Para o olhar contemplativo, mais fecundo, os melhores dias são aqueles em que nada acontece, e posso virá-lo (o olhar) para dentro e redescobrir detalhes na memória, em geral os momentos patéticos ou ridículos que enriqueceriam uma "Comédia da Minha Vida", que penso escrever um dia. Acabo de recordar minha participação em um banquete chique na Embaixada Brasileira em Quito, no Ecuador, em Março de 1986, durante a minha a minha primeira temporada de um mês naquela bela cidade, quando fui convidado a expor individualmente minhas obras no "Colegio de Arquitectos de Pechincha" nome que soa ridículo na nossa língua (Pechincha é o nome do vulcão ao sopé do qual está a cidade de Quito). Colegio de Arquitectos significa Associação dos Arquitetos... Mas, como dizia, participando como convidado especial do embaixador brasileiro Roberto Abdenur, no grande almoço na enorme mesa da Embaixada Brasileira, cheia de convidados engravatados bem mais ilustres, a refeição requintadíssima (nababesca como é costume da oficialidade brasileira) servida à francesa por garçons solenes, logo no início ao ser servido provavemente o melhor vinho francês da época, eu recusei pedindo somente água, o que quase escandalisou os outros convivas. Abdenur, com presença de espírito, brincou exclamando alto: "Logo o único artista na mesa não bebe?". Eu respondi de imediato como já o fizera em outras situações semelhantes: "Desculpem-me, eu já bebi a minha quota há muito tempo". Então todos os convivas entenderam, sorriram, e nada comentaram, sem parecerem sequer constrangidos, já que eu mesmo não ficara. A coisa poderia ficar por aqui como um detalhe quase insignificante do transcorrer daquele descontraido mas fino e educado banquete, se, ao tentar falar mais alguma coisa, eu não fiezesse um gesto desastrado com a mão derrubando o copo de vinho acabado de encher do meu vizinho de mesa, num desastre rubro sobre a imaculada toalha branca de linho. Agora sim, o constrangimento se instalou na grande mesa, a começar por mim, o convidado de honra, enquanto os garçons se apressavam em cobrir o desastre com uma profusão de guardanapos abertos superpostos sobre a imensa mancha vemelha do melhor vinho do mundo, derramado pelo único abstêmio ali, o "estranho no ninho". Bem... eu não precisava de tal extremo para exemplificar minha abstenção tão radical, rrrrrrsss. Fui ridículo para todo o sempre, e hoje sorrio, já que na ocasião eu ri de nervoso, o que não foi o suficiente para salvar a situação.
Sim... na minha vida aconteceram algumas vezes situações ridículas e outras falsas. Sob esse viés de olhar sobre mim mesmo eu poderia escrever uma autobiografia humorística que talvez fizesse algum sucesso literário. Talvez não... O viés do ridículo não é o humor mais sutil, já que é o da comédia pastelão...
Bom dia a todos!
(Guilherme de Faria)
24/01/2024
Nota
Num milagroso súbito "insight", em Abril de 1981, aos 38 anos de idade, eu me "descobri" ou me conscientizei como álcoólatra e então parei imediatamente de beber radicalmente, e nunca recaí desde então. Um ano depois, em 1982, parei de fumar, também sem recaídas. Considero-me um raro milagrado nesse terreno, portanto grato a Deus. Quem puder beber, que beba. Bebam por mim, que não posso e nem desejo. Nunca mais, nem por um segundo nestes anos todos senti falta do álcool ou do cigarro, o que evidencia o milagre.
Quanto às minhas artes em relação a isso? Permaneceram de igual qualidade, mas mais produtivo e ainda revelando a minha Literatura, que estava adormecida...