Monday, December 9, 2019
AOS NAVEGANTES
Se me perguntam qual a poetisa que mais admiro, respondo imediatamente: ALMA WELT. As pessoas que sabem que a Alma é um heterônimo meu, sorriem desconcertadas julgando-me narcisista, um excêntrico egomaníaco ou no mínimo um cínico brincalhão. Mas não! Não estou brincando em serviço. Eu estaria escrevendo seus poemas e textos desde 2001 (quando a descobri) e postando-os ininterruptamente aqui no facebook, diariamente desde 2008, se não fosse sincero, se não acreditasse na sua grandeza? Sim, porque como heterônimo (e não simples pseudônimo) ela é outra pessoa, outro artista que não eu, com personalidade, estilo e biografia próprios, muito diferentes dos meus, e que só não invejo porque de algum modo ela mora dentro de mim. Às pessoas que continuam estranhando, sugiro que estudem o fenômeno dos heterônimos do grande Fernando Pessoa, e leiam os prefácios que ele escreveu para os mesmos, ou de uns para os outros. Além disso, reparem, a Alma Welt é uma das mais prolíferas poetas de todos os tempos, com cerca de 5.000 sonetos publicados, acessíveis na Internet (vide seus 60 blogs). Mas o mais incrível é que não há nenhum que seja ruim ou redundante. Confiram!
(Guilherme de Faria)
Saturday, November 16, 2019
O SEGREDO DO MEU DESENHO (Um pouco de Teoria de Arte)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Questionado sobre as suas fases iniciais e de maior sucesso de público, as fases Azul e Rosa, Picasso disse uma vez: "Aquilo não são senão "sentimentos". Ainda não eram "pintura". Mas não as renego porque atrás do sucesso delas eu pude fazer tudo que eu quis".
A maioria do público costuma associar erroneamente a Arte com "sentimentos". Quanto à Pintura, posso concordar somente com "emoções estéticas". Desde muito cedo, ainda na adolescência, percebi que a Arte não é o "Que" mas o "Como". Sim, não é o tema em si, mas o "como" está pintado. Muito jovem, em 1965, na Galeria Cosme Velho onde eu expunha meus desenhos, tive a oportunidade de conversar com o grande Volpi, já muito idoso, e este me disse: "Rapaz, não dê tanto valor ao "assunto". O tema em pintura não é senão "a anedota". As pessoas pensam que eu pinto bandeirinhas e que as adoro, mas eu não ligo para elas. Sou um pintor geométrico: aquilo são apenas retângulos de que foi tirado um triângulo".
Questionado sobre as suas fases iniciais e de maior sucesso de público, as fases Azul e Rosa, Picasso disse uma vez: "Aquilo não são senão "sentimentos". Ainda não eram "pintura". Mas não as renego porque atrás do sucesso delas eu pude fazer tudo que eu quis".
A maioria do público costuma associar erroneamente a Arte com "sentimentos". Quanto à Pintura, posso concordar somente com "emoções estéticas". Desde muito cedo, ainda na adolescência, percebi que a Arte não é o "Que" mas o "Como". Sim, não é o tema em si, mas o "como" está pintado. Muito jovem, em 1965, na Galeria Cosme Velho onde eu expunha meus desenhos, tive a oportunidade de conversar com o grande Volpi, já muito idoso, e este me disse: "Rapaz, não dê tanto valor ao "assunto". O tema em pintura não é senão "a anedota". As pessoas pensam que eu pinto bandeirinhas e que as adoro, mas eu não ligo para elas. Sou um pintor geométrico: aquilo são apenas retângulos de que foi tirado um triângulo".
Volpi era um homem simples, italiano de origem operária, e havia uma certa ingenuidade genuína nele e na sua arte. Aquela conceituação teórica da essência sua sua pintura, pelo menos na sua fase de maior sucesso, lhe tinha sido transmitida (depois eu soube) pelos poetas irmãos Campos (Haroldo e Augusto), pais do "concretismo paulistano", que trataram de cooptar o velho pintor para o seu movimento.
Entretanto respeitei a mensagem do mestre, que na verdade eu já praticava. Eu desenhava (com um precoce sucesso) sobretudo a figura feminina, mas eu não utilizava "modelo vivo". O segredo do meu desenho era o meu traço, feito à ponta de pincel, em nanquim, numa técnica similar ao sumiê japonês, uma arte Zen. O traço pintado era "modulado", isto é, engrossava e afinava nos momentos certos para sugerir volume, sem necessidade, portanto, de aquarelar os corpos para sugerir carnadura. A sensualidade do meu traço consistia na atitude gestual, e do fato de que a cerda macia e longa do pincel acaricia as formas que ele próprio vai criando, enquanto eu me mantinha com a "mente em branco", ao nível dos reflexos. Mas, eu concentrava as cores em dois pretextos bastante fetichistas do ponto de vista erótico: os cabelos e os espartilhos ou corpetes, bem como às vezes nos panejamentos de apoio da figura nua. Na dinâmica quase instantânea do meu gesto de desenhar com traços rápidos e seguros, direto a nanquim, sem esboços, sem retoques nem repasses, sua velocidade plasmada, visível, contrastava com a atitude estática das figuras em repouso, dando-lhes aquela misteriosa sensação de silêncio metafísico, que era o que fascinava as pessoas sem elas perceberem.
Por outro lado, estava eu interessado em erotismo? Meu desenho era uma descarga da poderosa libido de um jovem quase ainda adolescente? Não se iludam... Somente até certo ponto. Eu aprendera a desenhar de estalo, como um "satori" (iluminação) vendo uma certa cena em forma de "koan" Zen num filme de samurai (sobre a vida de Myiamoto Musachi) no cine Niterói, no bairro da Liberdade em São Paulo, em 1963.
CONTINUA
Nota
A propósito, também na poesia, pode-se afirmar a mesma coisa, baseada no texto do grande poeta Rainer Maria Rylke , nas suas "Cartas a um Jovem Poeta" , que aqui citarei de cór, conforme me recordo :
"Os versos não são sentimentos, são experiências. Para se escrever um verso é preciso ter viajado muito, ter visto muitas cidades. É preciso ter amado muitas mulheres, e as haver perdido. É preciso ter ouvido os gritos da parturientes, e ter estado junto aos mortos, quando as velas bruxuleiam e o silêncio finalmente cai e pesa. É preciso ter visto as grandes chuvas e as tempestades e estado sozinho nas grandes mansões, naquelas noites em que entra o vento pelas frestas e bate as portas e janelas. E não basta ter recordações. É preciso esquecê-las quando são muitas, e ter imensa paciência de esperar que voltem... Porque antes que se tornem sangue, olhar, carne e gesto, não é possível que surja a primeira palavra de um verso. " (Rainer Maria Rylke)
Entretanto respeitei a mensagem do mestre, que na verdade eu já praticava. Eu desenhava (com um precoce sucesso) sobretudo a figura feminina, mas eu não utilizava "modelo vivo". O segredo do meu desenho era o meu traço, feito à ponta de pincel, em nanquim, numa técnica similar ao sumiê japonês, uma arte Zen. O traço pintado era "modulado", isto é, engrossava e afinava nos momentos certos para sugerir volume, sem necessidade, portanto, de aquarelar os corpos para sugerir carnadura. A sensualidade do meu traço consistia na atitude gestual, e do fato de que a cerda macia e longa do pincel acaricia as formas que ele próprio vai criando, enquanto eu me mantinha com a "mente em branco", ao nível dos reflexos. Mas, eu concentrava as cores em dois pretextos bastante fetichistas do ponto de vista erótico: os cabelos e os espartilhos ou corpetes, bem como às vezes nos panejamentos de apoio da figura nua. Na dinâmica quase instantânea do meu gesto de desenhar com traços rápidos e seguros, direto a nanquim, sem esboços, sem retoques nem repasses, sua velocidade plasmada, visível, contrastava com a atitude estática das figuras em repouso, dando-lhes aquela misteriosa sensação de silêncio metafísico, que era o que fascinava as pessoas sem elas perceberem.
Por outro lado, estava eu interessado em erotismo? Meu desenho era uma descarga da poderosa libido de um jovem quase ainda adolescente? Não se iludam... Somente até certo ponto. Eu aprendera a desenhar de estalo, como um "satori" (iluminação) vendo uma certa cena em forma de "koan" Zen num filme de samurai (sobre a vida de Myiamoto Musachi) no cine Niterói, no bairro da Liberdade em São Paulo, em 1963.
CONTINUA
Nota
A propósito, também na poesia, pode-se afirmar a mesma coisa, baseada no texto do grande poeta Rainer Maria Rylke , nas suas "Cartas a um Jovem Poeta" , que aqui citarei de cór, conforme me recordo :
"Os versos não são sentimentos, são experiências. Para se escrever um verso é preciso ter viajado muito, ter visto muitas cidades. É preciso ter amado muitas mulheres, e as haver perdido. É preciso ter ouvido os gritos da parturientes, e ter estado junto aos mortos, quando as velas bruxuleiam e o silêncio finalmente cai e pesa. É preciso ter visto as grandes chuvas e as tempestades e estado sozinho nas grandes mansões, naquelas noites em que entra o vento pelas frestas e bate as portas e janelas. E não basta ter recordações. É preciso esquecê-las quando são muitas, e ter imensa paciência de esperar que voltem... Porque antes que se tornem sangue, olhar, carne e gesto, não é possível que surja a primeira palavra de um verso. " (Rainer Maria Rylke)
Wednesday, November 13, 2019
UMA VIAGEM INFERNAL QUE NÃO FIZ
Quando eu era um pré-adolescente, um dia, meu pai que era médico (e um cientista pesquisador de doenças do sangue) me repetiu um dito que muito mais tarde eu vim a saber ser uma máxima dos anarquistas: “O mundo será bem melhor no dia que enforcarem o último comunista nas tripas do último padre”. Ele disse isso e gargalhou. A frase impactante e cruel apesar de ser dita como piada talvez fosse corroborada por ele, que na Infância e adolescência estudara em colégio de padre e adquirira um nítido anticlericalismo (talvez fruto de ressentimento) aliado a um ateísmo cientificista quase militante, ao contrário da minha mãe, católica praticante.
Muito anos mais tarde, em 1966, na chamada época da contracultura, eu já um jovem artista plástico atuante em São Paulo, não tendo herdado por temperamento o anticlericalismo do meu pai, fui procurado e recebi no meu ateliê um padre psicólogo brasileiro, recém chegado de longa temporada nos Estados Unidos, com a missão (auto-imposta ou não) de introduzir o LSD (ácido lisérgico) no meio artístico paulistano para uma pesquisa místico-científica que ele acompanhava com vista a uma tese de doutorado em psiquiatria por uma Universidade católica americana. Ele acompanhava as “viagens” que ele dizia serem altamente criativas e reveladoras quando experimentadas por artistas plásticos, pintores.
Entretanto, justiça seja feita, o que exime o tal padre de charlatanismo, ele que por seus argumentos aliciantes me deixara tentado a me submeter à experiência que já fizera com sucesso com alguns outros artistas paulistanos (como o Wesley Duke Lee, por exemplo) foi o fato de que me recomendou que eu antes me submetesse, por segurança, a um teste de Horshardt.
Procurei um Instituto conhecido, e me submeti ao tal teste cuja análise revelou “traços esquizoides de personalidade”, que me afirmaram serem comuns em artistas, já que “viajamos” imaginativamente naqueles famosos borrões. Portanto o técnico psiquiatra me desaconselhava a experiência com LSD.
Assim graças à Providência Divina, fui salvo de uma possível “bad trip” que poderia ser definitiva, desencadeando o pesadelo esquizofrênico infernal que levou ao suicídio inúmeros jovens naquela década. Meu Anjo sempre foi muito forte e presente em minha vida...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Muito anos mais tarde, em 1966, na chamada época da contracultura, eu já um jovem artista plástico atuante em São Paulo, não tendo herdado por temperamento o anticlericalismo do meu pai, fui procurado e recebi no meu ateliê um padre psicólogo brasileiro, recém chegado de longa temporada nos Estados Unidos, com a missão (auto-imposta ou não) de introduzir o LSD (ácido lisérgico) no meio artístico paulistano para uma pesquisa místico-científica que ele acompanhava com vista a uma tese de doutorado em psiquiatria por uma Universidade católica americana. Ele acompanhava as “viagens” que ele dizia serem altamente criativas e reveladoras quando experimentadas por artistas plásticos, pintores.
Entretanto, justiça seja feita, o que exime o tal padre de charlatanismo, ele que por seus argumentos aliciantes me deixara tentado a me submeter à experiência que já fizera com sucesso com alguns outros artistas paulistanos (como o Wesley Duke Lee, por exemplo) foi o fato de que me recomendou que eu antes me submetesse, por segurança, a um teste de Horshardt.
Procurei um Instituto conhecido, e me submeti ao tal teste cuja análise revelou “traços esquizoides de personalidade”, que me afirmaram serem comuns em artistas, já que “viajamos” imaginativamente naqueles famosos borrões. Portanto o técnico psiquiatra me desaconselhava a experiência com LSD.
Assim graças à Providência Divina, fui salvo de uma possível “bad trip” que poderia ser definitiva, desencadeando o pesadelo esquizofrênico infernal que levou ao suicídio inúmeros jovens naquela década. Meu Anjo sempre foi muito forte e presente em minha vida...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Sunday, September 22, 2019
SOBRE A INVEJA
Uma vez um entrevistador me perguntou como eu me comporto em relação à inveja dos outros e se eu a tinha de alguém, de outro artista, por exemplo. Eu respondi que nunca tive inveja porque desde criança eu me apercebi tão aquinhoado, tão naturalmente dotado para o desenho e para a poesia, que não me ocorria invejar ninguém. E que além disso eu era bem bonitinho....rrrsssss. "E quanto à inveja dos outros?" (a pessoa insistiu). Eu disse: "Nunca ganhei dinheiro suficiente com a minha arte para ficar rico, e portanto escapei disso também..." O jornalista, não se deu por satisfeito e disse: "Mas você é um artista famoso, seus trabalhos vendem muito, e as pessoas depreendem disso que você ficou rico." Para encerrar o assunto eu repliquei: "Na verdade nunca prestei atenção na inveja. Sempre vivi como se ela não existisse no mundo. É um assunto mesquinho, com o qual a gente não deve se ocupar... "
O jornalista pareceu envergonhado, e mudou de assunto...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
O jornalista pareceu envergonhado, e mudou de assunto...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Monday, August 26, 2019
Ninharias
Do meu passado me arrependo de algumas atitudes e ações, mas muito mais do tempo que gastei em ninharias. Este é o único para o qual não tive remédio...
(Guilherme de Faria)
(Guilherme de Faria)
O mundo é mau
Quando adolescente, artista precoce, bebendo numa mesa de bar com jornalistas boêmios, já um tanto alto, senti subitamente um "insight" e declarei solenemente que acabara de descobrir que "o mundo é mal". Produzi uma hilaridade geral na mesa, quase levei uma vaia. Exclamavam: "Só agora o garoto percebeu isso! " E gargalhavam... Fiquei envergonhado, mas no estado alcoólico inicial em que me encontrava ainda pude perceber que todos sabiam disso desde sempre e ainda se permitiam ser fúteis, e até felizes. "Não, não! - eu pensei- acabo de descobrir que diante dessa verdade trágica não se pode ser feliz, não temos esse direito!"
Mas a verdade é que isso tudo se dissipou no dia seguinte na ressaca, que uma vez passada me permitiu também ser um cínico em busca da felicidade...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Mas a verdade é que isso tudo se dissipou no dia seguinte na ressaca, que uma vez passada me permitiu também ser um cínico em busca da felicidade...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Primeiras identificações
Quando eu tinha treze anos li o maravilhoso romance biográfico A Vida de Michelangelo, de Romain Rolland (1866 — 1944) que começava assim: "Era um burguês florentino.." Em seguida, na mesma época, li O Romance de Leonardo da Vinci, de Dimitri Merejkowski (1865-1941). Minha identificação com estes dois "personagens artistas" foi tão intensa e misteriosa que eu senti que esses livros falavam de mim mesmo de maneira profunda e absoluta. Tais leituras fizeram completar-se meu processo de inadaptação ao contexto social provinciano e inculto do bairro paulistano em que eu vivia. Dali por diante eu não conseguia mais me conformar com a pobreza cultural, e o que bem mais tarde eu consideraria a "breguice" brasileira, daqueles anos 50. Dotado naturalmente para o desenho, eu me identificara de tal maneira com Miguel Angelo e Leonardo da Vinci, descritos naquelas páginas que recriavam vividamente aquela maravilhosa época de uma Florença no auge do seu esplendor cultural, de modo que eu precisaria de muitos anos para me sentir novamente brasileiro e de certa forma reintegrado no meu país. Isso somente se daria durante minha viagem ao sertão de Pernambuco e Paraíba em 1972, aventura que daria nascimento trinta anos mais tarde (2001) à minha inusitada fase de cordelista sertanejo, fase essa que se deu paralelamente à continuidade de minha carreira de pintor e desenhista...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
"Ninguém é profeta em em sua própria terra"
Quando eu era menino, ouvi minha mãe, a respeito de um incidente de que não me lembro, repetindo um ditado popular cujo sentido ainda era ligeiramente obscuro para mim: "NINGUÉM É PROFETA EM SUA PRÓPRIA TERRA." Curioso sobre tudo, como eu era, perguntei a ela o significado ou a origem daquele ditado. Minha mãe então me contou esta estorinha, que vou tentar recontar aqui com o máximo de aproximação das palavras dela, tal como me lembro:
" Quando Jesus estava no auge de sua missão em Jerusalém, um discípulo periférico, daqueles curiosos e observadores, que testemunhara deslumbrado alguns milagres do Mestre e sua fama crescente como "o Messias", resolveu solucionar o enigma das origens daquele que se revelava, no mínimo, um grande profeta. Sabendo que o Mestre era também chamado "O Nazareno", viajou até a cidade de Nazaré para ver se encontrava familiares ou vizinhos da família de Jesus que ele pudesse entrevistar para saber detalhes da infância de Jesus, de seus pais e de sua criação. Entretanto teve dificuldades de obter informações pois as pessoas não sabiam quem era esse tal "Jesus" ou não se lembravam de quase nada. Afinal encontrou umas pessoas que puderam dar a ele algumas respostas. Um homem de meia idade disse, olhando ao mesmo tempo para sua mulher:
"Ah! O Jesus, aquele molequinho? Sim, a gente se lembra, sim, não é Mariah? Um garotinho catarrento, até bonitinho, de pés descalços, perambulando à toa, muito quieto, com um olhar meio estatelado para tudo. A gente achava o garoto muito ingênuo, na melhor das hipóteses. Era filho do carpinteiro, o José que tinha a casa e oficina ali no fim desta rua. A família se mudou faz tempo. Agora tá tudo vazio e em ruínas ali. Mas ninguém dava nada por aquele menino... Por que pergunta? O garoto cresceu e se deu mal, certamente, não?... "
Ouvindo esta estória, eu, que era talvez tão ingênuo quanto aquele menino, me lembro de ter rido muito (Deus me perdoe) e nunca mais ter esquecido. Minha mãe era assim: apesar de católica devota, tinha muito senso de humor...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
" Quando Jesus estava no auge de sua missão em Jerusalém, um discípulo periférico, daqueles curiosos e observadores, que testemunhara deslumbrado alguns milagres do Mestre e sua fama crescente como "o Messias", resolveu solucionar o enigma das origens daquele que se revelava, no mínimo, um grande profeta. Sabendo que o Mestre era também chamado "O Nazareno", viajou até a cidade de Nazaré para ver se encontrava familiares ou vizinhos da família de Jesus que ele pudesse entrevistar para saber detalhes da infância de Jesus, de seus pais e de sua criação. Entretanto teve dificuldades de obter informações pois as pessoas não sabiam quem era esse tal "Jesus" ou não se lembravam de quase nada. Afinal encontrou umas pessoas que puderam dar a ele algumas respostas. Um homem de meia idade disse, olhando ao mesmo tempo para sua mulher:
"Ah! O Jesus, aquele molequinho? Sim, a gente se lembra, sim, não é Mariah? Um garotinho catarrento, até bonitinho, de pés descalços, perambulando à toa, muito quieto, com um olhar meio estatelado para tudo. A gente achava o garoto muito ingênuo, na melhor das hipóteses. Era filho do carpinteiro, o José que tinha a casa e oficina ali no fim desta rua. A família se mudou faz tempo. Agora tá tudo vazio e em ruínas ali. Mas ninguém dava nada por aquele menino... Por que pergunta? O garoto cresceu e se deu mal, certamente, não?... "
Ouvindo esta estória, eu, que era talvez tão ingênuo quanto aquele menino, me lembro de ter rido muito (Deus me perdoe) e nunca mais ter esquecido. Minha mãe era assim: apesar de católica devota, tinha muito senso de humor...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Friday, June 7, 2019
O Retrato de Jomara pelo pintor-poeta Rodrigo de Haro

A comungante do Rodrigo de Haro antes do restauro

A comungante (Jomara) - acrílica s/ duratex de Rodrigo de Haro
Resolvi revelar o fato dramático, doloroso mesmo, que está por trás da minha restauração deste quadro do Rodrigo de Haro que retrata a Jomara, minha primeira musa (de 1964 a 1968) como menina comungante de Primeira Comunhão, e pertencente ao meu amigo Flavio, que viveu décadas com ela e foi seu viúvo. Jomara, antes de seus cinquenta anos por mais que fosse obcecada com saúde, vegetarianismo e florais de Bach, desenvolveu câncer no seio, e recusando a medicina alopática, operações e quimioterapia, resolveu tratar-se com seus florais. Com o desenvolvimento descontrolado da doença, desenvolveu uma paranoia persecutória, atribuindo sua doença a feitiçarias e trabalhos de inimigos imaginários, e estava assombrada pelos seus retratos feitos no seu auge por amigos pintores, obras nas quais ela avistava sinais premonitórios, aziagos ou prenunciadores de sua doença, fixados em certos elementos dessas pinturas e vistos por ela como verdadeiros malefícios deliberados por parte dos pintores. Foi assim por isso que chegou a me pedir que reformasse um retrato que pintei dela nos anos 60 para que mudasse a cor de uma faixa negra de pintura no vestido que cobria seus seios, e também que eu acrescentasse um brilho nos grandes olhos que pintei como manchas totalmente negras de maneira modiglianesca. Já muito doente pediu-me isso por telefone e enviou-me o quadro por um portador. Eu atendi ao seu pedido e fiz as mudanças que ela me pediu, e pronta a reforma da pintura telefonei para combinar levar o quadro para ela. Jomara então me pediu que conservasse o quadro comigo, porque ela não queria que eu a visse como no estado em que se achava. Queria que eu me lembrasse dela sempre no auge de sua beleza, como a conhecera e amara. Isso aconteceu há mais de dez anos atrás.
Há três anos atrás, visitando o Flavio, ele me mostrou o retrato da Jomara como menina comungante pintado pelo nosso amigo poeta e pintor catarinense Rodrigo de Haro. O quadro pintado a acrílica sobre duratex, estava em estado lamentável, praticamente destruído, com quatro rachaduras longitudinais de lado a lado como se partido deliberadamente, com graves esfolados e fendas abertas. Vendo meu espanto diante do estado da bela obra do Rodrigo, Flavio me perguntou se eu poderia restaurá-lo. Aceitei imediatamente fazê-lo e o trouxe para o meu ateliê.
Entretanto não me entreguei imediatamente ao trabalho, e senti uma espécie de bloqueio para tal tarefa. Escondi o quadro no chão contra a parede, atrás de telas virgens e evitei a missão a que me comprometera, por longos três anos enquanto me dedicava à pintura de novas fases de minha pintura, que me foram surgindo e das quais fiz exposições. Entretanto a promessa me assombrava e estava sempre presente, e me incomodava como uma falta ou mesmo como uma culpa.
Finalmente, no final de maio deste ano, há pouco mais de uma semana atrás, O Flavio me telefonou, e depois de declarar seu afeto, apreço por nossa amizade e até suas saudades, me cobrou gentilmente a obra restaurada. Envergonhado revelei o meu bloqueio, e prometi que começaria o restauro assim que desligasse o telefone. Assim o fiz.
Agora quero revelar ao mundo, como um desabafo, o diagnóstico que fiz assim do estado da pintura em questão assim que comecei a examiná-la bem de perto para começar o restauro. Pasmem: como um verdadeiro legista percebi imediatamente que o quadro tinha sido atacado com espantosa violência destruidora, deliberada e mesmo cheia de visível ódio. Havia inclusive marcas de solas de sapatos: depois de partida em quatro pontos a resistente folha de duratex fora pisoteada!
Cheguei à imediata conclusão (o Flavio nada me informou), de minha percepção mesmo, de que a própria Jomara, diante dos vários e evidentes signos da Morte presentes no seu retrato, provavelmente produzidos de maneira intuitiva pela sensibilidade extrema do pintor poeta que a retratara, atacara violentamente a pintura que a transfigurava de maneira premonitória: a pele escura amartelada, que não era a sua, uma longa vela de comungante com um laço azul de fita, mas apagada, soltando um fio de fumo; o longo vestido branco com laço azul claro na cintura e tendo aos pés um cranio humano acinzentado e um gato que parece uma coruja com longas garras sobre um pássaro azul morto e ensanguentado.
Pobre e bela Jomara, que tendo sido musa de vários pintores, sofrera tanto na sua doença, e na destruição de sua decantada beleza, que, como uma Dorian Grey de saias, e às avessas, atacara a pintura que a retratava como a menina morta na única verdadeira comunhão, cruel e definitiva de nossas vidas...
(Guilherme de Faria)
(Guilherme de Faria)
Friday, April 19, 2019
Auto-Retrato (de Alma Welt)
Eis toda uma vida em mil sonetos...
Mais hum pra ser exata em minhas contas
Posso me orgulhar dos meus quartetos
E algumas chaves se o ouro me descontas
E não cheguem a ser fechos dourados,
Também algumas pobres rimas falsas
Sem contar os lamentáveis pés quebrados
Com que tenho dançado as minhas valsas.
No final, o conjunto é até bem posto
Conquanto discutível no detalhe
E mesmo anacrônico no gosto.
Mas quê importa? Cantei-me para mim,
É risível, eu sei, nem bem me calhe
Sincero auto-retrato tanto assim...
17/01/2007
- Nota
Na verdade, por incrível que pareça, a Alma Welt (1972-2007) fez não apenas mil e hum sonetos, mas cinco mil (!!!), todos publicados na Internet em cerca de 60 blogs de sua obra, abertos postumamente e administrados por sua fiel irmã Lucia Welt. Entretanto, como já confessei através do facebook, depois de dez anos de mistério e segredo, é preciso que eu lembre de tempos em tempos, como agora,que Alma Welt e Lucia Welt são ambas HETERÔNIMOS meus, criadas por mim em 2001 e desenvolvidas desde então, vida e obra, com constância e dedicação, por acreditar que são a minha maior criação como artista "par la grace de Dieu"...
Quanto ao conteúdo e sentido da obra literária da Alma Welt, leiam-na para compreendê-la e talvez amarem-na. Não sou um ensaísta de sua obra, ela apenas vem através de mim e ainda me assombra por sua pujança e beleza...
Friday, April 12, 2019
A Saga do meu "Apocalipse".
![]() |
Apocalipse- óleo s/t de Guilherme de Faria, 1964, 175x200cm
Capítulo 1Amigos, a pedidos vou lhes contar a saga do meu quadro Apocalipse desde a sua feitura em 1964, quando eu tinha 22 anos e saído da casa materna aos 20 vivia sozinho no meu primeiro ateliê, um porão infecto num cortiço que havia na rua Mato Grosso, atrás do Cemitério da Consolação. Eu vivia em absoluta pobreza , mas saído de um casamento precoce, adolescente (embora por amor), eu me sentia livre no meu pequeno atelier mofado, numa espécie de "Bateau Lavoir" * naquela primeira fase heroica e boêmia tipica dos pintores de vocação. Ali era visitado por meus amigos pintores e poetas* jovens, pobres como eu mesmo. Ali pintei numa só tarde o imenso quadro que ocupava a minúscula cozinha triangular em que o quadro se encaixava na base do triângulo, inclusive na altura de 175cm (eu tenho 172 (!!!) e cuja única fonte de luz era um inaudito vitral, resquício das origens art nouveaux daquele cortiço degradado, a julgar também pelo belo portão de ferro da sua entrada. Existirá ainda esse cortiço e meu porão? Nunca mais voltei lá depois de 1965.
Tendo nascido assim, de jato, sem premeditação numa espécie de automatismo desesperado e faminto, o quadro que tinha uma força espetacular e escatológica à base de um garrafão de vinho tinto vagabundo, sangue de boi, anunciava bem os tempos difíceis que se seguiriam a Março de 1964. Os amigos artistas vinham vê-lo e assoviavam, admirados.
O quadro permaneceu comigo apenas um ano, pois em 1965, eu frequentando a casa do meu primeiro marchand, o grande Giuseppe Baccaro, italiano atuando em São Paulo, que me descobriu naquele ano, me lançando em seus espetaculares leilões, uma noite numa conversa regada a vinho com o poeta, pintor e desenhista catarinense de Florianópolis Rodrigo de Haro, quase dez anos mais velho do que eu, culto, sofisticado, cinéfilo, eu citei um filme "cult" americano que me deslumbrara: Desire under de Elms, baseado numa peça teatral do grande dramaturgo Eugene O' Neil (pai da Oona O'Neil, esposa do Charles Chaplin). O filme era em preto e branco, com Antony Perkins, uma Sofia Loren jovem e deslumbrante e um velho gordo que eu, já bastante bebido, teimei que era o Orson Welles.
- "Não Guilherme, não era o Orson Welles, era o Burl Ives" - me corrigiu o Rodrigo de Haro, e desfiou a ficha técnica do filme de cór, como bom cinéfilo..
Eu continuei teimando que era o Orson Welles até que, impaciente, o Rodrigo disse: "Então vamos apostar, Guilherme". Eu aceitei e disse: "Pois vamos. O que você quer apostar?" Ele respondeu de imediato: "O seu Apocalipse". Eu nem titubeei e retruquei: "Está bem, e de sua parte?" Rodrigo respondeu: "Eu lhe dou um torso grego antigo de mármore, autêntico, que eu tenho na minha coleção". "Fechado!" eu respondi. Sacramentamos nossa aposta com um aperto de mão e continuamos a noitada de bebedeira e conversas sem fim sobre Arte e cinema da Era de Ouro de Hollywood, sobre a qual Rodrigo era um especialista.
Notas
*amigos pintores e poetas - refiro-me a amigos artistas que apareciam no meu ateliê, como Naun Alves de Souza (mais tarde grande dramaturgo e diretor de teatro) Claudio Kupermann (pintor), Maninha (pintora), Ralph Camargo (depois marchand), Roberto Piva (poeta), Bri Fiocca (atriz), Regastein Rocha, (mais tarde editor de livros de arte dono da Gráfica Raízes, onde meu quadro Apocalipse se perdeu) e muitos outros...
*Bateau Lavoir - era um cortiço onde Picasso e outros artistas fizeram seu primeiro ateliê em Paris, no início paupérrimo de suas carreiras, no começo de século XX.
Vocês podem imaginar o resultado dessa aposta, não? No dia seguinte, o Rodrigo me apresentou uma antologia de cinema da Era de Ouro de Hollywood, em que constava aquele filme com sua ficha técnica e comentários. Era mesmo Burl Yves e não Orson Welles. Mesmo sendo fruto de uma teimosia de bêbado, dívida de jogo é sagrada, e eu fui buscar meu Apocalipse, fretei um pequeno caminhão mambembe e deixei-o na casa do Bacccaro onde o Rodrigo estava hospedado enquanto o Baccaro se encontrava na Europa. Foi assim que perdi pela primeira vez o meu grande quadro. Mas a saga dessa obra haveria de continuar, como vocês verão...
Pois bem, o quadro, enorme, ficou de pé no chão no meio da sala do Baccaro e quando este dali a poucos dias voltou da Europa, espantado, perguntou ao Rodrigo: De quem é isso? Quem pintou? O Rodrigo respondeu: "O Guilherme. Ele pintou. É o Apocalipse... Louco, não? Eu o ganhei dele numa aposta mas não tenho onde o colocar, nem como o levar para Floripa..."
Baccaro, que já era meu marchand e trabalhava com desenhos e gravuras minhas em metal mas não conhecia minha pintura, era muito generoso e imediatamente propôs: "Quer trocar por um quadro à sua escolha?
Rodrigo escolheu uma grande tela, belíssima, da Escola de Cuzco, autêntica do século XVII que representava um enorme Arcanjo São Gabriel, barroco, de grandes asas, cheio de laços e fitas com uma espada na mão para expulsar os anjos caídos, circundado de flores. Os "cuzquenhos" estavam em alta no mercado, naqueles dias.
Baccaro topou e o Rodrigo voltou para Florianópolis com o seu belo cuzquenho enrolado e logo o vendeu para um grande colecionador que ele já tinha em vista, por uma pequena fortuna. Com o dinheiro correu a comprar uma casa velha que estava à venda, arruinada, na beira da Lagoa da Conceição, lugar privilegiado em Floripa onde, reformando e deixando a casa maravilhosa fez dela sua residência e atelier definitivo para o resto da vida. Rodrigo se tornou o pintor e poeta mais famoso e aclamado de Florianópolis, substituindo seu pai, Martinho de Haro que o era antes. O poeta pintor, meu amigo de juventude, na sua bela casa, local de peregrinação cultural, agora idoso mas sempre produtivo realizou naquela cidade inclusive grande murais públicos em mosaico, técnica que desenvolveu brilhantemente. E eu fiquei feliz em saber, anos depois, do resultado auspicioso da minha perda...
Entretanto ninguém poderia prever que o Apocalipse voltaria um dia às minhas mãos e eu o perderia de novo...
O quadro, verdadeiro elefante branco, pertencia agora ao Baccaro que o pendurou no mezanino de sua bela e famosa Casa dos Leilões, na rua Marquês de Paranaguá, uma travessa da Augusta. Ali ficou alguns anos sendo vista, mas não sei se foi a leilão, nunca ninguém o comprou.
Então o Baccaro, tendo tido percalços com a polícia da ditadura, desgostoso do ambiente paulistano e da hipocrisia dos ricos compradores que se afastaram dele, profundo cristão que era, até por sua origem rural italiana de pastores de montanha do Abruzzo, mudou-se para Olinda, PE, onde construiu a sua grande obra filantrópica, a Casa das Crianças de Olinda, que durou três décadas e que dava alimentação e ensino de artes e ofícios artesanais, inclusive cordel e xilogravura, às crianças dos mocambos miseráveis dos arredores daquela cidade colonial, tombada pelo Patrimônio Histórico.
Ao mudar-se definitivamente para Olinda, o Baccaro pediu ao Hector Babenco, o cineasta que era nosso amigo e que estava casado com a Raquel Arnaud, marchand, que guardasse para ele um quadro grande e pesado que estava embrulhado em cobertores, na sua garagem da casa da Raquel no Jardim Europa, que havia sido a casa onde ela vivera com seu primeiro marido Oscar Klabin Segall, filho do grande Lazar Segall. O quadro ficou naquela garagem por meses até que um dia, por curiosidade, Raquel e Hector resolveram desembrulhar para ver o que era aquilo e deram com o meu Apocalipse. Encantados telefonaram para o Baccaro e propuseram comprá-lo. Baccaro sempre generoso e desprendido, imediatamente fez presente da obra ao casal amigo. O quadro agora pertencia ao casal Babenco, que com o sucesso de seus filmes construiu uma casa bem moderna de concreto aparente no Morumbi. onde o meu quadro ficava numa parede de concreto que emergia isolada de dentro de um gramado de um jardinzinho interno que era visível de todos os ângulos e até do alto dos mezaninos que circundavam o salão espetacular da casa, e que apareceu numa famosa revista de decoração (eu tenho esse número e preciso procurá-lo nas minhas montanhas de tralhas).
A casa era frequentada inclusive em grandes festas pela sociedade exclusiva do cinema nacional e portanto minha tela era muito vista, não sei se apreciada. Entretanto, haveria de ocorrer um percalço na vida do casal Babenco relacionado a consequências imprevistas do seu filme "Lúcio Flavio, o Passageiro da Agonia", apesar ou até por seu sucesso de público...
Em 1974 com a minha volta a morar em São Paulo, depois de quatro anos em Olinda a convite do Baccaro, na minha Exposição em Julho daquele ano na Galeria Arte Global (da rede Globo de Televisão) de óleos da minha fase 'baconiana" (influência de Francis Bacon), a Raquel Babenco, que organizou e fez a curadoria da minha exposição, aproveitou e incluiu nela a minha tela Apocalipse de sua co-propriedade com o marido, embora já destoasse em estilo do resto da exposição (eu tinha mudado de fase).
Anos depois tendo sido lançado o filme "Lúcio Flávio... " do Hector Babenco em 1977, baseado na história real do bandido carioca (papel do Reginaldo Farias), tinha um personagem delegado chamado Dr. Moretti (encarnado pelo Pereio), calcado num policial corrupto e assassino que comandava um Esquadrão da Morte e que chantageava os assaltantes arrancando dinheiro deles e eventualmente os assassinando, como acabou acontecendo com o Lúcio Flávio, cuja única frase real imortalizada foi "Policial é policial, bandido é bandido" (dizem que morreu por isso) . Acontece que o verdadeiro Moretti na vida real era o temido policial Mariel Mariscot, que por sua vez acabou mais tarde assassinado. Pois bem, Mariscot não gostando da maneira que se viu retratado no filme embora com outro nome para disfarçar, após a estréia do filme Babenco começou a fazer ao cineasta ameaças de morte por telefone por causa do tal personagem, que era o verdadeiro vilão da história. Apavorados com razão, Babenco e Raquel resolveram se mudar, pois sua grande casa era isolada no Morumbi daquela época, e vulnerável. Mudaram-se para um apartamento no final da Avenida Nove de Julho, no Jardim Europa. Resultado, o meu Apocalipse não cabia no elevador e não dobrava as escadas. Babenco então pediu para o nosso amigo em comum Regastein Rocha, mineiro de Passaquatro, que era proprietário da Raízes Artes Gráficas e editor de inúmeros livros maravilhosos de Arte Brasileira (em que o programador visual era o Emanoel Araújo, depois fundador do Museu Afro-Brasil), que guardasse o quadro na casa da rua Quatá 373, na Vila Olímpia que era onde funcionava a Gráfica, e que seria também toda decorada, em volta até das máquinas off-set, com desenhos meus enormes emoldurados, da série "Retratos Imaginários", que eu não tinha espaço para guardar depois que foram expostos na Galeria Cosme Velho em 1980.
O quadrão ficou ali muito bem exposto no refeitório dos funcionários que parecia uma sala de convento colonial com grande e bela mesa rústica antiga, com compridos bancos de fazenda dos dois lados da mesa, num ambiente perfeito para o quadro. Eu estava satisfeito. Não me importava que o quadro já não me pertencia há muito tempo. Mas então houve outra reviravolta...
O quadro ficou alguns anos ali na Gráfica Raízes até que em 1978 eu fui convidado pela Maria Bonomi, que era da comissão, a participar da I Bienal Latino Americana de São Paulo, que versava sobre Mito e Magia, e me deram Sala Especial, e eu a enchi com mais de cinquenta obras. Foi sucesso.
Após essa Exposição, o Apocalipse voltou para a Gráfica e ali ficou por muitos anos, até que o Regastein, suficientemente rico e cansado vendeu a Gráfica de porteira fechada e foi embora com a família para a sua terra natal, Passaquatro MG. Eu imerso na minha longa fase de litografias sobre pedras da Bavária, na Glatt -Ymagos, já não mantinha contato com ele e só fiquei sabendo tempos depois. Meu quadro e desenhos caíram nas mãos do comprador do imóvel, que era o Sindicato dos Comerciários de São Paulo. Há cinco anos atrás eu telefonei para o Babenco, perguntei pela saúde dele e conversamos muito lembrando os velhos tempos, do Baccaro e tudo mais... e ele me perguntou: "E o Apocalipse, você sabe dele?" Ele mesmo não sabia. Contei a ele que eu descobrira que estava com o Sindicato dos Comerciários. Ele então me disse: "Guilherme, eu estou doente, como você sabe, não tenho forças nem tempo para me ocupar disso. Eu te devolvo o quadro. Sempre foi seu. Vai atrás dele, recupere-o para o seu acervo, ele é importante."
Pouco anos depois de muita luta contra uma leucemia, o grande cineasta viria a morrer.
Fui à casa da rua Quatá 373, na Vila Olímpia, depois de tantos anos, e descobri que tinha se transformado num mero depósito, o almoxarifado do Sindicato dos Comerciários. Consegui entrar, guiado entre centenas de prateleiras com milhares de caixas de papelão contendo a papelada do sindicato, verdadeiro labirinto kafkiano, por um simpático senhor de meia idade, técnico em informática que fora contratado por aquele órgão para afinal informatizá-lo e que levou-me primeiro a um nicho, um canto onde meus desenhos estavam no chão, empilhados contra a parede. Depois me levou a um minúscula cozinha onde numa mesinha com toalha os funcionários tomavam café. O teto era baixo e meu Apocalipse ali estava encaixado, sua parte superior encostada no teto, todo embaçado, o verniz escurecido pela fumaça e poeira de décadas.
O senhor, muito gentil, acreditou no meu direito à minha obra e em toda história que lhe contei, mas era um mero profissional terceirizado, e disse-me que para eu retirar o quadro eu deveria pedir permissão para o presidente do Sindicato, o senhor Ricardo Patah.
Não tendo espaço no meu minúsculo ateliê abarrotado de outras obras minhas, livros e materiais de trabalho, "a parte que me coube neste latifúndio", e não tendo nenhum documento que comprove a minha propriedade e a minha conversa por telefone com o Babenco, estou até hoje pensando se devo ou não deixar o Apocalipse seguir seu curso, ou sua inércia, sem a minha inepta interferência. O curioso é que o meu Apocalipse começou numa cozinha humilde e acabou noutra, igualmente humilde.
As obras de arte têm vida e destino histórico próprio, frequentemente irônico e patético como o nosso destino humano...
FIM
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Sunday, March 17, 2019
Uma curiosidade
Vou lhes contar, amigos, uma curiosidade a meu próprio respeito como artista. Apenas 30% das minhas obras do passado eu assinaria novamente em baixo, hoje em dia. Pior, tenho uma secreta e incômoda vergonha delas. Algumas se me voltassem às mãos eu as queimaria. Eu as vendia muito rapidamente pela necessidade de sobreviver, embora na época acreditasse na qualidade delas, o que me absolve pelo menos de prostituição. A vergonha vem por conta do meu perfeccionismo e vaidade artística, reconheço. Devido ao sucesso precoce do meu desenho e gravura, não me empenhei, senão na velhice, em aperfeiçoar a minha técnica pictórica a óleo. Agora sim, nos últimos cinco anos, e sobretudo com as fases "paisagens imaginárias", "Alma Welt", e "floral", começo a me orgulhar também das minhas pinturas, mas reconhecendo que elas me são "enviadas" e que o mérito da grande arte nunca é verdadeiramente nosso. Tornamo-nos merecedores de recebê-las do plano divino (Deus mesmo) a duras penas, nunca sem sofrimento e trabalho duro. Mas sobretudo com o amadurecimento, que consiste no abandono das veleidades...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
A mentalidade socialista
Nunca tive, por natureza, uma mentalidade socialista, nem sequer socializante. Hoje até me orgulho disso, vendo as desgraças que os socialistas/comunistas fizeram ao mundo. Quando jovem, saído de uma família de classe média culta mas empobrecida, eu lutei muitos anos pela mera sobrevivência, insistindo na arte como profissão. "Gramei" muito. Nunca me passou pela cabeça a tal "função social da arte". Tudo o que eu queria é que os ricos colecionadores percebessem a beleza e qualidade das minhas obras, e me dessem por elas um dinheirinho para comer, pagar aluguel e comprar tintas, papel e telas. Só isso! Acreditem! Não estou me fazendo de naïf. Eu só esperava não ser incompreendido em vida como Van Gogh, Gauguin e Modigliani. O povo para mim não entrava em linha de conta, pois ele era eu mesmo tentando deixar de sê-lo, e ao mesmo tempo algo distante e anódino, de que eu ouvia falar de vez em quando sem me identificar. Sim, um paradoxo. Eu não podia me dar ao luxo de pensar no tal "povo", pois a fome me rondava pessoalmente. Individualista que sempre fui, nunca me ocorreria me unir ao povo para tentar sobreviver "coletivamente" e muito menos me vingar dos ricos, pois não me sentia sua vítima, mas via neles uma espécie rara que eu precisa de algum modo seduzir com minhas obras, pois eles sim é que historicamente consagravam os artistas. Eu compreendi desde o princípio que as obras de arte devem fazer um longo percurso de valorização financeira e prestígio para ter direito de entrar nos Museus e afinal voltar ao povo. Uma lógica, uma lei natural, uma "meritocracia" corroborada pela História, que essa, sim, eu conseguia compreender...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Tuesday, March 5, 2019
Das Cronicas da Minha Oscar Freire
Uma vez que já posso me considerar um idoso ao mesmo tempo que me sinto criativo e na melhor fase da minha pintura que flui com facilidade e beleza, às vezes me pergunto como se manifestará a minha decadência. Será obrigatória? Tornar-me-ei um ancião patético e triste? Há uma certa beleza subjetiva na decadência, que implica no fato de que já estivemos no alto, e guardamos uma bela bagagem de memórias e algumas conquistas apreciáveis por outros, pelo menos pelos nossos contemporâneos. Quero dizer, não estamos sozinhos... Sei que a tendência é cairmos nalguma espécie de rotina diária, já que na velhice parece não nos acontecer muita coisa, e que os acontecimentos relevantes e transformadores ficaram todos no passado, na nossa desassossegada juventude. Entretanto sempre percebi que um homem sensível, se for um verdadeiro escritor pode produzir um crônica fecunda sobre a queda de um palito de fósforo ou o cumprimento casual de um vizinho no elevador. E se for um pintor figurativo, pode continuar pintando belos nus de belas mulheres, imaginárias ou não. Ou flores, como eu recentemente, que nunca as tive em casa e nem mesmo tenho um vaso, nem para os pincéis, que os coloco em prosaicas latas de alumínio. Resta-me talvez comprar pela primeira vez na vida uma solitária rosa e oferecê-la à minha mulher. Sua surpresa certamente deflagraria um crônica e todo um universo de possibilidades novas, desconhecidas por mim.
Há dois dias, esperando na calçada em frente ao meu prédio sob a garoa, um amigo que viria de carro me buscar para uma visita, aproximou-se de mim um segurança de loja da minha rua, homem de meia idade carrancudo de terno preto (provavelmente com uma arma sob o paletó) por quem passo todos os dias sem cumprimentar para evitar a repetição, embora ele me seja familiar por estar ali há mais de trinta anos. Este homem, meio gaguejante, denunciando timidez ou insegurança social, me disse: "O senhor é pintor, não é? Olha, aqui nesta loja que hoje está fechada está havendo uma exposição de quadros. Achei que o senhor gostaria de saber, e mostrar também seu quadros."
Surpreso, agradeci e aproveitei para dizer: "Olha, senhor... não se importe com o fato de eu nunca cumprimentá-lo já que passo na sua frente quase diariamente há quarenta anos. Aproveito agora para lhe presentear com uma lembrança de minha apreciação pelo seu trabalho: este CD dos meus cordéis. O senhor tem um CD player em casa?"
O bom homem, sempre de cara fechada por dever de ofício, fez que sim com a cabeça, surpreso, mas sem qualquer expressão no rosto. E nesse momento chegou o meu amigo e eu entrei no carro sem olhar para trás.
Será isto uma crônica? Terá algum significado? Serei obrigado a daqui por diante cumprimentar aquele homem diariamente, na ida e na volta? Assim é a vida... Talvez algum dia um de nós notará a ausência do outro, no vai e vem desta rua monótona, e um de nós comentará com um terceiro, na esperança de uma notícia, um esclarecimento, ou mesmo uma fofoca: "Você soube? Aquele senhor, o pintor? Morreu... Há anos não vendia um quadro..." Ou : " Sabe aquele senhor... o velho segurança? Morreu agradecendo a Deus nunca ter dado um tiro, na vida...
FIM
Há dois dias, esperando na calçada em frente ao meu prédio sob a garoa, um amigo que viria de carro me buscar para uma visita, aproximou-se de mim um segurança de loja da minha rua, homem de meia idade carrancudo de terno preto (provavelmente com uma arma sob o paletó) por quem passo todos os dias sem cumprimentar para evitar a repetição, embora ele me seja familiar por estar ali há mais de trinta anos. Este homem, meio gaguejante, denunciando timidez ou insegurança social, me disse: "O senhor é pintor, não é? Olha, aqui nesta loja que hoje está fechada está havendo uma exposição de quadros. Achei que o senhor gostaria de saber, e mostrar também seu quadros."
Surpreso, agradeci e aproveitei para dizer: "Olha, senhor... não se importe com o fato de eu nunca cumprimentá-lo já que passo na sua frente quase diariamente há quarenta anos. Aproveito agora para lhe presentear com uma lembrança de minha apreciação pelo seu trabalho: este CD dos meus cordéis. O senhor tem um CD player em casa?"
O bom homem, sempre de cara fechada por dever de ofício, fez que sim com a cabeça, surpreso, mas sem qualquer expressão no rosto. E nesse momento chegou o meu amigo e eu entrei no carro sem olhar para trás.
Será isto uma crônica? Terá algum significado? Serei obrigado a daqui por diante cumprimentar aquele homem diariamente, na ida e na volta? Assim é a vida... Talvez algum dia um de nós notará a ausência do outro, no vai e vem desta rua monótona, e um de nós comentará com um terceiro, na esperança de uma notícia, um esclarecimento, ou mesmo uma fofoca: "Você soube? Aquele senhor, o pintor? Morreu... Há anos não vendia um quadro..." Ou : " Sabe aquele senhor... o velho segurança? Morreu agradecendo a Deus nunca ter dado um tiro, na vida...
FIM
Wednesday, February 6, 2019
Mais de uma vida
Embora a Alma Welt como meu heterônimo "venha" de dentro de mim, sua biografia e suas memórias e circunstâncias são muito diferentes das minhas, e frequentemente contrárias. Por quê isso? Talvez por ela ser um "alter ego", e assim sendo, minha alternativa para uma outra vida, para o bem e para o mal. No tempo que nos foi dado, viver mais que uma vida é possível, sim, eu o venho provando...
(Guilherme de Faria)
THALITA
Dei-me conta, afinal. De repente dei-me conta de que tinha que contar o que vou contar. Talvez a estória mais verdadeira, autêntica, no que me diz respeito. Uma estória... de amor.
DILIM DILIM DILIM DILIM!... A campainha parecia soar sempre nos momentos mais impróprios, nos momentos de disputa ou de briga entre garotos, coisas de honra, com que não se brinca. Lembro-me que tive interromper uma luta de socos e pontapés, e que obviamente eu estava perdendo... e sob vaias declarar que minha mãe estava me chamando para o almoço. Voltei correndo, humilhado, envergonhado, aliviado e furioso. Era difícil perdoá-la, pelo menos naquele momento. Tanto mais que, vendo minha fúria ela me olhou longamente, tudo compreendeu e... riu. Sim, riu... deu uma maravilhosa gargalhada que acabei acompanhando, porque se algo tínhamos em comum, minha mãe e eu, além do gosto pela literatura... era o senso de humor.
Ah! A campainha... Era uma sineta de prata. Menos que isso. Era um sininho todo em baixo relevo, com alguns trechos vazados e os nomes dos doze apóstolos gravados a toda volta, em latim, o que me causava uma estranheza deliciosa. Mas sobretudo o arremate superior em forma de um golfinho estilizado numa espécie de mergulho retorcido, para que o pegássemos pela sua cauda em leque, para balançar a campânula e agitar o badalo de prata pra fazer soar aquele tinir agudo, quase insuportável. O animal tinha escamas e boca grotesca de peixe, tal como se viam nos mapas antigos nalguns livros da biblioteca de meu pai, desenhos a partir das descrições dos navegantes que não sabiam descrever bem esses animais estranhos e que também confundiam as baleias com o Leviatã. Esse era o sininho, ou campainha, que minha mãe usava para chamar-nos para o almoço, e que devíamos obedecer como a maior das regras. Uma regra sagrada. Minha mãe a inventara para não se igualar às outra mães do nosso bairro, melhor dizendo, do nosso quarteirão de bairro paulistano pequeno burguês, e que se esgoelavam com suas vozes agudas para chamar seus moleques, à vezes distantes, no fim da quadra, brincando ou conversando besteira nas esquinas. Minha mãe, não! Era uma “lady”. Não gritaria na rua, onde jamais nem sequer levantava a voz como algumas das mães que, segundo ela, se comportavam como “lavadeiras”.
Mulher de médico culto, ela mesma bastante ilustrada, amante de literatura francesa, minha mãe realmente destoava das mães de meus colegas de rua que me ensinavam palavrões e malícias, que aprendi mas logo rejeitei intimamente por reconhecer-lhes a espantosa vulgaridade. Mas eu tinha que disfarçar! Na verdade era tímido e inseguro, e tinha que disfarçar o meu secreto desprezo por eles, para tentar me integrar para ser aceito, pois meu aspecto um tanto aristocrático, agora vejo, lhes infundiu suspeitas desde o início.
Vínhamos de um outro bairro, onde eu nascera e passara a minha primeira infância. Agora estávamos ali. A rua era um playground de asfalto, ou melhor, uma pequena praça de guerra dos meninos e suas brincadeiras brutas, competitivas e seus códigos de honra e de macheza. Quanto a mim, era um menino louro, delicado, embora não fosse propriamente franzino. Gostava de música clássica, que era a predileção de meu pai e tínhamos em casa em pesados discos de ebonite. A vitrola chiava, e trocávamos as agulhas de metal quando começava a repetir grotescamente uma frase melódica, de maneira irritante. Meu pai amava Beethoven. Eu também.
Mas o que marcou mesmo essa fase de minha infância foi a descoberta, ou o deslumbramento pela figura feminina na pessoa das meninas do nosso quarteirão. Que diferença dos meninos! Seres etéreos, distantes, delicados, que com seus vestidinhos quase sempre brancos, de manguinhas curtas bufantes, laço atrás, perninhas torneadas despontando de uma zona de mistério tão logo ali e tão inacessível, e terminadas por meínhas soquete e sapatinhos de fivela. Brincavam entre si e não se misturavam nunca com os meninos. Eu ficava horas vendo-as brincar seus encantadores e incompreensíveis jogos de palmas acompanhadas de versinhos rimados. Que gestos graciosos, que dança sutil e natural, meneios delicados, compassados, às vezes ligeiramente sinuosos! Sim, elas eram superiores e... eu queria ter nascido uma delas, essa era a verdade...
Então, ela apareceu. Era uma menina deslumbrante, diferente da outras que já me encantavam. E elas se apagaram, esmaeceram diante da luz dessa menina excepcional, de uma beleza exótica, sim, que parecia vir de um outro mundo, desconhecido de nós todos. E realmente era assim. Filha de um americano e de uma brasileira que tinha o aspecto de uma índia mexicana (simpática e doce senhora), Thalita, era nome da pequena deusa que chegou como uma estrela em nosso quarteirão, e tudo mudou.
Ela apareceu pela primeira vez na nossa rua, vinda uma transversal, umas dez casas abaixo de nossa esquina, uma mansão moderna, na verdade uma das poucas daquele nível em nosso bairro, daquelas que olhamos com curiosidade, senão inveja, como um lugar misterioso onde seres de outra categoria vivem suas vidas dificilmente imagináveis. Era bela, viva, esportiva e elegante. Vestia comumente a primeira calça "jeans" que vi na na vida. Aliás ainda não existiam no Brasil essas caças, e Thalita era uma pioneira também nesse sentido. Calças de cor “índigo blue”, como ela nos ensinou, e que por si só nos deslumbravam. Mas, ah! seu corpo, esguio para a idade, bem feito e com uma cintura fina, bundinha saliente, arrebitada (coisa que nas outras meninas não era muito notada) modelada pela calça justa, coisa que nunca tínhamos visto até então. Ela logo se impôs nos jogos de rua dos garotos, introduzindo a “queimada”, que não conhecíamos, e do qual as outras meninas não ousavam participar devido à violência das boladas, em que os meninos se esmeravam, em especial sobre ela, a femeazinha, como certa afirmação de nossa masculinidade. Mas ela agarrava as bolada com grande habilidade e reflexos nada comuns às garotas, pensávamos nós. Foi também a introdutora dos patins de rodas, em que se exibia quase como uma profissional, a nosso ver, pois girava e conseguia patinar de costas. Thalita era um portento, uma espécie superior vinda de algum outro planeta.
Não preciso dizer que me apaixonei imediatamente por essa menina fascinante e integralmente bela. Eu iria viver o maior e mais puro e solitário amor romântico que me seria dado experimentar na minha vida.
E então... ali naquela rua, naqueles dias, começaram meus precoces sofrimentos...
Ah! Quanto sofrimento cuja inutilidade eu iria constatar somente vinte anos mais tarde!.. Quantas lágrimas, planos não executados, hesitações, recalques, auto-repressões dolorosas!
E erros, também, lamentáveis erros infantis. Por exemplo: um dia, durante o jogo de queimada, cometi uma falta e ela se aproximou indignada, disse coisas de que não me lembro mais, virou-se para prosseguir. Eu, hipnotizado que ficara com seu olhar furibundo, ao vê-la de costas não resisti, ai de mim, e dei-lhe um tapa de mão cheia naquela bundinha atrevida e tão tentadora (essa era a verdade). Ah! Para quê... Ela virou-se como um raio e me deu um tapa violentíssimo, e com uma unha afiada, de lambuja, e que quase me derrubou, como um soco. Eu cambaleei, tentando me equilibrar, pateticamente. Chocado, pus a mão no rosto que já sangrava com um grande arranhão, como eu iria logo conferir dentro de casa, ao espelho, onde envergonhado me recolhi me auto-expulsando do jogo. Durante a semana inteira seguinte eu iria ostentar uma cicatriz no rosto, carregada com um estranho misto de perplexidade, vergonha e orgulho, como um troféu de guerra, e de amor... Eu tinha também conhecido a força da dignidade feminina, tão precoce em seu orgulho implacável. Eu não iria ser jamais um “cafajeste” (como eu ouvia os adultos dizerem de certos homens). E eu me prostraria aos pés dessas pequenas deusas. Eu haveria de fazer delas minhas musas, mesmo que precisasse vez por outra me defender de sua subjacente e antiga tirania...
Então começou a agonia. Eu a via quase todos os dias, e aqueles em que ela não aparecia eram vazios e nostálgicos. E sua presença era um misto de êxtase e dolorosa observação de seus mínimos gestos e olhares. Ela era tão natural!... Quanto a mim tinha perdido minha naturalidade e me sentia travado, em perpétuo suspense, esperando... Esperando o quê? Não sabia, e me sentia no escuro, no coração das trevas de um amor romântico mas sem definição, mais no mundo dos instintos, do inconsciente, do que de uma razão ainda incipiente, em formação.
Em compensação, todos os parâmetros de cavalheirismo, de velada corte, estavam presentes, talvez assimilados pelo meu contacto com os livros, com os clássicos e sua literatura cortesã. Sim eu era um romântico, mas não daquele romantismo dos anos 50 onde estávamos, mas de um tempo mais bem mais recuado, século ou XVIII ou XIX, no mínimo.
Estávamos nos nossos doze anos e começavam os bailinhos de pré-adolescentes. Thalita foi a primeira a organizar esses saraus em sua casa, em que o pai americano nunca estava, graças a Deus. Na verdade ele nunca foi visto por ninguém e era um mistério. Thalita nunca se referia a ele, e a presença de um pai americano em sua vida só era percebida pelo fato de que ela estudava no Graded School, e falava o nome das estrelas de Hollywood com aquele sotaque das meninas americanas mesmo, estranhamente enrolado, que a nós, garotos brasileiros, paulistanos, soava um pouco esnobe, e nos inibia pois jamais poderíamos falar assim, éramos subdesenvolvidos, eu assim me sentia, nitidamente, diante dela, a pequena deusa semi-americana do nosso quarteirão...
Mas, voltando aos bailinhos, devo confidenciar minha primeira memória erótica, se posso assim dizer, relativa à minha pequena Musa. Lembro-me de como, depois de muita hesitação fiz o convite segurei a sua mão (!!) e cingi a sua cintura pela primeira vez, para dançar um fox ou um bolero no baile de seu aniversário, em sua casa. Que emoção, que calor me subiu o corpo... eu tremia! E então, ao aproximar meu rosto do seu, eu aspirei o seu perfume... e ele permanece até hoje nas narinas da minha memória. Acreditem: eu sinto ainda hoje, 58 anos depois, esse perfume subitamente vindo a mim quando menos espero.
Lembro-me também de que, convidado para uma festa de São João em sua casa, minha mãe se esmerou em me fantasiar de caipira, com lenço vermelho no pescoço, camisa xadrez, chapéu de palha desfiado, bigodinho pintado a carvão com rolha, e tudo mais. Ao chegar assim na casa dela, não encontrei ninguém mais fantasiado, muito menos a minha deusa, e foi um vexame, uma vergonha incrível, uma humilhação para o garoto tímido e orgulhoso que eu era. Foi o que hoje em dia chamaríamos "pagar um mico". Bati em retirada e cheguei chorando de raiva, revoltado contra minha mãe, que mais uma vez caiu numa gargalhada, me abraçando, me acariciando o cabelo, e assim me desarmando. Mais uma vez tive que rir junto com ela. E acabamos às gargalhadas, eu rolando no chão de rir de mim mesmo. Graças a Deus, minha mãe tinha um maravilhoso distanciamento literário da vida ou a verdadeira perspectiva dela, que herdei... e isso me salvou.
Mas, ah! Entre tantas lembranças, a mais emocionante, e tátil, que impregnou meu corpo todo para sempre, foi quando convidado para brincar em sua casa, que tinha um imenso gramado nos fundos cercados de árvores e jardins, começamos um pega-pega disfarçadamente erótico em que fingíamos lutar, e eu a derrubei na grama e rolei com ela terminando por cima. Ela lutava como uma pequena leoa e eu a subjuguei, meu corpo sobre o dela em toda extensão, sentindo suas coxas roliças nas minhas, e sobretudo o seu púbis no meu, segurando seus pulsos para cima colados no solo enquanto ela forcejava, falsamente furiosa, eu percebi. Então fui descendo, olhos nos olhos, os dela fuzilando, aproximando meu rosto do dela, minha boca da sua, sentindo o seu hálito doce, perfumado e... a beijei, acreditem ou não. Ah! Aí ela pareceu ficar furiosa mesmo... e me empurrou de cima com tal força que fiquei caído ao lado dela por uns segundos, em êxtase e susto, ofegantes os dois, enquanto ela, soerguida, apoiada nas palmas me olhava fixamente nos olhos. Então ela se levantou e correu para dentro de casa. Eu também me levantei e saí, confuso, mas com o coração palpitante, pelo jardim de minha deusa, até o portão e voltei para casa sonhando sem imagens, só emoções, somente uma infinita ternura, um amor que doía fininho, como uma lâmina que entrava lentamente no meu coração de menino...
Daí em diante eu não teria mais um único pensamento que não fosse relacionado à minha pequena deusa, a menina amada de minha alma. E mergulhei morbidamente num estado de dor permanente, numa embriaguez de amor sem esperança (ah! se eu soubesse, então, que estava enganado, que havia, sim, esperança!...) Mas eu interpretara erroneamente a sua reação, a sua indignação, a sua súbita retirada, pois não nos vimos por uma semana inteira depois daquilo. Eu achei que me precipitara, que tinha sido atrevido, que tinha agido como um “cafajeste”, conforme os conceitos vigentes naquela época. Eu a beijara à força! Eu era culpado! Como fui fazer uma coisa assim? Eu era um ridículo! Como eu poderia esperar ser amado por uma garota assim tão superior?
Então, chegou o dia de seu aniversário. Eu tinha acabado de chegar dos jogos de rua, morávamos num sobradinho modesto, desses geminados, e no andar de cima, no quarto de meus pais, minha mãe notou que minha calça estava descosturada num certo ponto e pediu-me que a tirasse para ela costurar. Eu fiquei de cueca samba-canção, ali de pé diante dela esperando o concerto ficar pronto, ela sentada na cama com agulha e linha. Subitamente ouvimos a voz da Thalita, chamando minha mãe ao mesmo tempo que subia rapidamente a escada: “Dona Helena! Dona Helena!” Em pânico, mal tive tempo de esgueirar-me para trás da porta e ela entrou: “Dona Helena, eu vim trazer o convite da minha festa de aniversário para o Guilherme e as meninas.”- disse ela estendendo um envelope cor de rosa. Minha mãe olhou em volta e disse: Ué... ele estava aqui agora mesmo! Sumiu... que coisa! Você não cruzou com ele aí no corredor:” -Não, não o vi, dona Helena... (minha mãe, com os olhos postos na costura não percebera a minha manobra, e ali estava eu atrás da porta, de cueca, suando frio, sentindo que eu morreria se minha deusa me pegasse assim, sem calças,escondido atrás da porta, tremendo, ridículo para a eternidade.
Thalita logo se despediu depois daquelas indefectíveis palavras: -“E como vai a sua mãe? Que beleza! Você fará treze anos? Que linda idade! (cada palavra prolongava minha agonia).
Thalita saiu da zona de perigo, desceu a escada e ganhou a rua. Eu empurrei a porta e desabei a chorar, mas ali, de pé, diante de minha mãe surpresa, de olhos arregalados: “Ué você estava aí?” e logo entendendo tudo soltou aquela gargalhada redentora, a maior que vi, dela, em minha vida... e me abraçou: “Ah! Filho... vem cá! Eu entendo...” e ria, ria, enquanto eu chorava e ria ao mesmo tempo, profundamente aliviado: minha amada não me pegara sem calças, de cuecas... eu me salvara! Ainda haveria esperanças...
A verdade é que meu romance infantil, de um jeito ou de outro se desenvolveu, embora naquele ambíguo tom de amizade que não satisfaz jamais um coração amante, e mais o exaspera, produzindo uma espécie de ferida que não cicatriza, sempre arranhada, sempre sangrando, com perigo permanente de degenerar numa infecção. Eu sofria quando estava diante dela e sofria quando distante. Tentei infantilmente um meio de comunicação, construindo um bondinho teleférico miniatura, muito engenhoso, feito com o brinquedo de construções Mecano, e estendendo um longo barbante grosso desde uma pequena torre perto da janela de meu quarto, atravessando por cima da rua à altura de um andar superior de sobrado e passando por cima de quintais (que tive de invadir pulando muros, para instalar) até a janela do quarto dela nos fundos da casa, dando para o jardim, e onde ela amarrou a ponta do “cabo”. Uma pequena manivela enrolava o cabo que passava por uma roldana lá na “torre” da minha amada. Eu colocava bilhetes com mensagens no bondinho e o conduzia até lá com o giro paciente da manivela. É claro que meu sistema provocou vaias e gozações dos outros garotos lá embaixo, na rua, que deram um jeito de sabotá-lo lançando pedras amarradas em longos barbantes de pipas que pescando meu fio o partiram, derrubando e destroçando meu pequeno teleférico. Um dos meus bilhete caiu-lhes nas mãos, foi disputado e rasgado, mas ainda assim lido fragmentariamente em tom caricatural e malicioso pelos garotos, produzindo mais vergonha a este pobre e desajeitado Romeu dos primórdios da comunicação tecnológica.
Devo reconhecer que minha paixão de infância repousava no fato de que Thalita era muito superior às outras meninas do quarteirão, e isso dava a ela esse caráter de jovem musa, de pequena diva. Entretanto sabemos que o amor é um processo subjetivo, e não exige tantas qualidades do objeto amado para existir, e comumente mesmo lhe empresta algumas inexistentes: “Quem ama o feio”... Mas a cada nova prova, mais meu coração a confirmava, e eu sofria com a inacessibilidade da minha eleita, de quem eu nem sabia, na verdade, o que esperar, o que desejar.
Um dia as meninas resolveram montar um teatrinho na garagem da casa de uma delas, que, com os portões abertos para a rua, produziu uma pequena platéia dos garotos na calçada, e de algumas meninas mais tímidas, que não participariam, isto é, não tiveram coragem de se exibir para os moleques. O show seria dirigido pela Thalita, que, naturalmente, seria a primeira bailarina, a estrela.
Quando soou a música americana de um disco na vitrola e se abriu a cortina improvisada, meus olhos caíram sobre minha amada e não desgrudaram mais. Eu permaneci hipnotizado o tempo todo, pela graça e elegância de seus gestos adoráveis. Ela tinha talento! (também não pensei nesta palavra).
Quando somos crianças, o tempo apresenta uma estranha ambiguidade. Parece parado, nada muda, seremos crianças eternamente, tornarmo-nos adultos parece improvável. Minha amada existiria como aquela menina linda, para sempre... Quanto a mim, não a alcançaria nunca apesar de ela estar ali, tão perto de um toque da minha mão. Mas eu não ousava tocá-la... não fóra dos bailinhos em que, então, eu a cingia pela cintura, sentindo sua mão quente na minha e... o perfume do seu rosto maravilhoso, tão próximo do meu.
Mas o tempo passou, imperceptível. Minha história era estória dos meus fugazes e eternos momentos com ela, ou somente diante dela. Cada movimento, cada palavra, cada olhar... encadeados numa história solitária, sem esperança, mais dor do que prazer. E ela se tornou de súbito uma mocinha. Lembro-me que foi um choque para mim, ve-la não mais naqueles jeans, mas num vestido tubinho da moda, com sapatos de salto alto, e batom. Tão diferente, de repente. Ou eu não percebera os sinais. A transição. Thalita não brincava mais, falava de um namorado que eu nunca vira e que era da idade do meu irmão mas velho. Eu continuava um menino. Como podia ser isso? Eu ficara para trás, eu que na verdade nunca a alcançara. E o que nunca fora meu estava perdido... Thalita casou com o tal rapaz que, visto uma única vez por mim, parecia destoar tanto dela, parecia nada ter em comum com ela. Mas era rico...
Não fui ao casamento, não mais a via, já havia tempos, ela já estava entrando no terreno das lembranças. E eu a preservaria como uma memória sagrada, por toda a vida.
Tornei-me um artista, ou já o era, não sei. Muita água correu, novos sofrimentos e algumas conquistas. Novos amores. Lentamente eu me esqueci do meu primeiro amor.
Então, quando eu já estava nos meus quarenta anos, um dia recebi um telefonema da Thalita, que casada já há muitos anos e com uma filha moça, vinha se dedicando à arte da joalheria moderna, de prata, e ia fazer uma exposição. Falamos longamente ao telefone, e ela foi estranhamente íntima, como não o fora comigo em nossa infância. Garanti a ela que iria ao coquetel de sua exposição na galeria.
Então... ah! Antes não fosse! Encontrei Thalita bebendo muito, sem parar, em seu vernissage. Excitada, deslumbrada e rapidamente bêbada, tropeçando pelos degraus da galeria ao levar amigos visitantes para olhar esta ou aquela peça deixando cair o copo estrepitosamente, pegando outro drink rapidamente, das bandejas. Ela ainda conservava alguma beleza mas já se percebia umas sombras no seu rosto, e um tom macilento, doentio, de quem já bebia há muito tempo. Senti clara e nitidamente que ela era alcoólatra, e não querendo presenciar um vexame maior que poderia arruinar a imagem sagrada que eu trazia de nossa infância no meu coração, bati em retirada sem me despedir dela.
Passaram-se alguns dias e ela me telefonou, me convidando para conhecer a sua casa, que novamente era perto da minha e eu nem sabia. Recebeu-me sozinha (marido e filha estavam viajando) e com um copo de wisky na mão mas ainda não embriagada, começou falando de sua vida, e de uma psicoterapia ou análise que fazia com um famoso psicanalista. De repente, subitamente comovida, ela disse que me amava desde a infância... que sempre me amara. Ai de mim, ela também me amava e eu nunca soubera!... Mas a essa altura eu já via os sinais de sua embriaguês e resolvi bater em retirada, não sem antes beijá-la na boca que ela me ofereceu pela primeira vez na vida, infelizmente um beijo arruinado pelo gosto e o cheiro do wisky. Saí dali muito perturbado. Meu amor se tornara uma bêbada, não era a mesma pessoa, não era a mais a pequena deusa de minha alma, a pequena Psiqué do meu quarteirão, de minha sofredora e bela infância.
Passou-se mais alguns meses, subitamente recebi o telefonema de sua filha, uma moça que nada tinha em comum com a mãe, parecendo estranhamente racional e fria e que, depois constatei, não tinha herdado a sua beleza nem de longe. A moça contou-me ao telefone, sem uma lágrima sequer, que a sua mãe se suicidara na sua frente com um tiro na cabeça, e que o velório seria naquela noite. Mas incrivelmente acrescentou detalhes chocantes: Thalita estava fazendo um monólogo provocativo, muito violento, diante dela, despejando todo o seu ressentimento por tão grande falta de afinidades, tanta incompreensão mútuas, tantas mágoas entre mãe e filha. E subitamente sacara a pistola de uma gaveta. A bala entrara na têmpora e saíra por um olho (!!!), ela contou (e essa imagem chocante permanece na minha imaginação desde então, como se a tivesse presenciado). Thalita foi levada de maca, ainda viva, morrendo a caminho do hospital, delirando poética e infantilmente, menina novamente, lembrando de sua escola, a Graded School, onde fora feliz...
Quando entrei no recinto do velório, o seu marido, que eu conhecera há anos atrás formalmente e nunca mais vira, chorava copiosamente e abrindo os braços dramaticamente clamou bem alto no meio de todos presentes, familiares e amigos do casal: “ELA GOSTAVA TANTO DE VOCÊ!” E me abraçou soluçando de maneira patética, me segurando, colado a mim, sua face áspera colada na minha, sua cabeça em meu ombro, enquanto eu, constrangido, acariciava as suas costas. Nada daquilo me parecia real. Eu não sentia ressonância daquilo tudo em meu coração.
Não derramei uma lágrima sequer...
Fiquei para o enterro, segurei na alça do caixão. As lagrimas não vinham. Mas finalmente, ali, ao pé da cova, com as últimas pás de terra eu comecei a me lembrar da menina de ouro, a menina que iluminou a minha infância, apesar de tanto equívoco, tantas barreiras que erguêramos em nós mesmos. E me lembrei de sua confissão tardia, de que ela me amava, de que me amara sempre e... afinal acreditei. Ela me fizera uma grande dádiva, não importa se a revelação foi feita em estado de embriaguez : "In vino veritas"...
Eu poderia voltar para casa, minha infância voltara, estava tudo certo. Um artista é sempre criança, e eu poderia sempre rir de mim mesmo como minha mãe me ensinara. E um artista que ri está salvo, nada mais poderá doer tanto...
Tuesday, January 29, 2019
MEMÓRIAS DE GUILHERME DE FARIA (Pintor, desenhista e poeta)
O DIREITO DE SER POBRE
Ontem foi aniversário do meu filho mais velho, que passo meses sem ver. Encontrei-o por acaso na rua Augusta, quando eu saía de uma farmácia e ele estava com sua mãe, uma "ex", mãe de três dos meus filhos, e que há muitos anos eu não via. Foi perturbador, emocionante. Os dois sempre tiveram uma relação tumultuada, e vê-los juntos se dirigindo a um cinema, provavelmente na Paulista, foi comovente... Eles estavam adiantados para o horário da sessão e pudemos conversar por uma hora, de pé na frente da Farmácia. Naturalmente começamos a conferir episódios do nosso passado e me dei conta de como nossas visões dos acontecidos não conferiam, a não ser em poucos detalhes mais superficiais. A realidade é subjetiva, assim como os espelhos. Entretanto eu pude ver através de sua pele sofrida, a jovem, quase adolescente que ela fora, e sua beleza, que eu ainda reconhecia, apesar de tudo. Meu filho, cuja barba começa a branquear lembrou episódios de nossa relação em sua infância, que não me desabonam, e que arrematou me abraçando. Nessa noite custei a dormir, revisando cada minuto de nossa conversa a três. Num certo momento, meu filho tirou de uma sacola os livros que sua mãe lhe dera há pouco, como presente. Tratava-se das Crônicas Completas de Rubem Braga, e ele perguntou se eu o havia conhecido e lido, e se gostava. Sim, eu havia lido algumas num passado remoto, e que mal me lembrava. Quanto a se o tinha conhecido pessoalmente, eu lembrei: "Esse é mais um de que eu tenho pelo menos dois dos "seis graus de aproximação" (possíveis entre todos nós no mundo, teoria matemática ou espiritual, em que acredito). E recordei: " No começo dos anos 90, eu estava com o pintor Siron Franco, saindo da gráfica Ymagos onde ele fora fazer uma litografia para lançar na exposição da novas maravilhosas pinturas que ele estava para inaugurar na Galeria Paulo Vasconcelos. Assim que chegamos na Galeria ele ligou interurbano para o Rubem Braga seu amigo, no Rio, para comunicar e convidar para a sua exposição. A certa altura de sua breve conversa, ele disse: "Advinha com quem estou agora aqui na galeria? Com o Guilherme de Faria! " Esperou um segundo e tapando o bocal me disse: "O Rubem disse: "Aquele, das peladas? Pergunta a ele se ele ........ essa mulherada toda?" Eu soltei uma gargalhada, perdoando, no ato, a vulgaridade jocosa típica do carioca, talvez lisonjeado pelo grande cronista conhecer minha arte.
Afinal o Rubem Braga não tinha como saber que eu jamais tivera modelos, e que desenhava e pintava de imaginação, ou simplesmente a minha própria anima, o que, na verdade, não me poupou de grandes problemas com as mulheres.
Olhei minha ex mulher, e ela abanava a cabeça...
A Passagem do Tempo
Nesta minha Oscar Freire envelheço e por causa da Internet não posso dizer como Mario de Andrade da sua Lopes Chaves, que "nem sei quem foi"... Entretanto me acompanha igual perplexidade, não tanto pela lenta metamorfose das paredes, das vitrines e das calçadas, mas pelo visível envelhecimento dos seguranças dessas lojas, que me denunciam o meu próprio envelhecimento. Também o desaparecimento de certos personagens, como o meu vizinho de meia idade, homem baixinho e gordo, que por longo tempo empurrou a cadeira de rodas de um seu decrépito e visivelmente atrabiliário irmão, até que desapareceram, quase imperceptivelmente, a cadeira e o irmão. Então fui interceptado na calçada durante anos pelo baixinho (que também envelhecia lentamente) com seu andar lento e pesado, com uma indefectível bolsa estilo anos 60 a tiracolo, para me mostrar um caderninho sem pauta onde ele aplicadamente desenhava mal e escrevia coisas que, cheio de deferência, me chamando de "professor", submetia à minha constrangida apreciação. Também ele sumiu, afinal, um dia, e fiquei sabendo pelo meu envelhecido porteiro, que o baixinho se deteriorara de uma maneira terrível, se desfazendo aos poucos, literalmente, em pedaços... Assim também as notícias de falecimentos de artistas de minha geração, que se vão inexoravelmente, dois ou três por ano, e são lembrados com respeito nos dois ou três primeiros meses... Tudo passa, "o tempo voa" e nos agarramos na aba de sua velha casaca, ou simplesmente desenhamos nos nossos caderninhos sem pauta, para mostrar aos nossos vizinhos, os outros seres humanos, para que aprovem, talvez para que se lembrem um dia, de nós....
Desventuras do artista quando jovem.
No final do ano de 1969 fui à Suíça para encontrar-me com uma namorada, linda garota de olhos cor de mel, filha de pai suíço (e mãe carioca), com quem eu tinha praticamente vivido em São Paulo por um ano, e que tendo seu pai se empenhado em afastá-la de mim, um artista pé-rapado paulistano, antecipara a ida dela (que falava alemão) à cidade natal dele, Basel, com um emprego que com seus contatos garantiu para ela num grande escritório de arquitetura. Entretanto combináramos, ela e eu, nos encontrarmos lá para vivermos juntos viajando pela Europa depois de cumprido por ela aquele estágio obrigatório nas condições que seu pai impusera. Demorei uns três meses para liquidar minhas parcas posses, minha parte num pequeno apartamento que eu tinha (em sociedade com minha segunda ex-mulher) além de meus móveis e meus quadros para poder ter dinheiro para a passagem e pelo menos para o primeiro ano com ela naquela cidade antes de sairmos pelo mundo, como era o seu sonho. Entretanto, como eu bebia demais, aquilo tudo era demais para mim, acima das minhas forças, principalmente porque eu já me encontrava no estágio alcoólico de uma certa depressão crônica, permanente. Nos três meses que me separaram da minha namorada "suiça", eu, carente, sem saber viver sozinho me envolvera com outra moça, de vinte anos, filha de pai armênio, que viria a ser a minha quarta mulher, a futura mãe de três de meus filhos. Foi esta que me levou no seu fusca, chorando, numa corrida patética ao aeroporto, para me entregar altruisticamente à minha namorada já "anterior" sem eu reconhecer. Resultado: eu tomaria aquele avião completamente dividido, me sentindo miseravelmente deprimido e já pensando em voltar. Lembro-me que antes do embarque as pessoas me olhavam muito pelo meu aspecto: cabelos e barba compridos, com uma espécie de sobretudo preto de lã que parecia uma casaca do século anterior, e que me dava, imagino, a aparência sombria de um jovem russo saído de um livro de Dostoiévsky, uma espécie de Raskolnicov do Crime e Castigo. Estávamos em plena ditadura militar, e com sequestros que haviam de aviões por "terroristas", as revistas eram severas. Sobre minhas roupas na mala havia minha caixa de tintas e pincéis com uma pequena faca sem ponta que eu usava às vezes como espátula, e que foi confiscada na revista, chamando mais a atenção para a minha constrangida pessoa. Dentro do avião, um português de meia idade, muito desenvolto, sentado ao meu lado puxou conversa. Perguntou: "Por que vais à Basiléia? Não tem nada lá, nem montanhas, e os suíços são uns "pizzas frias!" Aquilo me deixou mais deprimido ainda...
Depois do longo voo, torturante naquelas circunstâncias, sobrevoamos uma Paris noturna, que eu não haveria de conhecer, pois pousamos em Orly, onde sem sair do aeroporto fizemos baldeação e chegamos a Basel de noite, sem dar para perceber nada do aspecto da cidade. Tomei um táxi e pedi, em inglês, a um motorista mudo e insondável, para me levar a um hotel bem modesto e barato, onde me registrei sempre me sentindo observado com desconfiança, para passar a noite, esperando o amanhecer para telefonar para o escritório de Arquitetura Burkhardt para chamar minha namorada para ela me buscar. Bem cedinho telefonei do hotel e esperei-a no refeitório tomando o café da manhã. Nem dez minutos se passaram e ela entrou no pequeno saguão, andando em minha direção. Não era mais ela! Em três meses havia se passado uma vida sem eu perceber... ela ainda era linda, mas não a reconheci mais dentro de mim. Estava tudo perdido, eu me sentia trincado, numa situação falsa, já não reconhecia meus sentimentos, ela não merecia isto, era eu o culpado, eu só queria sumir, voltar ao meu ateliê, colar os cacos, me retomar...
Ela me levou até o pequeno prédio de três andares, de apartamentos minúsculos onde ela alugava uma espécie de kitchnette, e em que o zelador ou proprietário, mais um suíço calado e sinistro, também me olhava com olhar insondável, e em que, eu, já ligeiramente paranoico, via desconfiança e desprezo. Minha namorada me deixaria ali sozinho, saindo cedo todos os dias para ir ao trabalho, enquanto eu tentava desenhar em papéis sobre uma pequena mesa, ou tomava banho num banheira com uma ducha manual absurda com feitio de telefone, ou então saía para conhecer a cidade, demasiado limpa, às raias da assepsia, muito triste sob um céu baixo de chumbo sob o qual colegiais adolescentes, meninos e meninas louros, de bicicleta, pedalavam tranquilos, certamente dirigindo-se à escola, sem contudo alegrar as ruas em que predominava o crocitar lúgubre dos corvos que dominavam os ares e as árvores desgalhadas naquele fim de outono... crow, crow, crow...
Entretanto eu visitava todos os dias, por muitas horas, o famoso Kunstmuseum de Basel, onde ficava horas observando grandes pinturas, e em particular a obras mestras de Hans Holbein, o grande pintor renascentista natural daquela cidade. Ali me detinha numa sala especial onde dominava a célebre pintura deste mestre, que representa o cadáver de Cristo no túmulo, uma pintura assombrosa pelo realismo terrificante, em que você pode ver as feridas abertas, já coaguladas, perceber o começo da decomposição... e chegar a sentir-lhe o odor. Foi essa pintura que Dostoiévsky, no século XIX, visitando o Museu, pronunciou e depois botou na boca do seu príncipe Michkin, de O Idiota, como sendo palavras de um conhecido seu, a seguinte exclamação: "Eis aqui porquê perder a fé!"....
Naqueles dias, naquela cidade triste, naquele quarto estranho, ouvindo o crocitar dos corvos da minha depressão, eu só pensava em voltar ao Brasil. Eu saía de noite com minha namorada e íamos a cafés ou bistrôs, onde bebíamos vinho. Sem eu perceber, o álcool deteriorava mais ainda meu estado de espírito. Para piorar, chegavam quase diariamente de São Paulo cartas para mim, da nova rival da minha namorada, aumentando a minha divisão e meu mal estar. Minha namorada interceptou uma dessas cartas, lutamos por ela, e desisti. Era uma carta romanticamente estratégica, calculadamente sentimental e manipuladora, e ela, furiosa, leu-a em voz alta, ironizando, ridicularizando-a. Minha situação psicológica ficou insuportável pelo conflito interno e também pelo sentimento de culpa. Uma tarde fui ao banco retirar dinheiro e um funcionário, jovem suíço-brasileiro, talvez gerente, observando-me tão nitidamente deprimido parecendo um farrapo humano, se aproximou de mim e disse baixinho: "Rapaz, posso lhe apresentar um conterrâneo seu que reúne compatriotas em sua casa, para reuniões de apoio"... e deu-me um cartão com um nome e telefone. Percebi que ele deduziu (erroneamente) ser eu um militante de esquerda, certamente torturado, exilado. Agradeci a esta boa alma, me sentindo ainda mais confuso, envergonhado... Então decidi voltar a São Paulo. Não havia se passado mais que um mês e meio. Ela, a duras penas aceitou minha partida dizendo: "Então vá, "coizinho" (ela me chamava assim), pode ir embora, mas não volte para aquela ditadura, para aquele país horrível! Vá para Paris, que está a apenas duas horas de trem, daqui. Se não for, como artista vai se arrepender para o resto da vida!"
Mas eu não tinha condições psicológicas... Precisava retornar, ou morreria, eu senti...
Então, fomos de trem para Zurique onde eu pegaria um avião para o Brasil. Lembro-me bem da viagem de trem, onde eu já me senti bastante aliviado por estar voltando. Entretanto, era ela que estava me levando ao encontro da outra, para me entregar para a outra, numa estranha simetria inversa, que me parecia bastante sugestiva. De quê? Da generosidade e altruísmo da mulheres quando amam de verdade. Estarei enganado? Eu, fragilizado, na qualidade de "homem-objeto" em que me encontrava, dependia dessa generosidade, eu estava em frangalhos...
Em Zurique, comprada a passagem, eu teria que esperar muitas horas para o voo, então fomos passear, conhecer um pouco a cidade, que esta sim me pareceu belíssima, imponente, com um magnífico lago onde nadavam cisnes brancos, vistos da ponte maravilhosa onde ondulavam em mastros flâmulas de aspecto medieval. Percebia-se a riqueza daquela cidade em tudo, nas vitrines das lojas em que, quando se via um quadro exposto, por exemplo um Modigliani, era um original mesmo, em magnífica moldura, e não uma cópia ou um poster. Outras apresentavam na decoração espadas, montantes, alabardas, elmos e armaduras medievais verdadeiras, nunca cópias. Eu me sentia pequeno, um jeca, um terceiro-mundista subdesenvolvido diante daquilo tudo. Fomos fazer hora num grande restaurante onde em compridas mesas coletivas, os convivas cantavam uma espécie de brinde, em coro, alegremente erguendo grandes canecos de cerveja, em que depois de uma frase curta levemente modificada a cada vez, o coro repetia algo como Saf Haus, Saf Haus, Saf Haus (Quem nasceu em Janeiro... chupa tudo, chupa tudo, chupa tudo... Quem nasceu em Dezembro...) Um dia eu iria cantar isso para meus filhos se divertirem... E foi ela, minha abandonada namorada, que a meu pedido traduziu o significado daquela canção, que me parecia uma amostra da distante alegria do mundo, da vida dos normais, dos leves e despreocupados, e talvez muito mais íntegros habitantes do mundo real...
À tardinha fomos a um bistrô para beber um bom vinho de despedida. Estávamos sentados a um mesa, conversando, quando entrou um casal jovem com um bebê num cesto que pousaram no chão ao lado da mesa deles. Olhei-os, perplexo, cheio de admiração. Eram todos os três os mais belos espécimes de seres humano que jamais vi. Verdadeiros deuses vivos. O rapaz era muito alto, loiro, de cabelos encaracolados, barba também loira e olhos azuis. Um verdadeiro viking redivivo. A moça, uma beldade também loira de olhos verdes, e o bebê, de uma beleza divina, dormindo tranquilo em sua confortável cestinha, branquinho, loiro e corado como uma maçã perfeita.
Entretanto o casal olhava muito para nós, intrigados, enquanto falávamos sem parar, não me lembro sobre o quê. Então o rapaz lá da mesa dele dirigiu a palavra em alemão para nós, algo que me pareceu uma pergunta. Minha namorada respondeu gentilmente em alemão e o rapaz sorrindo fez um gesto muito harmônîco e falou mais alguma coisa enquanto sua parceira também sorria para nós. Perguntei à minha namorada o que ele tinha perguntado, já que eu não falo alemão. Ela disse: "Eles queriam saber que língua nós estamos falando e eu respondi "português do Brasil." Então ele disse: "É a mais bela língua que jamais ouvi. Parece uma música ... " E nós dois então agradecemos ao belo casal com um aceno e um sorriso, gratos.
Aquilo afinal me fez bem, melhorando um pouquinho a minha auto-estima, já que sempre fui consciente de falar um português perfeito com dicção bem articulada a minha vida toda, fruto talvez das minhas leituras dos clássicos. Afinal eu não era tão... assim, um pé rapado, pelo menos não na minha terra...
Afinal chegou a hora da partida. Ela se despediu de mim no saguão do aeroporto diante da sala de embarque, abraçando-me forte... minha linda namorada "suíça" que eu abandonava para sempre, grato por ela me liberar com relativa facilidade, porque eu não tinha mais condições de nada. Eu iria iniciar uma nova vida com a pequena "armênia", e ter filhos com ela.
Muitos anos depois, morando em Olinda com minha esposa grávida de meu terceiro filho com ela, eu estava em São Paulo no bem sucedido vernissage de uma exposição individual minha, de desenhos, na Galeria Cosme Velho, e para minha surpresa minha ex namorada "suiça", linda, loira, sedutora, apareceu com um boá de plumas negras e nos sentamos à mesa de um café nas proximidades da Galeria para conferirmos nossas vivências depois da nossa separação. Anos tinham se passado e ela me confidenciou que após minha partida ela teve uma crise e quebrou tudo no quarto, tiveram que intervir. Agora, ela, deslumbrante, tentava me seduzir já a partir daquele novo encontro e cheguei a ficar terrivelmente tentado... Entretanto a lembrança da minha pobre armeniazinha que já tinha perdido o nosso primeiro filho, e naquele momento novamente grávida lá em Olinda, me fez resistir (acreditem se quiserem), para sua nova decepção. Mas iriam se passar ainda mais quinze anos antes de me render a mim mesmo, e me tratar...
Retrato de um artista quando jovem
Estive pensando em algumas figuras de minha juventude, que se esvaeceram, se distanciaram e desapareceram numa espécie de neblina da memória, mas que voltam às vezes como espectros, aqueles que morreram por seus excessos, tão próprios da nossa geração. Hoje sonhei pela primeira vez com o Marcio Mattar, breve amizade dos meus vinte anos, um jovem artista do Rio de Janeiro, natural da Zona Norte (Rio Comprido) que apareceu como um cometa em São Paulo, no começo dos anos 60, excepcionalmente belo e encantador, conquistando facilmente amigos no ambiente artístico da nossa "Paulicéia Desvairada ". Lembro de que uma vez, eu morando num ateliê- porão ( meu "Bateau-Lavoir" paulistano da rua Mato Grosso), praticamente na miséria, o levei um dia à casa de minha mãe para filarmos uma bóia, e ela, encantada com ele, praticamente o queria adotar. Entretanto, Marcio bebia com uma sede avassaladora. Dois anos mais tarde, eu já casado com Jomara, fomos visitá-lo, próspero, na sua casa enorme de Santa Tereza, onde ele fazia sucesso com móveis belíssimos, rústicos, de madeira pesada que ele construía com as próprias mãos, queimando a peroba com maçarico e depois esfregando com escovas de aço, num trabalho sujo e pesadíssimo, que ele, atlético e às custas da energia adicional do álcool, conseguia realizar entre ressacas homéricas e dolorosíssimas. Ficamos hospedados, Jomara e eu, na casa dele e vimos esse trabalho impossível, feito praticamente sozinho, que o sustentava no mundo dos seus ricos clientes, e talvez falsos amigos emergentes da Zona Sul do Rio, numa festa contínua de álcool e drogas, que ele entremeava com seu labor titânico. Mas certamente foi o álcool que o exauriu, e ele morreu por volta dos trinta anos, de cirrose e exaustão. Que posso dizer disso? Marcio viveu intensamente e se queimou como uma tocha, numa imensa voracidade de vida, arte, trabalho, prazeres e desespero. Quanta angústia devia sentir, sem nunca se queixar!... Era um instintivo, um primitivo de nova era, e por isso se consumiu mais rapidamente, enquanto nós, negociávamos com o álcool para durar mais, certamente por uma certa malícia intelectual, senão covardia mesmo...
ANIMA
Como já sabiam os gregos e romanos (e os antigos em geral), a alma de uma pessoa, homem ou mulher, é sempre uma mulher. É por isso que a Alma Welt, sendo minha anima viva, é profundamente feminina (coisa que eu mesmo, no todo, não o sou) a despeito de faltar nela futilidade e vaidade, coisas tipicamente femininas que no entanto ninguém até hoje cobrou ou sentiu falta nela. É curioso ver como as leitoras se identificam com ela, mesmo sem estas duas características. Talvez seja porque tais atributos negativos não sejam puramente femininos e os homens também os possuam. De qualquer modo, no terreno sublimado da poesia essas duas coisas não entrem em linha de conta senão como humor ou autocrítica...
DA GRANDEZA DE SERVIR
"Vou lhes confidenciar, meus amigos, algo que pode causar estranheza, ou mesmo incredulidade: Apesar de quando jovem pintor razoavelmente reconhecido, ter sido considerado bonito, eu prefiro muito mais a minha atual condição de velho cheio de mazelas físicas e até mesmo um certo e preocupante declínio da visão. Absurdo? Por que? Porque quando jovem eu sentia um desconforto existencial permanente, como se não coubesse bem na minha pele. Sempre sonhei com ser um velho pintor consagrado e afinal livre das obrigações de lutar desesperadamente e vencer... e devido a um desesperado e renitente sentimento de solidão, ter me levado a arcar com responsabilidades de marido e pai, muito maiores que as minhas forças ou capacidade. Na verdade tudo o que eu queria era ser um artista, um pintor, e secretamente também um escritor. Resultado: fracassei em tudo mais: como pai, marido (não conseguia ser fiel) e provedor (fui à falência financeira ainda na pré-adolescência dos meus filhos). Entretanto, agora, já há duas décadas me sinto livre, mais leve por dentro, embora muito mais pesado por fora, respiração deficiente, uma catarata operada e uma próstata ameaçadora. Adquiri finalmente o sagrado direito de ser pobre. Sinto como se não pudessem me cobrar mais nada, embora alguns filhos ainda o façam de longe, presos, uns, num ressentimento triste, talvez legítimo. Apesar de tudo, garanto: é tão bom poder somente pintar, e purgar na escrita os erros da juventude, redescobrindo seu sentido e até mesmo sua poesia, então passada despercebida ou negligenciada em sua beleza e plenitude. Compreendo agora a afirmação do Riobaldo, narrador, já velho, cheio de espantosas memórias, no Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa: "....mas, juventude, é tarefa pra mais tarde se desmentir..."
MINHA HISTÓRIA NA LITOGRAFIA
"A arte litográfica consiste em obter o máximo de efeito com um mínimo de recursos." (Alois Senefelder, inventor da litografia, no século XVIII).
"Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso, sou doido com todo direito a sê-lo. Com todo direito a sê-lo, ouviram?"
(Álvaro de Campos, heterônimo do poeta Fernando Pessoa).
Se a alguém ocorresse perguntar o que ocorreu com a minha produção de litografias, já que foi tão prolífera e de tanto sucesso durante vinte anos, devo contar uma história: No final dos anos 60 se estabeleceu em São Paulo, primeiramente na rua Urano na Aclimação e depois passando para rua Amália de Noronha, em Pinheiros, um modesto ateliê de litografias, com uma prensa antiga e um pequeno estoque de pedras da Bavária, fundado pelo gaúcho Otávio Pereira, que no começo daquela década tinha ido aos Estados Unidos com a intenção de estudar ballet clássico para se tornar um bailarino profissional. Por alguma razão seu projeto não se realizou, e Otávio, para sobreviver, encontrou emprego de granitador e esponjador no Studio Gemini, de Los Angeles, que naquela época estava empenhado na edições dos artistas da Pop Art, como Robert Rauchemberg, Jasper Johns, Frank Stella e outros como o alemão geométrico Albers, tendo como produtor e editor Garo Andresian que depois dirigiu a Gráfica Tamarindo na Universidade do Novo México. O Otávio Pereira, começando como operário, não tardou a aprender o ofício de impressor, que por si mesmo é quase uma arte porque exige uma certa sensibilidade e um apurado senso de cores.
Voltando ao Brasil, em São Paulo, com um pequeno capital, Otávio começou a procurar uma prensa antiga de litografia e um estoque de pedras da Bavária, para fundar seu ateliê de lito, seu novo sonho e projeto. Começaria ali a segunda saga da litografia no Brasil, já que no século XIX teria havido a primeira, com grandes artistas-cronistas de costumes como Jean-Baptiste Debret, e mais tarde Angelo Agostini.
Para manter o seu Ateliê de Litografias, que ele batizou URANO, por causa da rua, Otávio procurava os artistas mais conhecidos de São Paulo e propunha a eles desenharem nas pedras, e ele, com seu primeiro impressor e um *granitador e *esponjador, o jovem Zé Carlos, ex assistente de coveiro, e também Roberto Giarffi, o "alemão", fariam o processamento e a impressão das tiragens que Otávio dividiria com os artistas, já que estes em geral não tinham dinheiro para pagar esse trabalho, nem teriam meios eficientes de comercializá-lo.
Os primeiros artistas brasileiros dessa fase a utilizarem regularmente o ateliê Urano foram a Maria Bonomi, que já era famosa xilógrafa, o Yvald Granato, pintor e desenhista do Rio de Janeiro, que mudara-se para São Paulo e o Rubens Gershman, também do Rio, mas morando aqui naquela época, e o pintor surrealista Otávio Araujo, Tomoshige Kusuno e outros. Então a gráfica mudou-se para a rua Amália de Noronha, em Pinheiros .
Os artistas dividiam as pequenas tiragens, e a Gráfica Urano não tendo um mercado estabelecido para essas espécie de gravuras vivia na corda bamba, endividada e à beira da falência, principalmente por Otávio ser mais um artista do que um empresário. Então, o quê fazer?
Então Otávio conheceu o empresário Fernando Silva, baiano elegante, culto e rico, colecionador de arte, que morava numa mansão do Jardim Europa, cheia de quadros, e, à propósito, casado com uma linda americana loira natural de olhos verdes amendoados, Katrin, de quem, encomendado por ele pintei um belo retrato a óleo (episódio curioso que um dia contarei em detalhes). Fernando seria o primeiro financiador da gráfica do Otávio mas por poucos anos. Foi nesse tempo o primeiro contato que tive com a Urano e o Otávio, por volta do ano de 1968.
Durante o vernissage de uma exposição individual dos meus desenhos na Galeria Cosme Velho na Alameda Lorena, Fernando e Otávio apareceram e começaram a me "cantar" para fazer litografias na gráfica deles. Tentavam me seduzir dizendo, por exemplo: "Seu desenho tem vocação litográfica, Guilherme. Veja estas aguadas de nanquim, estas texturas... você pode conseguir esses efeitos na pedra, usando "touche" magro, de água (uma espécie de nanquim litográfico), fazendo um "lavis" para essas transparências. E você terá seu desenho multiplicado pela tiragem em edição, e ganhará muito mais dinheiro..." ( Ah! o canto das sereias!... )
Um dia, durante temporada daquela exposição, aceitei ser levado por eles até a Urano, onde eles já tinham uma pedra preparada para mim sobre a mesa. Me deram o touche e eu com o meu pincel de desenho fiz rapidamente um desenho sobre a pedra. Eles correram a processá-la e a tirar uma única prova para me seduzir. Realmente ficou muito boa mas não foi feita tiragem porque eu ainda não estava disposto a me dedicar àquilo. Onde andará aquele exemplar único de minha primeira lito?
Entretanto por incompetência administrativa ou por falta de mercado, a gráfica Urano começou a dar prejuízo e o Fernando Silva desfez a sociedade e abandonou o negócio na mão do Otávio, que endividado faliu, e a prensa e as pedras foram confiscadas pelos credores.
Foi então que o Granato lembrou-se de um colecionador seu amigo do Rio, o Elsio Motta, ex oficial da Marinha que tinha se mudado para São Paulo onde acabara de deixar as Indústrias Pignatari onde ocupara um cargo executivo e saíra com um pequeno capital de indenização que pensava em investir num negócio. Granato apresentou o Elsio ao Otávio e os dois fizeram sociedade na Gráfica que passou a se chamar Ymagos ( que significa Imagem em grego). Elsio pagou as dívidas da gráfica e resgatou a prensa e as pedras. Começaria a nova e grande fase da Gráfica que aos poucos compraria mais prensas e mais pedras da Bavária (chegando mais tarde a importar algumas bem grandes, que vinham de navio). Logo acrescentaria uma molduraria para ter mais autonomia e se chamaria Glatt -Ymagos (Glatt significa vidro em alemão).
Então, em 1970, esta nova dupla apareceu na minha nova exposição de desenhos na Galeria Cosme Velho e renovou seu canto de sereia. Mas eu continuava refratário a essa técnica, pois estava empenhado nos meus desenhos e na pintura a óleo em que eu começara uma nova fase que chamei de "baconiana", já que tinha uma visível influência do pintor inglês Francis Bacon que me impressionara muito. Então, em 1971, casado (pela quarta vez) com Elisa Nazarian (que muitos anos mais tarde, depois de separados, se tornaria notável escritora com vários livros publicados), perdemos nosso primeiro filho com um mês e dez dias e, traumatizados, aceitamos um convite do meu amigo e marchand Giuseppe Baccaro, que solidário, nos convidou para nos mudarmos para Olinda PE, onde ele estava morando, me oferecendo um casarão colonial maravilhoso que ele restaurou pensando em nós, na rua de São Bento, para morarmos gratuitamente e instalar meu ateliê para continuar pintando num novo cenário, belíssimo, que ajudaria a curar nossa depressão. Santo Baccaro! Que saudade desse grande amigo da minha juventude! .
Em 1974 voltei com a família (minha mulher e meus filhos Tamayo e Rhena, que nasceram em Recife) para a minha São Paulo definitivamente, inaugurando em Julho minha exposição individual de óleos da minha "fase baconiana" na Galeria Arte Global, da Rede Globo de Televisão, na Alameda Santos. Durante a montagem ali chegou a dupla Elsio Motta e Otávio, novamente, que tendo proposto à direção da Galeria que lançasse a cada exposição uma litografia do expositor para oferecer um produto mais barato e acessível ao público comum, já que os quadros, pelos altos preços só eram acessíveis a uma elite econômica. A proposta pegou, e eu fui o primeiro a ser envolvido e não tive escapatória. Assinei o contrato triangular para uma edição de lito a ser lançada na minha exposição de pintura, quase como um brinde, baratíssima, praticamente de graça. Fui à gráfica, e tentando evitar concorrência com meus próprios desenhos de nus, lancei sobre a pedra, a pincel e touche, um desenho de um touro das cavernas, em preto e branco, com uma segunda impressão, uma mancha vermelha no peito do animal. Foi um sucesso fenomenal! Tiramos uma edição de 100 exemplares, que eram vendidos na galeria durante a exposição, tão barato que as pessoas tinham direito a adquirir somente uma, colocando seu nome num livro. Acontece que as galerias enviavam funcionárias que compravam e voltavam com outros nomes e no final a galeria liberou e elas saíam com diversos rolos debaixo do braço. O meu touro começou a aparecer à venda nas galerias a preços bem maiores. O público incrivelmente reconhecia meu traço mesmo numa figura de animal e não somente nos nus que me haviam consagrado. Percebi que o mercado tinha fome desse tipo de produto de arte, mais acessível e democrático. Então me rendi e disse ao Elsio e ao Otávio: "Enfileirem dez pedras que vou lá lançar dez imagens de uma vez, em poucos minutos". Como? (eles se espantaram). "Sim" - eu disse- "Vocês me viram desenhar o touro. Meu desenho é zen, gestual , instantâneo, com a mente em branco, ao nível dos reflexos. Aprendi a desenhar a pincel, vendo uma certa cena de filme de esgrima samurai, da vida do *Myamoto Musachi. Tanto faz lutar contra um antagonista como contra uma academia inteira. Enfileirem dez pedras e me deem dois minutos, me observando". Eles retrucaram: "As mesas não são tão longas, cabem cinco pedras. Serve?" Sim, vamos lá!" - eu disse.
Logo eu estaria assinando as primeiras cinco edições de litos com os meus nus da fase dos corpetes, semelhantes aos meus desenhos originais da fase de sucesso nascida em 1964.Desde o princípio Elsio contaria com a preciosa colaboração de sua paciente esposa Anália (a Analita) que faria a limpeza e supervisão de milhares de tiragens inteiras e de sua filha Patricia Motta, a herdeira da Ymagos e sua única grande diretora e impulsionadora nas últimas décadas.
Começou assim a festa da gravura que para mim durou vinte anos (de 1974 a 1995) e quase mil edições.
Muita coisa ocorreu durante esse período, claro, referente à fase das litos, que aos poucos contarei futuramente.
Notas
* "granitador" é uma operário que lixa as pedras litográficas com um pó
Quanto ao * "esponjador", é um operário que fica do outro lado da prensa, oposto ao do impressor, esponjando a pedra desenhada já preparada quimicamente com uma mistura de goma arábica e ácido nítrico e com o pigmento preto dos crayons litográficos já lavados por um solvente, e assim o desenho ficando só como um fantasma de gordura. para manter a pedra úmida por igual por causa da goma arábica que não sai com o solvente, para o impressor passar varias vezes sobre a pedra o rolo entintado. A água repele gordura e gordura atrai gordura. Assim, a superfície úmida repele a tinta do rolo e não se suja, e onde o artista desenhou, a gordura saponificada pelo acido nítrico atrai a tinta do rolo e o desenho aflora entintado. Coloca-se o papel por cima, depois uma placa fórmica engraxada por cima da folha e desce- se a alavanca da ratora da prensa e o impressor gira a manivela, a mesa corre sob a ratora, sob enorme pressão. Levantas-e a ratora e puxa-se a mesa que corre solta de volta. Tira-se a placa de fórmica e depois com dois dedos levanta-se por uma ponta da folha delicadamente com o primeiro exemplar impresso. Repete-se este processo quantas vezes for a tiragem combinada.
*Myamoto Musachi. - foi o maior samurai do Japão, histórico, real, mas que se tornou quase mítico, criador do "estilo duas espadas". Os japoneses fizeram inúmeros filmes sobre sua vida e seus inúmeros duelos que se tornaram lendários (na verdade bem documentados). A visão de uma determinada cena de esgrima samurai, na forma de koan (pequena fábula zen) em um desses filmes me produziu um "satori" ( espécie de iluminação que me ensinou a desenhar com um pincel nacional longo, da Tigre, de poucas cerdas muito longas, finíssimo, na vertical como um calígrafo japonês produzindo as linhas moduladas que sugerem os volumes, eu de pé, gestualmente, com a mente em branco, ao nível dos reflexos do espírito. O desenho nasce fluido e espontâneo, frente aos olhos dos espectadores, perfeito, sem modelo nem esboços, retomadas ou rasuras, definitivo, sem nunca perder uma folha do precioso e caro papel Shoeller alemão.
"Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso, sou doido com todo direito a sê-lo. Com todo direito a sê-lo, ouviram?"
(Álvaro de Campos, heterônimo do poeta Fernando Pessoa).
Se a alguém ocorresse perguntar o que ocorreu com a minha produção de litografias, já que foi tão prolífera e de tanto sucesso durante vinte anos, devo contar uma história: No final dos anos 60 se estabeleceu em São Paulo, primeiramente na rua Urano na Aclimação e depois passando para rua Amália de Noronha, em Pinheiros, um modesto ateliê de litografias, com uma prensa antiga e um pequeno estoque de pedras da Bavária, fundado pelo gaúcho Otávio Pereira, que no começo daquela década tinha ido aos Estados Unidos com a intenção de estudar ballet clássico para se tornar um bailarino profissional. Por alguma razão seu projeto não se realizou, e Otávio, para sobreviver, encontrou emprego de granitador e esponjador no Studio Gemini, de Los Angeles, que naquela época estava empenhado na edições dos artistas da Pop Art, como Robert Rauchemberg, Jasper Johns, Frank Stella e outros como o alemão geométrico Albers, tendo como produtor e editor Garo Andresian que depois dirigiu a Gráfica Tamarindo na Universidade do Novo México. O Otávio Pereira, começando como operário, não tardou a aprender o ofício de impressor, que por si mesmo é quase uma arte porque exige uma certa sensibilidade e um apurado senso de cores.
Voltando ao Brasil, em São Paulo, com um pequeno capital, Otávio começou a procurar uma prensa antiga de litografia e um estoque de pedras da Bavária, para fundar seu ateliê de lito, seu novo sonho e projeto. Começaria ali a segunda saga da litografia no Brasil, já que no século XIX teria havido a primeira, com grandes artistas-cronistas de costumes como Jean-Baptiste Debret, e mais tarde Angelo Agostini.
Para manter o seu Ateliê de Litografias, que ele batizou URANO, por causa da rua, Otávio procurava os artistas mais conhecidos de São Paulo e propunha a eles desenharem nas pedras, e ele, com seu primeiro impressor e um *granitador e *esponjador, o jovem Zé Carlos, ex assistente de coveiro, e também Roberto Giarffi, o "alemão", fariam o processamento e a impressão das tiragens que Otávio dividiria com os artistas, já que estes em geral não tinham dinheiro para pagar esse trabalho, nem teriam meios eficientes de comercializá-lo.
Os primeiros artistas brasileiros dessa fase a utilizarem regularmente o ateliê Urano foram a Maria Bonomi, que já era famosa xilógrafa, o Yvald Granato, pintor e desenhista do Rio de Janeiro, que mudara-se para São Paulo e o Rubens Gershman, também do Rio, mas morando aqui naquela época, e o pintor surrealista Otávio Araujo, Tomoshige Kusuno e outros. Então a gráfica mudou-se para a rua Amália de Noronha, em Pinheiros .
Os artistas dividiam as pequenas tiragens, e a Gráfica Urano não tendo um mercado estabelecido para essas espécie de gravuras vivia na corda bamba, endividada e à beira da falência, principalmente por Otávio ser mais um artista do que um empresário. Então, o quê fazer?
Então Otávio conheceu o empresário Fernando Silva, baiano elegante, culto e rico, colecionador de arte, que morava numa mansão do Jardim Europa, cheia de quadros, e, à propósito, casado com uma linda americana loira natural de olhos verdes amendoados, Katrin, de quem, encomendado por ele pintei um belo retrato a óleo (episódio curioso que um dia contarei em detalhes). Fernando seria o primeiro financiador da gráfica do Otávio mas por poucos anos. Foi nesse tempo o primeiro contato que tive com a Urano e o Otávio, por volta do ano de 1968.
Durante o vernissage de uma exposição individual dos meus desenhos na Galeria Cosme Velho na Alameda Lorena, Fernando e Otávio apareceram e começaram a me "cantar" para fazer litografias na gráfica deles. Tentavam me seduzir dizendo, por exemplo: "Seu desenho tem vocação litográfica, Guilherme. Veja estas aguadas de nanquim, estas texturas... você pode conseguir esses efeitos na pedra, usando "touche" magro, de água (uma espécie de nanquim litográfico), fazendo um "lavis" para essas transparências. E você terá seu desenho multiplicado pela tiragem em edição, e ganhará muito mais dinheiro..." ( Ah! o canto das sereias!... )
Um dia, durante temporada daquela exposição, aceitei ser levado por eles até a Urano, onde eles já tinham uma pedra preparada para mim sobre a mesa. Me deram o touche e eu com o meu pincel de desenho fiz rapidamente um desenho sobre a pedra. Eles correram a processá-la e a tirar uma única prova para me seduzir. Realmente ficou muito boa mas não foi feita tiragem porque eu ainda não estava disposto a me dedicar àquilo. Onde andará aquele exemplar único de minha primeira lito?
Entretanto por incompetência administrativa ou por falta de mercado, a gráfica Urano começou a dar prejuízo e o Fernando Silva desfez a sociedade e abandonou o negócio na mão do Otávio, que endividado faliu, e a prensa e as pedras foram confiscadas pelos credores.
Foi então que o Granato lembrou-se de um colecionador seu amigo do Rio, o Elsio Motta, ex oficial da Marinha que tinha se mudado para São Paulo onde acabara de deixar as Indústrias Pignatari onde ocupara um cargo executivo e saíra com um pequeno capital de indenização que pensava em investir num negócio. Granato apresentou o Elsio ao Otávio e os dois fizeram sociedade na Gráfica que passou a se chamar Ymagos ( que significa Imagem em grego). Elsio pagou as dívidas da gráfica e resgatou a prensa e as pedras. Começaria a nova e grande fase da Gráfica que aos poucos compraria mais prensas e mais pedras da Bavária (chegando mais tarde a importar algumas bem grandes, que vinham de navio). Logo acrescentaria uma molduraria para ter mais autonomia e se chamaria Glatt -Ymagos (Glatt significa vidro em alemão).
Então, em 1970, esta nova dupla apareceu na minha nova exposição de desenhos na Galeria Cosme Velho e renovou seu canto de sereia. Mas eu continuava refratário a essa técnica, pois estava empenhado nos meus desenhos e na pintura a óleo em que eu começara uma nova fase que chamei de "baconiana", já que tinha uma visível influência do pintor inglês Francis Bacon que me impressionara muito. Então, em 1971, casado (pela quarta vez) com Elisa Nazarian (que muitos anos mais tarde, depois de separados, se tornaria notável escritora com vários livros publicados), perdemos nosso primeiro filho com um mês e dez dias e, traumatizados, aceitamos um convite do meu amigo e marchand Giuseppe Baccaro, que solidário, nos convidou para nos mudarmos para Olinda PE, onde ele estava morando, me oferecendo um casarão colonial maravilhoso que ele restaurou pensando em nós, na rua de São Bento, para morarmos gratuitamente e instalar meu ateliê para continuar pintando num novo cenário, belíssimo, que ajudaria a curar nossa depressão. Santo Baccaro! Que saudade desse grande amigo da minha juventude! .
Em 1974 voltei com a família (minha mulher e meus filhos Tamayo e Rhena, que nasceram em Recife) para a minha São Paulo definitivamente, inaugurando em Julho minha exposição individual de óleos da minha "fase baconiana" na Galeria Arte Global, da Rede Globo de Televisão, na Alameda Santos. Durante a montagem ali chegou a dupla Elsio Motta e Otávio, novamente, que tendo proposto à direção da Galeria que lançasse a cada exposição uma litografia do expositor para oferecer um produto mais barato e acessível ao público comum, já que os quadros, pelos altos preços só eram acessíveis a uma elite econômica. A proposta pegou, e eu fui o primeiro a ser envolvido e não tive escapatória. Assinei o contrato triangular para uma edição de lito a ser lançada na minha exposição de pintura, quase como um brinde, baratíssima, praticamente de graça. Fui à gráfica, e tentando evitar concorrência com meus próprios desenhos de nus, lancei sobre a pedra, a pincel e touche, um desenho de um touro das cavernas, em preto e branco, com uma segunda impressão, uma mancha vermelha no peito do animal. Foi um sucesso fenomenal! Tiramos uma edição de 100 exemplares, que eram vendidos na galeria durante a exposição, tão barato que as pessoas tinham direito a adquirir somente uma, colocando seu nome num livro. Acontece que as galerias enviavam funcionárias que compravam e voltavam com outros nomes e no final a galeria liberou e elas saíam com diversos rolos debaixo do braço. O meu touro começou a aparecer à venda nas galerias a preços bem maiores. O público incrivelmente reconhecia meu traço mesmo numa figura de animal e não somente nos nus que me haviam consagrado. Percebi que o mercado tinha fome desse tipo de produto de arte, mais acessível e democrático. Então me rendi e disse ao Elsio e ao Otávio: "Enfileirem dez pedras que vou lá lançar dez imagens de uma vez, em poucos minutos". Como? (eles se espantaram). "Sim" - eu disse- "Vocês me viram desenhar o touro. Meu desenho é zen, gestual , instantâneo, com a mente em branco, ao nível dos reflexos. Aprendi a desenhar a pincel, vendo uma certa cena de filme de esgrima samurai, da vida do *Myamoto Musachi. Tanto faz lutar contra um antagonista como contra uma academia inteira. Enfileirem dez pedras e me deem dois minutos, me observando". Eles retrucaram: "As mesas não são tão longas, cabem cinco pedras. Serve?" Sim, vamos lá!" - eu disse.
Logo eu estaria assinando as primeiras cinco edições de litos com os meus nus da fase dos corpetes, semelhantes aos meus desenhos originais da fase de sucesso nascida em 1964.Desde o princípio Elsio contaria com a preciosa colaboração de sua paciente esposa Anália (a Analita) que faria a limpeza e supervisão de milhares de tiragens inteiras e de sua filha Patricia Motta, a herdeira da Ymagos e sua única grande diretora e impulsionadora nas últimas décadas.
Começou assim a festa da gravura que para mim durou vinte anos (de 1974 a 1995) e quase mil edições.
Muita coisa ocorreu durante esse período, claro, referente à fase das litos, que aos poucos contarei futuramente.
Notas
* "granitador" é uma operário que lixa as pedras litográficas com um pó
Quanto ao * "esponjador", é um operário que fica do outro lado da prensa, oposto ao do impressor, esponjando a pedra desenhada já preparada quimicamente com uma mistura de goma arábica e ácido nítrico e com o pigmento preto dos crayons litográficos já lavados por um solvente, e assim o desenho ficando só como um fantasma de gordura. para manter a pedra úmida por igual por causa da goma arábica que não sai com o solvente, para o impressor passar varias vezes sobre a pedra o rolo entintado. A água repele gordura e gordura atrai gordura. Assim, a superfície úmida repele a tinta do rolo e não se suja, e onde o artista desenhou, a gordura saponificada pelo acido nítrico atrai a tinta do rolo e o desenho aflora entintado. Coloca-se o papel por cima, depois uma placa fórmica engraxada por cima da folha e desce- se a alavanca da ratora da prensa e o impressor gira a manivela, a mesa corre sob a ratora, sob enorme pressão. Levantas-e a ratora e puxa-se a mesa que corre solta de volta. Tira-se a placa de fórmica e depois com dois dedos levanta-se por uma ponta da folha delicadamente com o primeiro exemplar impresso. Repete-se este processo quantas vezes for a tiragem combinada.
*Myamoto Musachi. - foi o maior samurai do Japão, histórico, real, mas que se tornou quase mítico, criador do "estilo duas espadas". Os japoneses fizeram inúmeros filmes sobre sua vida e seus inúmeros duelos que se tornaram lendários (na verdade bem documentados). A visão de uma determinada cena de esgrima samurai, na forma de koan (pequena fábula zen) em um desses filmes me produziu um "satori" ( espécie de iluminação que me ensinou a desenhar com um pincel nacional longo, da Tigre, de poucas cerdas muito longas, finíssimo, na vertical como um calígrafo japonês produzindo as linhas moduladas que sugerem os volumes, eu de pé, gestualmente, com a mente em branco, ao nível dos reflexos do espírito. O desenho nasce fluido e espontâneo, frente aos olhos dos espectadores, perfeito, sem modelo nem esboços, retomadas ou rasuras, definitivo, sem nunca perder uma folha do precioso e caro papel Shoeller alemão.
Um depoimentinho...
Vindo de uma família de classe média culta empobrecida, eu sempre fui pobre sem me deixar seduzir pelo comunismo como a maioria dos artistas da minha geração. Isso porque não sou invejoso da fortuna alheia. Quando jovem eu tive a secreta e tola esperança de ficar rico com minha arte (que fazia sucesso) sim, como todos os artistas têm, mas não fui capaz de fazer as necessárias concessões para isso. Na verdade, eu não tinha a veia comercial, e deixei que outros comercializassem minhas obras, eu ficando com a menor parte. Eu me deixei explorar alegremente, lisonjeado de que meu trabalho vendesse, e tão precocemente entrasse no "mercado", ainda que na mão dos outros e não na minha. Ingenuidade? Eu pensava que isso era uma boa estratégia de longo prazo... Mas isto aqui é Brasil, então já viram, né? Fiquei famoso e continuei pobre, coisa que só acontece neste país. Mas eu tenho um trunfo: apaixonei-me de tal forma pela minha arte, que fui descartando todos os outros desejos e veleidades. Não desejo mais nada material a não ser o pão nosso de cada dia, um bom chuveiro elétrico, e um bom provedor de Internet...
"Seis graus de aproximação"
Ontem foi aniversário do meu filho mais velho, que passo meses sem ver. Encontrei-o por acaso na rua Augusta, quando eu saía de uma farmácia e ele estava com sua mãe, uma "ex", mãe de três dos meus filhos, e que há muitos anos eu não via. Foi perturbador, emocionante. Os dois sempre tiveram uma relação tumultuada, e vê-los juntos se dirigindo a um cinema, provavelmente na Paulista, foi comovente... Eles estavam adiantados para o horário da sessão e pudemos conversar por uma hora, de pé na frente da Farmácia. Naturalmente começamos a conferir episódios do nosso passado e me dei conta de como nossas visões dos acontecidos não conferiam, a não ser em poucos detalhes mais superficiais. A realidade é subjetiva, assim como os espelhos. Entretanto eu pude ver através de sua pele sofrida, a jovem, quase adolescente que ela fora, e sua beleza, que eu ainda reconhecia, apesar de tudo. Meu filho, cuja barba começa a branquear lembrou episódios de nossa relação em sua infância, que não me desabonam, e que arrematou me abraçando. Nessa noite custei a dormir, revisando cada minuto de nossa conversa a três. Num certo momento, meu filho tirou de uma sacola os livros que sua mãe lhe dera há pouco, como presente. Tratava-se das Crônicas Completas de Rubem Braga, e ele perguntou se eu o havia conhecido e lido, e se gostava. Sim, eu havia lido algumas num passado remoto, e que mal me lembrava. Quanto a se o tinha conhecido pessoalmente, eu lembrei: "Esse é mais um de que eu tenho pelo menos dois dos "seis graus de aproximação" (possíveis entre todos nós no mundo, teoria matemática ou espiritual, em que acredito). E recordei: " No começo dos anos 90, eu estava com o pintor Siron Franco, saindo da gráfica Ymagos onde ele fora fazer uma litografia para lançar na exposição da novas maravilhosas pinturas que ele estava para inaugurar na Galeria Paulo Vasconcelos. Assim que chegamos na Galeria ele ligou interurbano para o Rubem Braga seu amigo, no Rio, para comunicar e convidar para a sua exposição. A certa altura de sua breve conversa, ele disse: "Advinha com quem estou agora aqui na galeria? Com o Guilherme de Faria! " Esperou um segundo e tapando o bocal me disse: "O Rubem disse: "Aquele, das peladas? Pergunta a ele se ele ........ essa mulherada toda?" Eu soltei uma gargalhada, perdoando, no ato, a vulgaridade jocosa típica do carioca, talvez lisonjeado pelo grande cronista conhecer minha arte.
Afinal o Rubem Braga não tinha como saber que eu jamais tivera modelos, e que desenhava e pintava de imaginação, ou simplesmente a minha própria anima, o que, na verdade, não me poupou de grandes problemas com as mulheres.
Olhei minha ex mulher, e ela abanava a cabeça...
Dentre os inúmeros episódios marcantes da minha juventude, já bem adentrado na fase profissional como artista, um deles eu hesitei rememorar aqui por escrito, até agora, devido a fatores de escrúpulos de intimidade, de dramaticidade, e porque um dos protagonistas ainda vive. Entretanto, resolvi narrá-lo agora porque me convenci de que não citando nomes de pessoas vivas, temos o direito de divulgar nossas memórias sem consultá-las, tanto mais que a intenção é enaltecê-las, e não denegri-las.
Em 1970, estávamos no auge do regime militar no Brasil, e eu, casado com a que viria ser mãe de três dos meus filhos, morava numa vila em plena rua Augusta, e pintava e desenhava intensamente para realizar uma exposição marcada para dali a dois meses na Galeria Portal, que ficava na Avenida Paulista. Neste período surgiu em meu ateliê, trazido por um amigo comum, um poeta talentoso, ainda jovem mas dez anos mais velho que eu, que muito falante e interessante passou a vir todos dias passar muitas horas falando, muito exuberante e confessional, enquanto eu pintava para a exposição. Ele era engraçado e agradável, ele logo se tornou muito amigo meu e de minha mulher, a Elisa (que esperava nosso primeiro filho). Dois meses se passaram e tendo os quadros ficado prontos, na véspera do vernissage ele saiu tarde de minha casa combinando de nos vermos no dia seguinte na Exposição. Chegou o grande dia, ele não apareceu em casa e nem de noite durante o vernissage, que foi um sucesso de público e de crítica. Estavam todos lá, artistas conhecidos, amigos, jornalistas e o publico usual, sem faltar as indefectíveis e lindas "marias-vernissages". Estava "todo mundo" lá, com exceção do meu novo amigo poeta. Acompanhado de minha mulher, eu estranhei e comentei com ela, mas entretidos com os convidados, deixamos passar... O que teria acontecido?
No dia seguinte ao vernissage o poeta também não apareceu. Nós, minha mulher e eu, estranhamos, mas não fizemos muita questão, pois estávamos necessitados de sossego e privacidade, após tanta sociabilidade um tanto forçada, contrária ao meu temperamento recluso, de poucos amigos. Entretanto, todos os dias nos lembrávamos dele, o poeta estranhamente ausente desde o dia da inauguração. Eu ia todos dias à Galeria Portal conversar com os visitantes e ficava sabendo que o poeta não aparecera lá em nenhum horário. Passada uma semana eu comecei a telefonar para o pequeno hotel na "boca do lixo", na rua Aurora, no centro da cidade, em que ele nos dissera que morava há meses, cujo nome nos dera e do qual descobri o telefone na lista.
Eu passei a telefonar uma vez por dia e era sempre atendido por uma mesma voz, de um porteiro que me pedia pra esperar para ele ver se o poeta estava no quarto, e logo voltava para comunicar que não, não se encontrava no hotel naquele momento. Aquilo era muito suspeito... Por quê meu amigo nunca estava no hotel se não tinha feito um check out, pago a sua conta, ido embora? Por quê simplesmente nunca se encontrava?
No dia seguinte já recebia eu um telefonema do Dr Idel, dizendo: "Guilherme, já localizei o seu amigo. Você tinha razão. O seu amigo estava no DOPS . Esteve sendo interrogado mas não chegou a entrar no pau. Felizmente você me procurou a tempo, pois amanhã ele começaria a ser torturado para valer, no pau de arara. Mas eu conhecia o delegado do caso, fomos colegas na São Francisco e eu cheguei abraçando-o: "Como vai a família?!" Então contei-lhe o que você me disse sobre o poeta, sem citar seu nome, Guilherme, claro. Você tinha razão, o que aconteceu foi o seguinte: seu amigo foi a uma festa num apartamento e falou a noite toda com um rapaz desconhecido, e falou muito sobre política, teorias, ideais, etc. O rapaz só ouvia. Passado uns dias o rapaz desconhecido foi preso numa Operação Bandeirante, que fechou uma rua e pego dentro de um Volkswagen encontraram folhetos doutrinários, armas e coquetéis Molotov no carro. E encontraram com ele uma agenda em que estava escrito: "Em caso de necessidade procurar o... ( o nome e sobrenome do seu amigo) que é um bom camarada", e continha o nome do hotelzinho. Os policiais foram lá prenderam o poeta em seu quarto e aprenderam todos os seus livros, um deles publicado, e seus manuscritos, que estão avaliando. O tal rapaz militante está sendo desde então "interrogado" e sob tortura não comprometeu o seu amigo. O poeta está agora recomendado por mim e não vão mais encostar a mão nele, o delegado me prometeu. Ele vai ser acareado com o militante, e este, confirmando sua inocência, ele será solto. Você e sua mulher fiquem tranquilos, é coisa de só mais alguns dias. "
"Olhe, você não sabe mas foi salvo e solto pelo advogado dr Idel Aronis, e nós temos que ir lá, juntos, agradecer a ele. Ele vai ficar muito contente com isso e em conhecer você pessoalmente, garanto. Vou telefonar para ele para marcarmos hora. Pode ser?
O poeta ficou surpreso, entendeu naquele momento porquê foi solto. Ficou perplexo e disse: "Sim, claro, vamos lá logo, o mais cedo possível. Eu não sabia... "
E ficou me olhando, constrangido... me pareceu.
Marcada a hora por telefone com o dr Idel, nos encontramos no dia seguinte, os três, na sala dele do seu escritório de advocacia. Foi um momento muito emocionado, em que nós dois fomos abraçados pelo grande advogado, homem alto e forte, que se declarou enormemente gratificado com o desfecho de tudo aquilo, sobretudo com o privilégio, como ele disse, de salvar um poeta.
A propósito, quando procurei o dr Idel, quando me dei conta do perigo que o meu amigo corria, eu lhe disse que não tinha dinheiro para pagar os seus inestimáveis serviços e perguntei se ele aceitaria um quadro meu em pagamento. O dr Idel respondeu: " Claro, meu amigo, eu adoro arte e aprecio muito as suas obras, que noto por aí nas galerias, desde que o conheci em 1965 naquele episódio do porte de arma, que por sinal não sei como acabou, pois você só reapareceu agora, com este caso. Eu coleciono quadros e frequento os leilões da Collectio e quase arrematei um dia uma tela sua lá."
Ouvindo isso eu prometi ao dr Idel Aronis, um quadro a óleo meu em agradecimento. Isto se tornaria um outro "caso", que contarei nas minhas Memórias, certamente, algum dia.
Quanto ao poeta, retomamos a nossa amizade, que a propósito, nunca mais foi a mesma, pois percebi daí por diante, um certo retraimento na atitude do poeta em relação a mim, uma espécie de constrangimento, infelizmente, que não me atrevo a interpretar...
O Poeta fez um grande carreira, se tornou famoso (talvez menos do que merece) e teve recentemente suas Obras Completas publicadas em muitos volumes por uma grande Editora. Está hoje com 80 anos, e permanece muito magro e jovem de espírito. Devo finalizar dizendo que este caso também me foi muito gratificante, tanto mais que se trata de um grande poeta, mesmo, enorme, que escreve em prosa e verso como um deus da escrita. Daqueles poucos que aparecem em cada geração, conquanto sua crença idealista num utópico socialismo revele uma certa ingenuidade, o que não chega a ser um pecado num tão grande poeta.
Em 1970, estávamos no auge do regime militar no Brasil, e eu, casado com a que viria ser mãe de três dos meus filhos, morava numa vila em plena rua Augusta, e pintava e desenhava intensamente para realizar uma exposição marcada para dali a dois meses na Galeria Portal, que ficava na Avenida Paulista. Neste período surgiu em meu ateliê, trazido por um amigo comum, um poeta talentoso, ainda jovem mas dez anos mais velho que eu, que muito falante e interessante passou a vir todos dias passar muitas horas falando, muito exuberante e confessional, enquanto eu pintava para a exposição. Ele era engraçado e agradável, ele logo se tornou muito amigo meu e de minha mulher, a Elisa (que esperava nosso primeiro filho). Dois meses se passaram e tendo os quadros ficado prontos, na véspera do vernissage ele saiu tarde de minha casa combinando de nos vermos no dia seguinte na Exposição. Chegou o grande dia, ele não apareceu em casa e nem de noite durante o vernissage, que foi um sucesso de público e de crítica. Estavam todos lá, artistas conhecidos, amigos, jornalistas e o publico usual, sem faltar as indefectíveis e lindas "marias-vernissages". Estava "todo mundo" lá, com exceção do meu novo amigo poeta. Acompanhado de minha mulher, eu estranhei e comentei com ela, mas entretidos com os convidados, deixamos passar... O que teria acontecido?
No dia seguinte ao vernissage o poeta também não apareceu. Nós, minha mulher e eu, estranhamos, mas não fizemos muita questão, pois estávamos necessitados de sossego e privacidade, após tanta sociabilidade um tanto forçada, contrária ao meu temperamento recluso, de poucos amigos. Entretanto, todos os dias nos lembrávamos dele, o poeta estranhamente ausente desde o dia da inauguração. Eu ia todos dias à Galeria Portal conversar com os visitantes e ficava sabendo que o poeta não aparecera lá em nenhum horário. Passada uma semana eu comecei a telefonar para o pequeno hotel na "boca do lixo", na rua Aurora, no centro da cidade, em que ele nos dissera que morava há meses, cujo nome nos dera e do qual descobri o telefone na lista.
Eu passei a telefonar uma vez por dia e era sempre atendido por uma mesma voz, de um porteiro que me pedia pra esperar para ele ver se o poeta estava no quarto, e logo voltava para comunicar que não, não se encontrava no hotel naquele momento. Aquilo era muito suspeito... Por quê meu amigo nunca estava no hotel se não tinha feito um check out, pago a sua conta, ido embora? Por quê simplesmente nunca se encontrava?
Uma tarde eu estava almoçando com Elisa num restaurante da Augusta e num repente resolvi telefonar dali mesmo para o hotel. Comuniquei o meu desassossego à minha mulher, levantei-me e fui ao balcão pedir para usar o telefone. Liguei e a mesma voz repetiu que o poeta não se encontrava no quarto. Eu ia desligar quando o porteiro continuou, baixando a voz, e em surdina disse: "Eu já conheço a voz do senhor que sempre procura pelo seu amigo... Mas eu não podia falar porque o gerente proibia e estava sempre por perto... Olhe, foram "os home" que levaram o seu amigo..."
Eu pus a mão na cabeça,TINHAM SE PASSADO DEZ DIAS! Urgia fazer alguma coisa!
Logo me veio à cabeça a ideia de procurar um poderoso advogado que me recomendaram em 1965, e que naquela ocasião procurei para conseguir um porte de arma pois estava sendo perseguido por um maníaco que me agredira gravemente a mim e minha segunda mulher, num episódio um tanto sórdido que um dia contarei. Esse advogado era o dr. Idel Aronis (agora falecido há muitos anos), que logo simpatizara comigo e tendo ouvido minha estória me apresentou e me recomendou a um delegado (também já falecido) que era irmão do pintor Clovis Graciano e que tendo portanto um irmão artista famoso, tinha simpatia pelos pintores. Este delegado me concedeu porte de arma para mim e minha mulher, compramos revólveres numa loja com permissão e andamos armados por pouco tempo, em segurança em plena época da ditadura! Mas isso é uma história que contarei noutra oportunidade. Pois bem, fui procurar o dr Idel e contei-lhe o que acontecera com o poeta meu amigo. Ele me perguntou se meu amigo revelara simpatias comunistas, se era doutrinário, etc. Eu respondi que o poeta era de esquerda, mas sonhador e ilusionista era extremamente "gauche" na vida, muito mais no sentido drummondiano do que ideológico. O dr. Idel argumentou que se meu amigo fosse "quente" como os militares costumavam chamar os suspeitos de militância socialista armada, ou "terroristas", até a mãe dele poderia não estar sabendo, dado o código de silêncio que imperava entre "eles" (a propósito, o poeta era órfão de pai e mãe e não tinha nem família). Então eu descrevi mais detalhadamente a personalidade do meu amigo e as características psicológicas que me faziam ter certeza ser ele um indivíduo incapaz de ação. O dr Idel, refletiu e disse: "O que você diz, Guilherme, faz sentido e por isso vou tentar salvar o seu amigo, mas lhe advirto que já interferi e tirei muitos das garras do DOPS e eles se aborreceram e já quase me deram um basta. Eles devem estar interrogando o seu amigo e se ele for "quente", nada poderei fazer. Entretanto, pelo que você me disse, acho que há uma chance. Se ele não for um militante clandestino, eles estarão torturando seu amigo psicologicamente, não fisicamente. Os intelectuais resistem menos à tortura psíquica que os mais simples... Vou localizar onde seu amigo está preso e em breve me comunicarei com você dando uma posição. Aguarde."
Nos despedimos, eu com o coração opresso, mas com alguma esperança, e fui pra casa fazer o relatório dessa entrevista à minha mulher, que esperava em angustiado suspense.
Eu pus a mão na cabeça,TINHAM SE PASSADO DEZ DIAS! Urgia fazer alguma coisa!
Logo me veio à cabeça a ideia de procurar um poderoso advogado que me recomendaram em 1965, e que naquela ocasião procurei para conseguir um porte de arma pois estava sendo perseguido por um maníaco que me agredira gravemente a mim e minha segunda mulher, num episódio um tanto sórdido que um dia contarei. Esse advogado era o dr. Idel Aronis (agora falecido há muitos anos), que logo simpatizara comigo e tendo ouvido minha estória me apresentou e me recomendou a um delegado (também já falecido) que era irmão do pintor Clovis Graciano e que tendo portanto um irmão artista famoso, tinha simpatia pelos pintores. Este delegado me concedeu porte de arma para mim e minha mulher, compramos revólveres numa loja com permissão e andamos armados por pouco tempo, em segurança em plena época da ditadura! Mas isso é uma história que contarei noutra oportunidade. Pois bem, fui procurar o dr Idel e contei-lhe o que acontecera com o poeta meu amigo. Ele me perguntou se meu amigo revelara simpatias comunistas, se era doutrinário, etc. Eu respondi que o poeta era de esquerda, mas sonhador e ilusionista era extremamente "gauche" na vida, muito mais no sentido drummondiano do que ideológico. O dr. Idel argumentou que se meu amigo fosse "quente" como os militares costumavam chamar os suspeitos de militância socialista armada, ou "terroristas", até a mãe dele poderia não estar sabendo, dado o código de silêncio que imperava entre "eles" (a propósito, o poeta era órfão de pai e mãe e não tinha nem família). Então eu descrevi mais detalhadamente a personalidade do meu amigo e as características psicológicas que me faziam ter certeza ser ele um indivíduo incapaz de ação. O dr Idel, refletiu e disse: "O que você diz, Guilherme, faz sentido e por isso vou tentar salvar o seu amigo, mas lhe advirto que já interferi e tirei muitos das garras do DOPS e eles se aborreceram e já quase me deram um basta. Eles devem estar interrogando o seu amigo e se ele for "quente", nada poderei fazer. Entretanto, pelo que você me disse, acho que há uma chance. Se ele não for um militante clandestino, eles estarão torturando seu amigo psicologicamente, não fisicamente. Os intelectuais resistem menos à tortura psíquica que os mais simples... Vou localizar onde seu amigo está preso e em breve me comunicarei com você dando uma posição. Aguarde."
Nos despedimos, eu com o coração opresso, mas com alguma esperança, e fui pra casa fazer o relatório dessa entrevista à minha mulher, que esperava em angustiado suspense.
No dia seguinte já recebia eu um telefonema do Dr Idel, dizendo: "Guilherme, já localizei o seu amigo. Você tinha razão. O seu amigo estava no DOPS . Esteve sendo interrogado mas não chegou a entrar no pau. Felizmente você me procurou a tempo, pois amanhã ele começaria a ser torturado para valer, no pau de arara. Mas eu conhecia o delegado do caso, fomos colegas na São Francisco e eu cheguei abraçando-o: "Como vai a família?!" Então contei-lhe o que você me disse sobre o poeta, sem citar seu nome, Guilherme, claro. Você tinha razão, o que aconteceu foi o seguinte: seu amigo foi a uma festa num apartamento e falou a noite toda com um rapaz desconhecido, e falou muito sobre política, teorias, ideais, etc. O rapaz só ouvia. Passado uns dias o rapaz desconhecido foi preso numa Operação Bandeirante, que fechou uma rua e pego dentro de um Volkswagen encontraram folhetos doutrinários, armas e coquetéis Molotov no carro. E encontraram com ele uma agenda em que estava escrito: "Em caso de necessidade procurar o... ( o nome e sobrenome do seu amigo) que é um bom camarada", e continha o nome do hotelzinho. Os policiais foram lá prenderam o poeta em seu quarto e aprenderam todos os seus livros, um deles publicado, e seus manuscritos, que estão avaliando. O tal rapaz militante está sendo desde então "interrogado" e sob tortura não comprometeu o seu amigo. O poeta está agora recomendado por mim e não vão mais encostar a mão nele, o delegado me prometeu. Ele vai ser acareado com o militante, e este, confirmando sua inocência, ele será solto. Você e sua mulher fiquem tranquilos, é coisa de só mais alguns dias. "
Passada mais uma semana o poeta de repente apareceu em casa. Estava acabado, muito magro, com profundas olheiras, os olhos muito parados, a fala mais lenta. Nós o abraçamos aliviados, mas impressionados... Entretanto não tardou a narrar em detalhes sua aventura.
Elisa e e e ficamos tremendamente impressionados com a narrativa do nosso amigo, e emocionados, claro. Então eu disse a ele:"Olhe, você não sabe mas foi salvo e solto pelo advogado dr Idel Aronis, e nós temos que ir lá, juntos, agradecer a ele. Ele vai ficar muito contente com isso e em conhecer você pessoalmente, garanto. Vou telefonar para ele para marcarmos hora. Pode ser?
O poeta ficou surpreso, entendeu naquele momento porquê foi solto. Ficou perplexo e disse: "Sim, claro, vamos lá logo, o mais cedo possível. Eu não sabia... "
E ficou me olhando, constrangido... me pareceu.
Marcada a hora por telefone com o dr Idel, nos encontramos no dia seguinte, os três, na sala dele do seu escritório de advocacia. Foi um momento muito emocionado, em que nós dois fomos abraçados pelo grande advogado, homem alto e forte, que se declarou enormemente gratificado com o desfecho de tudo aquilo, sobretudo com o privilégio, como ele disse, de salvar um poeta.
A propósito, quando procurei o dr Idel, quando me dei conta do perigo que o meu amigo corria, eu lhe disse que não tinha dinheiro para pagar os seus inestimáveis serviços e perguntei se ele aceitaria um quadro meu em pagamento. O dr Idel respondeu: " Claro, meu amigo, eu adoro arte e aprecio muito as suas obras, que noto por aí nas galerias, desde que o conheci em 1965 naquele episódio do porte de arma, que por sinal não sei como acabou, pois você só reapareceu agora, com este caso. Eu coleciono quadros e frequento os leilões da Collectio e quase arrematei um dia uma tela sua lá."
Ouvindo isso eu prometi ao dr Idel Aronis, um quadro a óleo meu em agradecimento. Isto se tornaria um outro "caso", que contarei nas minhas Memórias, certamente, algum dia.
Quanto ao poeta, retomamos a nossa amizade, que a propósito, nunca mais foi a mesma, pois percebi daí por diante, um certo retraimento na atitude do poeta em relação a mim, uma espécie de constrangimento, infelizmente, que não me atrevo a interpretar...
O Poeta fez um grande carreira, se tornou famoso (talvez menos do que merece) e teve recentemente suas Obras Completas publicadas em muitos volumes por uma grande Editora. Está hoje com 80 anos, e permanece muito magro e jovem de espírito. Devo finalizar dizendo que este caso também me foi muito gratificante, tanto mais que se trata de um grande poeta, mesmo, enorme, que escreve em prosa e verso como um deus da escrita. Daqueles poucos que aparecem em cada geração, conquanto sua crença idealista num utópico socialismo revele uma certa ingenuidade, o que não chega a ser um pecado num tão grande poeta.
A Passagem do Tempo
Nesta minha Oscar Freire envelheço e por causa da Internet não posso dizer como Mario de Andrade da sua Lopes Chaves, que "nem sei quem foi"... Entretanto me acompanha igual perplexidade, não tanto pela lenta metamorfose das paredes, das vitrines e das calçadas, mas pelo visível envelhecimento dos seguranças dessas lojas, que me denunciam o meu próprio envelhecimento. Também o desaparecimento de certos personagens, como o meu vizinho de meia idade, homem baixinho e gordo, que por longo tempo empurrou a cadeira de rodas de um seu decrépito e visivelmente atrabiliário irmão, até que desapareceram, quase imperceptivelmente, a cadeira e o irmão. Então fui interceptado na calçada durante anos pelo baixinho (que também envelhecia lentamente) com seu andar lento e pesado, com uma indefectível bolsa estilo anos 60 a tiracolo, para me mostrar um caderninho sem pauta onde ele aplicadamente desenhava mal e escrevia coisas que, cheio de deferência, me chamando de "professor", submetia à minha constrangida apreciação. Também ele sumiu, afinal, um dia, e fiquei sabendo pelo meu envelhecido porteiro, que o baixinho se deteriorara de uma maneira terrível, se desfazendo aos poucos, literalmente, em pedaços... Assim também as notícias de falecimentos de artistas de minha geração, que se vão inexoravelmente, dois ou três por ano, e são lembrados com respeito nos dois ou três primeiros meses... Tudo passa, "o tempo voa" e nos agarramos na aba de sua velha casaca, ou simplesmente desenhamos nos nossos caderninhos sem pauta, para mostrar aos nossos vizinhos, os outros seres humanos, para que aprovem, talvez para que se lembrem um dia, de nós....
Desventuras do artista quando jovem.
No final do ano de 1969 fui à Suíça para encontrar-me com uma namorada, linda garota de olhos cor de mel, filha de pai suíço (e mãe carioca), com quem eu tinha praticamente vivido em São Paulo por um ano, e que tendo seu pai se empenhado em afastá-la de mim, um artista pé-rapado paulistano, antecipara a ida dela (que falava alemão) à cidade natal dele, Basel, com um emprego que com seus contatos garantiu para ela num grande escritório de arquitetura. Entretanto combináramos, ela e eu, nos encontrarmos lá para vivermos juntos viajando pela Europa depois de cumprido por ela aquele estágio obrigatório nas condições que seu pai impusera. Demorei uns três meses para liquidar minhas parcas posses, minha parte num pequeno apartamento que eu tinha (em sociedade com minha segunda ex-mulher) além de meus móveis e meus quadros para poder ter dinheiro para a passagem e pelo menos para o primeiro ano com ela naquela cidade antes de sairmos pelo mundo, como era o seu sonho. Entretanto, como eu bebia demais, aquilo tudo era demais para mim, acima das minhas forças, principalmente porque eu já me encontrava no estágio alcoólico de uma certa depressão crônica, permanente. Nos três meses que me separaram da minha namorada "suiça", eu, carente, sem saber viver sozinho me envolvera com outra moça, de vinte anos, filha de pai armênio, que viria a ser a minha quarta mulher, a futura mãe de três de meus filhos. Foi esta que me levou no seu fusca, chorando, numa corrida patética ao aeroporto, para me entregar altruisticamente à minha namorada já "anterior" sem eu reconhecer. Resultado: eu tomaria aquele avião completamente dividido, me sentindo miseravelmente deprimido e já pensando em voltar. Lembro-me que antes do embarque as pessoas me olhavam muito pelo meu aspecto: cabelos e barba compridos, com uma espécie de sobretudo preto de lã que parecia uma casaca do século anterior, e que me dava, imagino, a aparência sombria de um jovem russo saído de um livro de Dostoiévsky, uma espécie de Raskolnicov do Crime e Castigo. Estávamos em plena ditadura militar, e com sequestros que haviam de aviões por "terroristas", as revistas eram severas. Sobre minhas roupas na mala havia minha caixa de tintas e pincéis com uma pequena faca sem ponta que eu usava às vezes como espátula, e que foi confiscada na revista, chamando mais a atenção para a minha constrangida pessoa. Dentro do avião, um português de meia idade, muito desenvolto, sentado ao meu lado puxou conversa. Perguntou: "Por que vais à Basiléia? Não tem nada lá, nem montanhas, e os suíços são uns "pizzas frias!" Aquilo me deixou mais deprimido ainda...
Depois do longo voo, torturante naquelas circunstâncias, sobrevoamos uma Paris noturna, que eu não haveria de conhecer, pois pousamos em Orly, onde sem sair do aeroporto fizemos baldeação e chegamos a Basel de noite, sem dar para perceber nada do aspecto da cidade. Tomei um táxi e pedi, em inglês, a um motorista mudo e insondável, para me levar a um hotel bem modesto e barato, onde me registrei sempre me sentindo observado com desconfiança, para passar a noite, esperando o amanhecer para telefonar para o escritório de Arquitetura Burkhardt para chamar minha namorada para ela me buscar. Bem cedinho telefonei do hotel e esperei-a no refeitório tomando o café da manhã. Nem dez minutos se passaram e ela entrou no pequeno saguão, andando em minha direção. Não era mais ela! Em três meses havia se passado uma vida sem eu perceber... ela ainda era linda, mas não a reconheci mais dentro de mim. Estava tudo perdido, eu me sentia trincado, numa situação falsa, já não reconhecia meus sentimentos, ela não merecia isto, era eu o culpado, eu só queria sumir, voltar ao meu ateliê, colar os cacos, me retomar...
Ela me levou até o pequeno prédio de três andares, de apartamentos minúsculos onde ela alugava uma espécie de kitchnette, e em que o zelador ou proprietário, mais um suíço calado e sinistro, também me olhava com olhar insondável, e em que, eu, já ligeiramente paranoico, via desconfiança e desprezo. Minha namorada me deixaria ali sozinho, saindo cedo todos os dias para ir ao trabalho, enquanto eu tentava desenhar em papéis sobre uma pequena mesa, ou tomava banho num banheira com uma ducha manual absurda com feitio de telefone, ou então saía para conhecer a cidade, demasiado limpa, às raias da assepsia, muito triste sob um céu baixo de chumbo sob o qual colegiais adolescentes, meninos e meninas louros, de bicicleta, pedalavam tranquilos, certamente dirigindo-se à escola, sem contudo alegrar as ruas em que predominava o crocitar lúgubre dos corvos que dominavam os ares e as árvores desgalhadas naquele fim de outono... crow, crow, crow...
Entretanto eu visitava todos os dias, por muitas horas, o famoso Kunstmuseum de Basel, onde ficava horas observando grandes pinturas, e em particular a obras mestras de Hans Holbein, o grande pintor renascentista natural daquela cidade. Ali me detinha numa sala especial onde dominava a célebre pintura deste mestre, que representa o cadáver de Cristo no túmulo, uma pintura assombrosa pelo realismo terrificante, em que você pode ver as feridas abertas, já coaguladas, perceber o começo da decomposição... e chegar a sentir-lhe o odor. Foi essa pintura que Dostoiévsky, no século XIX, visitando o Museu, pronunciou e depois botou na boca do seu príncipe Michkin, de O Idiota, como sendo palavras de um conhecido seu, a seguinte exclamação: "Eis aqui porquê perder a fé!"....
Naqueles dias, naquela cidade triste, naquele quarto estranho, ouvindo o crocitar dos corvos da minha depressão, eu só pensava em voltar ao Brasil. Eu saía de noite com minha namorada e íamos a cafés ou bistrôs, onde bebíamos vinho. Sem eu perceber, o álcool deteriorava mais ainda meu estado de espírito. Para piorar, chegavam quase diariamente de São Paulo cartas para mim, da nova rival da minha namorada, aumentando a minha divisão e meu mal estar. Minha namorada interceptou uma dessas cartas, lutamos por ela, e desisti. Era uma carta romanticamente estratégica, calculadamente sentimental e manipuladora, e ela, furiosa, leu-a em voz alta, ironizando, ridicularizando-a. Minha situação psicológica ficou insuportável pelo conflito interno e também pelo sentimento de culpa. Uma tarde fui ao banco retirar dinheiro e um funcionário, jovem suíço-brasileiro, talvez gerente, observando-me tão nitidamente deprimido parecendo um farrapo humano, se aproximou de mim e disse baixinho: "Rapaz, posso lhe apresentar um conterrâneo seu que reúne compatriotas em sua casa, para reuniões de apoio"... e deu-me um cartão com um nome e telefone. Percebi que ele deduziu (erroneamente) ser eu um militante de esquerda, certamente torturado, exilado. Agradeci a esta boa alma, me sentindo ainda mais confuso, envergonhado... Então decidi voltar a São Paulo. Não havia se passado mais que um mês e meio. Ela, a duras penas aceitou minha partida dizendo: "Então vá, "coizinho" (ela me chamava assim), pode ir embora, mas não volte para aquela ditadura, para aquele país horrível! Vá para Paris, que está a apenas duas horas de trem, daqui. Se não for, como artista vai se arrepender para o resto da vida!"
Mas eu não tinha condições psicológicas... Precisava retornar, ou morreria, eu senti...
Então, fomos de trem para Zurique onde eu pegaria um avião para o Brasil. Lembro-me bem da viagem de trem, onde eu já me senti bastante aliviado por estar voltando. Entretanto, era ela que estava me levando ao encontro da outra, para me entregar para a outra, numa estranha simetria inversa, que me parecia bastante sugestiva. De quê? Da generosidade e altruísmo da mulheres quando amam de verdade. Estarei enganado? Eu, fragilizado, na qualidade de "homem-objeto" em que me encontrava, dependia dessa generosidade, eu estava em frangalhos...
Em Zurique, comprada a passagem, eu teria que esperar muitas horas para o voo, então fomos passear, conhecer um pouco a cidade, que esta sim me pareceu belíssima, imponente, com um magnífico lago onde nadavam cisnes brancos, vistos da ponte maravilhosa onde ondulavam em mastros flâmulas de aspecto medieval. Percebia-se a riqueza daquela cidade em tudo, nas vitrines das lojas em que, quando se via um quadro exposto, por exemplo um Modigliani, era um original mesmo, em magnífica moldura, e não uma cópia ou um poster. Outras apresentavam na decoração espadas, montantes, alabardas, elmos e armaduras medievais verdadeiras, nunca cópias. Eu me sentia pequeno, um jeca, um terceiro-mundista subdesenvolvido diante daquilo tudo. Fomos fazer hora num grande restaurante onde em compridas mesas coletivas, os convivas cantavam uma espécie de brinde, em coro, alegremente erguendo grandes canecos de cerveja, em que depois de uma frase curta levemente modificada a cada vez, o coro repetia algo como Saf Haus, Saf Haus, Saf Haus (Quem nasceu em Janeiro... chupa tudo, chupa tudo, chupa tudo... Quem nasceu em Dezembro...) Um dia eu iria cantar isso para meus filhos se divertirem... E foi ela, minha abandonada namorada, que a meu pedido traduziu o significado daquela canção, que me parecia uma amostra da distante alegria do mundo, da vida dos normais, dos leves e despreocupados, e talvez muito mais íntegros habitantes do mundo real...
À tardinha fomos a um bistrô para beber um bom vinho de despedida. Estávamos sentados a um mesa, conversando, quando entrou um casal jovem com um bebê num cesto que pousaram no chão ao lado da mesa deles. Olhei-os, perplexo, cheio de admiração. Eram todos os três os mais belos espécimes de seres humano que jamais vi. Verdadeiros deuses vivos. O rapaz era muito alto, loiro, de cabelos encaracolados, barba também loira e olhos azuis. Um verdadeiro viking redivivo. A moça, uma beldade também loira de olhos verdes, e o bebê, de uma beleza divina, dormindo tranquilo em sua confortável cestinha, branquinho, loiro e corado como uma maçã perfeita.
Entretanto o casal olhava muito para nós, intrigados, enquanto falávamos sem parar, não me lembro sobre o quê. Então o rapaz lá da mesa dele dirigiu a palavra em alemão para nós, algo que me pareceu uma pergunta. Minha namorada respondeu gentilmente em alemão e o rapaz sorrindo fez um gesto muito harmônîco e falou mais alguma coisa enquanto sua parceira também sorria para nós. Perguntei à minha namorada o que ele tinha perguntado, já que eu não falo alemão. Ela disse: "Eles queriam saber que língua nós estamos falando e eu respondi "português do Brasil." Então ele disse: "É a mais bela língua que jamais ouvi. Parece uma música ... " E nós dois então agradecemos ao belo casal com um aceno e um sorriso, gratos.
Aquilo afinal me fez bem, melhorando um pouquinho a minha auto-estima, já que sempre fui consciente de falar um português perfeito com dicção bem articulada a minha vida toda, fruto talvez das minhas leituras dos clássicos. Afinal eu não era tão... assim, um pé rapado, pelo menos não na minha terra...
Afinal chegou a hora da partida. Ela se despediu de mim no saguão do aeroporto diante da sala de embarque, abraçando-me forte... minha linda namorada "suíça" que eu abandonava para sempre, grato por ela me liberar com relativa facilidade, porque eu não tinha mais condições de nada. Eu iria iniciar uma nova vida com a pequena "armênia", e ter filhos com ela.
Muitos anos depois, morando em Olinda com minha esposa grávida de meu terceiro filho com ela, eu estava em São Paulo no bem sucedido vernissage de uma exposição individual minha, de desenhos, na Galeria Cosme Velho, e para minha surpresa minha ex namorada "suiça", linda, loira, sedutora, apareceu com um boá de plumas negras e nos sentamos à mesa de um café nas proximidades da Galeria para conferirmos nossas vivências depois da nossa separação. Anos tinham se passado e ela me confidenciou que após minha partida ela teve uma crise e quebrou tudo no quarto, tiveram que intervir. Agora, ela, deslumbrante, tentava me seduzir já a partir daquele novo encontro e cheguei a ficar terrivelmente tentado... Entretanto a lembrança da minha pobre armeniazinha que já tinha perdido o nosso primeiro filho, e naquele momento novamente grávida lá em Olinda, me fez resistir (acreditem se quiserem), para sua nova decepção. Mas iriam se passar ainda mais quinze anos antes de me render a mim mesmo, e me tratar...
Retrato de um artista quando jovem
Estive pensando em algumas figuras de minha juventude, que se esvaeceram, se distanciaram e desapareceram numa espécie de neblina da memória, mas que voltam às vezes como espectros, aqueles que morreram por seus excessos, tão próprios da nossa geração. Hoje sonhei pela primeira vez com o Marcio Mattar, breve amizade dos meus vinte anos, um jovem artista do Rio de Janeiro, natural da Zona Norte (Rio Comprido) que apareceu como um cometa em São Paulo, no começo dos anos 60, excepcionalmente belo e encantador, conquistando facilmente amigos no ambiente artístico da nossa "Paulicéia Desvairada ". Lembro de que uma vez, eu morando num ateliê- porão ( meu "Bateau-Lavoir" paulistano da rua Mato Grosso), praticamente na miséria, o levei um dia à casa de minha mãe para filarmos uma bóia, e ela, encantada com ele, praticamente o queria adotar. Entretanto, Marcio bebia com uma sede avassaladora. Dois anos mais tarde, eu já casado com Jomara, fomos visitá-lo, próspero, na sua casa enorme de Santa Tereza, onde ele fazia sucesso com móveis belíssimos, rústicos, de madeira pesada que ele construía com as próprias mãos, queimando a peroba com maçarico e depois esfregando com escovas de aço, num trabalho sujo e pesadíssimo, que ele, atlético e às custas da energia adicional do álcool, conseguia realizar entre ressacas homéricas e dolorosíssimas. Ficamos hospedados, Jomara e eu, na casa dele e vimos esse trabalho impossível, feito praticamente sozinho, que o sustentava no mundo dos seus ricos clientes, e talvez falsos amigos emergentes da Zona Sul do Rio, numa festa contínua de álcool e drogas, que ele entremeava com seu labor titânico. Mas certamente foi o álcool que o exauriu, e ele morreu por volta dos trinta anos, de cirrose e exaustão. Que posso dizer disso? Marcio viveu intensamente e se queimou como uma tocha, numa imensa voracidade de vida, arte, trabalho, prazeres e desespero. Quanta angústia devia sentir, sem nunca se queixar!... Era um instintivo, um primitivo de nova era, e por isso se consumiu mais rapidamente, enquanto nós, negociávamos com o álcool para durar mais, certamente por uma certa malícia intelectual, senão covardia mesmo...
ANIMA
Como já sabiam os gregos e romanos (e os antigos em geral), a alma de uma pessoa, homem ou mulher, é sempre uma mulher. É por isso que a Alma Welt, sendo minha anima viva, é profundamente feminina (coisa que eu mesmo, no todo, não o sou) a despeito de faltar nela futilidade e vaidade, coisas tipicamente femininas que no entanto ninguém até hoje cobrou ou sentiu falta nela. É curioso ver como as leitoras se identificam com ela, mesmo sem estas duas características. Talvez seja porque tais atributos negativos não sejam puramente femininos e os homens também os possuam. De qualquer modo, no terreno sublimado da poesia essas duas coisas não entrem em linha de conta senão como humor ou autocrítica...
DA GRANDEZA DE SERVIR
No último domingo, terminado o concerto das Bachianas de Villa-Lobos, no Municipal, caía uma intensa chuva que prendeu toda a platéia, de pé no saguão do teatro, por pelo menos meia hora esperando a chuva passar. Quando amainou a enfrentamos, minha irmã e eu até aquela galeria em frente, onde era a antiga Light (sou também antigo), que já estava fechando, mas que nos informaram que havia ali dentro uma padaria que ainda estava servindo. Havia uma única mesa desocupada e cheia dos restos de refeição anterior. Para garanti-la sentei-me meio constrangido enquanto minha irmã ficava numa pequena mas demorada fila para fazer o pedido e pagar. Como ela demorava, virei-me para uma rapaz que estava atrás de mim, de pé meio curvado sobre a a mesa de uns rapazes do lado, e julgando-o um garçom pela sua camisa branca, estranha, sem gola, de tipo russo, pedi-lhe delicadamente que aproveitasse para tirar a minha mesa. O rapaz disse: "Senhor, não trabalho aqui, também sou cliente, eu sou da orquestra. Eu ri de mim mesmo e desculpei-me muito, pelo engano. Depois de um minuto, voltei-me para ele e perguntei: "Você é de que orquestra?" E ele: "do Municipal... " Então eu disse: "Ah! Parabéns! Acabamos de sair de lá! Que maravilha de orquestra! Você está de parabéns! Qual é o seu Instrumento? "Viola", ele respondeu. E eu (para mostrar conhecimento): " Ah aquele violino grande, mais grave, entre o violino e o cello...Gosto muito! Parabéns mesmo! " E a conversa acabou por aí...
Entretanto, como minha irmã demorava, mais uns cinco minutos e um dos rapazes da mesa ao lado, levantou-se e disse: "Não sou garçom, senhor, mas vou retirar a sua mesa." E o fez rapidamente, enquanto eu agradecia, surpreso com tanta gentileza, que expressei e agradeci. Depois de um momento dei-me conta de que naquela mesa eram todos músicos da Orquestra Sinfônica, que eu não havia atinado por serem tão jovens. Aquele rapaz, tão prestativo... quereria ele também um elogio? Quando pensei isso, eles já tinham levantado e saído.
Entretanto ficou-me a impressão de modéstia e prestatividade que deve ser a tônica de todo músico de orquestra, humildes na servidão e grandeza de seu ofício virtuose, no anonimato tão conformado mas tão pleno de recompensa íntima pela própria Música... e pelo aplauso sincero do público. Honra aos músicos anônimos, servidores do Mundo...
CASA COM ELA!
Estávamos em 1968, e havia no ar uma revolução social dos costumes e do comportamento jovem. Eu como artista em lenta ascensão, livre do meu primeiro "casamento" fracassado por imaturidade, confesso aproveitava ao máximo as oportunidades amorosas e sexuais que se me apresentavam. Num certo momento, conheci na casa do meu marchand italiano Baccaro, uma garota linda que me pareceu deslumbrante por suas pernas compridas, fora do padrão brasileiro de então. Era do Sul, de Santa Catarina, e seu sotaque também me encantava. Imediatamente passamos a noite juntos e no dia seguinte ela me levou para a sua casa em Florianópolis (fomos de ônibus, claro). Chegamos de noite. Era uma casinha de madeira com um sótão encantador, e depois dela me apresentar apressada e impacientemente sua mãe, uma mulher simples com cara de camponesa alemã, subimos para aquele sótão e lá ficamos numa farra inebriante para mim, sem descer até o dia seguinte, quando acordei nos seus braços com o som de uma verdadeira música vocal que vinha lá de baixo, da cozinha. Era um uma espécie de monólogo ou relato, na mais bela voz e sotaque que eu jamais ouvira. Fiquei tão curioso que me desvencilhei dos braços de minha jovem amante e vestindo-me apressadamente desci daquele sótão e me deparei com uma empregadinha muito branca, jovem, que falava com a sua patroa. Elogiei tanto o seu modo de falar, seu sotaque, verdadeira música para os meus ouvidos, que, surpresa, ela me informou ser descendente de portugueses açorianos. Muitas décadas depois, eu iria emprestar esse sotaque à minha suprema criação, a poetisa Alma Welt, por conta de sua ascendência açoriana materna, conjugada com as compridas pernas alemãs de seu lado paterno...
Mas, como acabou a minha aventura catarinense? Pateticamente... Convidado a sentar na mesa da cozinha para o café da manhã antes que minha namorada descesse, a senhora, em lágrimas, começou a me implorar pela sua filha: "Casa com ela, meu filho, casa com ela! Tu pareces ser um bom rapaz, educado! Pelo amor de Deus, casa com ela!" Eu, constrangidíssimo, me vi numa situação inusitada, isto é, verdadeira, diante do sonho falso em que estava vivendo. Percebi, num átimo, que a revolução dos costumes não atingira todo mundo, isto é, a geração dos nossos pais... e como os fazíamos sofrer! Respondi à senhora que me agarrava as mãos implorando que "salvasse" sua filha "perdida": "Senhora, eu amo sua filha e casaria se pudesse, mas sou casado, isto é separado, não posso me casar mais (era verdade)..." A senhora ficou perplexa, desolada, tanto mais que para ela, vivermos juntos eu e sua filha, em pecado, não seria solução. Minha jovem "hospedeira" desceu do sotão pela escadinha de madeira, nesse momento, fuzilando com o olhos sua mãe "intrusa", que abaixando os olhos recolheu as mãos que agarravam as minhas. Não preciso nem contar como dali por diante, envergonhado, eu só pensava em cair fora, me desvencilhar daquela relação perigosa, ameaçadora da minha liberdade recém conquistada. Fiquei subitamente consciente de estar no fio de uma lâmina, na fronteira de dois mundos... e o mundo velho sofria por nós, pelos jovens afoitos que nós éramos, ávidos de vida e de prazeres, pisando nas velhas cabeças... almejando um paraíso duvidoso, que parecia agora ao nosso alcance..
O BÊBADO AMADO
"Quando eu era jovem frequentava bares, festas e joguei muita conversa fora, embora só me sentasse com artistas e intelectuais. Mas beberrões que éramos, acabávamos nos perdendo em delírios e na névoa alcoólica que se seguia. Quanta vaidade, quanto desespero... Quanta dissipação, como diriam os antigos! Aos poucos, a mente encharcada pelo álcool começou a reclamar e vieram os problemas psíquicos, as depressões, mas sobretudo as angústias. Devo confessar que nesse processo, destruí quatro casamentos. No final de 1976 me internei espontaneamente, contra a vontade da minha terceira esposa, que não via razão para isso (!!), embora, sofredora sem o reconhecer, já tivesse derramado garrafas inteiras na pia. Era eu que não me aguentava mais... Depois de mais duas internações, finalmente aprendi a lição e em Abril de 1981 abandonei definitivamente a bebida e o cigarro, tabagista que também era... Começava uma nova vida, em que, com surpresa notei que não precisava de nenhum aditivo, e que meu desenho, meu traço já consolidado e até precocemente consagrado, nem sequer mudou de qualidade, expressão ou timbre. Como um último baluarte, minha arte não havia sido atingida, e eu não havia comprometido minha reputação, por incrível que pareça. Ao artista se perdoa muita coisa... Quando me confrontei mais tarde com minhas ex, ouvi de cada uma delas (acreditem se quiserem): " Ora, você não é alcoólatra... Você não bebia tanto assim!" Pobres mulheres maravilhosas! Não faziam e não fazem a menor ideia do que é a trajetória interior desastrosa do seu bêbado amado..."
O Elogio da Virtualidade
"Aprecio extremamente a sociabilidade virtual das redes sociais. A esta altura da vida considero-a a forma ideal de relacionamento, sem muita aproximação (se não quisermos) mas sobretudo sem grandes intimidades. Há até mesmo, se soubermos manter, uma certa cerimônia como havia nas sociabilidades do passado, antes de desembocarmos na promiscuidade da Era das Massas. Podemos escolher a nossa melhor face, o nosso melhor ângulo, e isso nos aprimora. Estou sendo cínico? Talvez. Depois de muito conviver na vida ao vivo e a cores, posso comparar e reconhecer na nossa Era Virtual uma evolução que veio para ficar. Mas garanto que não me alienei e que conheço bem o ser humano. Por isso pude me retirar aos poucos e escrever com empatia e amor sobre ele, mais ao menos como um monge laico, se isso houvesse. Enquanto a sociedade, lá fora, mergulha na banalidade dos supermercados, trânsito, comércios, firmas e produtos... eu reconstruo aos poucos, no meu pequeno ateliê, o mundo de encantamento e poesia de minha infância interior, nunca esquecida...
SOBRE CAMELOS E AGULHAS
Com a profusão de escândalos financeiros envolvendo empresas e governos, estou começando a desconfiar que absolutamente toda atividade econômica de grande porte tem uma raiz podre. Isto é uma crítica ao capitalismo? Não! Estou mais propenso à teoria do camelo passando pelo buraco de uma agulha, inusitado comentário cínico vindo do Mestre... que não deixa de conter um certo grau de aceitação. É a condição humana que permeia a Economia, como tudo o mais . Não esqueçamos que a riqueza dos Estados Unidos foi fundada por magnatas que eram grandes bandidos.
FANTASMAGORIAS
Quando a minha filha mais nova tinha um ano, sua mãe mudou-se provisoriamente para um apartamento na rua Consolação, entre Oscar Freire e Estados Unidos, enquanto seu irmão, pagando o aluguel usava o jeitoso apartamento dela, na mesma quadra, ali perto, para instalar um pequena firma legendadora de filmes VHS. Entretanto nós é que haveríamos de viver uma pequena história de terror. Logo minha filhinha, bebê, começou a adoecer, misteriosamente, e eu as visitando diariamente no novo apartamento, sentia um clima pesado, mais que uma tristeza, aquilo que chamamos de "baixo-astral". Passado pouco mais de um mês, a coisa se tornando perigosa, o pediatra sem descobrir a causa da doença do bebê, eu comecei a insistir para que se mudassem logo dali, que o apartamento era insalubre de algum modo, embora não apresentasse nenhuma mancha de umidade em parte alguma. Minha ex-mulher, preocupada e sentindo também a atmosfera pesada daquele apartamento, afinal pediu de volta ao seu irmão seu antigo ap e começamos a mudança. Retiramos os móveis, e o apartamento já quase vazio, me ocorreu deslocar um sofá que não era nosso, e que já estava ali no lugar adequado para tal, desde a nossa visita de interessados no aluguel, e no qual nos sentávamos para ver televisão. Demos um grito de susto. Ao deslocarmos o sofá vimos na parede atrás dele, a palavra MORTE, nítida, não pintada, mas em relevo do reboco branco estufado, sem qualquer vestígio da causa, pois não havia mofo ou mancha de umidade. Algo de um sinistro extremo que nos apavorou. Chamamos imediatamente o zelador do prédio, e indignados, mostramos aquilo para ele. O zelador sem surpresa respondeu: "É... aqui morou um um senhor estrangeiro, velho, que mal falava nossa língua, com um sotaque alemão, silencioso, completamente solitário, não era visitado por ninguém. Saía só para comprar comida. Um dia os vizinhos notaram que ele não saía há uma semana, e me chamaram. Batemos, ninguém atendia e afinal arrombamos a porta. O senhor estava morto no sofá havia muitos dias ..." Revoltado, eu indaguei :" E o senhor, por quê não nos contou isso quando viemos ver o apartamento, com criança de colo? E o zelador então, respondeu: " No começo contávamos, depois fomos pagos pela proprietária para não revelar, porque os interessados desistiam imediatamente..."
Retornada ao velho apartamento, minha filhinha recobrou a saúde. Quanto a mim, tive provas de que "há mais coisas entre o céu e a terra..."
COMPORTAR-SE MAL
Nos anos 60, meus desenhos já começando a ser bem recebidos pelos colecionadores de São Paulo, fui contatado pelo grande empresário e colecionador Max Feffer (agora há décadas falecido) que adquiriu um desenho meu que representava um monge franciscano de costas. Era um desenho dos melhores e ainda me lembro dele. Sinceramente, a tonsura da calva e a cordinha que amarrava a batina do monge eram um prodígio de gestualidade zen como duas pinceladas de caligrafia japonesa que davam movimento à figura estática. Creio que é um desenho que me orgulharia ainda hoje e eu pude vê-lo numa parede da mansão do Max no Jardim Europa, naquela oportunidade. E eu estava em magnífica companhia naquelas paredes que eram dominadas por grandes telas do genial Di Cavalcanti, em quantidade, em todas as salas. Admirado, eu perguntei como ele tinha tantas obras do melhor período do mestre e assim, de grandes formatos. Max respondeu: "Eu podia ter adquirido muitas mais... " e eu, curioso por sabê-lo um homem rico e que dinheiro não seria obstáculo, perguntei : "Como?" e ele respondeu: "O Di vinha sempre me oferecer seu quadros no meu escritório, e às vezes eu não comprava! "Por quê?" - admirado, eu insisti. E o Max respondeu: "Porque ele não sabia se comportar..."
Fiquei mudo diante de tal resposta, e daí por diante receoso de abrir a boca. Eu também precisava tanto que os ricos me comprassem, e percebi como é difícil entender o protocolo dos reis. Quis logo me retirar e quase me dirigi para a porta de serviço. Me despedi, saí, voltei para casa a pé, muito distante, e por uma razão ou por outra nunca mais vi o Max. Talvez devesse também ter me comportado mal...
MEU BATTEAU LAVOIR
"Tendo deixado a casa materna como jovem artista tentando ser independente, pobre como Jó, eu saía do meu pequeno ateliê, um porão infecto, que eu chamava meu "Bateau Lavoir", e me dirigia na hora do jantar para a rua São Luiz, onde era convidado a sentar-me num certo restaurante na mesa de calçada de uns jornalistas do Estadão, que me pagavam o jantar em troca do meu papo e dos desenhos que eu lhes presenteava e que pareciam admirar muito. Logo me aconselhariam a vender ilustrações para o famoso Suplemento Literário (de saudosa memória) coisa que fiz por vezes durante uns poucos anos. Uma vez, estava também na mesa um jovem bonito, nitidamente de outra classe social, que não abria a boca, enquanto nós falávamos sem parar sobre Arte, Literatura e Cinema. Então eu, incomodado, perguntei-lhe: "E você, não gosta de Arte?" O rapaz, carrancudo, respondeu: "De arte eu gosto, eu não gosto é de artista". Fiquei sem graça. Foi a primeira vez que me senti agredido, embora tenha percebido claramente porquê. Eu era jovem como ele, era também bonito mas tinha outras coisas para vender..."
NO FACEBOOK
Dizem alguns que o facebook é meramente uma rede social. Mas sendo assim, serve pra muita coisa, até para se fazer pressão política. Quanto a mim, artista solitário e pouco sociável, desde o princípio vi uma oportunidade de ter nele minha galeria de arte, meu show-room, minha Editora e meu palco. E aparentemente venho obtendo nisso, há sete anos, relativo sucesso. A um artista não peçam senão arte. Entretanto, arte é vida... Devo reiterar que o que posto aqui sou mais eu do que eu mesmo. Se quiserem sociabilidade com um artista, conhecê-lo de verdade, mirem suas obras, leiam seus textos. Em Arte não há modos de se mentir...
SOBRE O MISTÉRIO HUMANO
A vida de cada pessoa no mundo é única e inimitável ou existe o "homem massa", também chamado "o homem-formiga", sem originalidade alguma, forjado pela propaganda, pelas modas ou pelos costumes? Uma vez, uma senhora distinta, de classe média, trabalhando por circunstância na loja de molduras de uma amiga, conversando comigo no balcão, disse: "Guilherme, não existe duas pessoas iguais no mundo. Nunca recebi um cliente igual a outro, nos gostos, ou nas opiniões. Nunca uma personalidade igual a outra, é impressionante o comércio... ". Eu fiquei perplexo pois acreditava que, justamente no comércio, no mundo do consumo, tudo era padronizado. Tendo crescido num bairro de classe média eu sempre me chocara, na infância, com o estereótipo vulgar da molecada com quem eu tinha que brincar, na rua e no colégio. Todos falavam e faziam as mesmas coisas banais. Entretanto aquela senhora, também comum, estava me fazendo ver um outro aspecto da questão, também verdadeira: a duplicidade humana. Somos únicos e comuns, iguais e diferenciados, nobres e plebeus... tudo ao mesmo tempo. Eis o mistério do humano.
Entrando no Mercado
Quando jovem, já artista "profissional" vendendo alguma coisa raramente, a duras penas, e vivendo praticamente na miséria, eu vivia angustiado, ansiando por reconhecimento, num constante sentimento de humilhação. Mas o que me faltava em sabedoria e paciência, me sobrava em obstinação. Eu tinha uma quase absurda certeza do meu talento, pelo menos para o desenho, certeza essa corroborada pela admiração imediata que meus desenhos causavam em absolutamente todos que os viam. Mas custei a descobrir como aquilo poderia se traduzir em vendas e dinheiro, já que admiração é gratuita, nada custa a quem a tem. Então, assistindo leilões de Arte e observando atentamente o que acontecia ali, descobri o segredo: Em matéria de arte, só vende aquilo que está na mão dos ricos. Eu era pobre, portanto nas minhas mãos meus desenhos não tinham valor monetário. Logo eu precisava passar os meus desenhos, num grande lote inicial, para as mãos de um deles, nem que fosse de graça, através de uma artimanha. Eu tinha vinte e hum anos e foi o que fiz, com astúcia inesperada, contra toda lógica imediatista. Em breve contarei aqui como fiz isso e entrei precocemente no Mercado de Arte paulistano...
Anjos
"Ao longo da minha conturbada vida, cheia de conflitos íntimos apesar de tantos privilégios de formação, circunstâncias propícias de classe social, ambiente cultural, etc, eu me defrontei pelo menos três vezes com um anjo verdadeiro, transfigurado a cada vez, que me salvou de mim mesmo. Estou me referindo a um anjo, mesmo, desses de Deus, que me apareceu em momentos de intensa e perigosa crise existencial e espiritual. Naturalmente não se apresentou com asas nem envolto em luz. Entretanto, no meio de muita gente só eu o vi. Por isso, toda vez que tenho a tentação da dúvida e da descrença, eu me recordo desses três momentos perigosos e providenciais de minha vida. Se existem anjos, só pode haver Deus..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Antiga Musa
"Quando muito jovem, já casado pela segunda vez, eu tive um intenso período de boemia, festas, bebedeiras, ao mesmo tempo que muitas leituras e consumo de música, teatro, e cinema. Então, um casal sofisticado, viajado, visitando meu ateliê no centro da cidade, a moça (bela e distinta) me disse: "Guilherme, você perde muito tempo com outras coisas que não a sua arte. Com o seu talento você deveria pintar dia e noite sem parar. Foi o que fizeram os que se tornaram grandes. Pense nisso." Eu fiquei confuso, um pouco envergonhado e retruquei: "Eu preciso me abastecer, consumindo muita arte, livros e experiências... " Mas a moça reafirmou: "Não. A arte está dentro de você, não vem de fora." Fiquei perplexo, pensativo, e vi que ela tinha razão. Um sentimento de dever ou responsabilidade se acrescentou em mim, que me obrigou a trabalhar, contra o meu consumismo artístico, minha inércia, minha preguiça e meu hedonismo. Sou grato até hoje àquela figura, devia ser um anjo. Ou uma antiga Musa...
FILMES ÉPICOS
Amo filmes épicos de aventuras, quando bem feitos, bem produzidos e bem dirigidos. Meus favoritos das últimas décadas são: Ulisses (com Kirk Douglas), Os Sete Samurais e Ran (de Akira Kurozawa), 300 (perfeito), Tróia (com Brad Pitt), e as maravilhosa trilogias O Senhor dos Anéis e O Hobbit, a deliciosa trilogia Piratas do Caribe, Malévola (beleza surpreendente)...
Urbano
Eu sou muito urbano, quero dizer, muito dependente dos confortos e tecnologias modernos. Não poderia passar sem meu teto, privacidade, boa cama, banheiro com um bom chuveiro quente, fogão a gás, geladeira, máquina de lavar roupa, telefone, TV a cabo, computador, Internet, livros nas estantes, quadros nas paredes, tintas, telas, papéis, pincéis, ferramentas etc. Muito dependente de tudo isso. Ah! Minha linda mulher, excelente companheira, imprescindível... Enfim, sou um ser super dependente de muitas coisas, como todo homem moderno. Não me orgulho nem me envergonho disso, mas garanto que lutei muito para ter o que para a maioria é apenas o básico. Entretanto não consegui ter um pouco de natureza, supremo luxo, nem sequer um pequeno jardim. Eis porque pinto paisagens imaginárias e me cerco delas pelas paredes...
O Vale
Por ocasião do término do meu quarto casamento, aos meus 37 anos de idade, expulso de casa, afastado de meus filhos e bastante deprimido, almoçando com minha mãe, por fraqueza me queixei dolorosamente. Minha mãe somente respondeu: "É.... meu filho... "A vida é um vale de lágrimas". Ela nada mais disse, enquanto me servia um belo prato em sua mesa. Quanto a mim, calei-me envergonhado, pois compreendi, num relance, todo o estoicismo de minha mãe, que, separada há muitos anos, nunca se queixara de nada...
O perfume
Quando eu era garoto, na minha Alameda Lorena, tão pacata, a rua já de asfalto (um carro a cada meia hora) era o nosso playground (expressão que nem havia). Ali, entre os jogos de rua dos meninos, patinação, hókei de bicicleta, queimada, jogo de taco, pique, acusado, carrinhos de rolemã na ladeira da Eugênio de Lima, as meninas de vestidinho e sapatos de fivela, brincando na calçada seus jogos graciosos de palmas e versinhos... de repente, surgiu uma menina, linda, a mais bela, modelada no primeiro jeans colante americano, coisa nunca vista. Apaixonei-me imediatamente e assim passei sofrendo todo o resto da minha infância. Muitos lances aconteceram, eu sempre escondendo por timidez a minha paixão. Um dia no primeiro bailinho de aniversário em sua casa, a maior do quarteirão e a única rica, nós ainda crianças, ou pré-adolescentes (expressão que não existia), ela, mais avançada, me tirou para dançar, e assim juntos, muito próximos, num bolero ou fox-trot, eu rocei com os lábios a sua testa muito branca e senti o perfume delicioso, natural, de sua pele. Esse perfume se entranhou em minhas narinas deslumbradas e no meu espírito para sempre. Ainda hoje o sinto quando penso nela. E volto àqueles momentos, como o fez o cheiro das "madelaines" para Proust, na Procura do Tempo Perdido. Mas devo dizer que é o único perfume que ainda sinto, com as minhas narinas estragadas como sequela de anos de tabagismo e depois anos de vasos-constritores, para poder dormir. Não tenho mais olfato, não sinto cheiro algum, somente, e repentinamente, quando menos espero, o perfume da pele do meu eterno amor infantil...
PEQUENOS MILAGRES
Se alguém me perguntasse qual é o meu segredo (ninguém nunca me pergunta nada) eu diria: "Pinto e escrevo sempre para mim mesmo, coisas que eu gostaria de ver e ler."
Sei que isso não é uma novidade, todo artista faz exatamente isso. Mas quando surge de mim algo que eu realmente gosto, sinto que aconteceu um pequeno milagre. E mesmo depois de tantos anos fico invariavelmente deslumbrado... e grato.
"Retrato do artista quando jovem cão." (Dylan Thomas)
Pode ser um lugar comum, mas quanto a isso de envelhecer, eu, Guilherme de Faria, só posso dizer que gostaria de voltar à juventude tão somente quanto ao corpo, isto é, mantendo a cabeça que tenho agora. Com isso quero dizer que reconheço que eu era um tanto idiota, sobretudo quanto à politica, por exemplo. Ah! Mas também porque fumava, bebia, e sofria feito um cão. Sim, eu era um talentoso idiota...
O DEDAL E O BARRIL
É curioso... Hoje, dia 1° do ano, a minha Oscar Freire amanhece silenciosa, e não se ouvem nem bem-te-vis. Acordei cedo, porque não bebo álcool desde 1981. Nem um único gole. Quando eu era jovem, "um dedal era muito e um barril era pouco", como se diz... Não faz falta, não tenho saudades, nunca tive de lá para cá a chamada "memória eufórica". Sou atípico, nunca tive recaída. Aprendi a lição de estalo quando ouvi o primeiro depoimento. Não duvidei. Burro é quem só aprende com a própria experiência. Nunca mais brindei a nada, deixo pra quem pode. Bebam por mim neste novo ano, mas saibam que não tenho um pingo de inveja, mesmo reconhecendo ainda a beleza da cor de um copo de cerveja ou de vinho... mas só como pintor. Acreditem se quiserem. Fui bem mais feliz na sobriedade. Meu desenho, minha pintura? Não mudaram, não ficaram nem melhor nem pior, talvez porque a Arte num artista é o último baluarte a cair. Deus seja louvado. ELE parece apreciar os artistas porque lhes dá umas surras
mas poupa a suas artes...
COMUNISMO E CAPITALISMO
O comunismo gera pobreza, desemprego e mortandade. O socialismo gera parasitas. O que gera riqueza, motivação e emprego é o capitalismo, esta é que é a verdade.
INCULTOS
Vocês querem conhecer uma maneira infalível de detectar uma pessoa inculta? Basta você reparar se ela fala ou escreve "esteje" ou "seje", em vez de esteja ou seja, ou se diz "capitões" em vez de capitães. Quanto ao "analfabeto funcional", os sintomas são mais visíveis ainda, porque os erros de português são mais numerosos, principalmente os de concordância verbal. Ah! E o fato de que não concatenam um raciocínio lógico, se expressam por chavões e nunca respondem com propriedade a um arrazoado ou ataque verbal, e sim com deslocamentos.
PURGATÓRIO E INFERNO
O Purgatório é um lugar para pessoas pacientes. Ao menor sinal de impaciência ele vira um Inferno. É claro que estou pensando no Brasil quando escrevo isto...
TROIA e o senso de realidade (ou O moço de Rio Pomba)
Há uns anos atrás, eu estando com a Eliana em temporada numa pousada de uma pequena cidade de Minas, durante os longos e monótonos serões assistia no DVD-player da sala comunitária da pousada, filmes épicos que eu alugava de uma locadora local, os quais aprecio muito, como O Senhor dos Anéis, Troia, e 300, por exemplo. Um moço recém-chegado de Rio Pomba, uma outra cidade mineira, aproximou-se de mim, e com visível ironia me disse: "Como o senhor gosta de guerra, não?!". Fiquei ligeiramente desconcertado com a visível censura e até desprezo contidos na observação do rapaz. Entretanto respondi: "São filmes épicos, epopeias... não são simples filmes de guerra."
Minha resposta calou o rapaz mas não desmontou o seu equivocado desprezo, eu percebi pela sua expressão fisionômica. Dei-me conta então da verdade sobre o tal analfabetismo funcional, ou pelo menos da incultura dos jovens-recém saídos das Universidades. O rapaz era um jovem promotor e não poderia fazer uma tal observação enquanto eu assistia uma bela versão da guerra de Troia, embora hollywoodiana. No meu entender o mínimo que um advogado ou promotor deveria ler, continua sendo a Ilíada de Homero. Talvez eu deva reconhecer que meu estilo de vida, voltado inteiramente para a minha arte e memórias literárias, pode ter me afastado da realidade atual. Mas não! Por que então continuariam fazendo blockbusters com tão belas estórias épicas? A ignorância por mais disseminada que esteja, é sempre uma questão individual.
Mas... quanto ao senso de realidade, devo dizer que precisei alguns anos para me dar conta de que embora não houvesse mais ninguém na sala e os outros hóspedes estivessem todos dormindo, o rapaz deveria estar querendo ver o Jornal Nacional e eu estava egoisticamente ocupando o televisor...
Alguns pensamentos que me ocorreram ...
1. Eu admiro os antigos piratas porque eles não pensavam em se aposentar nem quando perdiam uma perna ou a mão direita. rrrrss
2. O politico, assim como o próprio governo, é o exemplo máximo do mal necessário.
3.Todas as mulheres deveriam ser lindas para um tipo de gosto universal. Isso pouparia muito sofrimento para ambos os sexos.
4. A vida atual do homem comum nas grandes cidades é profundamente mesquinha e fútil. Uma forma diminuída de vida, mesmo com os confortos e facilidades modernos. Eu gostaria que tivéssemos a nossa tecnologia mas com a mentalidade cavalheiresca e romântica do século XVIII, desde que sem aqueles patíbulos, masmorras, torturas e guilhotinas...
5. Meditar sobre a vida com clareza e sem ilusões nos faz perceber como a vida moderna é absurda. Por isso é melhor não meditar muito, é melhor ser meramente contemplativo do que ainda é belo.
6. Eu só consigo concordar comigo mesmo quando escrevo poesia ou quando pinto. Aí observo alguma coerência e até lucidez. Fora da Arte vejo a vida com desgosto. Ou me sinto francamente fracassado.
A LINGUAGEM HUMANA
A linguagem humana, escrita ou falada não passa de um código: exige interpretação de quem ouve ou lê. Em outras palavras, exige "decodificação", sempre. Por isso o ser humano vive ainda em Babilônia, por isso existem as guerras, as polêmicas e as "ideologias" em combate perpétuo. Não tenho a possibilidade de saber se estou sendo realmente entendido no que digo ou escrevo para outro ser humano. Falando, escrevendo e até pintando tenho apenas a vaga esperança, aquela mesma que fazia o babilônio empilhar pedras para atingir o Céu...
MINHA FASE LITOGRÁFICA
Quanto à minha fase litográfica, devo dizer que fiz exatamente 864 imagens diferentes, todas criadas e desenhadas diretamente por mim sobre pedras da Bavária, e uma vez provadas em preto branco e depois em cores pelo operário impressor, o Tião, eram aprovadas por mim e depois de assinado por mim o BPI (Bom Para Imprimir) começava o trabalho de impressão da tiragem estabelecida pelo meu Editor, o Elsio Motta, da Glatt-Ymagos, que era também o distribuidor e vendedor, nacional e internacional. Como a média de tiragem das minha litos ao longo de 20 anos (de 1974 a 1995) era de 150 exemplares por imagem, devo ter assinado ao longo dessa fase de sucesso que cobriu duas décadas, cerca de 129.600 exemplares de litos que se esgotaram, foram todas vendidas, estão aí pelo mundo.
Nota
Sei com precisão o número de imagens originais que fiz na pedra, porque a Gráfica Ymagos conserva a PBI assinada pelo artista e o REGISTRO numerado de cada imagem acompanhado de pequena foto, de todos os artistas por ela editada (!!!) Isso é uma norma internacional das grandes Editoras Litográficas no mundo todo.
O ARTISTA NO ESPELHO
A maioria das mulheres, mesmo quando idosas, parecem se ver como ninfetas lindas quando se olham no espelho. Vejo isso com ternura, pois percebe-se que elas refletem-se de dentro. Quanto a mim, como homem, quando me olho ao espelho vejo um ancião de cabelos e barba brancos ainda mais velho. Mas isso, suponho, se deve não ao homem mas ao artista em mim. Ser artista, ao contrário do que as pessoas pensam, é ter um exacerbado senso de realidade.
MUSAS
Deus nos deu a Arte e a Poesia e até as belas mulheres como musas. Cabe a nós aproveitar essas dádivas divinas e fazer bom uso delas. Não as vulgarizemos jamais. Deus não gosta de vulgaridades nem deboches. O humor? Sim, Ele gosta, mas isso é outra coisa. Sem vulgaridade o humor é também arte.
O HOMEM-MASSA
Quando criança, minha mãe, aristocrática por natureza, me aconselhou: "Evite acotovelamentos". Assim, com certo humor ela me avertia a não me misturar ao homem-massa. Como pude entender isso tão precocemente? Isso poderia fazer de mim um medroso, mas me fez um individualista, um solitário e um artista.
ALIENS
A suposta existência de Aliens ou ETs sempre me fascinou. Gostaria que existissem mesmo, e que chegando com tecnologia superior fossem bem hostis para unir os homens e as nações contra um inimigo comum. Sim, porque não vejo outra alternativa, muito menos com o tal globalismo, que é baseado num ideia de esquerda, portanto destinada ao fracasso. Entretanto devo reconhecer que meu fascínio pelo tema dos alienígenas pode advir não de um certo idealismo mas de uma simples morbidez, a mesma que faz a gente gostar de filmes e contos de terror, de preferência góticos. Eu, por exemplo, adoro os contos do Edgar Allan Poe, bem como os H.G. Wells e Hoffmann. Ah! E "O Horla" de Guy de Maupassant.
BOBAGENS DE JUVENTUDE
Um amigo me disse: "Fiz tanta bobagem na juventude, que cada contemporâneo meu que morre é uma testemunha a menos e um alívio." Eu ri muito mas depois fiquei triste, pensando nas minhas próprias bobagens...
A PÁTINA DO TEMPO
Quando eu era jovem, em 1969 fui até Basel (Suiça) para encontrar uma namorada (filha de pai suíço) com quem pretendia viver na Europa. Ela era linda, mas não deu certo por culpa de uma depressão que me assaltava naquele período e se agravou com o início do inverno, triste, cheio do crocitar de corvos daquela cidade sem horizontes nem montanhas. Voltei correndo e nem vi Paris que estava a duas horas de trem dali. Nunca fui um bom viajante. Lembro-me que de Basel só gostei do seu famoso Museu com as obras do grande Hans Holbein, filho daquela cidade. Mas ainda em Basel, olhando uma catedral gótica de perto achei as pedras muito limpas e "neutras". Não encontrei a pátina do tempo que eu imaginava. Na minha alma a Europa é cheia de episódios e aventuras das minhas memórias livrescas. Na minha mente os sinos da catedral de Notre Dame de Paris ainda são cavalgados pelo corcunda, e em baixo da praça, num subterrâneo, ainda existe o Pátio dos Milagres, onde os mendigos farreiam, os cegos veem, e os paralíticos correm entre as ciganas e prostitutas, sobre as mesas repletas de canecos de vinho, às gargalhadas...
MAIS SOBRE ALMA WELT
Uma das maiores e mais persistentes mágoas da poetisa Alma Welt foi não ter tido filhos. Pior: ela teve um mas perdeu com poucos dias. Ao entrevistá-la toquei no assunto e o semblante daquela mulher linda se nublou, ela oscilou como numa vertigem e baixando a cabeça soluçou dolorosamente. Eu me apaixonei imediatamente por ela, eu a abracei e a apertei contra o meu peito e sonhei por um momento em dar-lhe um filho e devolver-lhe a felicidade... Mas ela então se desvaneceu e... eu abraçava o vazio. Ela vinha de dentro de mim, era meu maior heterônimo, eu podia dar-lhe vida em letras e palavras, até mesmo em pinturas, desenhos e gravuras, mas não podia corporificá-la em carne e osso como um Pigmalião à sua Galatea...
O SENTIDO DA VIDA
Uma coisa é certa: cabe a cada um descobrir o sentido da vida, quer dizer... de sua própria vida. Para muitos isso é uma procura de uma vida inteira, para poucos um estalo quase ao nascer. Nesse sentido fui um privilegiado: descobri ainda criança que queria ser um artista, desenhista e pintor também escritor, ao ler, da biblioteca caseira de meus pais cultos, precocemente, a biografia romanceada dos grandes artistas da Renascença Italiana. Eu me identifiquei imediatamente com eles, me parecia conhecê-los profundamente em mim mesmo... Absurdo? Assim era. A primeira biografia que me apaixonou foi a Vida de Michelangelo, de Romain Rolland, que começava assim: "Era um burguês florentino...". Em seguida, O Romance de Leonardo Da Vinci, de Dimitri Merejkowsky, histórias de vidas com as quais misteriosamente tive uma identificação profunda, me perdoem a talvez ridícula pretensão do meu inconsciente, se posso dizer assim... Depois, claro, fui ler a vida dos "modernos" , isto é, dos impressionistas e pós-impressionistas da Ècole de Paris.
Portanto cresci com essa obsessão, e nunca me ocorreu outra "profissão" e muito menos procurar um emprego. Resultado, no inicio da minha carreira, tendo saído de casa brigado com minha mãe, que queria me proteger da vida e do mundo (ela me ameaçava com o exemplo trágico de Van Gogh, que ela generalizava), fui morar num porão infecto num cortiço atrás do Cemitério da Consolação, meu primeiro ateliê onde vivi uma espécie de "vie de bohème" num Bateau Lavoir ou num Quartier Latin tupiniquim. Resumo: os meus primeiros quinze anos de carreira artística foram divididos assim: cinco anos de miséria negra e dez anos de pobreza extrema, regados a álcool, sexo, angústias e música clássica (!!) Depois, gradativamente uma subida para uma relativa prosperidade "bourgeoise" que durou outros quinze anos apenas, para depois mergulhar lentamente numa digna e prestigiosa pobreza, cercado de centenas de meus quadros, na minha gaiola dourada da rua Oscar Freire onde envelheço neste quase quitinete "que é a parte que me coube neste latifúndio"...
PINTOR
O que é um pintor (coisa que hoje em dia chamam ridiculamente de "artista plástico")? A meu ver é um sujeito que, não se conformando com a vida como ela é, resolve não mudá-la por saber tarefa impossível, mas construir seu próprio mundo visual e mental. Quando consegue seu intento, passando ou não por muitas fases, que são mudanças de ideia, correções de rumo,
se vê cercado por seus poderosos espelhos mentais que lhe dão a secreta satisfação de um Deus em pausa de descanso. Garanto-lhes: não pode haver satisfação maior que ver-se projetado e aprovar-se, sem mais arrependimentos, com orgulho, quando isso é possível...
SOUVENIR D'ENFANCE
Quando criança eu assistia nas matinês seriados americanos de Flash Gordon, ou westerns em preto e branco; mais tarde um pouco, musicais de fantásticos sapateados de Ginger Rogers e Fred Astaire, e Gene Kelly. Eu via também, claro, nos domingos, filmes de Mazzaropi e as comédias da Atlântida, de Oscarito, Grande Otelo, Eliana e Cyl Farney, que devo confessar que me divertiam igualmente. Entretanto a inevitável comparação da sociedade americana vislumbrada naqueles filmes, com a nossa, me produzia uma espécie de secreta vergonha e humilhação pelo nosso evidente provincianismo e "jequice". Na verdade essas palavras não me vinham ao subconsciente, muito menos a palavra subdesenvolvimento. Era tão somente uma vergonha difusa, um vago desgosto estranhamente misturado com a ternura e nostalgia de algo mais primitivo, ingênuo e longínquo que me tocava e comovia quando eu ouvia coisas como a canção "Casinha Pequenina" (Tu não te lembras... ) cantada pela nossa soprano Bidu Sayão, ou a Cantilena da bachiana n°5 de Villa-Lobos.
Entretanto predominou o desgosto, já que em casa eu me entupia dos clássicos da literatura européia da biblioteca dos meus pais. Minha infância, pois, sendo um ratinho de biblioteca, foi atípica e me tornou um solitário, pois para o próprio desenho e pintura de minha vocação inata eu só tinha modelos europeus, claro. Sobretudo os divinos renascentistas italianos, e como ilustradores, os oitocentistas Gustave Doré e Wilhelm Busch.
Resumindo: sempre me senti deslocado, um exilado em minha própria terra, uma mente européia num coração brasileiro, portanto num peculiar desconforto que só cessa quando estou diante do cavalete, terra de ninguém...
DEFEITOS DE CARÁTER
Sei que toda generalização é injusta, mas tenho uma enorme tendência a considerar o Brasil um país profundamente infeliz por nossos próprios defeitos de caráter...
GRATO
Se alguém me perguntasse qual é o meu segredo (ninguém nunca me pergunta nada) eu diria: "Pinto e escrevo sempre para mim mesmo, coisas que eu gostaria de ver e ler."
Sei que isso não é uma novidade, todo artista faz exatamente isso. Mas quando aparece algo que eu realmente gosto, sinto que aconteceu um pequeno milagre. E mesmo depois de tantos anos fico invariavelmente deslumbrado... e grato.
O CRISTO REAL
Quem como eu assiste TV a cabo pode perceber ao longo do ano e principalmente nesta época de Natal, nos inúmeros programas de "investigação histórica " do que eles chamam de "o Cristo real" , a verdadeira campanha insidiosa e sub-reptícia de desconstruir a figura divina de Cristo, descrevendo-o como um revolucionário progressista popular, buscando mudar suas fontes e demolindo "cientificamente" datas e mistérios. Isso faz parte da estratégia globalista de esvaziar o próprio sentido fundamental da religião Católica e mesmo de todas as outras vertentes do Cristianismo, inclusive as protestantes. O cristianismo todo se baseia no fato de que Jesus Cristo é Deus encarnado, isto é, Deus que se fez homem, e portanto a Segunda Pessoa da Trindade. Sem esse dogma fundante não existe a Igreja Católica e nem sequer o cristianismo. Os programas de "investigação arqueológica" do cristianismo são insinuantes e capciosas tentativas de destruir o conceito de divindade de Jesus, e consequentemente da existência do próprio Deus. Isso faz parte de uma corrente materialista de pensamento que invadiu o Vaticano e corrói por dentro o Catolicismo para reduzi-lo a uma expressão revolucionária, na verdade puro marxismo disfarçado. Essa corrente se chama Teologia da Libertação e é apoiada disfarçadamente pelos globalistas, corrente mundial empenhada em destruir o cristianismo, e implantar um governo mundial socialista ateu acima das soberanias das nações, que passarão praticamente a não existir num futuro próximo.
Não, Cristo não foi um revolucionário mas a realização de uma profecia da religião judaica, da vinda do Messias, da qual ele nunca se afastou, apenas corrigindo os seus desvios numa época de decadência, reafirmando acima de tudo o Primeiro Mandamento: "Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo".
Essa intenção programática de esvaziar todo sentido místico e sagrado das religiões, só interessa aos socialistas/comunistas, que para isso até mesmo se aliam contraditória e provisoriamente ao islã, sem perceberem que futuramente serão engolidos por ele em sua natureza teocrática indebelável.
Sim, é verdade: vivemos numa época de ascensão do Anti-Cristo, e isso não é mera "teoria da conspiração", folclore ou superstição. Só podemos nos consolar com a ideia de que a Fé do povo é indestrutível e faz parte de sua natureza, não por ignorância e ingenuidade mas pela busca humilde de um sentido de transcendência, e portanto baseada no que o povo tem de melhor.
DEPRESSÃO E ANGÚSTIA
"Não sou um tipo dado à depressão, mas mais à angústia existencial, o que não melhora muito, eu sei... Lutei a vida toda contra um certo pessimismo de fundo, não paralisante, essencialmente racional, advindo de uma onipresente consciência da morte. Presumo que isso seja uma característica comum aos artistas e, no fundo, a razão da obsessão em criar. Na verdade, esse é o preço que se paga pela criatividade profunda, pelo dom da poesia, e pela paixão imoderada pela beleza. Por outro lado, há uma satisfação imensa após o término bem sucedido de cada obra, um orgulho que não se assemelha nem um pouco à vaidade, menos ainda ao narcisismo, e uma certeza da transcendência da vida, do espírito... em uma palavra: de Deus."
REGISTROS INCOMPATÍVEIS
"Uma vez, reencontrei o pintor Aguillar, velho amigo dos anos 60 e sabendo que ele é também escritor, além de pintor, perguntei-lhe se continuava escrevendo. Ele respondeu: "Não. Estou pintando muito, são registros incompatíveis, pertencentes a lados diferentes do cérebro. Quando um lado está muito ativado, o outro desliga."
Fiquei pensando sobre isso e vi que ele tinha razão. Quando estou numa fase intensa de pintura, a Alma Welt em mim se retrai e sou incapaz de dar à luz os seus sonetos, por exemplo. Neste ano de 2018, com a explosão da minha fase pictórica floral, a Alma Welt se retraiu bastante. Às vezes penso que ela, sendo Anima, luta comigo e gostaria de me possuir por inteiro. Ai do artista que se deixar dominar totalmente pela sua própria anima. Como "anima possuído" (no dizer de Jung) esse artista ficará belamente criativo, mas sofrerá forçosamente um rebaixamento do animus... e morrerá de fome, incapaz de vender o seu trabalho. "
Os reencontros
Os reencontros em nossa vida nunca acontecem como imaginamos ou esperamos. Há sempre uma surpresa, uma ironia, ou uma decepção desconcertante (redundância), por vezes uma inusitada ternura. Por ora não me refiro aos meus raros reencontros com as mulheres amadas da minha juventude. Quando minha querida mãe que sempre apostou em mim como artista ficou doente na velhice e foi morar numa chácara no interior com meu irmão mais velho e sua esposa por motivo de infra-estrutura que eu não poderia dar morando num ateliê precário e superlotado de tralha, passei quase um ano sem vê-la e afinal, visitando-a encontrei-a apesar de super bem tratada, magérrima pela doença, deitada numa cama de onde não mais saía, me fitando com olhos arregalados. Sem ter certeza de que me reconhecera, disse-lhe: "Mãe, sou eu, o Guilherme". E passando a mão na minha barba branca, completei: "Estou velho, não?" E ela com os mesmos olhos arregalados e sem expressão respondeu seca e laconicamente: "ESTÁ!"
Sorri desconcertado, acariciei um pouco sua mão inerte, e me retirei do quarto. Nunca mais a veria viva. E aquela confirmação da impressão física que devo causar aos que me conheceram jovem, me acompanhará para sempre. Sei também que essa impressão deve durar somente até eu começar a falar, pois meu entusiasmo pela minha arte, pela beleza persistente da vida e da natureza, e pelos termos ideais da existência humana, me mantêm com o mesmo fogo da minha juventude, embora não mais boêmio e desregrado, e certamente sem aquele desespero oculto que a minha arte mal disfarçava...
Enfim... como é bom envelhecer!
O MENINO DO ÓBVIO
Quando eu estava no quinto ano primário do colégio Mackenzie, eu, que era o primeiro da classe sem fazer esforço, de repente me defrontei com um aluno novo, chegado do interior e em regime de Internato, que tinha o apelido de "Crânio", e que me roubou o primeiro lugar e me suplantava de longe em conhecimentos e provavelmente em QI. O garoto precoce, tipicamente de óculos (hoje em dia o chamaríamos de nerd) era quase um erudito, e eu conversando com ele no pátio durante os recreios, me sentia pela primeira vez um ignorante apesar das minhas leituras da boa literatura universal. Foi numa dessas conversas que eu, querendo impressioná-lo declarei alguma coisa, na verdade acima dos meus conhecimentos e recebi esta resposta inaudita:
- "Mas é óbvio, meu caro!"
Eu fiquei estupefato, sem resposta e até sem fala. Eu jamais tinha ouvido ou sequer lido tal palavra em qualquer dos grandes romances ou estórias de aventuras dos grandes escritores que eu lia. Simplesmente tal palavra esdrúxula não constava da Literatura. Entretanto eu penso que a entendi alguns segundos depois de passada a perplexidade. A palavra impunha-se por si mesma, solitária em seu próprio sentido auto-suficiente, e mais envergonhado fiquei de não conhecê-la, por pedante que me parecesse. Somente muitos anos mais tarde fui vê-la publicada nas tiradas do Nelson Rodrigues com seu "óbvio ululante."
Ainda assim jamais empregaria esta palavra nos meus textos, e muito menos nos da Alma Welt, meu heterônimo feminino que só surgiria na minha maturidade, a partir de 2001.
Na verdade o óbvio não interessa mesmo, e nem merece discussão, diante da enormidade do Desconhecido, da nossa estupefação latente e crônica diante do grande mistério da Vida.
Por que então aquela palavrinha, que nem sequer pode ser dita comendo farofa, me foi tão estupefaciente? Creio que ela, em si, encerra o Grande Segredo, e não o revela...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Nota
Às vezes me pergunto que fim levou o menino do óbvio, o pequeno nerd avant-la-lettre, que uma vez me mostrando seu quarto no Internato, revelou que não tendo uma vitrola para ouvir música, lia de noite no leito partituras de grandes sinfonias de Beethoven e assim as ouvia, o que me pareceu miraculoso. Nunca mais o vi depois daquele ano, nossos rumos foram muito diferentes e eu gostaria de saber se ele, voltando à sua pequena cidade fundou ali uma "Lyra Musical", se tornou maestro da banda, fundou a Academia de Letras, escreveu sonetos tardiamente parnasianos, ganhou a grande comenda das Artes e das Ciências da cidade, morreu cedo de amores enforcando-se alta noite na grande árvore da pracinha. Só me resta imaginar, nunca mais ouvi falar dele (conheço o seu nome e penso um dia fazer uma pesquisa, já que estamos na era da Internet). Mas quantos pequenos gênios precoces não deram em nada, já que somos regidos por um destino tão arbitrário que às vezes privilegia com grandes prêmios o idiota da Vila, o retardado da família, o delinquente potencial que se tornará um chefe ou um presidente. Nada sabemos dos "desígnios" do nosso misterioso e nada óbvio Deus...
O mecenas
Quando jovem artista, em 1965, lutando para vender meus desenhos e pinturas para sobreviver, já com a minha segunda companheira, a bela Jomara, vivi a estranha experiência de
conhecer um tipo social raríssimo, um "mecenas", de verdade. Tratava-se de um médico, grande colecionador judeu, riquíssimo. Foi assim: fui procurar uma senhora, judia muito culta, mãe de um amigo meu de infância, de quarteirão, que me disseram que estava lidando com arte. Procurei-a na esperança dela me ajudar a vender alguma coisa. Ela ficou com alguns desenhos em consignação para tentar vender para a sua colônia e me aconselhou a doar alguma obra para um leilão em benefício da construção do Hospital Einstein, o que fiz embora estivesse praticamente na miséria. O importante é que dois dias depois ela me procurou dizendo: "Guilherme, mostrei seus desenhos ao Dr. José Nemirovsky, que é um grande colecionador e membro da diretoria do MASP. Ele disse que já viu desenhos seus em leilões e admirou-se de saber que você é jovem. Ele pensava que você era um artista da geração do Volpi. Ele gosta do seu trabalho e disse para você procurá-lo. Eis aqui o telefone dele".
Cheio de expectativa telefonei para o Dr. Nemirovsky que me disse: "Guilherme venha aqui na minha casa hoje, às tantas horas para conversarmos." Ele morava num luxuoso apartamento em Higienópolis, e eu ao adentrar me deslumbrei de passagem com a sua fabulosa coleção brasileira, na qual percebi logo Portinaris, Volpis, Tarsilas, Bonadeis, Anitas e Di Cavalcantis.
Ele, um homem alto e distinto, me conduziu ao seu escritório, uma grande biblioteca, e sentando à sua mesa, eu convidado a sentar-me a sua frente, olhou-me profundamente, perscrutando-me, e perguntou:
"Rapaz, o que você quer da vida?"
Sem surpresa pela sua pergunta, como se já a esperasse, respondi quase como se ensaiado:
-"Doutor.... eu quero criar uma grande obra, pintar grandes quadros.. é só o que me interessa na vida..."
Ele me olhou mais profundamente ainda, e não enxergando falsidade no que eu dissera, continuou:
"Quero visitar seu ateliê. Podemos ir agora mesmo? Onde você mora?"
- Claro, doutor, moro no centro, na praça Julio Mesquita, na esquina da rua Aurora.
Ele avisou sua mulher Paulina, uma bela mulher com porte de rainha hebreia, que me cumprimentou com um sorriso acolhedor.
Saímos, e o pai do doutor, um senhor idoso que estava ali talvez de visita, saiu junto e entrou conosco no elevador. Enquanto descíamos para a garagem, o velho olhando-me rapidamente de cima a baixo virou-se para o seu filho e perguntou apenas: "Goi"?
O doutor sorriu e olhando-me rapidamente disse: " Sim" . Quanto a mim, fingi não entender que o velho perguntava se eu não era judeu, se era "gentio", isto é, "gentalha".
Pegamos o carro do doutor na garagem, e ele dirigindo tocamos para o meu apartamento-ateliê.
Era na "boca do lixo", no Edifício Olido, em cima do cinema de mesmo nome, de repertório pornô, condigno lugar para um artista em começo de carreira, na zona barra pesada da prostituição do centro da Paulicéia, ao lado de um famoso treme-treme...
Chegando ao nosso destino e tendo deixado o carro num estacionamento ali perto notei que o doutor olhou admirado para a bela fachada e portaria Art-Déco de mármore negro do prédio, muito bem conservada e inesperada naquele contexto.
Entrando no nosso ap ele logo viu o belo retrato a óleo que eu fizera da Jomara e do qual já contei a história. Ele ficou muito impressionado e elogiou a pintura. Logo a Jomara veio recebê-lo e ele fez elogios à sua beleza ao vivo. Era um homem com muito savoir-faire...
Dentro de um dos quartos que era o ateliê, comecei a mostrar a ele inúmeros desenhos e pinturas, e uma delas o agradou especialmente. Refreei o impulso de dar a ele a tal pintura, o que poderia estragar tudo. Me lembro também de que eu, falastrão como sempre, não parava de falar.
De repente ele disse: "Vamos voltar ao meu apartamento. Você pode sair de novo, me acompanhar?" Eu estava cada vez mais curioso.
De volta ao suntuoso apartamento de Higienópolis, diante da sua mesa-secretária ele me disse:
-Bem, rapaz... não sei se faço bem ou se faço mal, mas diante do que vi, quero lhe perguntar: quanto você precisa por mês para não precisar vender a sua arte?
- O senhor se refere a uma mesada? - (eu perguntei)
.
Bem...(ele respondeu) - Uma bolsa, digamos. Por um ano.
Eu disse: Preciso calcular...
E ele: "Isso, pense bem, faço o seu orçamento e depois me telefone."
Fui para casa, eufórico, e disse para a minha mulher:
"Jomara, tiramos o pé da lama, sairemos da miséria!"
E contei a ela, perplexa com os olhos marejados, a proposta do doutor.
Durante um dia fiz mil contas e combinando com a Jomara estabeleci um valor altíssimo, que me permitiria realmente pintar com largueza e vivermos à grande. E voltei a telefonar ao meu inesperado mecenas que me pediu que fosse novamente ao apartamento dele. Diante daquela mesa pela terceira vez, agora eu transmitia o orçamento com firmeza. Ele sorriu e disse:
"Um pouco alto demais, não acha? Eu estava pensando em... digamos...(tanto)."
E ofereceu a metade, que ainda era uma pequena fortuna mensal.
Aceitei imediatamente... eu calculara bem alto prevendo isso, pois desconfio ter também um pezinho em Jerusalém, como a maioria dos brasileiros de origem portuguesa...
- Bem, rapaz, me dê o nome do seu banco, agência e número da conta, e todo dia primeiro de cada mês estará essa quantia depositada.E não conte isso para ninguém. Agora nós não devemos mais nos ver. Adeus.
Eu fui para casa e a partir do dia 1° que estava muito próximo, começou para nós a festa dos novos dias de pintura, "de vinho e de rosas", que plasmaria dai por diante nossas vidas com a marca do excesso, da boemia... e nem por isso, da felicidade. Mais ou menos como quando se faz um duvidoso pacto...
Com a "bolsa" do meu mecenas entrando todo mês, nossa vida mudou. Havia fartura, podíamos fazer planos, e logo nos mudaríamos da "boca do lixo" para a rua Estados Unidos, nos Jardins, num jeitoso apartamento alugado, em cima e atrás de uma padaria. Foram dias de muita produção mas também, como eu disse, "de vinho e de rosas", isto é, de festas e bebedeiras homéricas, a ponto de um amigo nosso, gay e sofisticado, nos apelidar, a mim e Jomara, de "Fitzgerald e Zelda", tal a nossa dissipação eufórica e "artística". Ali aconteceram também coisas estranhas e perigosas, que narrarei noutra ocasião, mas após um ano, se aproximando o último dia do contrato, eu telefonei para o mecenas e convidei-o a vir ver o fruto do meu trabalho daquele ano. O Dr. Nemirovski veio e ficou primeiramente surpreso com a minha mudança de endereço às suas custas, eu percebi: ele olhava muito em torno. Entretanto, eu tinha o que mostrar, embora, sinceramente, eu pudesse ter feito mais. Mas ele disse:
- Muito bem, rapaz, você trabalhou bem.
Eu então perguntei, na bucha:
-Então Doutor, vai parar ou vai continuar ?
Ele deu uma risadinha e disse:
-Como eu lhe disse, era só por um ano. Agora outros vão precisar desta bolsa...
E acrescentou:
- Mas não se preocupe: vou lhes dar mais dois meses juntos para vocês enfrentarem o novo regime.
Eu então presenteei-o com o quadrinho a óleo que ele apreciara no nosso primeiro contato no ateliê da "boca", de um ano atrás. Ele não queria aceitar mas eu insisti, como um presente de agradecimento e estima. Ele afinal aceitou. Ele se foi e eu não o veria mais senão dali a dez anos.
Os dois meses que ele nos dera juntos era tanto dinheiro que eu dei de entrada no nosso primeiro apartamento próprio, na rua Augusta.
Dez anos depois, quando numa roda de wisky de happy- hour, na galeria Cosme Velho, na Alameda Lorena, onde eu fazia uma exposição individual de desenhos, ele subitamente disse:
- "Rapaz, aquele seu quadro está resistindo bem, na minha coleção. "
Eu fiquei imensamente satisfeito ouvindo aquilo...
Entretanto devo dizer que outros dez anos depois , fui convidado para uma festa de despedida da "vida pública" do meu mecenas, na sua nova casa da rua Guadalupe no Jardim Europa. Ele iria, como ele disse num discurso para o qual parou a festa, dedicar-se à sua própria pintura. Casa suntuosa, de concreto aparente toda em curvas e com uma piscina com um mosaico de pastilhas de gosto duvidoso no fundo, em torno da qual a nata dos artistas e dos críticos de São Paulo entornava coquetéis num desfile de pavões, enquanto ao mesmo tempo olhavam aquela mansão, se não com inveja, com perplexidade e ironia. Não pude deixar de notar, que a despeito dos maravilhosos quadros selecionados (o meu não estava ali) que a povoavam, a casa, térrea e enorme, era estranha como se contivesse um segredo suspeito, e que eu intuí ser um nível subterrâneo de igual ou maior tamanho, já que visíveis não haviam ali expostos tantos quadros quanto os de sua famosa coleção de milhares. E eu imaginei também, Deus me perdoe, um túnel paranoico de evasão, com saída numa rua de trás...
Não devo ter estado muito longe da verdade, pois em 2005, após a morte de Paulina, aquela mansão moderna, obra de um arquiteto famoso, não abrigaria a fabulosa coleção do casal, que foi para o antigo prédio do DOPS na Estação da Luz. A casa da rua Gadalupe foi totalmente demolida, inusitadamente, quando seria de se esperar que fosse o lugar natural para o museu da Fundação Paulina e José Nemirovsky. Ninguém entendeu.
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Gostar é de graça
Eu morreria se não pudesse fazer arte e não consigo me ver em nenhuma outra profissão embora mal seja capaz de vender pessoalmente as minhas telas e desenhos.Sou ruim de vendas porque tenho um secreto desprezo pelo comércio, fruto talvez de um preconceito arraigado, de formação na infância, filho que sou de uma professora católica e pai médico ateu, muito cultos e também avessos ao comércio, incapazes de vender algo material. Em criança, e já no começo da juventude eu tinha a tendência a presentear meus desenhos a quem muito os elogiasse. Em 1963, participando da I Exposição do Jovem Desenho Nacional na FAAP, o Flávio de Carvalho me abordou (ele pareceu ter ficado impressionado com meu trabalho) e disse, com aquela voz grave e embolada: "Olha, rapaz, um conselho: nunca dê seu trabalho de presente para ninguém. Nunca!" Eu o olhei como se olha um velho avarento, mas respeitosamente agradeci o conselho. Não demoraria a perceber que arte é a última coisa que as pessoas pensam em pagar. Afinal, gostar é de graça, e mercado de arte nada tem a ver com isso. A pessoa que adquire um quadro tem muito desenvolvido o sentimento de posse. Eu, por exemplo, jamais pensaria em ter um Van Gogh, e se o tivesse, doaria imediatamente a um museu, porque naturalmente eu seria muito rico e não precisaria vendê-lo. Entretanto comecei cedo a viver de arte por absoluta necessidade mas graças a ter descoberto em mim um certo cinismo anestésico, como imagino haver nas prostitutas de bom caráter...
Mais um fragmento das minhas Memórias
Ao contrário da Alma Welt, meu heterônimo feminino, não tenho saudades da minha infância. Tive bons momentos, é verdade, como todo mundo, mas em geral me sentia numa espécie de limbo provisório, sempre numa espera ansiosa de crescer. Ser criança me parecia, em si, uma condição humilhante e até vergonhosa. Na verdade isto acontece com muitas crianças precoces, e seu sofrimento intensamente subjetivo em geral passa despercebido ou não levado a sério. Por volta dos doze anos me apaixonei profundamente por uma menina do bairro, sofrendo os tormentos interiores e clandestinos de um pequeno Werther. Só faltou o suicídio. A paixão desproporcional e prematura por aquela pequena deusa da minha devoção me marcaria para sempre. A partir da juventude, para poder viver precisaria da companhia intensa do "espelho da anima" me cercando por todos os lados, que é o que a mulher representa... Até aí nada de original, na medida em que isso ocorre com os homens em geral, daí os casamentos e até a perpetuação da espécie. Mas, no meu caso, eu precisava projetar a minha própria anima no papel e nas telas e cercar-me, além de uma companheira real, de suas infinitas imagens pelas paredes para sentir-me íntegro. Sim, sem isso me sentia desintegrar, perder minha própria individualidade e personalidade. Triste dependência, reconheço... Muitos artistas são assim, por isso se casam tantas vezes e foi o que ocorreu também comigo. Como Picasso, minha vida pode ser dividida por fases regidas pelas mulheres com quem compartilhei o teto do meu ateliê, mas sempre numa espécie de dolorosa peregrinação (me perdoem as lindas mulheres que me acompanharam por longas ou breves temporadas e em especial a paciente Eliana, maravilhosa companheira dos últimos 25 anos). Sim porque devo dizer que, na verdade, essa peregrinação anímica cessou, afinal, quando em 2001 descobri a identidade psíquica e existencial da minha musa interior, sim, de modo inusitado vinda de dentro de mim mesmo, sendo já a minha modelo tão projetada, a desconhecida ruiva insistente dos meus desenhos há décadas, e que no momento em que, financeiramente falido, nada mais tendo a perder, me sentando afinal para escrever a sério, então se insinuou como escritora e poetisa com o sugestivo primeiro conto que me enviou das profundezas de mim mesmo: "Lembrança Preciosa Para a Alma Fiel" *, alegoria indireta, oculta e sutil do próprio primeiro amor da minha infância...
Nota
* "Lembrança Preciosa Para a Alma Fiel" - este é o primeiro conto enviado pela Alma e que abre o primeiro livro dela; os Contos da Alma, de Alma Welt, publicado em 2004 pela Editora Palavras & Gestos, de São Paulo. Recomendo aos meus leitores esse conto como uma chave para o entendimento de toda a literatura da Alma Welt, assim como os críticos de Dostoiévski recomendam o conto "O Mujique Marei" como "chave" para o entendimento da obra daquele grande mestre. Entretanto, devo também recomendar para o enriquecimento desse entendimento, no estudo da teoria dos Arquétipos de Carl Jung tudo o que concerne à "anima," o mais importante e decisivo dos arquétipos que regem a alma do homem.
Um pequeno depoimento meu
Um certo teor poético contido nos meus quadros e nos meus desenhos e gravuras, e que foi notado pelos que os apreciam, deriva de uma permanente nostalgia de uma beleza sonhada, filtrada através da cultura, isto é, da Literatura, da própria Poesia, e das obras dos Museus. Entretanto minha obra não resultou num catálogo de citações e referências graças ao meu autodidatismo, que me permitiu uma certa personalidade resultante de um amálgama pessoal de influências da cultura ocidental e mesmo da cultura japonesa. Estou sendo muito pedante? Quisera ser mais simples, quisera mesmo ser um "primitivo de uma nova era" , como o Gauguin se julgava ser. Entretanto, a apreciação que minhas obras desfrutaram desde quando eu era muito jovem, me confirmaram o acerto do meu caminho apesar da desconfiança de uma certa crítica seduzida pelo hermetismo e inimiga do sucesso. Agora, depois de uma longa trajetória através de várias fases e de alguns erros, eu me reconcilio com minha obra com uma simples constatação: EU FIZ O QUE PUDE. E isto é a única fórmula da autenticidade, e portanto de qualquer arte verdadeira...
A vida em arte
Minha vida se passou inteira no âmbito da minha própria arte, quero dizer, que fora dela nada do que vivi faz sentido, nem mesmo meu encontro com as mulheres da minha vida, que sofreram muito justamente por isto. Agora que envelheço e me torno tardiamente mais humano, queria pedir sinceras desculpas a todas elas pela minha inconstância na época, meus tormentos, minhas neuroses e sobretudo pela minha incapacidade de fidelidade. Entretanto percebo, até com certa surpresa, que elas já me perdoaram e quando eventual e raramente as reencontro, o olhar terno delas sobre mim me comove, e que através do velho artista de cabelos e barba branca que me tornei, parecem estar ainda enxergando aquele jovem belo e atormentado que eu fui um dia, mas cuja aura de artista verdadeiro as conquistou. Se elas soubessem que eu sinto tanto... e que queria que tivessem sido felizes comigo, como talvez o foram com os que me sucederam, e que envergonhado reconheço que nisso eu redondamente fracassei... Elas mereciam muito mais, jovens, belas e, afinal, cândidas mulheres da minha vida...
Vida interior e realidade
Minha vida interior pouco deve a um Brasil real. Por dentro vivi sempre num mundo literário clássico, profundamente europeu em sua essência de séculos, mas sem descartar as fabulosas estórias do Gênesis bíblico e dos Evangelhos. Me emocionei e me identifiquei totalmente com as biografias, romanceadas ou não, dos grandes mestres da pintura europeia, da Renascença para cá, dos trágicos sofredores aos aparentemente triunfantes, descontado o final sempre patético, comum a quase todos nós. O mundo da Arte sempre me pareceu senão o mais real, o mais legítimo. Entretanto, garanto que tenho bastante senso da realidade circundante, no caso triste e até sórdida, do meu país. Tenho "os pés na terra" o suficiente para sofrer pelo nosso Brasil e sua horrível degradação política, econômica e educacional. Pinto, escrevo e falo como se estivesse num país de cultos e letrados e como se todo mundo pudesse me entender. Mas, uma curiosidade: todas as vezes que conversei, sem concessões de linguagem ou postura, com populares, isto é, pessoas simples do povo, percebi que me entenderam perfeitamente e mais: me agradeceram com tocante sinceridade. Também há quem diga que captei a essência poética do nosso povo do sertão ao compor os meus cordéis de inusitado cunho sertanejo, já que nada levaria a crer que tal coisa pudesse brotar de um pintor e poeta urbano como eu, criado e vivendo à beira de uma prosaica rua Augusta, como se às margens de um rio inglório e banal, e não "do Urucuia onde tanto boi berra" *. Se tenho algo a dizer de mim como artista, de maneira resumida e sintética, agora que me aproximo da fase final, eu direi: dediquei minha vida à beleza da Verdade Poética universal do ser humano e da natureza tal como intuí sem um respaldo palpável do meu entorno, senão da própria Arte que os grandes mestres me apresentaram pelos livros e pelos Museus. E afirmo: um único grande quadro observado com infinita admiração por horas ao vivo, ensina a pintar a quem deseja isso acima de tudo. Assim também um único grande livro lido, relido e amado, ensina a escrever uma alma apaixonada pela vida... e temerosa da Morte.
Nota
..."do Urucuia onde tanto boi berra" frase recorrente do monumental romance "Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa.
O PACTO
Quando jovem, já artista profissional mas muito pobre, eu me lembro, vivia em absoluto estado de desespero disfarçado. Já era conversador e brilhante, mas por dentro minha miséria emocional seria indescritível. Só bebendo... Foi o que fiz por muitos anos, com certa tolerância que me permitiu começar a deslanchar na carreira, entrar precocemente no Mercado de Arte, sempre produzindo muito. Eu deveria ser grato à bebida com "quem" de certo modo fiz um pacto? Como todos os pactos chegou o tempo da cobrança, mas tal como o Fausto (de Goethe ) Deus escamoteou a minha alma ao diabo no último instante, mas ao contrário daquele, ainda em vida. Como não ser grato a Deus desde então? ELE até me enviou um anjo, verdadeiro, também, e que só eu vi. Mas isto é uma história que não devo contar...
Sobre os momentos difíceis
"Tive momentos muito difíceis ao longo da minha vida, por vezes desesperadores. Entretanto, sempre tive um motivo para afastar o desalento e a dor insuportável do momento: a Arte. A minha arte. Ao pensar nos dons com que fui aquinhoado tinha imediata vergonha da dor, e ela se desvanecia. Assim nasceram as minha fases na pintura, no desenho, na gravura, e também na literatura. Se eu não tivesse chegado à terceira idade (coisa que chegou a não me parecer possível) não me teria surgido a obra literária, poética, profunda, prolífica e encantadora da ALMA WELT, a quem o mundo um dia reverenciará, estou certo..."
Sobre a minha fase das litos
Como muita gente sabe, tive uma longa fase de litografias que caíram no gosto das pessoas e vendiam feito água. Calculo que foram vendidos cerca de duzentos mil exemplares de litos minhas ao longo de quinze anos, todos assinados, datados e numerados a lápis, à mão, por mim.
Mas devo confessar, tardiamente, uma coisa: não me orgulho dessa fase pois me pareceu uma espécie de concessão ao mercado, embora algumas fossem bastante belas. Quando acabou esse mercado, quase reneguei (inutilmente) essa fase. Entretanto reencontrei antigos revendedores, pessoas francas que me disseram: "Guilherme, quero que você saiba, ganhei muito dinheiro e sustentei a família com suas litos, por muito tempo." Fiquei feliz ouvindo isso.
Os paradoxos de minha vida
A vida sempre me pareceu uma série de paradoxos. Por exemplo: Apesar de viver quase sempre duro, nunca pintei, desenhei, gravei ou escrevi para vender, e gostaria de ficar com as minhas obras para curti-las. Entretanto, toda vez que vendia alguma obra, me espantava: "Hoje dei sorte!" Sim, porque admirar uma obra não obriga ninguém a comprá-la. Nesse sentido, devo agradecer a Deus a existência de pessoas com necessidade de posse, coisa de que nasci desprovido.
DE SORRISOS E GARGALHADAS
Nos piores momentos da minha vida eu parei para olhar meus melhores quadros, e acabei sorrindo. Por vezes, dando uma gargalhada...
Sobre o sentido de vida
Sou um privilegiado: desde a infância dei-me um sentido de vida, que é fazer arte, ser um artista, criando obras para enaltecer o ser humano em seus termos ideais segundo uma concepção clássica que desde sempre me deslumbrou: o vitalista grego antigo ou o artista da Renascença Italiana. Absurdo em nossa época? Não, mas um projeto solitário de que não me arrependo: o sentido da vida é sempre pessoal e intransferível, cada um busque o seu... Mas ai de quem não o encontre, pois esse sim se verá num mundo desesperadamente absurdo, como um peça de mau gosto, um mesquinho e prolongado pesadelo...
LEMBRANÇAS DE JUVENTUDE
Em Julho de 1974, eu recém-retornado de Olinda PE onde vivera por três anos com minha quarta mulher Elisa (e onde nasceram dois dos meus cinco filhos), o cantor e compositor Raimundo Fagner apareceu junto com a Amelinha, cantora e sua companheira na época, na minha Exposição individual de pinturas da minha fase baconiana, na Galeria Arte Global (da Rede Globo). Fagner estava no início de seu sucesso tendo uma composição sua sido gravada pela Elis Regina. Ele gostou tanto da minha arte que me declarou isso e em seguida anunciou alto que queria me homenagear cantando duas músicas suas, e o fez ao violão no meio da Galeria em pleno vernissage. Me lembro bem que ele cantou maravilhosamente "Baton Moderno" (impressionante) e "As Velas do Mucuripe"( linda, recém-gravada pela Elis). Foi muito aplaudido por todos, e entusiasticamente por mim, claro. Uma hora depois me chamou de lado e disse: "Guilherme, aqui está cheio de burguês, você não quer sair conosco, que queremos cantar mais para você?" Topei imediatamente, claro, lisonjeado, e saí da Galeria com eles, abandonando os últimos visitantes, pegamos um táxi e tocamos para o centro, onde, num prédio decadente, ele abriu a porta de um ap decrépito, sem móveis e sem luz, pegou na caixa de fusíveis um toco de vela e sentou-se com o violão numa poltrona esfarrapada ( a Amelinha sentou-se no braço da poltrona) e eu, na frente deles num banquinho de três pernas, e cantaram para mim, na penumbra, o repertório maravilhoso deles. Lembro-me bem do deslumbramento que fiquei com a Amelinha cantando "Mulher nova, bonita e carinhosa" (... faz o homem gemer sem sentir dor") . No dia seguinte os dois apareceram no meu ateliê na rua Alves Guimarães, em Pinheiros, e mostrei a eles meus desenhos (se bem me lembro presenteei a eles dois desenhos meus). Depois foram embora e nunca mais os vi. Mas acompanhei a gloriosa carreira deles à distância. Saudades...
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