Minhas lembranças são muitas porque são sobretudo subjetivas. E por isso, além de percepções sutis de momentos aparentemente banais, incluem, de algum modo, cada quadro meu, se não cada pincelada, cada traço. Sempre dei mais valor à obra dos homens do que a vida em si. Fernando Pessoa, ao que parece, também assim o fazia, quando escreveu ser, como pessoa, somente a lenha da fogueira de sua obra. Por isso também escrevi sonetos, poemas, contos, crônicas, novelas e romances, atribuindo a heterônimos, porque uma vida só, não me basta. A vida vivida? Deixei para trás bem mais fracassos do que triunfos. Mas... quê importa? Nunca quis ser senão um artista, isto é: um meio, não um fim...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Wednesday, July 28, 2021
Monday, July 26, 2021
O PRIVILÉGIO DOS HETERÔNIMOS
Em geral Deus nos concede, como Destino incontornável, sermos apenas nós mesmos. Mas às vezes, quando somos artistas, nos doa alguns heterônimos mais talentosos ainda. Graças a Ele isso não tem nada a ver com esquizofrenia, cisão de personalidade ou falsidade ideológica. Trata-se de um privilégio concedido graciosamente por Ele aos poetas a quem uma só obra e uma só vida terrena não bastam. A mim, o pintor, por exemplo, Deus concedeu a poetisa gaúcha Alma Welt e sua irmã mais velha Lucia Welt, sua exegeta, comentarista e blogueira de sua obra póstuma. Ah! também um meu homônimo cordelista sertanejo. Portanto, quatro intensas e produtivas vidas eu tive até agora...
(das Memórias de Guilherme de Faria).
(das Memórias de Guilherme de Faria).
Saturday, July 24, 2021
Minha mulher, nascida no interior paulista mas filha de mineiros, me contou uma vez que seu pai, mineirão, meio matuto, já velho, um dia disse melancolicamente: "Minha filha, a vida é uma bela bosta..." Eu achei graça, pois intimamente ainda não corroboro tal conclusão, fruto evidente de grande frustação existencial. Enquanto houver Arte, e eu a tiver dentro de mim, celebrarei a vida, mesmo sem poder brindá-la de vez em quando, pois não posso beber. Como Picasso, no fim, acreditando ainda na vida espero poder dizer: "Bebam por mim, que já não posso..."
(Guilherme de Faria)
(Guilherme de Faria)
Thursday, July 15, 2021
DEGRADÉ (Sobre a cor nas minhas litos) e sobre os meus cordéis.
Me lembro que o Marcelo Grassmann, que tinha sido meu amigo a partir de 1962, me disse quando comecei a colorir as minhas litos a partir de 1976: "Guilherme, se você continuar a usar degradé em suas litos eu rompo com você. Pare com isso. Eu tenho ódio de degradé. Não serei mais seu amigo." Grassmann era um purista, preconizava o preto e branco, segundo ele "a nobreza da gravura". Eu insisti no degradé e perdi a sua amizade, que só recobrei nos anos 90, quando ele me perdoou ao conhecer os meus cordéis. Essa é uma outra história que um dia contarei aqui. Adianto somente que o Grassmann ficou surpreso com os meus cordéis sertanejos, mas a literatura não sendo a sua praia me recomendou que procurasse o Paulo Vanzolini que era seu amigo e que, segundo ele, era um expert em cordel. Mas eu, àquela altura, não queria críticas nem bênçãos e perdi a oportunidade de conhecer pessoalmente o grande autor de "Ronda". Entretanto, passado um tempo fui, recomendado por uma amiga em comum, procurar o Jorge Mello no seu escritório no largo de Santo Amaro, e sabendo-o cordelista (e até repentista) expert e colecionador do cordel nordestino, me apresentei com modéstia, e declamei um cordel meu para ele, que me ouviu contando sílabas mentalmente e em seguida me apontando alguns pés quebrados. Eu tinha trazido com a intenção de presenteá-lo, um Kit cordel. Então eu lhe disse: "Eu sei que meus cordéis não são dignos da sua coleção". Ele então abraçando a caixinha de madeira recheada dos meus folhetos, por cima da mesa puxou-a para si dizendo: "Ao contrário. Já está incorporado!"
Eu me iluminei, ganhei meu dia, e um inusitado amigo especialista, que avalizou o meu cordel de amador...
Eu me iluminei, ganhei meu dia, e um inusitado amigo especialista, que avalizou o meu cordel de amador...
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