Saturday, May 15, 2021

ÚLTIMOS ECOS DA PROVÍNCIA (crônica de Guilherme de Faria)

No meu quarteirão, que compreende um trecho da rua Augusta, da Lorena e da Haddok Lobo, o anonimato atual das máscaras só não se instalou totalmente por uns raros exemplos de resistência, como o do mineiro entregador do mercadinho, seu Milton, que não usa máscara e ninguém liga como se fosse o seu privilégio de arauto tácito e necessário. No percurso, carregando as compras, ele conversa com os clientes com intimidade e aquela simpatia mineira das pequenas cidades, e sabe quase tudo no que respeita à saúde de seus velhos clientes e o transmite de uns para os os outros, de modo que fico sabendo quem está mal e quem acaba de morrer...
Também os porteiros do meu prédio, de inusitada simpatia e prestatividade, me fazem ver que o mundo ainda conserva seu lado bom e provinciano, pelo menos em nichos dentro dos bairros da cidade grande, e que nem tudo está perdido...
Por outro lado, estarei talvez sendo ingênuo e essas pequenas coisas são a despedida do mundo de pessoalidade e individualidade que conhecíamos, nós da nossa geração que não se comunica apenas telegraficamente por mensagens de celular, uns com os outros como os adolescentes, mas ainda conversa sobre o tempo e a saúde, e abana as cabeças contra a insensatez atual do mundo e da política. A propósito, eu nunca antes me imaginei começar a gostar de falar sobre o tempo (faz frio, faz calor, está ventando, vai chover), que antes julgava ser a extrema falta de assunto, típica de velhos banais. Enfim, começo a compreender a velhice, o que é sinal seguro de que estou eu mesmo envelhecendo, e se tudo correr bem, me tornarei finalmente simples e mais humano, quando tudo parece caminhar na direção contrária. Mas também conto com a possibilidade de estar enganado sobre tudo, já que ainda não há o recuo necessário para analisarmos o sentido dessa nossa época de triunfante tecnologia e esvaziamento das individualidades. Enquanto isso, por minha vez, por resistência agarro-me à pintura figurativa, às crônicas talvez passadistas, e aos sonetos de uma Musa criada por mim mesmo, e que, reconheço, já parecia antiga até para o século passado onde localizei a sua bela e imaginária culta juventude...
(Guilherme de Faria)
15/05/2021

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