Domingo ensolarado aqui na minha Oscar Freire, e seria dia de pastel de feira aqui perto, na Lorena, embora eu não deva porque já me sinto o fígado numa dorzinha insidiosa, malgrado uma dieta inútil que me foi recomendada e adotei. Já muito foi dito que tudo o que é bom faz mal à saúde, é pecado ou é proibido... Na verdade não tenho saudades dos meus vícios de outrora, porque quando os detive já não tirava prazer deles: tinha chegado àquele ponto dramático de "não poder viver com eles nem sem eles". Na verdade, vivi desde então (1981), muito bem sem eles.
Como consegui? Apesar de orgulhoso procurei ajuda e a encontrei. Mas não vou me estender neste diapasão, não quero enveredar pela "autoajuda", nem pelo elogio das virtudes. Quero insistir mais um pouco nas minhas divagações sobre o nada, que acabam inevitavelmente resultando sobre alguma coisa. Percebo que não é possível deixarmos de nos trair, de nos desvelarmos, de nos confessarmos quando escrevemos até sobre trivialidades ou sobre o bendito NADA.Não, na verdade não posso esvaziar-me nem um pouquinho, já que passei a vida inteira me locupletando de Arte, de cultura e de beleza, por puro hedonismo. Afinal, permaneci fiel à Beleza, que agora já não tem o poder de destruir-me, como se eu lhe tivesse cortado as garras e a domesticado. Nunca me esqueço de um vetusto amigo de juventude, Eduardo Mercier, que em Paris dos anos vinte tinha sido amigo de Modigliani e Chagall, e conhecido Picasso, e que
tendo me descoberto jovem, em 1964, em início de carreira, quando me viu tendo afinal sucesso financeiro com minha arte e me instalando em uma mansão alugada na rua Turquia, no Jardim Europa, muito franco e ácido me disse: "Rapaz, você está num acelerado processo de aburguesamento!" E deu uma risadinha sarcástica... Quanto a mim, fiquei só pensando, assimilando até hoje aquela crítica implícita, procedente, embora carregada de um certo preconceito socialista, inerente àquela geração de tantos gênios pictóricos, que ele conheceu ainda na fase heroica, isto é, na pobreza. Meu velho amigo Eduardo que me conheceu paupérrimo na minha fase expressionista, e depois "baconiana", se estivesse vivo estaria estarrecido, digo, decepcionado, com o rumo que tomou minha pintura, afastando-me deliberada e justamente dos vícios do modernismo que ele tanto amava...
BOM DIA a todos!
04/12/2021
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