Thursday, March 20, 2025

PEQUENOS PESADELOS (crônica de Guilherme de Faria)

Eu penso que a nossa vida, a vida de todo mundo, é uma linha contínua em direção a um ponto de fuga, sem volta, a não ser na imaginação ou no sonho. Entretanto, quase todas as noites, durante o sono, num sonho recorrente, que se revela uma espécie de pesadelo, eu me vejo perdido em diferentes paisagens, algumas inóspitas, assustadoras, outras belíssimas, sempre diversas a cada sonho, me distanciando em círculos, sem saber de cor meu endereço, sem falar a lingua do lugar, sem conseguir voltar ao ponto de partida, meu hotelzinho acolhedor ou a casa de amigos. O curioso é que são cenários extremamente reais, topograficamente detalhados, que por sua própria atração e pequenos episódios de encontros enigmáticos com habitantes locais, me afastam perigosamente do meu lugar de conforto e referência, do qual não guardei o endereço, me pondo numa aflição crescente que me faz acordar como solução, dissolvendo esses pequenos pesadelos, que, acordado, ainda são um enigma para mim.
Na verdade, chego a pensar que o estar perdido é a essência da condição humana, e por isso mesmo construimos pontos de referência ao longo da vida, nem sempre sólidos, e que por vezes se revelam precários, principalmente se saímos da casa materna cedo ou despreparados para a vida, como foi o meu caso...
Estarei, conquanto idoso, na verdade ainda perdido? O ateliê de um artista será somente um acampamento na aventura da vida de um eterno garoto sonhador, escoteiro de si mesmo?
De casa, tão distante...
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20/03/2025

Tuesday, March 18, 2025

A PASSAGEM DAS HORAS (crônica de Guilherme de Faria)

Com a velhice a nossa pele afina e parece que com isso ficamos mais sensiveis à passagem das horas. E eu me pergunto como aquele anuncio do tostines, o que vem primeiro, o Tempo ou nossa pele mais sensível... As horas voam e nós as sentimos, elas nos escapam por entre os dedos, irretornáveis, irremediáveis. Temos as memórias, é verdade... quando ainda as temos, quando o próprio Tempo não se nos adoece e no-las rouba. Gostaram do "no-las"? ( tirei do fundo do baú). Vamos ficando arcaicos, demodés, vintages, saudosistas e quase sempre de um século passado, mesmo que nos sintamos por dentro, pateticamente, com eternos dezessete. Mas atenção: não estou me queixando de nada, a não ser da artrose, da próstata inxada, da vista enfraquecendo, das apnéias e micções noturnas, das dores musculares e de um "bico de papagaio" ficando mais bicudo.
Estou brincando... a velhice aguça o humorismo de quem já o tinha, e a sabedoria latente dos mais sensíveis. A inteligência? Essa se torna menos prepotente, mais humilde.
Ah! Se fores um artista não deixes de dar ao menos uma pincelada certeira por dia, e se músico, uma escala ao piano se a artrite permitir, ou um acorde plangente ao violão, um arpejo ao violino... Poeta, escritor? Um verso ou uma crônica por dia.
Mas, sobretudo, não deixes de agradecer a Deus o dom da Vida...

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18/03/2025

Monday, March 17, 2025

PEQUENO RESUMO DA ÓPERA (Crônica de Guilherme de Faria)


Sempre chorei pela Beleza. Uma coisa ou uma situação muito bela sempre me levou às lágrimas. Isso quer dizer que um ato generoso, uma expressão real de bondade humana ou animal, me comovem mais que as tragédias do Destino, ou as motivadas pela maldade, que estas me indignam... Com isso quero dizer que não sou um simples sentimental.
Entretanto à medida que envelheço me vejo chorando mais amiúde. Na verdade... como se tudo me soasse como uma despedida muito lenta, gradativa... Mas não é a velhice, de modo geral, senão isso?
Apegamo-nos à vida, ela é, pelo menos em seus termos normais, uma dádiva. Em seus termos ideais éla é sublime. Mas choramos sempre nossos mortos...
Nunca fui, nem na juventude, um sujeito muito sociável, que cultivasse os amigos, procurando-os ou esperando-os e acolhendo-os com disponibilidade. Mas cheguei a ser muito procurado por uma variada fauna humana no começo de uma fase "maldita", inicial, da minha carreira de artista. Talvez como um pequeno enigma a ser desvendado, talvez pela minha natureza ostensiva de jovem artista dotado de talentos vizíveis: eu me expressava bem com palavras, era bonito e desenhava de maneira excepcional desde a infância. E se era reservado como se me pusesse num pequeno pedestal, era na verdade por uma grande timidez social, que só pude camuflar pelo alcoolismo.
Vocês podem imaginar como eu era na Era do sexo, (álcool) e Rock'nRoll dos anos 60 e 70 em São Paulo. Eu nunca consumi drogas, fora o álcool e o tabaco que eram minhas drogas de escolha, até atingir o meu "fundo de poço" na década de 80. Já contei aqui no face, anos atrás, a minha trajetória até a minha libertação do alcool em 1981 e do cigarro um ano depois, em 1982. Uma verdadeira saga, com um final feliz "par la grâce de Dieu" como dizia do meu autodidatismo o meu amigo idoso Eduardo Mercier, que tinha sido, na Paris dos anos 30, um "amigo de Modigliani', outro brilhante" maldito' somente pelo alcoolismo, pois era extremamente apreciado já em vida, e vendia seus maravilhos quadros, sim, vendia e recebia encomendas de retratos, como eu também com desenhos e retratos a óleo de esposas-musas de homens ricos...
Mas a verdade é que o dinheiro se funde como água nas mãos dos alcoólatras, e logo nos vemos nos debatendo para manter o queixo de fora.
Tudo isso são "águas passadas", um tanto turvas, esclarecidas a mim mesmo pelo Tempo. As coisas são como foram, e tudo se transforma em histórias, se não História.
A esta altura da vida, não preciso mais me arrepender de nada...
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Guilherme de Faria
05/02/2025

COMO A ALMA WELT VEIO A MIM (crônica de Guilherme de Faria)

 

Quando a Alma Welt se manifestou literariamente em mim, eu pressenti imeditamente a sua vocação da universalidade: seu próprio nome já indicava isso. Seu textos confessionais, sempre na primeira pessoa, me vinham, como até hoje, de jorro, sem emendas nem rasuras, prontos e irretorquíveis. Seria assustador se não fosse encantador. Uma irmã minha (tenho duas) espírita, me disse acreditar que eu psicografo uma moça escritora que existiu mesmo, gaúcha alemã, pampiana, que morreu jovem ( 35 anos), tragicamente, em circunstâncias ambíguas. Mas eu sabia que ela vinha de dentro de mim, era minha anima interior no sentido junguiano do termo, tanto mais que ela me aparecia desde 1965 nos meus desenhos, aquela ruiva, muito branca, voluptuosa que me enviava seus nus, uma vez que eu nunca tive modelos nos meus ateliês e nunca uma mulher posou nua ou vestida para mim: eu nunca precisei. A atração que meus desenhos de nus a pincel e nanquim causaram, fazendo um enorme sucesso desde o começo, eu atribuo ao pressentimento inconsciente que o publico tem da presença da "anima", isto é de um arquétipo feminino interior a todo mundo, "a mulher todas as mulheres do mundo".
Entretanto até 2001, quando tendo perdido toda a possibilidade de sobrevivência com o fim do Mercado de litografias que me sustentara por vinte anos, eu nada mais tendo a perder e me sentindo estranhamente livre e aliviado, me sentei para escrever, e me surgiram cordéis sertanejos, estranhamente autênticos e inspirados, em catadupa e... subitamente, no meio deles, minha anima percebendo-me a escrever a sério, insinuou-se e se revelou como a escritora que era, e que até então somente me enviara a sua imagem de mulher jovem, linda e docemente sensual. Foi com o conto urbano (da fase do auto-exílio paulistano da Alma) LEMBRANÇA PRECIOSA PARA A ALMA FIEL.
Começava assim essa jornada triunfante que agora conquista o Mundo, e que já estava em si e no seu nome.
Ave, Anima Mundi !
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Guilherme de Faria
09/02/2025
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CRÔNICA DE UM SEGREDO DE POLICHINELO (por Guilherme de Faria)


Na Commedia Dell'arte, teatro popular italiano que se tornou universal e cuja tradição remonta a meados do século XV e em que as principais personagens são: Arlecchino (Arlequim), Colombina, Pantalone, Brighella, Pedrollino (Pierrot), Pulcinella (Polichinelo), Dottore, Capitano, Orazio e Isabella, há um quadro em que Polichinelo (Pulcinella) conta algo ao pé do ouvido para Arlequim, pedindo completo segredo, e este o passa adiante para Colombina, que o passa para Pantalone, e assim por diante, todos pedindo segredo, até voltar à fonte inicial da fofoca, o próprio Polichinelo...
Por quê estou rememorando isto? Porque me ocorreu que o segredo da Alma Welt como meu heterônimo foi comprometido no ano de 2007 com o "escândalo" da gloriosa expulsão minha e da Alma do Recanto das Letras por absoluta ignorância das prerrogativas do fenômeno heteronímico por parte do editor daquele portal e de colegas poetas invejosos do sucesso da poetisa gaúcha. Desde então a ambigüidade que reina na comunicação pública que é feita da obra da Autora, narradora-personagem e musa ao mesmo tempo, e que por sua intensa vida própria, sua feminilidade autêntica, o realismo de sua abordagem das circunstâncias de suas origens autobiográficas, memórias e aventuras amorosas, vem encantando cada vez mais leitores no Brasil (e agora no exterior) desde o lançamento do seu primeiro livro de papel, os CONTOS DA ALMA, pela extinta Editora Palavras & Gestos do saudoso psicanalista Paulo Gaudêncio, que se apaixonou pela Alma e a publicou às sua expensas.
Mas voltando ao "Segredo de Polichinelo" expressão que eu já ouvia de minha mãe na infância, e hoje em dia caído em desuso, eu me reconciliei com sua deliciosa ambigüidade, que já caía como uma luva nos heterônimos poéticos do grande Fernando Pessoa, e agora na autoria das obras da nossa poetisa gaúcha pampiana, alemã-açoriana, saída de dentro de mim "par la grace de Dieu" como dizia o meu saudoso amigo idoso, Eduardo Mercier, que tinha sido amigo de Modigliani, na Paris de entre-guerras e que me faz pensar na teoria dos seis graus de (minha) aproximação com o maravilhoso pintor dos retratos de longos pescoços.
Mas há uma pergunta que não quer calar: por quê diabos a Alma Welt me surgiu como uma gaúcha alemã estancieira no Pampa riograndense, vinda de dento de mim, que sou um paulistano ultra-urbano, que moro num ateliê quase um kitchinette na decantada mas prosaica Oscar Freire, nos Jardins? Não tenho resposta até agora, e por enquanto, infelizmente, não descobri meus seis graus de aproximação com o Érico Veríssimo de O TEMPO E O VENTO ou com qualquer outro grande autor gaúcho como o lendário Simões Lopes Netto, de "A Salamanca dos Jarau".
Por outro lado lanço essa pergunta sem resposta na conta da ambigüidade que todo heterônimo que se preza, no fundo acalenta, o que, na verdade, compõe o SEGREDO : um Mistério que se quer assim: não totamente desvelado, mas como uma nudez pudica e por isso mais tentadora...
Deus me perdoe, mas eu mesmo queria ver a Alma Welt em carne e osso e tenho a "secreta" esperança de vê-la, e reconhecê-la, um dia, pelo menos "en passant" na rua, num café, num restaurante , ela, minha bela anima, quando então provavelmente cairei fulminado... poupado, portanto, das misérias de uma provável decrepitude.
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Guilherme de Faria
11/02/2025

O JULGAMENTO DA ALMA (crônica de Guilherme de Faria)

 

Alguém, não me lembro quem, uma vez me disse que nós artistas só falamos de nós mesmos o tempo todo e por isso somos narcisistas, e que, também, alguns de nós, por isso, beiramos a sociopatia (!!!).
Naturalmente eu fiquei alguns minutos em choque e depois me revoltei. Não! Falamos de tudo! A Alma Welt, por exemplo, na sua já vasta obra literária em prosa e verso aborda todos os aspectos da vida e da morte, só não fala nunca de pol[itica partidária e de futebol.... rrrrrssss.
- Mas você só fala da Alma!- insistiu aquela pessoa.
Bem... eu sou uma espécie de agente literário da Alma Welt, empenhado, sim, em promovê-la, mas por pura admiração por sua Obra. Mas saibam que o agora decantado romance da Alma (A Herança. O Sangue da Terra) foi escrito em 2004, num jato fluente e só decidi publicá-lo em 2022, dezoito anos depois de sua criação, que na verdade custou-me só uma semana, se tanto. Mas esse romance deve seu sucesso à bagagem de toda uma vida de acertos e de erros.
"A própria Alma Welt só fala de si mesma!" -(continuou insistindo o acirrado crítico). Eu rebati : - Como poeta, a Alma pode ser incluída no que o grande crítico literário inglês Herbert Reed denominava " o Egotista Sublime", aqueles poetas que partem de si mesmos para o universal. "Escreva com paixão e verdade sobre sua aldeia e ela se tornará o Mundo".
Depois... ninguém se queixou do monólogo introspectivo da Alma. Pelo contrário, os leitores se identificam muito, aqui e ali com a guria, pelo simples e esclarecedor fato de que ela é profundamente humana e vulnerável, apesar de sua intensidade desmedida, coragem e paixão.
"Madame Bovary c'est moi!" declarou Gustave Flaubert no julgamento real, em tribunal, de seu romance, que se confundia com ele, "comme il faut". e que o fazia correr o risco de ir para a prisão "por detratar a mulher francesa".
Eu também digo: -"A Alma Welt sou eu!"- mesmo sem o perigo que Flaubert correu, pois a minha Alma é o epíteto das mellhores qualidades femininas, e quase nada dos seus defeitos, já que a vulnerabilidade que por vezes a vitima, não ponho nessa conta.
Não! Esse perigo não corro enquanto a inversão de valores não vença definitivamente neste século caotizado.
Ah! Sem querer dar "spoyler" ( "e já dando", como dizia o Jô Soares) o julgamento da Alma já ocorreu e ela se saiu triunfante, no seu romance autobiográfico A Herança... Sim, esse livro será considerado, num futuro próximo, um texto libertador, e do melhor feminismo. Nem de esquerda, nem de direita e nem de centro, mas passando ao largo, no amplo corredor do simplesmente humano no seu aspecto mais belo, corajoso e frágil ao mesmo tempo.
Viva a Alma em nós!
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Guilherme de Faria
12/02/2025

UMA CRÔNICA FECUNDA SOBRE... NADA? (de Guilherme de Faria)


Meus amigos aqui do face sabem que eu me propuz a ecrever e postar uma crônica diária, o que não é tarefa fácil, pois que às vezes tenho a impressão de que já falei, e esgotei, tudo o que tinha no coração, por assim dizer...
Como, Guilherme? Isso não é possível! Um coração de artista sempre se renova, e a vida, em si, é um caleidoscópio inesgotável, e pode ser narrada por infinitas "personas" que só um escritor pode encarnar, ou desenvolver...
Sim, é verdade, e também, com arte sempre se pode escrever com grande interesse sobre NADA... sobre o vazio, se pelo menos encontrarmos nele um resquício, um odor, uma saudade talvez, que nos desperte a memória como uma "madeleine" de Proust.
Começo a ficar velho, tardiamente, pois muitos já o estão há muito mais tempo e se calaram. mas eu, grande falastrão, me recuso. Me recuso a me calar. Sou cheio de ardiz, isto é, pequenas espertezas eficazes, como o ter feito a minha Alma Welt morrer aos seus 35 anos para que permanecesse eternamente jovem e linda, uma forma de criar uma pequena divindade humana... Deus me perdoe.
Sim, deu certo, e tanto melhor, que ela está dentro de mim e posso evocá-la a qualquer momento, se me sento para escrever, ou mesmo desenhar, como voltei a fazê-lo depois de trinta anos apenas na pintura a óleo e na literatura.
Sim, minha Musa é fiel, e atende ao meu chamado tácito a qualquer momento, e me fornece os enredos e o encanto de sua ardente juventude, de seu amor e de suas intensas paixões, às vezes até mesmo desastradas, continuando a me encantar e até mesmo rejuvenescer o meu espírito, como de seus, agora, inúmeros leitores pelo Mundo afora.
Não. Não preciso caçar assunto: a vida em novas facetas vem até mim através das aventuras da guria do Pampa, encantadora, eternamente sensual e apaixonada por sua cândida Aline e por seu aventureiro irmão Rodo, mestre do carteado de poker, para nos lembrar que a vida pode, sim, ser um jogo saudável se aceitarmos, às vezes, arriscar e dobrar a aposta, e perdendo, nos retiramos com dignidade, provisoriamente, para recuperar o fôlego.
"Bah, Chê!"- Como diria a guria gaúcha (engraçado: ela quase nunca fala assim)- "Senta-te ao teclado e começa a escrever um novo romance que vou te ditar, uma nova aventura minha, que não conheces, e que, prometo vai encantar primeiro a ti, meu velho, e depois aos leitores gringos que me angariaste com tuas artimanhas...
Eu, então, cheio de dores nas costas, que esquecerei, começo, a partir do Nada para um mundo animado pelo eterno encanto do real, pleno do vitalismo incansável da juventude, sim, como quem descobriu a sua Fonte eterna, que muitos julgavam ser apenas um Mito perdido...
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Guilherme de Faria
14/02/2025

A ALMA COMO EGRÉGORA (crônica de Guilherme de Faria)


No terreno das manifestações artísticas ou de qualquer outra natureza só podemos expressar e transmitir, com autenticidade perceptível, aquilo que realmente temos dentro de nós. Não é possivel falsear pensamentos e sentimentos, embora se diga que alguns "sociopatas" o conseguem. Mas, dum modo geral o sentimento de amor colocado em qualquer ação ou atitude é tão emocionada e imediatamentete percebido pelo público que se pode dizer que o amor é a base de qualquer obra de arte que assim se queira, de qualquer discurso direto ou literário, auditivo ou visual... qualquer.
E os chamados "discursos de ódio"? Certamente não são feitos com amor! Bem... na verdade, na sua maioria são os feitos com o ingrediante básico da Verdade os que hoje em dia são assim chamados. Mas... não quero entrar no pantanoso terreno da política.
Quanto a mim, como artista visual ou escritor nunca fui contestado nas minhas manifestações quer gráficas, plásticas ou literárias e elas sempre foram recebidas ou tomadas pelo publico como o que são por si mesmas, antes de tudo... sinceras. É preciso que o artista acredite profundamente no que está dizendo, qualquer que seja seu meio de expressão. O grande Outro, o público, quer dizer, a Humanidade, percebe.
"Ah! Mas nem tudo o que se apresenta como obra de arte , realmente o é! Como distinguir com segurança?". Não se preocupem, as fraudes ou falsificações não duram muito. Elas murcham ou fenecem em pouco tempo sob os nossos olhos e ouvidos, enquanto as sinceras, verdadeiras, autênticas, crescem mesmo quando "naïfs" (ingênuas), atributo que não é um oposto da profundidade almejada pelo artista.
"Está bem, Guilherme... (imagino alguém dizendo)- " é aqui que você vai começar a falar da Alma Welt?'"
RRRRRSSSSS Bem, amigos, vou apenas convidar os que ainda não leram pelo menos seu romance, para que me digam, depois se não se surpreenderam com a sua absoluta e aliciante vida própria, que é base de seu grande Mistério, sim, que está encantando o Mundo. Poucos autores-personagens, os que se manifestam na primeira pessoa, são assim tão vivos e autênticos, quase palpáveis, como se a se estivéssemos seguindo atrás das portas e pelos corredores de seu conturbado casarão, sentando-nos à sua mesa, ou acompanhando-a como sombras em seus passeios serenos e prazerosos pelas coxilhas do seu Pampa amado, ou apreensivos pelo seu vinhedo em perigo...
Vamos lá, meus queridos preguiçosos! Seu espanto e prazer garantidos ou seu dinheirinho perdido, porque já passou a fase de eu dar de presente os maravilhosos livros da minha Alma, já que ela me deu um puxão de orelhas um dia desses... A Alma já é uma autora consagrada e cresce dia a dia, enquanto eu... bem, imerjo lentamente na sombra dela, sorrindo, satisfeito como um pai orgulhoso de sua bela filha que gradativamente se distanciará dele, até ele ser um dia esquecido pelo grande público e ela transformada numa "egrégora", como Julieta, Mariana Alcoforado, Bilitis, Francesca da Rimini, ou mesmo Tarzan, Frankestein e Drácula, que de tão vivos se descolaram de seus criadores.
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15/02/2025

DIVAGAÇÕES SOBRE O PÚBLICO (crônica de Guilherme de Faria)


A gente escreve sempre para o Outro. É sempre uma maneira de se comunicar, quer dizer, romper o muro da solidão, assim como desenhar, pintar, esculpir, modelar, cozinhar, tocar um instrumento, cantar, dançar, declamar, atuar, discursar, etc, etc. O Outro, portanto, é que é importante. O artista tenta conquistá-lo, seduzi-lo, até bajulá-lo por vêzes (isto não é aconselhável). Mas o outro, considerado como "o público", como é caprichoso e imprevisível! Nunca um artista independente ou mesmo um produtor experiente pode prever o sucesso de um espetáculo, de um livro, de um filme, de um concerto, ou de uma peça teatral, com segurança, com absoluta certeza. Às vêzes uma bela obra, de qualquer espécie, dá um prejuízo inesperado e até mesmo... injusto. O Tempo é o maior juiz, sempre, para tudo... Portanto o artista é, em última instância um jogador, o que quer dizer; um sonhador do sucesso, conquanto alguns ostentem uma atitude de desdém, podendo sempre se refugiar na categoria duvidosa de "malditos".
A propósito, vocês sabiam que os contos de terror que consagraram o Edgar Allan Poe diante do grande público , são em número ínfimo comparados com os contos humorísticos dele, muito mais numerosos e, impagáveis, atuais, de fazer rolar de rir até hoje? Sabiam que Rimbaud parou de escrever poemas, alguns malditos como "Un Saison en Enfer", aos dezessete anos, e passou o resto de sua curta vida tentando enriquecer no tráfico de armas na Àfrica (fracassando e falindo na Etiópia, tendo seu carregamento de fuzis confiscado pelo Ras Ménelik? Mas, como escritor, escrevendo relatos geográficos para a Societé Geographic Française esperando ter seus artigos publicados por ela...
Que quero dizer com isto? Que somos, sim dependentes dos caprichos do público, e eventualmente até da Moda. Nada mais triste para um artista de sucesso do que "sair de moda" ainda em vida, como aconteceu com Rembrandt, com uma desgraça crítica de pelo menos 50 anos, a partir de sua velhice, no auge de seu genio. Ah! E até de Leonardo da Vinci, desprezado nos seus sessenta anos, procurando desesperadamente emprego em Roma com o Papa que não atendia às suas cartas, considerando-o um fracassado(!!!) até ser reconhecido nos corredores do Vaticano pelos embaixadores do Rei François Premier da França que, escandalizados com a situação precária daquela lenda viva da Arte o recomendaram ao seu rei, que imediatamente escreveu aos seu embaixadores: "Tragam o Mestre, nós o acolheremos, nós o honraremos." Leonardo atravessou os Alpes a cavalo com três quadros nos alforges (um deles a Mona Liza) acompanhado de seu último discípulo adolescente, e morreu depois de poucos anos no castelo na França que abrigaria o Mestre sem obrigação nenhuma de produzir, e onde ele se dedicava a desenhar e escrever suas pesquisas no seus maravilhosos Códices. Vazari escreveu que Leonardo morreu nos braços de François I, que o amava, dizendo " "Não há maior honra para um artista do que morrer nos braços do rei".
Bem... "Si non è vero è ben trovato". Eu poderia contar mil estórias e histórias mas percebo que já me afastei do "ponto". Qual era mesmo o ponto? Ah! O público... A propósito, vocês já leram o meus livros da Alma?
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16/02/2025
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SOBRE O INCONSCIENTE PESSOAL E O COLETIVO (Crônica de Guilherme de Faria)


Insistindo no propósito quase insano de escrever uma crônica por dia numa mídia que não privilegia um "discurso" de mais de duas linhas, depois de fazer e tomar meu café da manhã sento-me ao computador para escrever com a cabeça vazia, como convém a quem como eu escreve sob o influxo do inconsciente, mas somente quanto ao tema ou assunto a desenvolver. Assim nasceu toda a literatura da minha Alma Welt.
-Como? Como pode ser isso, Guilherme?-(poderia alguém dizer)- Sua prosa não tem nada de automática ou surrealizante como é a característica dos textos assim escritos, sob o "influxo do inconsciente"!
Mas quero lembrar que Freud e Jung não esperavam mudanças na morfologia da frase ou irracionalismos nos monólogos induzidos dos pacientes no divã (Freud) ou na poltrona (Jung). Vale lembrar também o sugestivo episódio em que os Surrealistas liderados por André Breton, tendo eleito Freud como o seu Papa pela "descoberta' do Inconsciente, em comitiva foram em peregrinação à Viena pedir a benção ao seu (deles) movimento nascente. Uma carta do Mestre a um seu amigo, descoberta anos depois poria água na fervura: "Hoje recebi a visita de um bando de malucos que queria o meu aval para as suas obras de arte. Entretanto, observando-as bem e ponderando, percebo que em toda arte clássica e até acadêmica eu sempre enxerguei o inconsciente. No Surrealismo eu só enxergo o "consciente"...
Seria uma pá de cal sobre o movimento se tal sentença viesse à tona ou a própria psicanálise já fosse vencedora, o que não era. Os surrealistas esconderam seu desconforto com a opinião de Freud e prosseguiram galhardamente, quero dizer, provocativamente, na verdade como bons fanáticos querendo "levar muitos outros para a confraria"como quiseram fazer com Giorgio De Chirico que, vaidoso, aceitou suas homengens mas declarou orgulhosamente : "Eu não sou Surrealista. Sou o fundador da Escola Metafísica Italiana!"
Os surrealistas também tentaram levar Frida Kalo para a confraria, que igualmente aceitou suas homenagens e apoio à sua Exposição em Paris, para depois declarar: "Não sou Surrealista. Pinto a mim mesma, minha história, dores e pequenas alegrias".
Mas por quê diabos pus-me a contar essas coisas, que tantos já sabem? Bem... somente porque elas me interessaram um dia e me vêm por associação se me ponho a falar do "inconsciente". Mas também porque, amante como sou da grande arte do passado principalmente dos renascentistas até aos impressionistas, eu me rebelei contra os meus amigos da juventude em Sâo Paulo, surrealizantes que pensaram me cooptar (Piva, Willer, De Franceschi, e outros) e me tornei um poeta muito distanciado de quaisquer surrealismos (notem meus cordéis sertanejos e os inusitados e atemporais sonetos da Alma Welt, que desenvolvem raciocínios lógicos em cada verso, justificados pela beleza e a ironia. Ou melhor, pelo realismo estético, uma visão de mundo rica e embasada na memória e na Cultura; Ah! e a capacidade rítmica e fidelidade à rima, por tanto tempo caídas em desgraça na poesia moderna. Com a Alma Welt sou um revolucionário pelo avesso, restaurando valores esquecidos e desprezados, e descobrindo, não sem surpresa, quanto eles ainda são amados pela maioria dos leitores.
A propósito, a última vez que vi o poeta Poberto Piva, meu amigo de juventude, eu estava no escritório do poeta Roberto Bicelli,outro amigo em comum, que era então diretor da Funarte. Eu não via o Piva havia mais de dez anos, pois tínhamos rompido justamente pelo meu afastamento da Corrente surrealista ou da Beat Generation, e pelo meu imenso sucesso de público com a litografia. Ele entrou, com sua presença dominante, carismática, me olhando fixamente e temi ser agredito verbalmente. Mas para minha surpresa ele me deu um abraço carinhoso, me saudando como se nada tivesse acontecido. Eu disse: "Puxa, Piva,que alívio! Eu pensei que você tinha rompido comigo..." E ele: "Rompido? Não! Quê é isso! Você é um amigo querido e um artista que respeito. "
Então eu imediatamente dei um exemplar com dedicatória a ele dos Contos da Alma, de Alma Welt, que eu acabara de lançar, e ele, com surpresa e legítimo interêsse ouviu minha explicação do fenômeno do meu heterônimo feminino, embora ele fosse um homosexual viril quase militante mas ligeiramente misógino.
Despedimo-nos do Bicelli que tinha que receber outras pessoas, e fomos andando a pé até o apartamento dele. No caminho ele, sempre interessantíssimo, me contou um episódio significativo de sua memória, que nunca mais esqueci. Ele disse; " Um dia, na casa de Vicente e Dora Ferreira da Silva, o Vicente de repente me perguntou: "Piva, você sabe por que o Comunismo não vai durar cem anos?" "Eu surpreso, respondi: Não, Vicente, não sei porque o comunismo não vai durar cem anos. " E o Vicente disse: "Porque o Comunismo não está no "Inconsciente coletivo". No Inconsciente coletivo do povo estão: o Rei, a Rainha, a Princesa, o Príncipe e o Cavaleiro Andante".
Eu ouvindo essa história real da boca do Piva, fiquei deslumbrado com essa explicação do Vicente Ferreira da Silva, grande filósofo, agora quase esquecido, e certamente junguiano por seu aprouche brilhante do comunismo.
Ali mesmo eu imediatamente entendi porque os líderes comunistas todos, da União Soviètica, como o próprio Stalin, forneciam ballets clássicos maravilhosos sobre contos de fadas em teatros luxuosos carregados de dourados, como divertimento de massas acima do futebol. Era a grande válvula de escape do inconsciente coletivo, sem a qual o povo explodiria em angústia e frustação social e trabalhista. Vocês não se espantavam com comunistas ferrenhos e truculentos assistindo "O Lago dos Cisnes" com o Ballet Bolshoi e também seu maravilhoso e ingênuo ballet folclórico Berioska, que eram as melhores coisas de sua cultura que eles exportavam?
Posso continuar a história do meu reencontro com o grande e saudoso poeta Roberto Piva, mas pararei por aqui, e o farei se mais de um amigo me solicitar.
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CONTINUA
18/02/20

APAGUE A LUZ! (crônica de Guilherme de Faria)

 

Estou empenhado em me livrar da acumulação de décadas. O que não está digitalizado não adianta mais... toda uma vida em papelada inútil. Não interessará a ninguém. Não me refiro, claro, à minha querida biblioteca e aos meus próprios livros publicados em papel. Aqui no meu ateliê a papelada acumulada é por toneladas. Tenho uma arca de originais digitalizados e encadernados com espiral, a "famosa Arca da Alma", com os textos inéditos da Alma Welt.
É curioso... há vinte cinco anos atrás eu pensava que guardar textos em papel adiantava... seriam descobertos um dia... Ainda bem que me toquei a tempo e coloquei toda a obra literária da Alma e a minha, na nuvem, quero dizer, em blogs da Internet Graças a isso não perdi um único soneto, poema ou texto em prosa da Musa, mesmo quando fomos gloriosamente cancelados e expulsos do Recanto das Letras... ou quando o HD de um meu defazado computador queimou.
Quanto ao excesso de móvéis antigos para tão pouco espaço, agora, quando olho em volta aqui no meu ateliê me dou conta de que fui um "acumulador compulsivo", que apenas parei a tempo de não torná-lo uma espécie de 'A Mudança" de Ionesco"( o do Teatro do Absurdo) eu, bloqueado entre móveis antigos, com o último carregador sair dizendo: -Mais alguma coisa, senhor?
-Sim. Apague a luz!
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23/02/2025

AOS LEITORES DA ALMA (Crônica de Guilherme de Faria)

 Confesso que todas as manhãs, depois de preparar o meu café, ao ligar o computador, a primeira coisa que faço é verificar no Google em que país a mais a versão inglesa do romance da Alma Welt foi parar, isto é, onde mais está sendo vendido no Mundo. Já está de ponta a ponta no planeta. Dos Estados Unidos ao Japão, passando por Singapura, Dubai e a China, tenho notícias de que o livro da Alma está bombando, é já um best-seller.O romance A Herança: O Sangue da Terra está sendo considerado uma obra-prima literária. Vertido por mim para o idioma inglês e publicado pela grande Editora Inglesa EURO BOOKS, que já publicou um Prêmio Nobel de Literatura (Octavio Paz, do Mexico) THE HERITAGE. The Blood of the Earth (a novel by Alma Welt) está sendo distribuído praticamente no mundo inteiro, e na America Latina, importantíssimo mercado literário já chegou no México, Peru e Uruguay (além do Brasil, claro, em que foi lançado em 2022). Eu torço para que chegue logo na Argentina, país de extensos leitores (dizem que Buenos Ayres tem mais livrarias que o Brasil inteiro).

Naturalmente acompanho a trajetória do livro da Alma enquanto vou vertendo para o inglês, parágrafo por parágrafo, o segundo tomo, quero dizer, a continuação da saga dos Welt (que não foi lançada ainda em português). Esperarei um sinal da EUROPE BOOKS, de quando for oportuno lançá-lo, quando, por exemplo, os leitores reclamarem do paradeiro ou da punição do vilão Geraldo, que simplesmente desaparece no primeiro volume, tão sutilmente que não faz falta no epílogo do romance. Só posso adiantar, sem "spoyler", que ele reaparece e... barbariza (rrrrrrrs) no segundo volume).

Reclamando os leitores esse fator ou não, lançarei o segundo volume, mas não por isso, porque o livro não é simplemente um "thriller" policial. Os leitores da Alma se deram conta de que ela é "alta cultura", isto é Literatura profunda, introspectiva ao mesmo tempo que empolgante narrativa. Se alguém me quiser lembrar que "elogio em boca própria é vitupério" (como antigamente o povo dizia) faço-o lembrar que a Alma Welt é já uma "egrégora", adquiriu "vida própria" miraculosamente quando foi lançada no papel, emergindo do meu inconsciente profundo, como Anima Mundi que ela é.
Por enquanto recomendo aos amigos que leiam também os outros seis livros da Alma que já estão publicados em português e que merecem, ao meu ver a mesma atenção, porque ela está sempre inteira em cada texto, cada conto, cada crônica, cada novela, cada poema. Ah! E lembro aos amigos que foi lançado o ano passado um outro romance da Alma Welt, uma saga de cordel em prosa lírica-humorística, "O Retorno dos Menestréis", passada nos sertões nordestinos de Pernambuco e Paraíba (que conheci bem, a ponto de me ter tornado um cordelista) com nossa heroína levada nas Asas do Pavão Misterioso.
Confiram, leiam, releiam, divirtam-se...
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26/02/2025

PEQUENA CRÔNICA QUE SE QUER ALEGRE (crônica de Guilherme de Faria)


Vivemos tempos difíceis... Mas, pensando bem, em que época não o foram? Tal é a condição do Homem na Terra. Estou convencido da amplitude estrutural do nosso livre arbítrio, o que incorre numa escolha em ser feliz ou infeliz neste mesmo Mundo, em qualquer época ou lugar. Naturalmente, os felizes encontrarão aqueles seres ultrapolitizados que os chamarão de alienados com um desprezo tal que por vezes os abalarão. Ou lhes serão contadas estórias geniais e engraçadas como a do "João Feliz", dos Irmãos Grimm, ou hilariantes como o Candide, o Otimista de Voltaire, estórias sarcasticamente condenatórias do fenômeno do 'Bobo Alegre" . Entretanto é fato que existem as naturezas alegres profundas (cada vez mais raras), as verdadeiras vocações para a felicidade. Não esqueçamos o fato, talvez surpreendente, de que os santos não foram tristes, muito menos infelizes, nem mesmo no momento do martírio.
O mistério da psique humana... Ah! A jovem princesa grega Psiqué era de uma candura a toda prova, e sua ingenuidade amorosa nomeou para sempre nossa vida anímica, quer dizer, nossa condição bipolar entre consciente e inconsciente ou sua simultaneidade mesma, que infelizmente em nossos tempos de deuses mortos se afastou da natural candidez e alegria do amor.
Mas louvados sejão os deuses, a natureza primordial da alma é ingênua e quer ser feliz. E no meu envelhecimento, cada vez mais cheio de mazelas fisicas, me apaziguo ao me recordar da bela Canção de Zaratustra, de Nietzsche, que tentarei lembrar de cór:
"Alegria, alegria! De um sono profundo acordei .
O que diz a profunda meia noite?
A vida é profunda, a dor é profunda...
A Alegria... mais profunda que a Dor.
A Dor diz: passa e acaba,
mas toda Alegria quer eternidade.
A profunda eternidade!"
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08/03/2025

Sincera exortação à leitura de uma Alma (Crônica de Guilhermede Faria)


Quando me sento quase diariamente para escrever, o contrário do desenhar, que faço de pé com o braço livre, uma e outra atividades me encontram com a mente esvaziada, atitude Zen que aprendi assistindo um filme de samurai, quando era jovem, em 1963, no Cine Niterói (não existe mais), no bairro japonês da Liberdade, em São Paulo. Isso quer dizer que nunca sei de antemão o que sairá de dentro de mim, do inconsciente profundo ou de uma área mais raza da psique, isto é, semi-consciente. Então, é sempre uma surpresa agradável, defrontar-me com os resultados, de texto ou meramente gráficos. Por outro lado estou bem consciente de que não estou revelando nada de novo ao descrever esse processo, uma vez que quase toda criação artística observa esses mesmos princípios técnicos, chamados universalmente de "inspiração".
Entretanto, minha mais agradável surpresa foi meu inconsciente revelar uma criatura como a Alma Welt, cuja pureza intrínseca e qualidades morais me seriam lisongeiras se não fossem misteriosamente autônomas. Sim, essa jovem mulher que sai de dentro de mim, que se liberta na sua escrita profundamente confessional, é muito superior a mim, me encanta e me enamora.
Mas não são as Musas sempre isso mesmo? E minha maior sorte existencial foi ter encontrado, já na maturidade, afinal, uma companheira (Eliana) que entende isso, e segura de seu próprio reinado, nunca me atormentou um segundo sequer com um laivo de ciúmes.
"Ora!" (diria alguém inteligente mas maldoso) " você é um hipócrita, pois isso é porque essa "musa", como eufemisticamente você a denomina, sai de dentro de você mesmo, o que torna cômoda sua aceitação por uma companheira inteligente, como costumam ser as verdadeiras mulheres dos artistas..."
De qualquer forma , isso tudo é peculiar e raro, pois os heterônimos femininos geniais se contam nos dedos de uma só mão na História da Arte universal.
Bem... minha Alma Welt está a caminho de uma consagração mundial desde que verti seu romance autobiográfico para o Inglês, idioma universal. Mas podem estar certos: nada disso aconteceria se a inusitada guria gaúcha que surgiu de dentro de mim não tivesse, por si mesma, malgrado sua vulnerabilidade e mesmo pequenos defeitos, uma dimensão arquetípica perceptível, e fosse uma simples personagem feminina como tantas por aí na literatura comum.
Leiam, leiam, meus amigos, o romance da Alma. A essa altura já posso afirmar que aqueles que o leram, se sentiram ligeiramente modificados, como quem sai de uma experÍencia existencial e psíquica positiva, sem qualquer moralismo pontificante ou veleidade de "sabedoria". Alma Welt é profundamente humana, mas tão profunda, que transcende...
Salve!
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09/03/2025

Eliana Mattos, I
das as reações:
naldo Tenório DE Moura Cavalcanti e a 8 outras pessoas

PEQUENO ENSAIO SOBRE AS FRUSTRAÇÕES (de Guilherme de Faria)

 

Cheguei à conclusão de que, em síntese, toda sabedoria de vida consiste tão somente em contornar, superar ou suportar as pequenas e grandes frustações que nos acompanham na vida. A propósito, raras vezes as confessamos, como algo vergonhoso num mundo de vencedores alardeados. Eu mesmo não o farei, nem mesmo neste depoimento que posso camuflar como um pequeno ensaio genérico, teórico...
Por quê? Porque creio que nossas frustações, ou sonhos irrealizados, nos revelam mais que nossas pequenas vitórias. Sim, nos põe nus e sem uma folha de parreira sequer. Aliás, começaram com Adão e Eva as frustrações a que fomos condenados. E reside nessa frustração básica e primordial o patético da condição humana na Terra, uma vez que até os vencedores acabam mal.
Como artista, vocês podem imaginar, tive inúmeras frustrações que "nem às paredes confesso", como canta o famoso fado da Amália.
Entretanto, o resultado final, ou o saldo (como se diz) foi positivo, pois também, como diz o povo, de um modo geral "não fiquei mal na fita", conquanto na minha juventude, com minha mentalidade tão à margem, a tendência de andar a contrapelo, e para, falar a verdade, um recurso contumaz à embriaguês compensatória... eu tinha tudo para dar errado.
Já há algum tempo, como perceberam, na verdade um tanto tardiamente, eu me decidi a dedicar-me à Literatura através de um heterônimo feminino que me surgiu expontânea e repentinamente, não para camuflar-me, mas para revelar-me, uma vez que foi minha própria "anima" ( no sentido Junguiano do termo), até então encerrada no meu inconsciente profundo, que assim manifestou-se.
"Então", Guilherme (alguém poderia perguntar) -"a Alma Welt é o seu lado feminino frustrado na vida real, já que você "não desmunheca nem no traço?" Risos, risos e risos...
Na verdade (eu respondo), minha admiração pelas mulheres parte do meu olhar masculino, e contém também meu enorme desejo, tantas vêzes frustrado... Devo lembrar também que a minha Alma Welt , em vários momentos de sua literatura evoca o Hermafrodita do mito primordial grego, como o Ser perfeito, ideal, perdido para sempre, rachado ao meio por um anátema divino enfurecido...
Bem.. quantos às outras frustrações, profissionais, cotidianas, ou de relacionamentos conjugais... essas são irrelevantes, acabam não contando no fundo da alma de um artista, embora possam ser suficientemente vergonhosas ou patéticas para serem ocultadas da platéia...
Não sei se me fiz entender ou os frustrei também sobre esse terreno pantanoso dos fracassos, que contém no fundo, e por definição, uma ambigüidade, já que o nosso verdadeiro SONHO permanece sempre, oculto, e o levamos inalterado, conosco, para o último sono...
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Guiherme de Faria
13/03/2025





SE QUERES TE TORNAR UM ARTISTA... (Crônica de Guilherme de Faria)

 

Me lembro que, quando muito jovem, uma vez li na biografia de um artista, que, jovem pintor iniciante, procurou um grande Mestre de sua admiração para aconselhar-se numa nascente carreira. O Mestre apenas disse: "Se quer se tornar um bom artista, comece por endividar-se."
Confesso que fiquei perplexo com o cinismo do conselho do Mestre, que implicava em adquirir uma angústia material que obrigasse o jovem a trabalhar e superar o hedonismo próprio da juventude, e produzir muito para pagar as dívidas e sobreviver. Mas não segui o conselho do mestre, pois como jovem artista, paupérrimo, eu não tinha crédito nem para adquirir dívidas.
Entretanto não precisei endividar-me para produzir, pois descobri um expediente (que não aconselho a ninguém) para suportar a fome e a angústia material, e criar. Eu fiz o que, por exemplo, Modigliani fazia: eu bebia muito.
Naturalmente se tratava sobretudo de uma maneira, talvez covarde, de amortecer o sofrimento e tornar possível entregar-me à Arte, dividindo os parcos proventos das vendas eventuais de algum desenho ou pintura, entre o custo das tintas mais vagabundas e dos fracos papéis nacionais, e o de um grande garrafão de vinho Sangue de Boi (que descia rascante) e saquinhos de sopa miojo, que eu preparava numa espiriteira de álcool, no meu porão embolorado.
Perdi vinte quilos. Foi um dos períodos mais produtivos e criativos da minha vida...
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16/03/2025

A SALAMANDRA (crônica de Guilherme deFaria)

 
Sou do tempo em que os pintores construiam a sua carreira apenas tentando vender seus trabalhos pessoalmente ou com a ajuda de galerias que ofereciam seus quadros a uma dúzia de grandes colecionadores que havia, homens ricos, que eventualmente furavam a intermediação dos marchands galeristas e procuravam os artistas nos seus ateliês. Mas era um processo penoso até chegar a esse estágio. Os pintores procuravam sobreviver e alguns até a sustentar família como artezãos ou trabalhadores informais, quase mascates do seu trabalho, à beira da penúria, frequentemente explorados, cheios de angústia e até mesmo uma surda e oculta revolta, que fazia a maioria abraçar a ideologia comunista, esta totalmente impotente diante de um questão meramente econômica, de mercado, isto é: a lei da oferta e da procura.
Como jovem pintor, o meu paradigma era a já antiga "Escola de Paris" do entre-guerras, e meus heróis os primeiros impressionistas e pós impressionistas, e nos anos 60 fui dos raros jovens pintores que não se deixaram seduzir pela Pop Art americana, a vanguarda mundial do momento. Permaneci fiel ao expressionismo gráfico a vida inteira, quase solitário nessa obsessão, e tendo descoberto cedo "o meu traço", não posso dizer que "dei com os burros n'água".
Tendo sido criado dentro de uma razoável biblioteca clássica caseira, e lendo muito a alta literatura desde criança, meus desenhos exudavam essa influência literária, que, chegando até o século XIX, emprestavam aos meus desenhos uma nostalgia "belle époque", que ia direto ao inconsciente coletivo das pessoas educadas, da classe média e até dos ricos daquela época. Assim, me introduzi precocemente no mercado de arte paulistano, com apenas vinte anos de idade, como já descrevi aqui, nas minhas memórias anos atrás. Já contei até como caí nas graças do grande marchand Giuseppe Baccaro e da sua pioneira "Casa dos Leilões".
Agora, já na minha "terceira Idade", desenvolvo um tanto tardiamente uma carreira literária que soaria inevitável mais cedo ou mais tarde para quem me conheceu naqueles anos 60 e 70. As pessoas diziam que, sem pedantismo ou intencional exibição de cultura eu me expressava verbalmente como um literato, não rudimentarmente como um artista visual, e fui agregado meio perifericamente a um grupo de poetas paulistanos, ultra urbanos e influenciados pela Beat Generation americana e pelos surrealistas. Eram eles: Roberto Piva, Claudio Willer, Luiz Fernando de Franceschi, Roberto Rugero, Décio Bar, Sérgio Lima, Roberto Biccelli, Raul Ficker todos já falecidos, lamentavelmente (menos o poeta Bicceli, que, muito vivo e divertido ainda brinca por aqui no nosso face). Ah! E as pintoras Maninha (falecida) e Lígia de Franceschi. Também o Regastein Rocha, com sua Gráfica Raizes que com a grande qualidade da formatação gráfica do Emanoel Araujo, promoveria a Pintura Brasileira já consagrada mas necessitada de um registro assim condigno.
Devo confessar que aprendi muito com o Piva sobre poesia de vanguarda a partir de Rimbaud, passando por Maiakovsky e sua imensa Flauta-vértebra e chegando ao americano Guinsberg e seu formidável Urro. E fui assistir também por sua indicação aos filmes de Samurais, como o da vida de Myamoto Musachi, que me despertaria o meu traço no desenho. Também o filme "Vidas em Fuga" dirigido por Elia Kazan, em inglês "The Fugitive Kind", com o Marlon Brando, baseado na peça Orfeu's Descending, do Tenessee Williams, meu dramaturgo predileto. Ah! E "Feu Follet" (Fogo fátuo) no Brasil "Trinta anos esta noite" sobre um poeta alcoólatra em Paris dos anos sessenta, com a trilha sonora das Gynopedies de Eric Satie. Filmes que me seriam particulamente importantes...
Por incrível que pareça foi por indicação do Piva, com sua imensa erudição literária, que fui ler, por exemplo, as Memórias de Benevenuto Cellini, escultor, ourives e poeta renascentista, aventureiro, que começa o livro com uma lembrança de infância de um serão silencioso na penumbra da sala, com seu pai, que subitamente apontou as chamas da lareira e disse em voz baixa, quase sussurrante : 'Olhe, meu filho! Olhe bem, que a muito poucos homens foi dado ver isso! Essa é a Salamandra!" E ele, o Benvindo, viu um pequeno lagarto vítreo, transparente, gracioso, brincando nas chamas da lareira...
Foi assim que eu também avistei a Salamandra, e seria, inevitavelmente, um dia, também, um escritor...
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17/03/2025