Wednesday, February 19, 2025

SOBRE O INCONSCIENTE PESSOAL E O COLETIVO (Crônica de Guilherme de Faria)

 Insistindo no propósito quase insano de escrever uma crônica por dia numa mídia que não privilegia um "discurso" de mais de duas linhas, depois de fazer e tomar meu café da manhã sento-me ao computador para escrever com a cabeça vazia, como convém a quem como eu escreve sob o influxo do inconsciente, mas somente quanto ao tema ou assunto a desenvolver. Assim nasceu toda a literatura da minha Alma Welt.

-Como? Como pode ser isso, Guilherme?-(poderia alguém dizer)- Sua prosa não tem nada de automática ou surrealizante como é a característica dos textos assim escritos, sob o "influxo do inconsciente"!
Mas quero lembrar que Freud e Jung não esperavam mudanças na morfologia da frase ou irracionalismos nos monólogos induzidos dos pacientes no divã (Freud) ou na poltrona (Jung). Vale lembrar também o sugestivo episódio em que os Surrealistas liderados por André Breton, tendo eleito Freud como o seu Papa pela "descoberta' do Inconsciente, em comitiva foram em peregrinação à Viena pedir a benção ao seu (deles) movimento nascente. Uma carta do Mestre a um seu amigo, descoberta anos depois poria água na fervura: "Hoje recebi a visita de um bando de malucos que queria o meu aval para as suas obras de arte. Entretanto, observando-as bem e ponderando, percebo que em toda arte clássica e até acadêmica eu sempre enxerguei o inconsciente. No Surrealismo eu só enxergo o "consciente"...
Seria uma pá de cal sobre o movimento se tal sentença viesse à tona ou a própria psicanálise já fosse vencedora, o que não era. Os surrealistas esconderam seu desconforto com a opinião de Freud e prosseguiram galhardamente, quero dizer, provocativamente, na verdade como bons fanáticos querendo "levar muitos outros para a confraria"como quiseram fazer com Giorgio De Chirico que, vaidoso, aceitou suas homengens mas declarou orgulhosamente : "Eu não sou Surrealista. Sou o fundador da Escola Metafísica Italiana!"
Os surrealistas também tentaram levar Frida Kalo para a confraria, que igualmente aceitou suas homenagens e apoio à sua Exposição em Paris, para depois declarar: "Não sou Surrealista. Pinto a mim mesma, minha história, dores e pequenas alegrias".
Mas por quê diabos pus-me a contar essas coisas, que tantos já sabem? Bem... somente porque elas me interessaram um dia e me vêm por associação se me ponho a falar do "inconsciente". Mas também porque, amante como sou da grande arte do passado principalmente dos renascentistas até aos impressionistas, eu me rebelei contra os meus amigos da juventude em Sâo Paulo, surrealizantes que pensaram me cooptar (Piva, Willer, De Franceschi, e outros) e me tornei um poeta muito distanciado de quaisquer surrealismos (notem meus cordéis sertanejos e os inusitados e atemporais sonetos da Alma Welt, que desenvolvem raciocínios lógicos em cada verso, justificados pela beleza e a ironia. Ou melhor, pelo realismo estético, uma visão de mundo rica e embasada na memória e na Cultura; Ah! e a capacidade rítmica e fidelidade à rima, por tanto tempo caídas em desgraça na poesia moderna. Com a Alma Welt sou um revolucionário pelo avesso, restaurando valores esquecidos e desprezados, e descobrindo, não sem surpresa, quanto eles ainda são amados pela maioria dos leitores.
A propósito, a última vez que vi o poeta Poberto Piva, meu amigo de juventude, eu estava no escritório do poeta Roberto Bicelli,outro amigo em comum, que era então diretor da Funarte. Eu não via o Piva havia mais de dez anos, pois tínhamos rompido justamente pelo meu afastamento da Corrente surrealista ou da Beat Generation, e pelo meu imenso sucesso de público com a litografia. Ele entrou, com sua presença dominante, carismática, me olhando fixamente e temi ser agredito verbalmente. Mas para minha surpresa ele me deu um abraço carinhoso, me saudando como se nada tivesse acontecido. Eu disse: "Puxa, Piva,que alívio! Eu pensei que você tinha rompido comigo..." E ele: "Rompido? Não! Quê é isso! Você é um amigo querido e um artista que respeito. "
Então eu imediatamente dei um exemplar com dedicatória a ele dos Contos da Alma, de Alma Welt, que eu acabara de lançar, e ele, com surpresa e legítimo interêsse ouviu minha explicação do fenômeno do meu heterônimo feminino, embora ele fosse um homosexual viril quase militante mas ligeiramente misógino.
Despedimo-nos do Bicelli que tinha que receber outras pessoas, e fomos andando a pé até o apartamento dele. No caminho ele, sempre interessantíssimo, me contou um episódio significativo de sua memória, que nunca mais esqueci. Ele disse; " Um dia, na casa de Vicente e Dora Ferreira da Silva, o Vicente de repente me perguntou: "Piva, você sabe por que o Comunismo não vai durar cem anos?" "Eu surpreso, respondi: Não, Vicente, não sei porque o comunismo não vai durar cem anos. " E o Vicente disse: "Porque o Comunismo não está no "Inconsciente coletivo". No Inconsciente coletivo do povo estão: o Rei, a Rainha, a Princesa, o Príncipe e o Cavaleiro Andante".
Eu ouvindo essa história real da boca do Piva, fiquei deslumbrado com essa explicação do Vicente Ferreira da Silva, grande filósofo, agora quase esquecido, e certamente junguiano por seu aprouche brilhante do comunismo.
Ali mesmo eu imediatamente entendi porque os líderes comunistas todos, da União Soviètica, como o próprio Stalin, forneciam ballets clássicos maravilhosos sobre contos de fadas em teatros luxuosos carregados de dourados, como divertimento de massas acima do futebol. Era a grande válvula de escape do inconsciente coletivo, sem a qual o povo explodiria em angústia e frustação social e trabalhista. Vocês não se espantavam com comunistas ferrenhos e truculentos assistindo "O Lago dos Cisnes" com o Ballet Bolshoi e também seu maravilhoso e ingênuo ballet folclórico Berioska, que eram as melhores coisas de sua cultura que eles exportavam?
Posso continuar a história do meu reencontro com o grande e saudoso poeta Roberto Piva, mas pararei por aqui, e o farei se mais de um amigo me solicitar.
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CONTINUA
18/02/2025


Friday, February 14, 2025

UMA CRÔNICA FECUNDA SOBRE... NADA? (de Guilherme de Faria)

 Meus amigos aqui do face sabem que eu me propuz a ecrever e postar uma crônica diária, o que não é tarefa fácil, pois que às vezes tenho a impressão de que já falei, e esgotei, tudo o que tinha no coração, por assim dizer...


Como, Guilherme? Isso não é possível! Um coração de artista sempre se renova, e a vida, em si, é um caleidoscópio inesgotável, e pode ser narrada por infinitas "personas" que só um escritor pode encarnar, ou desenvolver...

Sim, é verdade, e também, com arte sempre se pode escrever com grande interesse sobre NADA... sobre o vazio, se pelo menos encontrarmos nele um resquício, um odor, uma saudade talvez, que nos desperte a memória como uma "madeleine" de Proust.

Começo a ficar velho, tardiamente, pois muitos já o estão há muito mais tempo e se calaram. mas eu, grande falastrão, me recuso. Me recuso a me calar. Sou cheio de ardiz, isto é, pequenas espertezas eficazes, como o ter feito a minha Alma Welt morrer aos seus 35 anos para que permanecesse eternamente jovem e linda, uma forma de criar uma pequena divindade humana... Deus me perdoe.

Sim, deu certo, e tanto melhor, que ela está dentro de mim e posso evocá-la a qualquer momento, se me sento para escrever, ou mesmo desenhar, como voltei a fazê-lo depois de trinta anos apenas na pintura a óleo e na literatura.

Sim, minha Musa é fiel, e atende ao meu chamado tácito a qualquer momento, e me fornece os enredos e o encanto de sua ardente juventude, de seu amor e de suas intensas paixões, às vezes até mesmo desastradas, continuando a me encantar e até mesmo rejuvenescer o meu espírito, como de seus, agora, inúmeros leitores pelo Mundo afora.

Não. Não preciso caçar assunto: a vida em novas facetas vem até mim através das aventuras da guria do Pampa, encantadora, eternamente sensual e apaixonada por sua cândida Aline e por seu aventureiro irmão Rodo, mestre do carteado de poker, para nos lembrar que a vida pode, sim, ser um jogo saudável se aceitarmos, às vezes, arriscar e dobrar a aposta, e perdendo, nos retiramos com dignidade, provisoriamente, para recuperar o fôlego.

"Bah, Chê!"- Como diria a guria gaúcha (engraçado: ela quase nunca fala assim)- "Senta-te ao teclado e começa a escrever um novo romance que vou te ditar, uma nova aventura minha, que não conheces, e que, prometo vai encantar primeiro a ti, meu velho, e depois aos leitores gringos que me angariaste com tuas artimanhas...

Eu, então, cheio de dores nas costas, que esquecerei, começo, a partir do Nada para um mundo animado pelo eterno encanto do real, pleno do vitalismo incansável da juventude, sim, como quem descobriu a sua Fonte eterna, que muitos julgavam ser apenas um Mito perdido...

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Guilherme de Faria

14/02/2025



Sunday, February 9, 2025

COMO A ALMA WELT VEIO A MIM (crônica de Guilherme de Faria)


Quando a Alma Welt se manifestou literariamente em mim, eu pressenti imeditamente a sua vocação da universalidade: seu próprio nome já indicava isso. Seu textos confessionais, sempre na primeira pessoa, me vinham, como até hoje, de jorro, sem emendas nem rasuras, prontos e irretorquíveis. Seria assustador se não fosse encantador. Uma irmã minha (tenho duas) espírita, me disse acreditar que eu psicografo uma moça escritora que existiu mesmo, gaúcha alemã, pampiana, que morreu jovem ( 35 anos), tragicamente, em circunstâncias ambíguas. Mas eu sabia que ela vinha de dentro de mim, era minha anima interior no sentido junguiano do termo, tanto mais que ela me aparecia desde 1965 nos meus desenhos, aquela ruiva, muito branca, voluptuosa que me enviava seus nus, uma vez que eu nunca tive modelos nos meus ateliês e nunca uma mulher posou nua ou vestida para mim: eu nunca precisei. A atração que meus desenhos de nus a pincel e nanquim causaram, fazendo um enorme sucesso desde o começo, eu atribuo ao pressentimento inconsciente que o publico tem da presença da "anima", isto é de um arquétipo feminino interior a todo mundo, "a mulher todas as mulheres do mundo".
Entretanto até 2001, quando tendo perdido toda a possibilidade de sobrevivência com o fim do Mercado de litografias que me sustentara por vinte anos, eu nada mais tendo a perder e me sentindo estranhamente livre e aliviado, me sentei para escrever, e me surgiram cordéis sertanejos, estranhamente autênticos e inspirados, em catadupa e... subitamente, no meio deles, minha anima percebendo-me a escrever a sério, insinuou-se e se revelou como a escritora que era, e que até então somente me enviara a sua imagem de mulher jovem, linda e docemente sensual. Foi com o conto urbano (da fase do auto-exílio paulistano da Alma) LEMBRANÇA PRECIOSA PÀRA A ALMA FIEL.
Começava assim essa jornada triunfante que agora conquista o Mundo, e que já estava em si e no seu nome.
Ave, Anima Mundi !
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Guilherme de Faria
09/02/202
5

Thursday, February 6, 2025

THE HERITAGE. THE BLOOD OF THE EARTH - Alma Welt – PROMOTIONAL VIDEO By Ginevra Grasso



"Alma Welt (1972-2007) was poet and prolific prose writer, a young, beautiful and

mysterious woman who did not allow herself to be photographed, only allowing her

portraits to be published in drawings, engravings and oil paintings by Guilherme

de Faria, her authorized portraitist, a painter from São Paulo who illustrated,

prefaced, and edited her, launching her into the artistic world of São Paulo from

2001 onwards, when he discovered her in his self-exile in Paulicéia, in her painting

studio in a residential apartment in Jardins. The remarkable circumstances of this

providential meeting were narrated by her in her short story entitled “Anagramas”

(found on Google search).

Alma committed suicide at the age of 35 by drowning, in her Pampian resort, at

the height of her talent and beauty. However, the circumstances of her death

remain controversial. Alma has become a cult author on the Internet since 2006

thanks to the dedication of her sister Lucia Welt, who manages the Poet’s

immense literary estate: there are around five thousand sonnets alone and they

are published on the Internet in around 60 blogs divided by thematic genres.

As a natural narrator, Alma has a lot to say, a lot to tell and she does it in an

engaging and charming way."

In The Heritage: The Blood of the Earth, Alma Welt delivers a spellbinding novel
that transcends genres, blending family saga, historical fiction, and poetic prose
into an unforgettable masterpiece. This is not just a story—it’s an experience, an
emotional journey through the corridors of memory, loss, and the unbreakable
bond between identity and inheritance.
At the heart of the novel is Alma, a woman both fiercely determined and achingly
vulnerable, who finds herself entangled in a fight for the land, history, and legacy
that define her. When she and her siblings uncover a hidden wine cellar—filled
with dusty bottles of an ancestral vintage—the discovery becomes a metaphor for
the past’s silent, intoxicating grip on the present. As secrets unfold, Alma is forced
to confront betrayals, familial strife, and the looming threat of losing everything that
ties her to the land of her forebears.
Welt’s writing is nothing short of lyrical, weaving a narrative as rich and complex
as the wine that flows through the veins of this novel. Readers will be transported
to the vast Pampas, where the wind whispers through ancient vineyards, and the
weight of history presses against the walls of a fading estate. Each page pulses
with poetic intensity, evoking the grandeur of Latin American storytelling while
retaining the raw, confessional depth of a deeply personal tale.
This is a novel for those who love literature that resonates in the soul—where
family legacies are fought for with the same passion as love, where hidden cellars
hold both liquid gold and generations of secrets, and where beauty and tragedy
entwine like vines on an ancient trellis.

The Heritage: The Blood of the Earth is not just a book—it is a revelation. A novel
to be savored, like the finest vintage, leaving an aftertaste of longing, resilience,
and the eternal question: How much of our past do we truly own, and how much
owns us?
Readers, be prepared to be transported, intoxicated, and utterly captivated.
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Ginevra Grasso 
 06/02/2025