especiais violentos, redundantes e inúteis. Esta ideia ou interpretação da atual realidade do mundo, como já mais virtual do que portanto real, não sendo nova, mas gradativamente mais comprovada na última década, não deve, a rigor, alarmar ninguém. Eu mesmo a acalento, como vêm, de maneira bastante fecunda e até redentora com a Alma Welt, meu belo heterônimo feminino, que a esta altura avalio como já bem mais "real" que este velho artista que, lentamente, diante do cavalete e do teclado do computador, derrete, se esvai ou esvanece o seu "Ser" puramente real, nessa velhice que nos espera, infelizmente, a quase todos...
Guilherme de Faria e Alma Welt
19/02/2022
Nota
*...Espelho de Alice - alusão ao livro de Lewis Carrol, "Alice no País do Espelho", continuação de "Alice no País das Maravilhas", que já no século XIX explorava de maneira fantástica e nonsense essa ideia de virtualidade ou de mundos paralelos.
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