Vou lhes contar, amigos, uma curiosidade a meu próprio respeito como artista. Apenas 30% das minhas obras do passado eu assinaria novamente em baixo, hoje em dia. Pior, tenho uma secreta e incômoda vergonha delas. Algumas se me voltassem às mãos eu as queimaria. Eu as vendia muito rapidamente pela necessidade de sobreviver, embora na época acreditasse na qualidade delas, o que me absolve pelo menos de prostituição. A vergonha vem por conta do meu perfeccionismo e vaidade artística, reconheço. Devido ao sucesso precoce do meu desenho e gravura, não me empenhei, senão na velhice, em aperfeiçoar a minha técnica pictórica a óleo. Agora sim, nos últimos cinco anos, e sobretudo com as fases "paisagens imaginárias", "Alma Welt", e "floral", começo a me orgulhar também das minhas pinturas, mas reconhecendo que elas me são "enviadas" e que o mérito da grande arte nunca é verdadeiramente nosso. Tornamo-nos merecedores de recebê-las do plano divino (Deus mesmo) a duras penas, nunca sem sofrimento e trabalho duro. Mas sobretudo com o amadurecimento, que consiste no abandono das veleidades...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Sunday, March 17, 2019
A mentalidade socialista
Nunca tive, por natureza, uma mentalidade socialista, nem sequer socializante. Hoje até me orgulho disso, vendo as desgraças que os socialistas/comunistas fizeram ao mundo. Quando jovem, saído de uma família de classe média culta mas empobrecida, eu lutei muitos anos pela mera sobrevivência, insistindo na arte como profissão. "Gramei" muito. Nunca me passou pela cabeça a tal "função social da arte". Tudo o que eu queria é que os ricos colecionadores percebessem a beleza e qualidade das minhas obras, e me dessem por elas um dinheirinho para comer, pagar aluguel e comprar tintas, papel e telas. Só isso! Acreditem! Não estou me fazendo de naïf. Eu só esperava não ser incompreendido em vida como Van Gogh, Gauguin e Modigliani. O povo para mim não entrava em linha de conta, pois ele era eu mesmo tentando deixar de sê-lo, e ao mesmo tempo algo distante e anódino, de que eu ouvia falar de vez em quando sem me identificar. Sim, um paradoxo. Eu não podia me dar ao luxo de pensar no tal "povo", pois a fome me rondava pessoalmente. Individualista que sempre fui, nunca me ocorreria me unir ao povo para tentar sobreviver "coletivamente" e muito menos me vingar dos ricos, pois não me sentia sua vítima, mas via neles uma espécie rara que eu precisa de algum modo seduzir com minhas obras, pois eles sim é que historicamente consagravam os artistas. Eu compreendi desde o princípio que as obras de arte devem fazer um longo percurso de valorização financeira e prestígio para ter direito de entrar nos Museus e afinal voltar ao povo. Uma lógica, uma lei natural, uma "meritocracia" corroborada pela História, que essa, sim, eu conseguia compreender...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Tuesday, March 5, 2019
Das Cronicas da Minha Oscar Freire
Uma vez que já posso me considerar um idoso ao mesmo tempo que me sinto criativo e na melhor fase da minha pintura que flui com facilidade e beleza, às vezes me pergunto como se manifestará a minha decadência. Será obrigatória? Tornar-me-ei um ancião patético e triste? Há uma certa beleza subjetiva na decadência, que implica no fato de que já estivemos no alto, e guardamos uma bela bagagem de memórias e algumas conquistas apreciáveis por outros, pelo menos pelos nossos contemporâneos. Quero dizer, não estamos sozinhos... Sei que a tendência é cairmos nalguma espécie de rotina diária, já que na velhice parece não nos acontecer muita coisa, e que os acontecimentos relevantes e transformadores ficaram todos no passado, na nossa desassossegada juventude. Entretanto sempre percebi que um homem sensível, se for um verdadeiro escritor pode produzir um crônica fecunda sobre a queda de um palito de fósforo ou o cumprimento casual de um vizinho no elevador. E se for um pintor figurativo, pode continuar pintando belos nus de belas mulheres, imaginárias ou não. Ou flores, como eu recentemente, que nunca as tive em casa e nem mesmo tenho um vaso, nem para os pincéis, que os coloco em prosaicas latas de alumínio. Resta-me talvez comprar pela primeira vez na vida uma solitária rosa e oferecê-la à minha mulher. Sua surpresa certamente deflagraria um crônica e todo um universo de possibilidades novas, desconhecidas por mim.
Há dois dias, esperando na calçada em frente ao meu prédio sob a garoa, um amigo que viria de carro me buscar para uma visita, aproximou-se de mim um segurança de loja da minha rua, homem de meia idade carrancudo de terno preto (provavelmente com uma arma sob o paletó) por quem passo todos os dias sem cumprimentar para evitar a repetição, embora ele me seja familiar por estar ali há mais de trinta anos. Este homem, meio gaguejante, denunciando timidez ou insegurança social, me disse: "O senhor é pintor, não é? Olha, aqui nesta loja que hoje está fechada está havendo uma exposição de quadros. Achei que o senhor gostaria de saber, e mostrar também seu quadros."
Surpreso, agradeci e aproveitei para dizer: "Olha, senhor... não se importe com o fato de eu nunca cumprimentá-lo já que passo na sua frente quase diariamente há quarenta anos. Aproveito agora para lhe presentear com uma lembrança de minha apreciação pelo seu trabalho: este CD dos meus cordéis. O senhor tem um CD player em casa?"
O bom homem, sempre de cara fechada por dever de ofício, fez que sim com a cabeça, surpreso, mas sem qualquer expressão no rosto. E nesse momento chegou o meu amigo e eu entrei no carro sem olhar para trás.
Será isto uma crônica? Terá algum significado? Serei obrigado a daqui por diante cumprimentar aquele homem diariamente, na ida e na volta? Assim é a vida... Talvez algum dia um de nós notará a ausência do outro, no vai e vem desta rua monótona, e um de nós comentará com um terceiro, na esperança de uma notícia, um esclarecimento, ou mesmo uma fofoca: "Você soube? Aquele senhor, o pintor? Morreu... Há anos não vendia um quadro..." Ou : " Sabe aquele senhor... o velho segurança? Morreu agradecendo a Deus nunca ter dado um tiro, na vida...
FIM
Há dois dias, esperando na calçada em frente ao meu prédio sob a garoa, um amigo que viria de carro me buscar para uma visita, aproximou-se de mim um segurança de loja da minha rua, homem de meia idade carrancudo de terno preto (provavelmente com uma arma sob o paletó) por quem passo todos os dias sem cumprimentar para evitar a repetição, embora ele me seja familiar por estar ali há mais de trinta anos. Este homem, meio gaguejante, denunciando timidez ou insegurança social, me disse: "O senhor é pintor, não é? Olha, aqui nesta loja que hoje está fechada está havendo uma exposição de quadros. Achei que o senhor gostaria de saber, e mostrar também seu quadros."
Surpreso, agradeci e aproveitei para dizer: "Olha, senhor... não se importe com o fato de eu nunca cumprimentá-lo já que passo na sua frente quase diariamente há quarenta anos. Aproveito agora para lhe presentear com uma lembrança de minha apreciação pelo seu trabalho: este CD dos meus cordéis. O senhor tem um CD player em casa?"
O bom homem, sempre de cara fechada por dever de ofício, fez que sim com a cabeça, surpreso, mas sem qualquer expressão no rosto. E nesse momento chegou o meu amigo e eu entrei no carro sem olhar para trás.
Será isto uma crônica? Terá algum significado? Serei obrigado a daqui por diante cumprimentar aquele homem diariamente, na ida e na volta? Assim é a vida... Talvez algum dia um de nós notará a ausência do outro, no vai e vem desta rua monótona, e um de nós comentará com um terceiro, na esperança de uma notícia, um esclarecimento, ou mesmo uma fofoca: "Você soube? Aquele senhor, o pintor? Morreu... Há anos não vendia um quadro..." Ou : " Sabe aquele senhor... o velho segurança? Morreu agradecendo a Deus nunca ter dado um tiro, na vida...
FIM
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