Friday, May 15, 2020

A GAROTA DOS OLHOS DE MEL (das Memórias de Guilherme de Faria)


No fim do ano de 1968 ou 69, não me lembro bem, eu estava separado da minha segunda mulher, a bela Jomara, com quem tinha vivido quatro anos intensos, alucinantes, a ponto dos amigos nos compararem a Fitzgerald e Zelda nos "roaring twenties". Eu estava morando sozinho num apartamento térreo da rua Augusta perto da Paulista para o lado do centro, que eu havia adquirido em sociedade com ela. Antes da Jomara me deixar para viver com o Baccaro, meu primeiro marchand e amigo, depois de uma briga que eu e ela tivemos, aos gritos, por puro desgaste alcoólico, já havia ocorrido meses antes um estranho episódio, em que ela após uma discussão feia nossa, saiu de casa sem levar nada e sumiu por dez dias, sem que eu e nenhum dos nossos amigos tivesse a menor ideia de onde ela poderia estar. Jomara era filha única e sua mãe, a boa Dona Maria, mineira, de dedicação incansável, a visitava uma vez por semana, trazendo comidas e muitas laranjas que sua filha gostava. Naqueles dias, Dona Maria estranhando a ausência da filha perguntava por ela, e eu, igualmente preocupado, constrangido, sem saber de seu paradeiro (já que ela não telefonava, não mandava notícias) não sabia o que dizer. Nessas visitas, Dona Maria andava um pouco de um lado pro outro no apartamento, me questionando, cautelosa, e olhando com atenção uma pequena área descoberta no nosso apartamento térreo, sombrio, para ver se tinha algum remendo no cimento recente...Eu estava, percebia, ficando sob suspeita. E sentia que apesar da Dona Maria até então gostar de mim, eu não tardaria a ser visitado pela polícia. Até que finalmente a Jomara voltou para alívio geral, dizendo simplesmente que fora com uma amiga "para uma praia, para dar um tempo"...

Até que um dia após uma nossa nova briga neurótica, Jomara me deixou para ir viver com o Baccaro, confesso que, naqueles dias para meu alívio...
Seguiram-se meses de uma solidão a que eu não estava acostumado, pintando, desenhando e morando sozinho naquele apartamento escuro, triste, que não tardou a começar me doer, desesperar...


Foi então que,  sim, desesperado, resolvi sair da toca para "ir à caça" (embora não sendo um predador) e descer a rua Augusta à pé pelo meu lado da calçada em direção ao centro, na esperança de conhecer alguém, uma mulher que me salvaria de mim mesmo, de minha solidão voraz, de minha carência, de minha insuficiência, na verdade...
Então, logo na primeira vez, olhei de relance para a minha esquerda, para dentro de uma lojinha de discos longplay que havia contígua à porta do meu prédio e que raramente eu havia adentrado, e vi trabalhando no caixa uma nova funcionária: "a Garota dos Olhos de Mel"! Uma garota linda, de seus 20 anos, de cabelos louros e olhos verdes que eu nunca vira antes, e que logo pensei ser uma filha do dono da loja, dado o seu porte de classe média, sem portanto as características físicas do chamado proletariado ou classe trabalhadora. Segui em frente sem entrar, disfarçando, andei um quarteirão e voltei no rastro, para disfarçadamente dar uma nova olhada rápida, "casual", para dentro da lojinha e entrar no meu prédio novamente. Fiquei alvoroçado, imediatamente apaixonado à primeira vista pela beleza daquela moça, e daí por diante comecei a fazer essa saidinha diversas vezes por dia, sempre dando uma olhada rápida para dentro da loja, sem contudo entrar. Então comecei a perceber que ela me olhava com interesse também, com mais coragem do que eu, e fixamente, de volta. Devo dizer que eu era um rapaz jovem, considerado bonito, embora desleixado, com cabelo comprido e barba, mas menos parecido com os hippies da época do que com um jovem artista russo do século XIX , um tipo dostoievskiano extemporâneo, de olhar atormentado e faminto, mas de pura carência de amor.
Uma manhã, de repente entrei e disfarçando comecei a procurar um disco para comprar. Eu dava olhadas rápidas para ela, tentando ser casual enquanto manipulava discos escolhendo, e percebia que ela me olhava fixamente com um ar extremamente sensual, até mesmo sedutor, me parecia...
Aquilo foi se tornando um jogo e eu, inibido, bloqueado, demoradamente escolhia um disco, ia no caixa pagar, quando então ela recebia o dinheiro cash, registrava, embrulhava o disco e me devolvia o troco sempre me olhando fixamente com aqueles maravilhosos olhos verdes, abertamente, com aquele ar sensual. Estaria ela jogando comigo, me provocando? Eu pegava o disco e saía logo sem dizer uma palavra, intrigado, bloqueado, exasperado. E voltava para a porta ao lado, meu pequeno prédio contíguo, ao meu tugúrio, frustrado comigo mesmo, naquela inércia inicial dos apaixonados...

Aquilo se tornou um jogo rotineiro excitante, embora também frustrante, de vários dias, quase uma semana, até que 
uma manhã, já tendo comprado vários CDs que eu nem ouvia, escolhi mais um e fui à caixa pagar. Ela disse o preço eu peguei o dinheiro, entreguei-o, tudo muito devagar, e quando ela ia me dar o troco, temendo que mais uma vez eu o pegasse e ao disco e me retirasse sem nada dizer, ela de súbito, quase ofegante, irrefletidamente disse:


-"Nós já não nos conhecemos de algum lugar?"

Explodimos juntos numa súbita gargalhada, que além do gracioso absurdo era também de alívio e libertação. De imediato nos agarramos por cima do balcão aos beijos, ávidos, frementes, num abraço incoercível, apaixonado.

Um rapazinho vendedor que ficava na loja e acompanhara aquelas manobras discretas nossas por uma semana sem suspeitar de algo mais, nos olhou espantadíssimo, pois não vira nenhuma transição, gradativa que fosse, para aquilo, aquela cena tão inusitada. Tanto mais que assim que nos desenlaçamos eu disse a ela, firme, conclamando-a peremptoriamente, em voz alta:

- "Saia daí de trás desse balcão e venha comigo, imediatamente! Já! Agora! Venha viver comigo!"

Ela assustou-se. Não esperava por uma coisa assim e balbuciou:
-"Mas.. não posso... agora, assim... Assumi um compromisso de trabalho de fim de ano, de Festas, com o dono da loja... Além disso, é um trabalho temporário para eu ter dinheiro para comprar um presente de Natal para os meus pais... Mas olhe, no fim do expediente eu vou ao seu apartamento, para a gente se conhecer... Qual é o número?"

Respondi, em êxtase: -" É o único do térreo. Estou lhe esperando!"

E saí, como um adolescente, cheio de alegria e esperança...


Dentro do meu ap-ateliê passei o dia em expectativa, tentando pintar, mas quando se aproximava o horário de fim do expediente comercial, e eu contava os minutos sem fim... finalmente às 18;15 hs em ponto a campainha soou, abri a porta, e ela, linda, ali na minha frente, pela primeira vez podia vê-la de corpo inteiro, sem um balcão para interferir na sua silhueta voluptuosa...
E ela foi dizendo:

"Tive que fechar o caixa, levei quinze minutos..."

Calei imediatamente seus lábios com um beijo e a fui arrastando pelo apartamento até o quarto onde a joguei na cama sem que ela reagisse mal... Ao contrário, ajudamos um ao outro a nos despir para entrarmos nus no paraíso...

Pelo menos é assim que eu me lembro, sem poder contar aqui, claro, em detalhes, as maravilhas tácteis e mesmo eróticas daquele nosso encontro total...
Era um tempo de liberdade sexual irrestrita, que compensava até certo ponto a ditadura militar que se instalara no país.

Mas lembro também que naquela primeira noite, nós no leito, em reconhecimento mútuo, conferindo nossos corpos e nossa vidas em depoimentos cada vez mais íntimos até às três da madrugada, subitamente, ela, sobressaltada, disse:

- "Ai! tenho que ir pra minha casa! Meus pais são liberais, mas não me permito virar a noite, chegar no amanhecer. Isso os preocuparia. Vamos, vamos, você tem que me levar! Eu moro muito longe daqui, em Santo Amaro!

Vestimo-nos e saímos para rua Augusta onde, sendo uma zona de intensa vida noturna, facilmente pegamos um táxi para uma longa viagem, que se repetiria todas as nossas madrugadas por quase um ano inteiro, e me seria sempre agradável por estender meus minutos com ela, Beth Benz, a garota de olhos de mel que eu havia puxado para mim, e que havia entrado na minha vida.

Assim, já estávamos repetindo nossos encontros voluptuosos e reconhecimentos íntimos, todas noites por um período de uma semana, quando ela então disse:

-Guilherme, meus pais querem conhecê-lo, eu falei de você para eles e minha mãe está convidando você para jantar amanhã com a gente. Meu pai concordou. Está bem?

E eu, curioso, perguntei: Você falou de mim? De como nos conhecemos, para a sua mãe? E o que ela disse?

Beth respondeu: - Minha mãe disse: "Minha filha, que maravilha! Que romântico! Então foi assim? Coisa de artista mesmo... Não vejo a hora de conhecê-lo. Traga ele aqui para jantar amanhã..."

Eu fiquei meditando... Tudo aquilo parecia bom demais para ser verdade...

No dia seguinte depois do expediente de trabalho na lojinha de discos, Beth passou no apartamento para depois de uma hora sairmos para o jantar oferecido por seus pais para conhecerem o namorado de sua filha.
O pai de Beth, ela me alertou, era um homem reservado, natural da cidade de Basel na Suiça, daí seu sobrenome alemão Benz. Já sua mãe, era carioca e muito expansiva, muito receptiva e simpática, logo eu haveria de testemunhar.

Depois da longa corrida de táxi (eu não me importava nenhum um pouco com essas despesas diárias ida e volta de tão longe, pois a essa altura já entrara no mercado de arte com o sucesso dos meus desenhos, lançados pelo Giuseppe Baccaro na sua Casa de Leilões e depois pelas Galerias Cosme Velho e Documenta), chegamos ao sobradinho classe média da família Benz.

Assim que a Beth abriu a porta com sua chave, chamou:

- "Mãe, chegamos! O Guilherme está aqui comigo! "

Apenas adentrado, parado no meio da sala olhei para a escada sentindo que por ela desceria a dona da casa, vinda do andar de cima. A mãe da Beth, de uns cinquenta anos no máximo, logo assomou nos degraus superiores e descendo alguns com os braços inusitadamente erguidos, na altura do vão que dava para uma possível balaustrada que cercaria a escada no andar superior, agarrou-se ali, com os braços que permaneciam erguidos, esticados, e ficou com o corpo naturalmente ereto com os pés no ar, com uma oscilação mínima, como se estivesse fazendo um alongamento. Na verdade era uma graciosa molecagem como o faria uma adolescente, pois havia um sorriso ligeiramente maroto em seu rosto jovial.
Então ela pousou no degrau abaixo de seus pés, desceu agilmente os que faltavam, encaminhou-se para mim e abraçou-me carinhosamente. Eu estava encantado.

Para minha nova surpresa, em seguida ela segurou um braço da Beth, puxou-a para si e com ela ao seu lado, ambas de frente para mim, passou a mão nos belos seios de sua filha levemente constrangida, dizendo para mim:

- "Minha filha não é maravilhosa? Você não acha ela linda?"

Apesar de ligeiramente bizarra, essa introdução me foi encantadora. Aquela mãe nada convencional me ganhara imediatamente...


Dali a pouco chegou o pai da Beth. Era um homem de meia idade, tipicamente suiço (?) que após os cumprimentos formais, sentou-se na sua poltrona com um copo de bom wisky que também me ofereceu, e eu aceitei, pousados numa mesinha de centro à nossa frente. Ficamos bebendo em silêncio, ele me observando com olhos de quem não estava nenhum pouco satisfeito com o tipo do namorado de sua filha. Na verdade, ele não parecia estar nada satisfeito com sua própria vida, eu intuí.

Beth havia me contado que se formara na EAD, e que seu pai, que queria que ela, que falava fluentemente o alemão e tivera uma educação bilingue, fosse para a Suiça para trabalhar no mínimo um ano numa grande firma de arquitetura, que ele estava mexendo os pauzinhos com seu contatos na sua cidade natal de Basel, para depois de cumprido o contrato ela pôr o pé na estrada e começar viajar pela Europa para se tornar uma cidadã do mundo, como ele sonhava para ela. Nada de namoros obcecantes, nada de paixões, a seu ver imobilizantes...

Logo a mãe da Beth chamou para a mesa e tivemos um delicioso jantar graças à simpatia daquela mulher nada formal, que pareceu gostar de mim e ter me aprovado à primeira vista, não sei bem porquê.

Terminado o contrato com a lojinha de discos, a Beth, tendo comprado com o seu dinheiro o presente de Natal dos pais, ficou livre para viver comigo de maneira conjugal embora parcial. Ela passava o dia inteiro comigo no ap-ateliê, até cozinhando muitas vezes para nós, e de noite, no nosso leito, após belos e deliciosos lances e confissões intimas, em que mais e mais nos conhecíamos, depois de breve sono tínhamos que acordar com um despertador às três da madrugada para nos vestirmos para eu levá-la de táxi até sua casa numa longa viagem, ida e volta, todas as noites, coisa que eu fazia de bom grado, sem me queixar, porque estendia meu preciosos minutos com ela.
Eu não me ressentia nem da despesa com o táxi diuturno, pois vivia razoavelmente bem de finanças pelo fato de estar no mercado de arte com os meus desenhos com grande sucesso, graças ao Giuseppe Baccaro, meu primeiro marchand, que me lançara em 1964 no seus prestigiosos Leilões.
Entretanto me assombrava a perspectiva da separação por estar se aproximando o dia em que, tendo seu pai conseguido para ela um emprego de desenhista na grande firma de Arquitetura Burkhardt, de fama internacional sediada em Basel, que para mim até então era tão somente a cidade em que Hans Holbein, magnífico pintor alemão do século XVI,  vivera  de 
1528 a 1532  e onde deixara grandes obras, artista que eu admirava sobremaneira.

Creio que seria mais interessante como narrativa se eu pudesse revelar aqui os lances íntimos e nossas confidências no leito de todas as noites durante quase um ano, mas não posso, porque a Garota dos Olhos de Mel, vivendo há décadas em Paris onde fez a sua vida casada com um arquiteto francês, com filhos e netos, passados mais de quarenta anos reapareceu descobrindo-me aqui no facebook, tornou-se minha amiga virtual, e embora tendo me dado permissão formal por escrito, para eu, como memorialista, contar a nossa história, sinto que me vigia com aqueles olhos verdes verrumantes e não posso passar muito além da superfície na minha narrativa, assim o sinto...

Afinal chegou o momento dela viajar para aquela cidade de seu pai, tendo eu combinado que me encontraria com ela lá em Basel dentro de três meses, tempo calculado para eu vender o meu apartamento, minhas telas e móveis, liquidar minha vida aqui na minha cidade, penosamente, sob os seus argumentos que este país estava horrível, deprimente, sob uma ditadura militar perigosa e limitante.

Eu tentava me convencer que seria bom àquela altura eu ir para a Europa, interrompendo minha carreira, afinal provinciana, e começar do zero uma carreira européia pela desconhecida Basel, para mim somente a cidade do Kunstmuseum que entre outras obras primas ostentava numa sala só para ele, o grande retábulo de Holbein, a famosa e terrível pintura do Cristo morto, nu de corpo inteiro de tamanho natural, na horizontal, subterrâneo, em começo de decomposição, esverdeado, com manchas arroxeadas e macilento, obra visceral de arte diante da qual Dostoiévsky, tendo ido àquela cidade somente para ver essa espantosa imagem de nossa condição mortal, exclamara: -"Eis aqui porquê perder a fé..."


Passaram-se alguns meses e enquanto a minha relação com a Beth já tinha contornos de estabilidade formal e amorosa malgrado diferenças de visão e de temperamento preocupantes, eu prosseguia pintando e desenhando intensamente como sempre, afinal era mim vocação e profissão (graças à Deus) ao mesmo tempo. Mas é preciso, por amor a verdade, que eu confesse que meu modo de beber, há muito tempo já saíra de controle, talvez desde lá na minha adolescência. Apenas, uma certa tolerância ao álcool disfarçava até certo ponto minha dependência, o que fez com que minhas ex-mulheres, apesar de sofrerem muito com isso, por mais incrível que pareça não identificaram minha instabilidade emocional, minha angústia recorrente, minha solidão subjetiva e crescente dependência amorosa, com a doença do alcoolismo da qual elas nada sabiam, como a maioria das pessoas. Vim a apreender muitos anos mais tarde que elas, por me amarem, desenvolviam rapidamente a doença complementar da co-dependência, que as cegava.
Assim também a Beth não entendia meus tormentos, ela que gostava de bons vinhos e os bebia socialmente, sem prejuízo.
Lembro me uma vez em que fomos ao cinema assistir ao filme inglês em preto e branco intitulado O Homem Elefante, sobre o caso verídico de um homem terrivelmente deformado por uma doença desconhecida, de nascença, chamado John Merrick, na Londres da era vitoriana, e eu, assistindo ao lado dela, comecei a chorar na poltrona, silenciosamente a princípio, depois quase a soluçar, por absoluta identificação misteriosa e anímica com o sofrimento e solidão daquele homem cuja imagem física distorcida e monstruosa era a espelhamento da minha alma segundo me pareceu naquele momento. Percebendo minhas lágrimas, Beth, no escuro, me olhou, estranhando, e perguntou, perplexa: -"Você está chorando? Por quê?"
Me senti mais solitário e incompreendido ainda...


O pai da Beth, preocupado com o nosso namoro, aumentou seu empenho para conseguir o contrato e a viagem de sua filha para com isso certamente nos separar. A Beth estava pronta para viajar e afirmava que jamais viveria integralmente comigo no Brasil e que contava com que eu fosse ao seu ...encontro em Basel para ali vivermos como um casal, e depois de terminado seu contrato com aquela firma, viajaríamos pela Europa e pelo mundo. Grandes planos.

Chegou, afinal, o dia de sua viagem e fui levá-la ao aeroporto. Nos despedimos emocionadamente, ela reiterando que contava com a minha promessa de ir ao seu encontro dali a três meses.

Tendo ela partido, continuei minhas providências para vender as minhas coisas, obras, o apartamento em socidade com a Jomara, minha ex, e tirar passaporte, visto, etc.

Esvaziado o apartamento, deixei, estrategicamente, somente uma cama no quarto vazio, e mudei-me para a o sobradinho da minha tia Odette, a mais querida das minhas tias, aquela que me levou quando adolescente a ver uma ópera de Bizet no Teatro Municipal. Minha tia tinha disponibilizado um quartinho na sua casa de vila na Alameda Rocha Azevedo, e até um quarto de empregada para depósito da minha tralha mais intima, invendável.

Aconteceu, que quando eu estava ainda no meu apartamento vendendo minhas obras e objetos, com vistas à viagem, a notícia tendo vazado, procurou-me uma prima minha chamada Sylvia Caiuby que já tinha dois desenhos meus e queria aproveitar a minha "liquidação" para adquirir mais alguma obra minha.
Eu a recebi, conversamos, contei meus planos e ela encantou-se por um objeto que eu havia feito, uma bricolage de peças de madeira antiga coletadas no lixo das calçadas, com as quais construi uma espécie de oratório surrealista.

Como o oratório não estava completamente pronto e faltava acrescentar umas peças (que mostrei) para ficar como eu queria, minha prima pediu-me que o reservasse para ela e que iria buscá-lo quando eu a chamasse, e para isso deixou um adiantamento, para me pagar o restante quando viesse buscá-lo.

Estou contando com detalhes essas manobras corriqueiras por uma razão: esse objeto seria a peça chave na mudança de trajetória do meu destino, dentro da sequência de eventos que vou prosseguir narrando... 


Tendo esvaziado o ap e deixado somente a cama, instalei-me na casinha da minha tia na vila, para alegria dela, que me adorava. Continuei ali, desenhando um pouco no meu quartinho, numa pequena mesa, e então lembrei-me de telefonar para minha prima Sylvia comunicando que eu havia completado o oratório e que ela podia vir buscar.

No mesmo dia ela veio no seu carro, entrou na vila e estacionou na frente da casinha geminada e tocou a campainha. Eu assomei na janela do andar superior no quarto da minha tia (que não estava em casa) que dava para a rua, e olhei para baixo. Minha prima estava acompanhada de uma amiga, que também olhou para cima, para mim.

Desci rapidamente a escada para abrir a porta, entraram e levei-as para cima, para o meu quarto para conversarmos e concluirmos a transação do oratório. A amiga de minha prima era uma moça mignon, linda, muito branca, de olhos grandes amendoados e cabelo cortado bem curto à la Elis Regina, como muitas moças estavam usando na época. Seu nome era Elisa Nazarian.

Houve uma imediata eletricidade e uma poderosa atração física entre nós, mas por alguma razão havia um descompasso, uma falta de sintonia psicológica ou intelecual que fazia que, enquanto eu mostrava meus desenhos, ela petulantemente os criticasse pondo defeitos, coisa a que eu não estava acostumado. Eu dizia A, ela dizia B... Não combinávamos em nada e ela me parecia atrevida e presunçosa, a pirralha... Éramos psicologicamente incompatíveis, conquanto isso só produzisse uma exasperação e um aumento da atração física.

Minha prima, calada, sem ter dito uma palavra sequer, observava perplexa aquele fenômeno que poderia parecer de antipatia mútua instintiva à primeira vista, como gato e rato. Entretanto não conseguíamos, digamos, desgrudar...
Então, subitamente interrompi aquela situação propondo:

- Olha, vamos terminar esta conversa tomando um chopp num barzinho que conheço aqui perto, de mesinhas na calçada. Está um dia lindo... Que tal?


Saímos da vila e fomos no carro da Sylvia até aquela ruazinha paralela à Sarandi, que tem só um quarteirão e vai da Haddock Lobo à Bela Cintra e na esquina desta ficava o tal barzinho com mesas na calçada. Sentamos os três, as moças acho que pediram refrigerantes ou suco, não me lembro, e eu pedi um chopp....
Eu e Elisa continuávamos nos desentendendo até o garçom voltar com as bebidas. Assim que dei a primeira bicada no chopp, tudo de repente mudou... Bastou o primeiro gole, o álcool deve ter funcionado como catalizador de nossas personalidades incompatíveis, formou-se a amálgama entre nós (em linguagem química, por assim dizer) e imediatamente nos agarramos mutuamente, sem aviso, sem dizer mais nada, eu e Elisa, aos beijos por cima da mesa, numa explosão de atração acumulada, finalmente liberada. Como nesse fenômeno também não teve progressão visível, foi tudo inesperado, inusitado, quase violento, minha prima Sylvia não entendeu nada e ficou espantadíssima... "Mas o que é isso? Esses dois não estavam se odiando?" (deve ter pensado)...
Saímos dali e levei as duas até casa do meu amigo Baccaro, o marchand, que ficava ali pertinho, na Bela Cintra em frente à rua Sarandi a paralela de cima de onde está vamos. Ele que estava viajando pela Europa, me disponibilizara sua casa em que eu já tinha grande intimidade e liberdade. A Sylvia foi logo embora sem entender nada e eu subi para um quarto com a Elisa, sentamos na cama e eu abri logo o jogo, esclarecendo que eu estava em vias de viajar para Europa para me encontrar com a garota com que tinha vivido quase um ano e tinha um sério compromisso de vivermos juntos na Europa a partir da Suíça.
Elisa, apaixonada (ela tinha vinte anos), imediatamente, sem hesitação declarou com absoluta firmeza:

- "Sei que não posso tê-lo para mim, mas eu quero ser sua aqui e agora. Eu sou virgem e ofereço minha virgindade a você sem nada pedir em troca. Estou segura de que é a você que eu a reservei até hoje. Tome-me já e não se preocupe, de jeito nenhum, nada peço senão isto.
E de repente, tirando rapidamente seu vestido e a calcinha (tinha seios pequenos, não usava soutien), ofereceu lindamente, sem qualquer vulgaridade, de maneira quase inocente, seu lindo copinho nu, adolescente, que mal pelinhos tinha. Ficou estática, escultural, ali na minha frente, por segundos de eternidade. Eu estava deslumbrado...

Que homem, sendo ainda jovem, resistiria?


Eu cairia na armadilha? Sim, caí, não resisti ao apelo primal da fantasia mais antiga do homem: o rompimento do selo virginal feminino, que na verdade eu ainda não conhecia, pois todas as mulheres que eu tive antes e depois não cumpriam esse requisito, na verdade um tabu ou fetiche que já fora derrubado no Ocidente em meados dos anos 60, mas que talvez perdure ainda no inconsciente coletivo, onde moram e resistem as princesas.
Com isso quero dizer que para mim se tratou de uma paixão física, pela qual eu pagaria um alto preço, grandes sofrimentos e mesmo uma tragédia, que contarei mais adiante.
A partir daquele dia eu estaria embarcado em nova aventura,
nova relação superposta, atropelando a outra interrompida no espaço mas não no tempo, que eu ainda vivia, e que me deixava dividido, conflituado, perdido, às portas de uma quase esquizofrenia afetiva, dolorosa.
E tome álcool por cima, para me anestesiar, sem perceber...

Naquele estado, diante da minha carência e incapacidade de viver só, engatei uma relação cada vez mais comprometedora, envolvido principalmente pela paixão daquela menina por mim, sem deixar de reconhecer, num cinismo íntimo e secreto, o prazer imenso que aquele corpo jovem, entregue, passivo, receptivo, lindo, me proporcionava.

Sou fraco, sou culpado, reconheço, pelo meu pecado nada original, que na verdade, eu nem reconhecia, pela minha tendência ao hedonismo tanto quanto a um esteticismo de artista, que reivindicava naqueles anos libertinos um direito ilimitado à liberdade, sob a égide da beleza e da arte.

E assim comecei paralelamente ao meu caso com a Beth o caso com a Elisa, que viria a ser mãe de três, na verdade de quatro de meus seis filhos, sem a menor vocação nem maturidade para ser pai, a não ser dos meus quadros, de minhas criações artísticas que tanto me orgulhavam com seu sucesso íntimo e também público, mas que não preenchiam nem sequer minha insuficiência, minha solidão dolorosa de artista alcoólatra, sem assim me saber...


Continuei me encontrando com a Elisa diariamente, mesmo no meu velho apartamento vazio em que restara aquela cama, onde ficávamos por horas, a última coisa que afinal retirei para entregá-lo ao comprador.

Até que chegou dia de pegar o voo para a Basiléia, que se não me engano fazia baldeação em Orly, na França.

Acontece que eu não olhei direito o horário recomendado de comparecimento ao aeroporto e fui acordado por um telefonema da Elisa, que minha pobre tia, preocupada, atendeu, e foi ao meu quarto passar o telefone: Elisa aflita, me alertava para o fato de eu estar quase um hora atrasado e dizia que estaria vindo me buscar (no seu fusca) para me levar correndo para eu não perder o voo. E dizia isso tudo chorando, desesperada. Santas mulheres...

Lembro-me bem daquela corrida no fusca, ela em lágrimas se recriminando: "Que estou fazendo? Eu sou burra, burra! Estou levando você para outra! Para os braços de outra!" E mais chorava, dirigindo em disparada, comigo mudo, aflito e perplexo do lado, no acento do carona.
.
Despedimo-nos no aeroporto, ela me abraçando em lágrimas, me segurando, não querendo me soltar, a mim, que nem sequer prometia voltar...
Assim, fiz o chek in ainda a tempo, no último minuto, com a voz de chamada reclamando o embarque do passageiro atrasado, que era eu, que afinal embarquei, me sentindo um trapo. Ainda assim, me lembro de um incidente no embarque, em que minha mala sendo inspecionada na Policia Federal, tendo eu jogado por cima das roupas uma paleta de tintas e uma caixa de instrumentos de pintura, entre pincéis e espátulas havia uma faquinha de ponta quebrada com crostas de tinta seca, que eu usava para raspar eventuais arrependimentos (pentimenti). Tudo na minha vida é simbólico... Mamma mia!

Fui detido sob os olhares curiosos dos passageiros perscrutando aquela figura incomum, de jovem barbudo e cabeludo com uma espécie de casaca preta, bem século XIX em que alguns poderiam ver, talvez, forçadamente, a figura de um guerrilheiro, por alguma semelhança física com o Chê.
Mas levaram a faquinha sem me levarem junto e não voltaram com ela, talvez apenas ridiculamente me desarmando. Eis a rigorosa polícia do tempo da ditadura... Tal seria, se me detivessem mesmo... e eu falei alto, quase debochando:

"Puxa! Eu teria de ser o Super Homem, com essa faquinha sem ponta, não?" Ninguém riu...


Dentro do avião, assim que ele decolou, eu dolorosamente dividido, deprimido, tive a certeza de que estava indo só para voltar, como única solução para recuperar a minha integridade perdida...
Sentado ao meu lado um empresário português logo me perguntou com aquele forte sotaque (eles dizem que sotaque é o nosso, de brasileiros, eles é que falam a língua!): "O senhor está indo à Suiça, de primeira vez, pois não? Fique sabendo: os suiços são uns "pizzas frias"...
Eu nada respondi, meditando sobre mais aquele sinal aziago, eu cheio de temores e pressentimentos. Eu nem tinha pensado até então sobre os suíços, sobre os quais eu só sabia dos Alpes, dos bons relógios, dos Bancos e do meu xará, o Guilherme Tell atirando uma flecha na maçã na cabeça do filho...


Não me lembro mais do resto do voo, somente que pousamos em Orly de noite, sem descermos, decolamos de novo e chegamos em Basel, ainda de noite (era perto) e não vi a Europa do alto e muito menos a Suiça, onde uma vez pousados só notei a estatura enorme e as força dos funcionário suíços que pegavam a minha pesada mala esticando o braço com ela no ar e me passando como se fosse uma bolsa. Eu me sentia pequeno, subdesenvolvido e esculhambado, vindo da periferia do mundo. E observando a frieza geral dos olhares daquele povo, ainda no aeroporto, achei que era a isso a que o português, meu companheiro de viagem, se referira com as tais "pizzas frias".

Iria ser pior do que eu estava esperando...


Comecei a andar um pouco pela cidade, que me parecia triste, melancólica, naquele fim de Outono. Basel era muito plana, não havia ladeiras, colinas, não se viam montanhas nem ao longe. Alpes, nem pensar...
Comecei a ir diariamente ao Kunstmuseum e isso valeu a pena por algumas obras primas, principalmente aquele Cristo morto do Holbein que já descrevi anteriormente, que malgrado a morbidez de sua visão realista da morte, não contribuiu particularmente para a minha depressão, tal é a minha paixão pelas grandes obras de arte, quaisquer que sejam os temas.

O que estava me minando mais e mais, muito depois eu entendi, eram os vinhos que eu bebia, quando saía com a Beth para os bistrôs e restaurantes aconchegantes da cidade. Eu nunca ficava numa garrafa só, sintomaticamente, anos depois eu soube por quê.
Para piorar começaram a chegar cartas da Elisa, diariamente, às vezes duas ou três por dia, e a Beth logo desconfiou do que tinha acontecido. Começaram as brigas, os ciúmes, as acusações dela, que por serem fundamentadas, eram terrivelmente incrementadoras do meu sentimento de culpa, no estado mental lamentável em que eu estava.

Lembro de uma noite terrível, em que a Beth interceptou uma carta da Elisa que acabara de chegar, abriu-a e começou a lê-la parodiando uma voz melíflua, caricata, de mulher, que dizia:

"Guilherme querido, eu entreguei minha virgindade a você por amor e não me arrependo, mesmo sabendo que você não poderia ser meu...". E Beth imediatamente atalhou com sua própria voz, furiosa:

-" PUTA!!!! É puta, Coisinho!... Você é trouxa, caiu nessa lábia, de virgem do pau oco! Conheço essa laia de mulher! Caiu no conto da virgindade! Você é bobo mesmo... Está apaixonado?

E lutei com ela por essa carta, tentando tirá-la dela, enquanto com a carta na mão com o braço esticado, de lado ou dando-me as costas, até que, de repente, entregando a carta mas segurando-a, me encarou com aqueles olhos verdes fuzilando, ordenou-me, sim, imperiosamente:

-"DÊ PRA MIM AGORA! JÁ!"

E eu, reduzido que estava a "farrapo humano", como poderia resistir, me negar? Juro, não estou sendo cínico, mas fiel aos acontecimentos, nada honrosos para mim, cuja memória hoje em dia entretanto me faz sorrir, pois eles continham os ingrediente naturais e até graciosos da psique feminina ciumenta, em combate pela posse do macho reduzido a objeto.

"No amor e na guerra vale tudo.. " Não é o que o povo diz?


Comecei a ficar num desconforto psicológico, emocional e existencial crescente com aquela minha divisão interior entre duas mulheres, quer dizer, entre duas animas reais combatentes em disputa por mim, e pior... dentro de mim.
De repente eu só queria sair dali, voltar a São Paulo, me retomar...
Mas antes, nos dias em que eu ainda não havia decidido voltar e era só uma uma figura estranha, depressiva, me recordo de um pequeno episódio sintomático. Aconselhado pela Beth fui ao Deutch Bank (se não me engano) para abrir uma conta e depositar os meus dollares ou trocá-los em francos suíços. O gerente do banco era um rapaz louro mas que revelou-se meio brasileiro, e que me observando bem, eu muito calado e inseguro, se aproximou de mim, com um olhar compassivo, falando subitamente português com leve sotaque herdado, falando baixo, confidencialmente, me estendeu um cartão com um nome e telefone:
-"Olhe, vejo que você sofre... procure este nosso compatriota, que organiza reuniões que lhe darão apoio."

Percebi depois de uns minutos ao sair olhando o nome no cartão, que o rapaz deduziu pelo meu aspecto e aura pesada, deprimida, que eu devia ser um militante da luta armada contra a ditadura brasileira, exilado, possivelmente torturado, quebrado, acabado. Não deixei de ter uma certa gratidão por um momento por aquele moço, semi-brasileiro talvez, mas tão humano e solidário, que representava a nossa melhor qualidade como povo, visto que ali em volta eu só via indiferença ou olhares gélidos.

Os dias se arrastavam e a Beth cada vez mais irritada, uma noite, num restaurante, durante o jantar ela me olhou duramente e disse:
- "Eu estou grávida ".
Eu dei um suspiro de desânimo e murmurei instintivamente:

"Só me faltava essa.."

A fúria da Beth foi imensa, e ela gritou:

"Seu canalha! Seu covarde!."
E se a memória não está me falseando, me estapeou na cara, por cima da mesa, ou assim me senti...


Eu fiquei tão deprimido que a minha expressão deve ter equivalido a um suicídio, a ponto dela se assustar e se desmentir imediatamente. Disse:

-"Não, não, Coisinho, não é verdade, não fique assim..."

Naquele momento eu decidi voltar imediatamente ao Brasil para não me rasgar literalmente em dois pedaços.

Fiz a mala mas deixei a minha pasta cheia de desenhos, para ela, não como um simples presente, mas inconscientemente como uma espécie de indenização por danos emocionais infligidos por mim involuntariamente...

A Beth me levou de trem até Zurich onde eu tomaria o avião para o Brasil, cuja passagem marquei, não sei como. Na pequena viagem de uma hora, ela dizia:

-"Sim, sim, vá embora, me deixe se é isso que você quer, mas não volte para o Brasil! Você está a só oito horas de trem de Paris... Vá ver o Louvre, você vai se arrepender se não aproveitar agora! Não faça isso!"

Mas eu não tinha condições emocionais para enfrentar Paris, pra mais nada, na verdade. Eu tinha que voltar ao ponto de partida (eu ainda não reconhecia que estava voltando para a Elisa).

Pobre Beth... Ela era generosa, afinal, e estava me levando, por sua vez, também em lágrimas, ao aeroporto para me entregar à outra, simetricamente na mão contrária à atitude aparentemente altruísta da Elisa em São Paulo, naquela louca corrida em lágrimas, num Fusca, ao aeroporto, para também me entregar a uma outra mulher desconhecida...

Lindas, loucas mulheres, que movem e renovam o mundo... Eu nunca estarei à sua altura, nem mesmo tirando de dentro de mim mesmo uma outra Musa, tão feminina e talentosa, minha Anima interior, a doce Alma Welt, a fecunda poetisa gaúcha universal, que surgindo, tardiamente, na aurora da minha velhice, finalmente, haveria de me redimir, se não perante elas, ao menos perante mim mesmo...


 Continua

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A PEQUENA MUSA DE YEREVAN (
das memórias de Guilherme de Faria)
(Sequência do Episódio A GAROTA DOS OLHOS DE MEL
Introdução

Voltando a São Paulo, fui direto para a casa da minha tia, que ficou surpresa e ao mesmo tempo feliz em me ver de volta da Europa tão depressa (eu tinha passado menos de um mês em Basel). Na verdade eu me sentia mais aliviado do que derrotado, mas não pretendia procurar a Elisa, por mais que fosse ela a causa da minha "divisão" interior.

Passados dois dias eu senti a obrigação de procurar a mãe da Beth, para dar uma satisfação, já que ela "fizera gosto" na nossa relação, que ela considerava tão "romântica". Peguei um táxi e fui até a casa dela sem avisar. Toquei a campainha, ela atendeu, abriu a porta e ficou espantadíssima. Exclamou: "Rapaz! Como você está aqui? Você não está em Basel com a Beth? O que aconteceu?"

Nesse momento me dei conta de que eu mesmo não sabia... Não conseguia explicar a razão da minha separação e retorno a São Paulo. E se já soubesse, na verdade não poderia contar essas razões que não eram plausíveis, nem justificáveis pelo senso comum.
Disse a ela que não sabia explicar e, absurdamente me retirei logo, deixando a pobre mulher mais perplexa ainda. Ela teria que perguntar à sua filha, e eu só saberia a versão da Beth, sua visão dos fatos e suas consequências em sua vida, alguns anos depois.
Deixei aquela casa e, envergonhado, nunca mais veria aquela família...
Entretanto revi a Beth poucos anos depois, em 1972 (se não me engano), quando ela apareceu toda de preto e com um boá de plumas negras, bem européia, na venissage da minha exposição individual de desenhos da série Retratos Imaginários, na Galeria Come Velho. Contarei muito adiante, por razões cronológicas, os acontecimentos advindos desse reencontro.

Mas voltando aos dias que se sucederam ao meu retorno, eu me "retomando" na casa da minha tia, recebi antes que se passasse uma semana, o telefonema da Elisa. Ela dizia que tivera a "intuição" de que eu havia voltado, e queria me ver.

Imediatamente eu disse que sim, que também queria vê-la.
E ela, eufórica, comunicou que viria imediatamente me buscar na vila, com o seu fusca, para irmos a algum lugar conversar.

Aquele telefonema decidiria meu destino pelos próximos dez anos, na verdade como um encadeamento de circunstâncias que me trouxeram até aqui, atravessando outras fases, com outras mulheres, outras musas, que também descreverei, até este momento aqui, em que dedilho este computador narrando abertamente (talvez despudoradamente) estas histórias que seriam banais, se eu, como artista, não me apercebesse de que tudo na vida é simbólico, nada é gratuito, e essa é a riqueza verdadeira e o mistério de todas as vidas humanas...

A partir desse reencontro retomei o relacionamento com a Elisa.
Ela era filha de armênios, seu pai era o rico industrial Domingos Nazarian, dono da Santa Branca, fabrica de tecidos, principalmente de uma casimira famosa de alta qualidade. Sua mãe é dona Zília Nazarian, que é Gasparian de solteira, filha do grande magnata de indústrias, armênio, Gaspar Gasparian. Elisa tinha vinte anos, morava com os pais, e fazia Faculdade de Literatura na USP. Devo dizer que a Elisa, que tinha mais quatro irmãos, duas moças e dois rapazes(hoje septuagenários) era a única que não tinha traços típicos dos armênios que costumam, mesmo as mulheres ter narizes grandes. Elisa era linda, mais do tipo italiano, puxado de sua avó materna que era italiana. Tinha o nariz pequeno e perfeito, olhos grandes, orientais, amendoados, e cabelo castanho escuro ondulado. O corpo mignon, alvo, de seios pequenos, quando a conheci era quase de uma ninfeta. Eu, inclinado à luxúria, que foi sempre o meu pecado de estima, aquele onde o meu alcoolismo se agarrou, fiquei logo seu dependente físico, condição que se confundia com paixão e até com o amor.
Naqueles anos, como artista boêmio e rodado, secretamente inclinado à luxúria (como já confessei),embora começado de maneira auspiciosa na carreira artística como pintor e desenhista, a rigor eu não seria um rapaz recomendável para nenhuma boa moça de "família" embora conservasse, no fundo, uma pureza de sentimentos intrínseca que nunca me faria um mau caráter.
Começamos a nos encontrar diariamente, e logo aluguei um apartamento autônomo, em cima e nos fundos de uma loja, mas com saída independente, na rua Oscar Freire, entre a rua da Consolação e a Melo Alves. Era um apartamento jeitoso, com grande banheira no banheiro, sala, cozinha, um quarto de bom tamanho e uma ampla área descoberta, um solário suspenso dando para um jardim nos fundos.
Descrevo isso, porque senti que era um lugar perfeito para o meu ateliê moradia, e que recebendo a Elisa ali diariamente, eu podia ser feliz.
Infelizmente o Destino interferiria, e começariam, a partir dos nossos encontros ali, os dias de aflição e dores que se seguiriam...

Elisa começou a vir todos os dias ao meu ateliê, nosso apartamento, e passava o dia todo comigo. Ela saía cedo da mansão paterna na rua Colômbia, no Jardim América, com os livros e cadernos como se estivesse indo para a Faculdade, em que, na verdade, trancara a matrícula; pegava o seu fusca e vinha para o nosso ninho da Oscar Freire, onde vivíamos conjugalmente, tal como eu antes com a Beth, às vezes cozinhando para nós, mas sobretudo ouvindo minhas histórias sobre livros clássicos, e sobre pintores, escritores e poetas, suas biografias e anedotas, que a fascinavam, sorvendo, apreendendo. Ela que até então só lia best sellers de sub literatura passou aos poucos a devorar os clássicos que eu recomendava.


Mas aquelas suas manobras diárias vazaram de algum modo, pois as suas irmãs, a Zilinha e a Quinha, com quem ela se confidenciava, começaram a nos visitar, Influenciadas por ela que falava apaixonadamente de mim, me viam com simpatia e até carinho. Aquelas meninas, que a adoravam, seriam fiéis naquele segredo, pois sabiam sabiam que seu pai, de quem ela era a favorita, jamais aprovaria aquela relação com um artista pobre, que não era de seu meio e classe, sobretudo que já fora casado e era separado, como a Elisa lhes confidenciou, pois foi a primeira coisa que confessei a ela.
As irmãs da Elisa então comentaram que o pai delas, o seu Domingos, estava ficando inquieto, pressentindo alguma coisa no ar. Ouvindo isso eu decidi, pegando o telefone residencial dele, me antecipar e telefonando me apresentei como o namorado de sua filha Elisa. Eu disse que queria marcar um encontro com ele, para ele me conhecer. Ele ficou surpreso, nervosíssimo, dizendo:

-"Mas como? Eu nem estou sabendo que minha filha tem um namorado! Mas isso é um absurdo! As coisas na minha família não são assim!

- Mas, seu Domingos, -disse eu- estamos namorando já há dois meses . Esperamos tanto tempo para lhe contar para que estivéssemos bem seguros quanto à nossa relação.

- Como dois meses? Eu não estava sabendo de nada! Os namorados de minhas filhas me são apresentados no primeiro dia! O que está acontecendo? (havia pânico na sua voz) . O que o senhor pretende?

Eu respondi:- Eu quero marcar um encontro com senhor num restaurante para eu me apresentar, para o senhor me conhecer...

"Que restaurante então: a que horas e a que dia?"- perguntou ele.

-O Fazano da Avenida Paulista -respondi- às tantas horas, amanhã... Estarei sentado numa mesa perto da calçada, eu acenarei para o senhor quando o avistar, vi uma foto sua. Eu sou jovem, de barba e cabelos meio compridos.
,
- "Está bem, irei "-ele concluiu- "mas isso tudo é muito estranho, irregular... Passe bem!"


No dia e hora combinados, fui ao Fazano com minha melhor roupa que não era terno e gravata, naturalmente, mas mesmo assim.... como num filme de espionagem, peguei uma mesa e fiquei esperando, bebendo água mineral.

Um senhor de cabelos brancos, meio calvo em cima, de terno e gravata, parecendo mesmo um empresário rico, se aproximou com ar nervoso, procurando. Me ergui da cadeira, acenei e ele veio se sentar, me olhando transtornado.

Eu disse pausadamente (estranhamente eu estava muito calmo e seguro):

-Seu Domingos, meu nome é Guilherme de Faria, sou artista, pintor, e Elisa e eu estamos namorando já há mais de dois meses. Estamos apaixonados e queremos viver juntos. Eu sou desquitado, mas ofereço um casamento, por exemplo... na Bolívia, se o senhor aceitar. Mas certamente queremos continuar juntos. Como disse, estamos apaixonados...

Ele quase gritou: "O senhor está louco? Isso é uma loucura. Eu não estava sabendo de nada! Apaixonados? Isso não existe! Isso é coisa de novela de TV! Casamento na Bolívia? Isso não vale nada !"

Eu repliquei calmamente: - Com todo respeito, seu Domingos, sua filha está muito firme na decisão dela, como eu também, o senhor vai ver...

E ele: - "Eu conheço muito bem a minha filha, vou tirar isso tudo da cabeça dela! O senhor parece ser um homem experiente, ela é uma menina, o senhor deve ter influenciado ela, hipnotizado talvez. Vou acabar com tudo isso!" .

Eu repliquei, sempre estranhamente calmo, pausadamente:

- O senhor pode tentar, mas não vai conseguir. A Elisa está muito decidida, o senhor vai ver.

"Ora, vou já falar com ela ! O senhor passe bem!"

Levantou-se e sem me dar a mão, me deu as costas e saiu, quase tendo um infarto, eu temi...

Foi direto para sua casa, onde Elisa o estava esperando, e confrontou-a, furioso, arguindo-a. Elisa confirmou tudo, o enfrentou com bravura, disse que me amava e que não renunciaria ao seu amor por mim. O velho ficou desesperado e até levantou a mão para ela pela primeira vez na vida, mas se deteve.

Elisa veio logo me ver, e então, eu, que me mostrara tão maduro e seguro perante seu velho pai, desabei em seus braços em lágrimas. O seu Domingos não sabia que eu não era aquele 007 todo... que eu, sendo artista, era mais frágil que a filha dele. Se não, não teríamos vencido... Que blefe!

Dali por diante aquelas cenas em sua casa se repetiam diariamente. O velho seu Domingos, sentindo que sua favorita lhe escapava, começou a ficar doente, estressado, obcecado, impotente perante aquele caso de Romeu e Julieta, na verdade o terceiro de minha vida, artista maldito que eu parecia ser...

Nós continuávamos juntos como se nada estivesse acontecendo, embora percebesse nela uma preocupação e tristeza que ela procurava esconder.

Até que um dia, sua irmã Quinha, veio ao apartamento e nos disse que estava mais preocupada do que nunca e contou porquê:

"Papai- disse ela- que está cada vez mais calado e esquisito e almoça e janta sem falar nada, nenhuma palavra, ontem no jantar, de repente, murmurou para si mesmo sobre o prato de sopa, eu ouvi bem:

- "Alguma coisa me diz que esse rapaz é comunista..."

-Achei que vocês deviam saber. - (finalizou ela).

Eu (que nunca fui comunista) imediatamente percebi o sinal vermelho, e que ali morava o perigo...


Elisa e eu começamos a ficar mais atentos, na defensiva e com a sensação crescente de que estávamos sendo observados. Uma tarde chamei-a à janela do quarto que dava para a rua mas meio recuada, e a fiz notar um homem do outro lado da rua frente a uma banca de revistas, que com um jornal aberto fingindo ler, espiava intermitentemente a nossa janela, nitidamente disfarçando. Elisa instintivamente recuou, se afastou, se escondendo. Estávamos ficando paranoicos...

Eu tinha ficado sabendo de um caso na USP de um pai de classe alta que acusou ao DOPS um estudante namorado de sua filha, de ser um militante comunista e o rapaz sumiu da Faculdade e não foi mais visto.

Lembro que passei uma tarde com a Elisa, escolhendo e retirando das estantes os livros comunistas ou de esquerda que eu tinha, como O Capital, de Marx, As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano e alguns outros e arrancando as páginas, picando-as jogávamos os pedacinhos na privada, aos poucos, para não entupir, dando inúmeras descargas, que aos vizinhos poderiam parecer suspeitas.

Entretanto, eu sabia que essas manobras eram inúteis, porque se tivéssemos a casa invadida pelo DOPS, eles provavelmente, não encontrando nada "comprometedor", plantariam provas, me levariam para interrogatório e... como se dizia na época: "até provar que focinho de porco não é tomada"...


Os dias se passavam e nós nos sentindo cada vez mais vigiados, achamos que era hora de fugirmos juntos, antes que acontecesse uma tragédia. As irmãs da Elisa descreviam a saúde física e mental do seu Domingos declinando dia a dia, num desespero crescente. Tempos depois eu saberia que nossas impressões eram verdadeiras: o velho contratara um detetive particular para que descobrisse algum podre da minha vida que pudesse "abrir os olhos" de sua filha. O detetive não descobriu nada de realmente mal, senão que eu já fora casado duas vezes antes e não uma só, como ele achava que eu escondera da Elisa. Confrontada sua filha com essa noticia, esta respondeu que sabia de todas a minhas ex-mulheres, que foi a primeira coisa que eu confessara a ela quando a conhecera, e que ela mesma já tinha conhecido pessoalmente uma delas. Diante do fracasso desse argumento o velho desmoronou, sucumbiu à depressão e foi internado por sua mulher numa clínica de sonoterapia. Quando dias depois acordou, chorou, e a primeira coisa que disse (eu soube pela dona Zilia) foi:

-"Eu sei, ela foi embora... Nunca mais quero vê-la..."

Elisa também não o perdoou, e o velho e sua filha nunca mais se viram nem no velório dele, dez anos depois. Ao que parece os armênios não perdoam nunca...

Mas o que acontecera comigo e a Elisa antes de saber que o seu Domingos fora internado? Estávamos um tanto paranoicos, fizemos as malas e eu incluí um revolver calibre 38 (um "tresoitão", como se dizia na gíria daquela época) que eu tinha com porte de arma desde o tempo da Jomara (já contei em algum lugar essa história); pegamos um táxi e fomos para a região de Piracicaba onde meu irmão Ricardo tinha um sítio num condomínio rural que ele estava abrindo e me oferecera para aquela fuga, uma casinha em construção, inacabada, desconfortável, mas que já tinha o banheiro funcionando.

Eu escolhera e esperara o dia do aniversário da Elisa de vinte e hum anos, em Janeiro, para a nossa fuga, para que não se pudesse alegar "sequestro de menor "...

Ficamos escondidos lá por uma semana e, de noite, quando ao longe, eu na varanda. de vigia, avistava um farol na estrada, eu levava a mão aos coldres", por assim dizer...
Ficava de prontidão, porque, convencido de que os homens ricos são sempre, no fundo, facinorosos, eu estava disposto a receber à bala os eventuais capangas do velho que viessem me matar e resgatar a filha do chefe, sequestrada...

Quão imaturo eu era... Ai, meu Deus!


Após três dias de apreensão, porque não nos sentíamos seguros e vivendo num sério desconforto porque a cama era coberta por um cortinado contra a nuvem de mosquitos, pendurado nas vigas do telhado devido à falta de forro, uma noite, no escuro, nós, dormindo, senti algo vindo de cima descer velozmente pelo cortinado e me correr pelo corpo todo até os pés e além. Acordei sobressaltado e acendi a luz e avistei um rato apavorado, que se viu acuado contra a parede. Elisa, que acordou, gritava de pavor, e eu pegando uma vassoura o persegui pela casa toda até o banheiro onde ele subiu no vaso e ficou de pé. A visão era terrível pois percebi no seu pavor, que de cinza ele ficou avermelhado por um segundo, quando então, insuflado pelos gritos fóbicos da Elisa, o atingi com a vassoura atirando-o contra a parede, quando então o esmaguei. Depois com grande nojo, sempre açulado pelos gritos da Elisa, peguei-o com dois dedos pelo rabo pelado, o joguei na privada e puxei a descarga.

Já era demais. Elisa soluçando dizia que não aguentava mais, queria voltar imediatamente para São Paulo.

Eu concordei, porque três dias já eram suficientes para tornar consumado aquele rapto "siciliano", que uma vez consolidado naquela tensa e patética lua de mel, poderíamos voltar porque o poderoso chefão teria, por honra da família, que perdoar a sua filha... e tudo terminaria "em pizza".

Na verdade não foi assim, porque o chefão era armênio e não siciliano, se sentiu derrotado mas jamais perdoaria à filha "traidora".


Voltamos a São Paulo, à nossa Oscar Feire, e retomamos nossa vida aliviados, pois sabíamos que tinha terminado o perigo porque as irmãs da Elisa nos visitavam e davam notícias, que embora tristes, eram apaziguadoras. O seu Domingos se recolhera a uma aceitação triste e muda (nunca mais seria o mesmo). Tentávamos não pensar mais nele pois Elisa queria sobretudo ser feliz comigo. Eu retomei a pintura e o desenho e a vidinha transcorria tranquila, nos descobrindo mutuamente, e a Elisa parecia cada vez nais apaixonada.
Mas, ai!... a Providência puniria severamente nossa precipitação, nossa inflexibilidade imatura, nossa louca vontade juvenil de felicidade egoística de Romeu e Julieta anacrônicos e de terceiro mundo...

Pois um dia, na forma de um enorme e inocente cão vermelho, começaria o nosso infortúnio, sem que soubéssemos...


Elisa me contou, logo que a conheci, que ela tinha um cachorro de raça, que ela adorava, que ela dera o nome de Ditão e que era um enorme Irisch Setter vermelho que também a adorava. Ela o perdera um dia, meses antes de me conhecer, quando a empregada foi levar o lixo para a rua e esqueceu por segundos o portão aberto, ele escapou e foi para a rua explorando a calçada por uns vinte metros longe da casa quando um carro parou junto ao meio fio, abriu a porta e uma pessoa o chamou. O grande cão, muito manso e curioso, se aproximou abanando o rabo, foi puxado pra dentro e o carro partiu em disparada. Quando Elisa voltou da Faculdade ficou desolada, inconsolável, botou anúncios, ofereceu recompensa.
Pois bem, quando estávamos felizes afinal naquele nosso primeiro ninho da Oscar Freire, uma amiga da Elisa a procurou, veio visitá-la quando eu não me encontrava em casa.
A amiga veio dizendo: "Elisa, acho que eu vi o Ditão. Eu estava na casa de uma amiga e olhando pela janela do quarto dela no segundo andar, por cima do muro o quintal do vizinho, vi um cachorro vermelho idêntico ao Ditão, eu o chamei alto e ele ficou olhando para cima, pra mim, abanando o rabo..."

Elisa imediatamente disse com absoluta convicção:- "É o Ditão! Me dê o endereço. Vou já pra lá buscá-lo."

Na posse do endereço dado pela amiga, que não a acompanhou, ela pegou seu fusca e foi para lá, um bairro distante.
Eu, fora de casa, ainda nada sabia de tudo aquilo...


Chegando no endereço anotado, uma casa grande de classe média, Elisa tocou a campainha, bateu palmas, ouviu latidos, e gritou: -"Ditão, Ditão!" e o cachorrão surgiu lá do fundo e veio correndo eufórico, abanando freneticamente o rabo e metendo o focinho pela grade do portão para lamber seu rosto numa alegria imensa. Uma empregada abriu a porta e veio até o portão perguntar o que ela queria. Elisa deu seu nome e afirmou :
-" Este cachorro é meu, foi roubado há muitos meses, ele se chama Ditão".
A empregada, ingênua, retrucou:

-"Mas seu nome não é esse, é......, meus patrões compraram ele de um homem no interior onde minha patroa tem família. A filha da minha patroa adora ele... . "

Elisa retrucou. -Não! Este é o meu cachorro Ditão. Onde estão os seus patrões?

A empregada respondeu que seus patrões e sua filha estavam no trabalho. Elisa então falou:

- "Eu daqui não saio sem ele. Fico, aqui, esperando até eles chegarem."
E, ajoelhando-se na calçada ficou acariciando o focinho do seu eufórico e fiel cão. A empregada era uma boa pessoa e impressionada com o comportamento dos dois, disse:

- "Então a senhora entre, pode esperar meus patrões na sala. Vou fazer um café para a senhora".

Elisa entrou, sentou no sofá e ficou esperando uma hora com o Ditão com a cabeça no seu colo em adoração, até que chegaram os donos da casa. Elisa contou a história de como o Ditão foi levado praticamente da porta de sua casa e como ela sofrera e o tanto que o procurara. A dona da casa então disse:
- "Nós compramos ele na minha cidade no interior quando fui visitar meus pais há muitos meses atrás, de um homem que me ofereceu ele na rua. Minha filha o adora...(Elisa olhou a moça e ela tinha lágrimas no olhos escorrendo pelo rosto) mas estamos vendo que ele é mesmo seu, pois era um cachorro triste e nunca se comportou assim com ninguém"...

Resumindo: Elisa saiu dali com o seu cachorro amado, levou-para o nosso pequeno apartamento, e quando cheguei da rua eu encontrei aquele "cavalo" vermelho, enorme, na sala, com o qual eu não conseguiria, por seu tamanho e inquietude, depois de um mês, conviver naquele espaço exíguo. Tínhamos que nos mudar para uma casa que tivesse quintal.

Aquela decisão daria início a uma nova fase da nossa vida, que incorreria numa tragédia que roubaria a nossa felicidade conjugal, para sempre...

S

aí procurando uma casa para alugar, no bairro, consultando o jornal e afinal encontrei um sobrado numa vila da rua Augusta perto do Cine Marachá (cinema que há muitas décadas não existe mais) para o lado do centro, alguns quarteirões abaixo do antigo apartamento térreo que eu tive com a Jomara e no qual começara meu caso com a Beth, "a garota dos olhos de mel".
A casa era um sobrado grande nos fundos da vila, mais no alto e tinha quintal. Parecia perfeita e a aluguei.
Começamos nova fase de vida ali, com o Ditão correndo em círculos no quintal, e eu recomecei a pintar lançando uma grande tela a óleo, de 200x200cm que intitulei "O Nascimento de Venus"... (onde andará?)

Logo a Elisa quis ter filhos, coisa que eu não queria, pois só queria pintar. Ela reclamava:
-"Você tem a sua arte, eu não tenho nada, eu quero ter um filho! Me dê um filho!"

E eu cedi, engravidei-a para apaziguá-la, sem nenhuma vocação para ser pai, já que o era de um menina linda, a Fedra, que se fora com a mãe com um segundo marido que a criou como pai (um ótimo pai, justiça seja feita) e que só voltei a ver com onze anos de idade sem ela ainda saber que eu era seu pai biológico.
Nesse segundo período com a Elisa, muitos anos antes da Fedra reaparecer, marquei uma exposição individual na Galeria Portal, que então ficava na continuação da Avenida Paulista, perto da Angélica e cuja dona era a Malvina Gelleni, conhecida marchand na época.
Quando eu estava pintando a grande tela, apareceu lá em casa, trazido por um desenhista que eu conhecia pouco, o Marcio (que depois se tornou monge budista) e que era seu amigo, um poeta dez anos mais velho do que eu, de nome Eduardo Alves da Costa, excelente poeta, culto, que já publicara um livro de poemas pela Massao Ono e que era muito falante, engraçado e contador de casos. Ficou imediatamente amigo nosso, meu e da Elisa, e frequentador diário da nossa casa, contando casos sem fim, hilariantes, enquanto eu pintava e a Elisa gestava.

Vou lhes contar agora a história dramática que vivemos naquele período com esse poeta, meu amigo até hoje, e que já contei como episódio há anos atrás...


Devo dizer aqui que este episódio que deveria se intitular " O POETA", não é o responsável pelo infortúnio que se abateu sobre o casal que eu formava com a Elisa. Por mais dramático que seja em si mesmo, é apenas um parênteses que insiro na minha narrativa por motivo cronológico e de situação no contexto daquela época.
É importante lembrar que estávamos em 1970, no auge da ditadura militar, os chamados "anos de chumbo" para alguns...

Dois meses se passaram e tendo os quadros ficado prontos, na véspera do vernissage o poeta saiu tarde de minha casa combinando de nos vermos no dia seguinte na Exposição. Chegou o grande dia, ele não apareceu em casa e nem de noite durante o vernissage, que foi um sucesso de público e de crítica. Estavam todos lá, artistas conhecidos, amigos, jornalistas e o publico usual, sem faltar as indefectíveis e lindas "marias-vernissages". Estava "todo mundo" lá, com exceção do meu novo amigo poeta. Acompanhado de minha mulher, eu estranhei e comentei com ela, mas entretidos com os convidados, deixamos passar... O que teria acontecido?
No dia seguinte ao vernissage o poeta também não apareceu. Nós, minha mulher e eu, estranhamos, mas não fizemos muita questão, pois estávamos necessitados de sossego e privacidade, após tanta sociabilidade um tanto forçada, contrária ao meu temperamento recluso, de poucos amigos. Entretanto, todos os dias nos lembrávamos dele, o poeta estranhamente ausente desde o dia da inauguração. Eu ia todos dias à Galeria Portal conversar com os visitantes e ficava sabendo que o poeta não aparecera lá em nenhum horário. Passada uma semana eu comecei a telefonar para o pequeno hotel na "boca do lixo", na rua Aurora, no centro da cidade, em que ele nos dissera que morava há meses, cujo nome nos dera e do qual descobri o telefone na lista.
Eu passei a telefonar uma vez por dia e era sempre atendido por uma mesma voz, de um porteiro que me pedia pra esperar para ele ver se o poeta estava no quarto, e logo voltava para comunicar que não, não se encontrava no hotel naquele momento. Aquilo era muito suspeito... Por quê meu amigo nunca estava no hotel se não tinha feito um check out, pago a sua conta, ido embora? Por quê simplesmente nunca se encontrava?

Uma tarde eu estava almoçando com Elisa num restaurante da Augusta e num repente resolvi telefonar dali mesmo para o hotel. Comuniquei o meu desassossego à minha mulher, levantei-me e fui ao balcão pedir para usar o telefone. Liguei e a mesma voz repetiu que o poeta não se encontrava no quarto. Eu ia desligar quando o porteiro continuou, baixando a voz, e em surdina disse:

-"Eu já conheço a voz do senhor que sempre procura pelo seu amigo... Mas eu não podia falar porque o gerente proibia e estava sempre por perto... Olhe, foram "os home" que levaram o seu amigo..."

Eu pus a mão na cabeça,TINHAM SE PASSADO DEZ DIAS! Urgia fazer alguma coisa!


Logo me veio à cabeça a ideia de procurar um poderoso advogado que me recomendaram em 1965, e que naquela ocasião procurei para conseguir um porte de arma pois estava sendo perseguido por um maníaco que me agredira gravemente a mim e minha segunda mulher, num episódio um tanto sórdido que um dia contarei. Esse advogado era o dr. Idel Aronis (agora falecido há muitos anos), que logo simpatizara comigo e tendo ouvido minha estória me apresentou e me recomendou a um delegado (também já falecido) que era irmão do pintor Clovis Graciano e que tendo portanto um irmão artista famoso, tinha simpatia pelos pintores. Este delegado me concedeu porte de arma para mim e minha mulher, compramos revólveres numa loja com permissão e andamos armados por pouco tempo, em segurança em plena época da ditadura! Mas isso é uma história que contarei noutra oportunidade. Pois bem, fui procurar o dr Idel e contei-lhe o que acontecera com o poeta meu amigo. Ele me perguntou se meu amigo revelara simpatias comunistas, se era doutrinário, etc. Eu respondi que o poeta era de esquerda, mas sonhador e ilusionista era extremamente "gauche" na vida, muito mais no sentido drummondiano do que ideológico. O dr. Idel argumentou que se meu amigo fosse "quente" como os militares costumavam chamar os suspeitos de militância socialista armada, ou "terroristas", até a mãe dele poderia não estar sabendo, dado o código de silêncio que imperava entre "eles" (a propósito, o poeta era órfão de pai e mãe e não tinha nem família). Então eu descrevi mais detalhadamente a personalidade do meu amigo e as características psicológicas que me faziam ter certeza ser ele um indivíduo incapaz de ação. O dr Idel, refletiu e disse:

- "O que você diz, Guilherme, faz sentido e por isso vou tentar salvar o seu amigo, mas lhe advirto que já interferi e tirei muitos das garras do DOPS e eles se aborreceram e já quase me deram um basta. Eles devem estar interrogando o seu amigo e se ele for "quente", nada poderei fazer. Entretanto, pelo que você me disse, acho que há uma chance. Se ele não for um militante clandestino, eles estarão torturando seu amigo psicologicamente, não fisicamente. Os intelectuais resistem menos à tortura psíquica que os mais simples... Vou localizar onde seu amigo está preso e em breve me comunicarei com você dando uma posição. Aguarde."

Nos despedimos, eu com o coração opresso, mas com alguma esperança, e fui pra casa fazer o relatório dessa entrevista à minha mulher, que esperava em angustiado suspense.

No dia seguinte já recebia eu um telefonema do Dr Idel, dizendo:
"-Guilherme, já localizei o seu amigo. Você tinha razão. O seu amigo estava no DOPS . Esteve sendo interrogado mas não chegou a entrar no pau. Felizmente você me procurou a tempo, pois amanhã ele começaria a ser torturado para valer, no pau de arara. Mas eu conhecia o delegado do caso, fomos colegas na São Francisco e eu cheguei abraçando-o: "Como vai a família?!" Então contei-lhe o que você me disse sobre o poeta, sem citar seu nome, Guilherme, claro. Você tinha razão, o que aconteceu foi o seguinte: seu amigo foi a uma festa num apartamento e falou a noite toda com um rapaz desconhecido, e falou muito sobre política, teorias, ideais, etc. O rapaz só ouvia. Passado uns dias o rapaz desconhecido foi preso numa Operação Bandeirante, que fechou uma rua e pego dentro de um Volkswagen encontraram folhetos doutrinários, armas e coquetéis Molotov no carro. E encontraram com ele uma agenda em que estava escrito: "Em caso de necessidade procurar o... (o nome e sobrenome do seu amigo) que é um bom camarada", e continha o nome do hotelzinho. Os policiais foram lá prenderam o poeta em seu quarto e aprenderam todos os seus livros, um deles publicado, e seus manuscritos, que estão avaliando. O tal rapaz militante está sendo desde então "interrogado" e sob tortura não comprometeu o seu amigo. O poeta está agora recomendado por mim e não vão mais encostar a mão nele, o delegado me prometeu. Ele vai ser acareado com o militante, e este, confirmando sua inocência, ele será solto. Você e sua mulher fiquem tranquilos, é coisa de só mais alguns dias. "


Passada mais uma semana o poeta de repente apareceu em casa. Estava acabado, muito magro, com profundas olheiras, os olhos muito parados, a fala mais lenta. Nós o abraçamos aliviados, mas impressionados... Entretanto não tardou a narrar os detalhes estarrecedores de sua aventura, de que me lembro bem mas não tenho o direito de aqui revelar.

Elisa e eu ficamos tremendamente impressionados com a narrativa do nosso amigo, e emocionados, claro. Então eu disse a ele:
-"Olhe, você não sabe mas foi salvo e solto pelo advogado dr Idel Aronis, e nós temos que ir lá, juntos, agradecer a ele. Ele vai ficar muito contente com isso e em conhecer você pessoalmente, garanto. Vou telefonar para ele para marcarmos hora. Pode ser?

O poeta ficou surpreso, entendeu naquele momento porquê foi solto. Ficou perplexo e disse: "Sim, claro, vamos lá logo, o mais cedo possível. Eu não sabia... "
E ficou me olhando, constrangido... me pareceu.
Marcada a hora por telefone com o dr Idel, nos encontramos no dia seguinte, os três, na sala dele do seu escritório de advocacia. Foi um momento muito emocionado, em que nós dois fomos abraçados pelo grande advogado, homem alto e forte, que se declarou enormemente gratificado com o desfecho de tudo aquilo, sobretudo com o privilégio, como ele disse, de salvar um poeta.
A propósito, quando procurei o dr Idel, quando me dei conta do perigo que o meu amigo corria, eu lhe disse que não tinha dinheiro para pagar os seus inestimáveis serviços e perguntei se ele aceitaria um quadro meu em pagamento. O dr Idel respondeu:
-"Claro, meu amigo, eu adoro arte e aprecio muito as suas obras, que noto por aí nas galerias, desde que o conheci em 1965 naquele episódio do porte de arma, que por sinal não sei como acabou, pois você só reapareceu agora, com este caso. Eu coleciono quadros e frequento os leilões da Collectio e quase arrematei um dia uma tela sua lá."



Ouvindo isso eu prometi ao dr Idel Aronis, um quadro a óleo meu em agradecimento. Isto se tornaria um outro "caso", que contarei nas minhas Memórias, certamente, algum dia.
Quanto ao poeta, retomamos a nossa amizade, que a propósito, nunca mais foi a mesma, pois percebi daí por diante, um certo retraimento na atitude do poeta em relação a mim, uma espécie de constrangimento, infelizmente, que não me atrevo a interpretar...
O Poeta fez um grande carreira, se tornou famoso (talvez menos do que merece) e teve recentemente suas Obras Completas publicadas em muitos volumes por uma grande Editora. Está hoje com 80 anos, e permanece muito magro e jovem de espírito. Devo finalizar dizendo que este caso também me foi muito gratificante, tanto mais que se trata de um grande poeta, mesmo, enorme, que escreve em prosa e verso como um deus da escrita. Daqueles poucos que aparecem em cada geração, conquanto sua crença idealista num utópico socialismo revele uma certa ingenuidade, o que não chega a ser um pecado num tão grande poeta.


Eu continuei pintando e desenhando, e minhas vendas, principalmente de desenhos, davam para nos sustentarmos naquela casa grande com o cachorrão no quintal. Elisa gestava tranquilamente, e chegou o tempo de montarmos o quarto do bebê que nasceria dentro de poucos dias. Faltava somente o berço, o principal, e acabamos encontrando um que a Elisa afinal gostou, descoberto numa loja de móveis usados. Entretanto ela quis que eu o pintasse de uma cor alegre e escolhermos juntos uma tinta de cor "vermelhão japonês", ou coisa aparecida. Ela fez questão que eu mesmo pintasse o berço e eu o fiz penosamente, porque o cheiro da tinta era muto forte.
Então chegou o dia do parto, corremos para o hospital e Elisa teve um lindo menino a quem demos o nome escolhido de comum acordo numa lista de nomes que fizemos: Andrei .

Elisa não tinha bicos proeminentes nos seios e também parecia não ter leite, não podia amamentar o bebê, e tínhamos que alimentá-lo com leite de vaca. Deixávamos o Andrei no berço e nos revesávamos na hora da amamentação no colo, com mamadeira.
Andrei, que era lindo, começou logo a manifestar uma pequena coriza, e um desconforto respiratório. Chamamos um velho pediatra que era pai de um amigo de infância, e o médico, examinando o Andrei, disse que era apena uma coriza mesmo, nada importante, e receitou umas gotinhas para pingar no narizinho do bebe.
Nós havíamos contratado uma babá recomendada, uma mocinha do interior do sul do país, para ajudar com o bebê e para vigiá-lo a todo momento. Ele chorava muito...

Um dia, muito estressados, aceitamos o convite do Aldemir Martins, que tinha se tornado amigo ao nos conhecermos numa galeria durante uma exposição minha (ele admirava muito os meus desenhos) para jantarmos em sua casa, com ele e sua esposa.
Mas é preciso que eu conte um incidente que aconteceu conosco, no leito, na véspera do dia desse jantar a que infelizmente aceitamos ir.

Durante a noite, na hora de irmos dormir, já no leito eu tive um súbito impulso inexplicável de levantar e ir à estante pegar um livro para ler um capitulo para a Elisa, coisa que eu nunca antes fizera. Ocorreu ser o romance "Os Irmãos Karamazov", de Dostoiévsky e abrindo-o a esmo dei com a página inicial do capitulo intitulado O "Stáriets Zózima ".e comecei a ler para a Elisa, que aceitou escutar, sem ambos entendermos porquê, num estado de consciência nublada em que parecia estarmos...
Vou narrar aqui, por absolutamente premonitório que se nos revelou, esse episódio pungente daquele livro da maturidade do gênio russo, e o farei de memória, o mais fielmente possível, tal qual ainda me lembro.

Eis o que li naquela noite para a Elisa, no nosso leito:

"Havia, no mosteiro famoso que dominava numa colina a aldeia em que moravam os Karamazov, um monge velhinho, um stáriets (homem santo popular) que tinha fama de grande santidade e que era venerado por toda a aldeia, e até por gente que vinha de outras regiões da madre Russia na esperança de receber uma graça, um milagre de cura ou mesmo uma palavra, um conselho de vida num momento difícil. A fé do povo era imensa naquele homem, realmente bondoso e sábio.

Os outros monges lhe dedicam um dia de mosteiro aberto para o povo, quando então cercavam com uma corda o pátio interno do claustro, como uma arena, em que no interior se movia o velho com o povo todo em volta, chamando-o, tentando chamar a sua atenção pessoal, estendendo os braços para tocá-lo para serem milagrados ou abençoados, ou receberem sua palavra personalizada.
Uma menina numa cadeira de rodas, acompanhada de sua mãe de classe alta, aristocrática, ambas gratas pelo milagre de uma recuperação, receberam do velho a atenção:

- "Como vai, Ninotchka, como vai, mãe? Vocês parecem ótimas, o Senhor seja louvado!"

-"Graças às suas orações, meu santo, devemos ao senhor a intervenção divina e viemos trazer ao seu mosteiro uma dádiva em dinheiro em agradecimento, já que o senhor nada aceita senão nossa alegria e nossos sorrisos".

O velho as abençoou e foi adiante, parou diante de outra mãe, esta, pobre camponesa em lágrimas dolorosas, e interpelou-a:

-Que se passa, mulher, por quê tanto choras?

-"Ah! Paizinho..." - ela respondeu soluçando - Elas não ficam, elas não querem ficar! Ainda ontem enterrei o terceiro, mal veem a luz e o Senhor as leva... E agora não tenho coragem de voltar para casa e olhar o meu marido no rosto. Não ouso voltar...

-"Mãe! - disse o Stáriets- Não sei como consolá- la na sua imensa dor... Que posso eu lhe dizer senão que chore... e depois, parando, que chore mais e mais. Mas... espere, talvez eu possa lhe dizer, sim, alguma coisa... Você sabe, mãe, o que acontece com as criancinhas quando Deus as leva?:
- "Não, paizinho, não sei - respondeu a mulher ainda em lágrimas. O que acontece a elas?"

- Ah! Elas não engatinham, não, elas se põe de pé diante do Pai, com os pequenos punhos cerrados protestando e gritam: "O Senhor mal nos deixou ver a luz do mundo e já nos tiraste!"
E choram, e batem os pezinhos reclamando e fazendo grande alarido, de tal maneira que Deus tapa os ouvidos com a mão, abanando a cabeça, atormentado. E não conseguindo calá-las, sabe, mãe, o que Deu então faz?

-"Não, paizinho, não sei... O quê Ele faz?"

E o stáriet respondeu: - "Mãe, Deus, aflito com aquele berreiro, não sabendo o que fazer para consolá-las, então, as transforma em... anjinhos.
"Vai, mãe, volta para tua casa...teu marido, que também sofre, precisa de ti. Faz-lhe uma sopa, abraça-o, chora com ele, e tentem de novo amanhã. Deus há de consolá-los um dia.
-"Obrigado, paizinho, eu vou, sim, eu vou.. - disse a mulher beijando a mão do stáriets e enxugando as lágrimas...

Reproduzindo de cor, agora, o mais fiel possível, foi o que li caindo em lágrimas naquela noite, sem saber por quê, enquanto Elisa me olhava perplexa, sem lágrimas, sem entender, tanto quanto eu mesmo, o propósito daquela leitura...


O dia seguinte transcorreria normalmente se não fosse a permanência do pequeno sintoma da coriza persistente do Andrei, que minimizávamos a partir do diagnóstico tranquilizador do velho pediatra, apenas pingando umas gotinhas que ele receitara, no narizinho do nosso bebê.
Nossa atitude era, se não irresponsável, típica de certo pensamento mágico, comum aos pais, que dizem a si mesmos ou aos seus filhos que "tudo vai ficar bem".

Chegando a noite, nos preparamos, nos vestimos com nossas melhores roupas para irmos ao jantar na casa do Aldemir Martins. Demos a mamadeira ao Andrei, o pusemos para arrotar e o colocamos no berço para dormir. Ele parecia calmo e adormeceu. Demos instruções para a jovem babá, em quem confiávamos, e o telefone por escrito da casa do Aldemir, nosso anfitrião, que afinal não era tão longe dali.

Elisa dirigindo o carro, como sempre, e fomos para casa do Aldemir, e chegando, fomos para sala, sendo apresentados por ele à sua atenciosa mulher. Mal tínhamos sentado no sofá para conversar antes do jantar ser servido, e o telefone tocou. A esposa do Aldemir atendeu, e logo alarmada virou-se para nós e disse: "É a babá do Andrei dizendo que ele não está bem, pra vocês irem imediatamente para lá."
Saímos correndo sem nos despedirmos e pegando o carro iniciamos uma correria agoniada, a toda velocidade por um trânsito caótico, que parecia conspirar contra nós. Chegando em casa ainda no pátio da vila saltei do carro com a Elisa esperando no volante com o motor ligado, subi as escadas como num salto e entrando no quarto tirei Andrei do berço e senti que ele estava molinho, sem respirar. Corri de volta ao carro e disparamos para o Pronto-Socorro mais perto, que eu conhecia por causa das minhas apneias, na Av Angélica perto da Av Paulista. No caminho, em enorme aflição eu sentia seu corpinho, suas costas nas minhas mãos esfriarem gradativamente.
Chegando na pequena rua, não esperei a Elisa estacionar e saltei do carro andando e corri trinta metros pela calçada com o Andrei nos braços e adentrei o Pronto-Socorro, disparado, e passei o Andrei por cima do balcão para uma atendente que passou para um enfermeiro que correu para dentro enquanto eu pulava o balcão e corria junto para acompanhar o procedimento de ressuscitação, de massagem cardíaca e respiração boca a boca.
Logo eram três a se revezarem nas massagens cardíacas e na respiração induzida, desesperadamente, enquanto olhavam intermitentemente para mim, insistindo inutilmente por nítido medo do meu olhar desvairado.
Então, afinal pararam, e um deles disse:

-"Senhor, é inútil, ele... seu bebê... já chegou aqui sem vida. Insistimos porque o senhor..."

Eu, naquele momento senti que a minha vida... nossa vida, tinha se acabado. Não parecia mais possível viver...
Continua

Friday, May 1, 2020

A Mulher mais Bela do Mundo - (Das Memórias de Guilherme de Faria)


Em 1990, em pleno plano Collor, o dinheiro de todo mundo sequestrado, o mercado de arte desapareceu e a minha profissão de artista plástico (se é que é uma profissão) parecia extinta ou nunca ter existido. A antiga miséria voltou, embora eu continuasse residindo no meu apartamento quitado da rua Oscar Freire, ou seja, numa aparente pobreza dourada. Lembro de meu filho ator, o Tamayo, me visitar faminto, e abrindo a geladeira que fez eco, nada encontrando procurou algo de comer numa prateleira dos armários de cozinha e só encontrou um pote de farinha de trigo. Meteu uma colher, enfiou na boca e fez descer com grandes goles de um copo d'água. Em seguida, virou-se para mim com um sorriso irônico, e disse: "É, pai... há uma certa poesia na pobreza..."
Demos uma grande gargalhada juntos.


Naqueles dias, embora com fome, eu continuava pintando pois por sorte tinha alto meu estoque de tintas, telas e pincéis. Estava também numa fase nova na pintura, que me entusiasmava. Ah! Eu suspendera a minha produção de litografias na Glatt. Foi então que me ligou uma recente amiga de cinco anos antes, que morando em Los Angeles com os filhos estava em São Paulo visitando os pais, e queria me fazer também uma visita no ateliê. Era a Julinha Vidigal, bela moça socialite, que no ano de 1985 chegando para igual visita aos pais, vinda dos EUA onde morava casada com um americano, vira litografias minhas em toda parte: saguões de prédios, residências de amigos, consultórios, etc, e encantada com meu desenho de mulheres tivera a ideia de me procurar para comprar um lote variado de litos minhas que ela teve o palpite de que seriam bem recebidas pelos americanos, quer dizer, venderiam bem, com grande margem de lucro para ela. Naquela ocasião ficamos amigos assim que nos vimos, conversamos muito e ela escolheu, pagou e levou um grande lote de gravuras minhas e não a vi mais nem soube notícias dela por cinco anos. Agora, em 91, estava ela novamente diante de mim no ateliê e, surpresa e desolada, olhando em torno os sinais exteriores de pobreza, me dizia:

"Mas Guilherme, o que é isso? Eu vendi o estoque todo de litos suas facilmente. Os americanos são loucos pelas suas gravuras, pelo seu traço. Alguns já o conheciam, pois ao que que parece a Glatt já vinha exportando você para área de Chicago. Em Wilmette, Illinois, descobri uma Galeria que está trabalhando com as suas gravuras desde 1976, não é? Mas em Los Angeles fui eu que abri o seu mercado. Se você fosse para os Estados Unidos você estaria rico, morando numa bela casa com piscina, como eu..."

-É, Julinha... - respondi sorrindo tristemente - Mas isto é Brasil, agora não tenho dinheiro nem para o ônibus. Nem pra convidar você para um cafezinho ali no Pão de Queijo. (Olha eu sugerindo isso a ela, por sua conta... )

-Guilherme - ela disse- Vamos fazer alguma coisa para solucionar isso. Deixe-me pensar. Eu lhe telefono dentro de alguns dias...

Estávamos no mês de Dezembro e dali a dois dias chegou o meu aniversário, o interfone tocou e o porteiro me disse que haviam entregue na portaria para mim uma grande cesta que ele poria no elevador. Era uma fantástica cesta de suprimentos de luxo: caviar, paté de fois-gras, pães finos variados de tipo italiano e alemão, queijos franceses e suíços, geleias dinamarquesas, frios espanhóis, salmão, também uma garrafa de champagne Veuve Cliquot Brut, que não abri, pois não tocava mais em álcool desde 1981, e presenteei a alguém algum tempo depois. Ah! E flores com um cartão:
"Com os cumprimentos do La Baguette por seu aniversário."

Foi uma festa. O La Baguette era uma espécie sofisticadíssima de loja de conveniência que existia na Haddock Lobo pertinho do meu prédio, mas na qual eu nunca entrara pois não era "pro meu bico". Fiquei sabendo que pertencia a um jovem empresário de nome Guilherme Vidigal, irmão da Julinha. Era um presente dela para mim. Agradeci a ela por telefone e ela reiterou que continuava pensando em algo efetivo para o meu caso.

Mais um dia e ela me telefonou dizendo:

"Guilherme, meu irmão, seu xará, é um empresário, como você deve saber, e um grande namorador. Ele conheceu numa viagem aérea para a Alemanha, onde foi aprender receitas especiais de pães, um mulher germano-brasileira que ele está namorando, que mora em Hamburg e está fazendo um intercâmbio de artistas brasileiros (pintores) que ela leva com patrocínios que ela consegue, para expor individualmente em galerias naquela cidade. Eles estarão no réveillon no iate do meu irmão em Parati, e eu também. Vou aproveitar para falar de você, de sua arte, para ela. Ela é a baronesa Anneliese Von Sanson. Aguarde meu telefonema no dia 2. Beijos, meu querido."

No dia 2 de Janeiro de 1991, recebi um novo telefonema da Julinha Vidigal, que me disse:
" Guilherme, durante o réveillon no iate de meu irmão, fiquei amiga da Anneliese e falei maravilhas de sua arte. Ela me disse que já tinha ouvido falar de você e que estava muito interessada e que iria dali primeiro para o Rio de Janeiro, e depois de dez dias estaria em São Paulo e o procuraria. Fique a postos. Acho que vai dar samba."

Passados dez dias, a Julinha me ligou de manhã cedo me dizendo:

-Guilherme, a Anneliese chega hoje ás 11 horas, em Congonhas, vinda do Rio. Combinei de buscá-la no aeroporto. Vou passar aí com o carro do meu irmão com o motorista dele às 10 horas, para irmos depois direto para o seu ateliê. Fique pronto, chamo pelo interfone.

Quando tocou o interfone, desci com minha pobre melhor roupa e entrei num fabuloso Mercedes Benz com chauffer de uniforme e me sentei no banco de trás ao lado da Julinha que depois de rodado um quarteirão, me disse:

- Guilherme, devo alertá-lo de uma coisa, para você não ser pego de surpresa: Anneliese é a mulher mais bela do mundo! Ela é a cara da Rommy Schneider, só que melhorada...

Fiquei perplexo. Quando uma pessoa diz que alguém é parecida com uma tal belíssima artista de cinema, a gente dá um desconto. Mas, aquilo? Melhorada? Eu fiquei louco para conferir essa Helena de Troia, "o rosto que lançou ao mar mil navios... "

-É, Guilherme - continuou ela - Você vai ver. Quando ela entrar na área da esteira das malas, você já vai vê-la através do vidro. O aeroporto vai parar, você vai ver. Todas as pessoas se voltam para olhá-la.

Eu passei o resto da viagem de carro em expectativa, imaginando, quase sonhando... O que era aquilo? Seria verdade?


Chegando ao aeroporto de Congonhas, fomos logo para a vitrine da sala da esteira das malas, e pus-me atento. O voo esperado do Rio, acabara de chegar. E eu queria conferir se o que a Julinha dissera sobre Anneliese era mesmo verdade.

Passados alguns longos minutos, eu a vi. Eu não podia acreditar nos meus olhos. Por uma porta saiu uma moça alta, de cabelos louros flamejantes e olhos azuis celestiais, um rosto perfeito, realmente parecida com a Rommy Schneider só que muito mais bela; elegantíssima, pernas longas e perfeitas, de salto alto com um passo firme e largo, sem oscilações, como se fosse uma guerreira ou tivesse nascido com aqueles saltos. Com um porte de rainha se aproximou da esteira e apontou sua mala para um carregador solícito que a apanhou e a acompanhou, ela na frente. Olhei em volta e, sim, o aeroporto tinha parado (acreditem se quiserem). Os homens se viravam sem disfarce para olhá-la, enquanto as mulheres a olhavam obliquamente, de cabeça meio baixa, de esguelha, aquele peculiar olhar talvez invejoso, meio de baixo para cima. Sim, estávamos diante da mulher mais bonita do mundo...

Ela saiu daquela sala e veio andando à frente do carregador com sua mala, em minha direção enquanto eu permanecia paralisado na frente dela no meio do saguão. À distância de dez metros de mim, ela abriu os braços como se me reconhecesse, ou melhor, como se me conhecesse de longa data, e caminhando ainda, exclamou com voz cristalina, carinhosa e (pasmem) verdadeira:

" Meu artista!"

E me abraçou forte e carinhosamente. Estranhamente eu me senti velho como o mundo, e com uma secreta vontade de chorar. Mas estava encantado. Fascinado, seduzido...


O carregador colocou a bagagem da Anneliese no porta-mala da Mercedes Benz, recebeu uma gorjeta da rainha, e voltamos em direção aos Jardins, para a minha Oscar Freire, para ela conhecer o meu ateliê com minhas recentes telas a óleo, de nova fase. Viemos conversando, ou melhor, ela falando sobre coisas que não lembro, com uma certa sofisticação cosmopolita, sem nenhum sotaque alemão, na verdade com um acento carioca, ligeiramente grã-fino, que me surpreendeu, já que ela era um exemplo perfeito da melhor beleza germânica. Eu permanecia calado, coisa rara em mim, e não por timidez. Estava apenas... digamos, contemplativo.

Chegando no meu prédio, subimos nós três ao meu modesto ateliê apinhado, onde disparei a mostrar minhas obras tirando-as uma a uma de pilhas contra a parede, além das que estavam penduradas, discorrendo um pouco sobre elas, como um guia chato de museu. Ela olhava tudo com olhar de aprovação e afinal me disse:
"Adorei sua pintura: é linda! Vamos fazer grandes coisas. Vou conseguir patrocínio para fazermos uma exposição só sua em Hamburg. Dentro de dois dias volto à Alemanha. Comunico-me com você de lá. Agora vamos, não é, Julinha? Preciso descansar. Estou exausta."

Deu-me dois beijinhos nas faces e mais um carinhoso abraço e despediu-se. E saiu com a Julinha que permanecera muda o tempo todo.
Eu sentei e fiquei parado por muitos minutos, tentando assimilar tudo aquilo, que me parecia ser bom demais para ser verdade...


Passados mais cinco dias recebi um telefonema interurbano, internacional. Era a Anneliese, lá de Hamburg, que sem sequer se identificar e cumprimentar disse com sua voz aveludada e baixa:
- Guilherme, ouça... (fez-se por muitos segundos uma estranha mudez na ligação) - Ouviu?( ela continuou)- Está começando a nevar aqui, agora, pela primeira vez este ano. Quando começa a cair a neve faz este silêncio, diferente de tudo, nem as aves piam... Comecei a trabalhar por você, logo lhe darei notícias. Continue pintando para nós. Beijo.

Eu que nem estava pintando naquele momento, peguei os pincéis, aplicadamente, meditando sobre as surpresas da minha nova musa, e ataquei uma nova tela em branco.

Passaram-se mais alguns dias e recebi um telefonema da Julinha Vidigal, dizendo:

- Guilherme, falei de você para o meu irmão, seu xará, e ele quer conhecer você. Ele é colecionador de arte e tem muitos quadros de pintores brasileiros famosos. Pediu-me para convidá-lo a conhecer o seu apartamento. Você poderia ir visitá-lo depois da manhã para almoçar com ele ao meio-dia? Sim? Então está marcado. Ele mora na rua da Consolação abaixo da Oscar Freire, perto portanto do seu ateliê, naquele prédio Adolfo Lindemberg, ap n°... Eu não estarei lá, não posso. Mas acho que vocês se darão muito bem, ele conhece muito arte e adora artistas. Bom encontro para vocês.

Julinha desligou e eu continuei a pintar, degustando de antemão aquela futura visita, porque o que eu mais gosto é ver novas pinturas de qualidade na casa das pessoas. Eu fico olhando sem parar as paredes, de maneira nada social quando ocorre eu ser convidado pelos ricos. E nunca fui convidado duas vezes pelo mesmo anfitrião. Embora vindo de família culta, nunca tive aquilo que eles chamam de "traquejo social". Sou talvez ligeiramente "gauche", e costumo falar demasiado de mim mesmo, coisa imperdoável em sociedade...


No dia marcado, dirigi-me às 11:30 hs, a pé pela Oscar Freire para o prédio do ap do meu xará Guilherme Vidigal, irmão da Julinha. Apresentei-me na portaria que interfonou e me foi permitido pegar o elevador. Subi, e quando a porta do elevador abriu, já me vi no interior do ap num hall semicircular com alguns quadros pendurados nas paredes, já ali. Parei para olhar um desenho emoldurado suntuosamente, com vidro, que estava assinado Picasso, horrível, péssimo, inepto, nitidamente para mim uma falsificação grosseira. Fiquei chocado, até prosseguir adentrando a sala, já que não veio imediatamente ninguém me receber, e começar a olhar para quadros verdadeiramente maravilhosos de pintores brasileiros do modernismo. Detive-me diante de um Portinari soberbo, da melhor fase, que eu nunca tinha visto reproduzido em livro nenhum. Em seguida um óleo de Ismael Nery, Bonadei, outros de Tarsila, Pancetti, Cicero Dias, tudo da melhor qualidade desses artistas. Ah! E um pequeno Volpi, de um inusitado e raro nu feminino no banho de rio, expressionista, mas delicado, belíssimo, provavelmente de sua primeira fase, muito anterior à geométrica das bandeirinhas que o consagraram. Eu estava encantado.

Nesse momento, um empregado, secretário ou mordomo, saiu de uma porta de corredor e mal entrando na sala me disse:
"Fique à vontade. O senhor quer alguma coisa, uma bebida, um suco, uma água ? O senhor Guilherme saiu do banho e dentro de mais alguns minutos vai recebê-lo."

Recusei, agradeci e continuei me deliciando com a visão da daquela coleção surpreendente.

Afinal, Guilherme Vidigal entrou na sala, penteado, perfumado, ajeitando os punhos da camisa, como que acabando de se arrumar. Notei que era um belo homem, aliás, bastante bonito, charmoso, mas não muito alto, pareceu-me, com cara de família tradicional mesmo. Estendeu-me a mão que apertei, e ele logo disse:

"Então, xará, está gostando dos quadros?"

Adorei - respondi- principalmente o seu Portinari que é magnífico, de primeira linha, e o nuzinho surpreendente do Volpi. Mas permita-me lhe dizer, talvez lhe advertir: aquele desenho lá no hall não é um Picasso, é uma falsificação péssima, horrenda, nem a assinatura se parece com a dele. Picasso era um grande desenhista e aquele desenho é inepto, de alguém que nem artista é. Você devia tirar aquilo imediatamente de sua parede
.
Guilherme Vidigal sorriu com um sorriso ambíguo, não propriamente irônico e voltou a arguir:
"Então aquele desenho é falso, não é do Picasso, você tem certeza?

-Tenho, absoluta - (eu afirmei) - Um artista sabe quando está na frente de outro ou não. Aquilo é ruim demais. Você deve jogar aquilo fora, ou melhor, reclamar com quem lhe vendeu, talvez processar. Me desculpe a franqueza.

Guilherme, então, sem ficar sem jeito, com o mesmo meio sorriso me disse:
- Você está certo, artista. Aquele desenho foi psicografado na minha frente pelo Gasparetto, você sabe, o médium espírita, que disse que o estava recebendo diretamente do Picasso no além. Então é ruim mesmo... (e sorria).

Rimos juntos, e eu fiquei certo de que ele se livraria logo daquele estrupício fraudulento, que talvez nem estivesse pendurado ali antes, sendo apenas um teste que o colecionador astuto quis me fazer para pegar um outro possível fraudador com quem a sua namorada alemã e sua irmã estivessem talvez se metendo.

Fomos em seguida almoçar em sua sala de jantar, a que ostentava a joia do nu no banho, do Volpi.

Delicioso almoço, servido por empregado diligente e silencioso, e com a simpatia daquele rapaz cheio de savoir-faire cosmopolita, no alto de sua riqueza e sucesso, que ele certamente merecia...


Quando chegou Dezembro de 1991, o mês em que antes do Natal, numa certa data que não lembro, três dias antes da viagem, eu já com passaporte e licença, com passagem aérea da Lufthansa na mão (que chegara pelo Correio) recebi um estranho telefonema de uma amiga que eu não via há uns onze anos:

-Alô, Guilherme? Aqui é a Rosa... Como vai, querido amigo? Tudo bem com você? Quanto tempo, hem? Olha, você sabia que você é o pai do meu filho que está com onze anos?

Dei uma gargalhada, que ela também acompanhou e respondi:

- É, Rosa? Me conta essa história... deve ser divertida.

- Pois é, Guilherme - ela continuou- Imagine que eu, falida com esse plano horroroso do Collor que me fez fechar minha Galeria de Arte no interior onde fui viver, aconselhada por uma amiga entrei afinal na Justiça para conseguir que o pai do meu filho, que é milionário, reconheça a paternidade, e ele que nunca reconheceu o menino que eu criei sozinha, sem ajuda nenhuma, só com o meu trabalho. Ele se recusou novamente, como da primeira vez em que até me humilhou. Diante do processo que iniciei para conseguir as pensões alimentícias devidas acumuladas e despesas médicas e de educação, contratou uma advogada safada que escreveu uma carta ao Juiz, sugerindo a suspeita de que você, Guilherme, é o pai do meu filho, pois quando conheci o... eu, marchand, fechando uma venda de uma tiragem fechada de uma litografia sua para brinde aos clientes da firma do pai dele, onde ele era um diretor - a advogada dizia na carta: "a requisitante vinha de uma relação tempestuosa com o artista Guilherme de Faria, certamente o verdadeiro pai da criança." Que tal?

- Eu ri novamente e disse: Rosa, que pena... seria uma honra para mim se fosse verdade, pois eu soube que seu filho é um menino de ouro, bonito e estudioso (isso era verdade).

- Então, Guilherme, o que eu quero lhe pedir é se você podia comparecer daqui a dez dias perante o Juiz, testemunhando que eu só tive com você uma relação estritamente comercial de marchand com artista a quem encomendei e paguei uma tiragem fechada, exclusiva, de uma lito, e fui vender para aquela firma, ocasião em que conheci o jovem diretor com quem me envolvi e resultou ser o pai do meu filho, e que quando o informei e o chamei à responsabilidade, me humilhou e me expulsou.

- Ah! Rosa... - respondi - De bom grado eu iria, mas acontece que estou de partida depois de amanhã para a Alemanha, onde vou fazer uma Exposição longamente acalentada, já com data marcada para daqui a quatros dias. Já estou com a passagem na mão. Sinto muito não poder ajudá-la. Mas você sabe, já existe um tal exame de DNA, vocês têm toda a chance.

- Não tem importância, Guilherme -(ela disse)- não se preocupe. A advogada safada dele pegou no ar essa ideia vendo um exemplar da sua gravura na parede atrás da mesa dele na empresa, enquanto ele contava a ela como me conheceu. Mas eu me viro. Olhe, vou mandar pelo Correio hoje mesmo, por curiosidade, até para você se divertir, uma cópia da carta da advogada dele ao Juiz. Guilherme, lhe desejo uma boa viagem e sucesso na Exposição, que você merece. Tchau, querido.

- Obrigado, amiga. Eu também lhe desejo sorte e sucesso nesse caso. Você tem todo o direito. Você é uma guerreira, uma batalhadora. Abraço no seu filho que quero um dia conhecer. Tchau. Boa sorte para vocês.

Desliguei o telefone e no dia seguinte recebi pelo correio a tal carta da advogada que guardo desde então no meu arquivo. Não vi a Rosa por mais onze anos anos, até que um dia num Exposição importante de um artista internacional no MASP alguém me chamou e eu me virei era a Rosa, ainda bonita mas madura, com um rapaz muito alto, atlético e belo, que ela me apresentou como o seu filho, e que simpaticíssimo e educado, logo me fez grandes elogios dizendo ser fã da minha arte desde pequeno. Fiquei encantado. A Rosa tivera sorte, o rapaz era mesmo, visivelmente, um "menino de ouro". Soube depois de mais um tempo que a Rosa conseguira judicialmente o reconhecimento da paternidade de seu filho, e que gradualmente o rapaz conquistara o afeto de seu pai que agora se orgulha dele, que se formou em Faculdade e tornou um grande profissional, casou e foi morar nos Estados Unidos, se não me engano. Anos atrás entrei no perfil dele no facebook e fiquei admirado. O rapaz deu certo. Essa foi uma história que acabou bem.

Quanto à minha na Europa, estava começando, e eu ia ao encontro de uma cidade desconhecida, gelada, em pleno inverno, de uma galeria desconhecida, e da minha nova amiga de misteriosa beleza, a marchand e baronesa Anneliese Von Sanson-Himmelstjerna (logo contarei a sua incrível história, que ela me revelou).
A essa altura eu não sabia o que realmente esperar...


Chegou o dia do meu voo e fui de taxi para o aeroporto de Guarulhos. Não me lembro mais do horário nem dos detalhes, nem do longo voo em si. Lembro-me apenas de que a Anneliese estava me esperando no Aeroporto de Hamburg ainda no uniforme elegante de aeromoça da Sala VIP (o tailleur preto e blusa de seda branca da Lufthansa, um paletozinho preto para o frio, e aqueles saltos altos em que ela parecia já ter nascido neles, tal a naturalidade de seu caminhar)... e que me acolheu carinhosamente como sempre.

Era de manhã, estava muito frio, e ela no seu carrinho europeu modesto, minúsculo (nem era um Volkswagem) me levou direto para o seu apartamento, numa rua tranquila, de predinhos todos iguais, sem elevador, e depois de dois lances de escada entramos no seu apartamento bem pequeno, klean, anódino, de sala,cozinha, um quarto e banheiro, nada mais, nenhum quadro, por menor que fosse, nas paredes, nada de decoração. Na minúscula cozinha americana, aberta, o fogão era elétrico, para mim uma novidade. Ah! E aquele indefectível aquecedor tubular à água quente, no chão encostado e ligado numa parede . Pelo menos o ap era quentinho, coisa que absolutamente todos são ou seriam mortais.
Não havia um quarto para mim, nem cama. Saímos e fomos buscar ali perto um sofá-cama que ela encomendara pra mim. Eu olhava tudo com curiosidade, naquela cidade certinha, bem comportada, onde tudo e todos pareciam ser da classe média para cima, muito bem vestidos, quietos e calmos. Tudo muito comezinho, tudo pintado de creme, e uma limpeza incrível: não se via uma ponta de cigarro ou papelzinho nas ruas e calçadas perfeitas sem buracos ou remendos, que davam a impressão de que poderíamos deitar nelas e lambê-las, sem problema.
O sofá-cama posto no lugar, a Anneliese me deu algumas instruções sobre o fogão e saiu novamente para trabalhar na sala VIP do aeroporto e só voltou as dezessete horas quando já estava escuro, e perguntou como foi o o meu dia. Esquentou uma comida semi-pronta para nós naquele estranhamente eficiente fogão e depois sentou-se graciosamente com as pernas em meio-lotus, uma dobrada e outra caída, numa poltrona na frente do meu sofá com a cama já embutida, e disse imperativamente:

- Pronto. Comece a me ensinar tudo sobre arte. Quero apreender. Quero me tornar uma "marchand de tableaux", uma dona de Galeria de Arte. Não sei nada. Comece.

Eu fiquei meio surpreso, mas já suspeitava. Na verdade aquilo para mim era sopa no mel. Eu estava no meu elemento. História da Arte é comigo mesmo, e o meu didatismo me causa prazer quando alguém revela interesse nele, coisa rara, já que não sou professor e fugi da escola, sou um autodidata, não sou formado em nada.

E assim comecei um ritual de todos dias após o jantar das cinco horas, em que eu discorria diante dela toda a História cultural das maiores civilizações, todos os períodos artísticos e literários em ordem histórica cronológica, e fazia isso reparando nos seus lindos olhos azuis que se tornavam infantis, encantadoramente ingênuos e receptivos, mas sabendo que ela não poderia assimilar aquela catadupa de informações, ela, linda mulher inculta, ignorante apesar do seu impressionante savoir-faire cosmopolita mundano, de mulher viajada e experiente da vida prática, a quem nunca antes ocorrera visitar com calma e atenção um grande museu além de sua lojinha.


No dia seguinte à minha chegada e instalação fui com a Anneliese à galeria AMSA onde já estavam os meu quadros. Tinham chegado, retirados do porto e desembalados sem eu saber (a incrível eficiência germânica) e colocados junto às paredes sob a supervisão do dono da Galeria,  Herr Axel, que eu nunca tinha visto antes nem em fotografia e a quem fui apresentado ali naquele momento pela Anneliese que seria a nossa intérprete, porque não falo alemão e o meu inglês falado é deficiente, não na pronúncia mas na desenvoltura.

O galerista parecia estar aprovando as obra à medida que as ia observando uma a uma, até que defrontando-se com meu grande tríptico das "Cabeças Metafísicas (vide foto) alterou-se, ficou perturbado, com movimentos de cabeça de desaprovação e gestos de repulsa, até mesmo de indignação, quase gritava: Nein, nein, nein!

Eu, surpreso, perguntei à Anneliese o que estava acontecendo, e ela falando com ele em alemão e ouvindo sua resposta :

"Herr Axel está dizendo que estes quadros não podem ser expostos, que afugentariam seus clientes, e que comprometeriam a Exposição. Que os outros, sim, mas aquele tríptico é ofensivo e de jeito nenhum ele exporia."

Nervoso, perturbado, eu pedi à Anneliese, que traduzisse minhas palavras com fidelidade. Eu disse:

"Eu estou chocado com sua reação, Herr Axel, porque considero este tríptico minha obra mais importante, ou pelo menos a cereja do bolo da Exposição. Eu pensava (diga ele exatamente com estas palavras) que estava na terra do glorioso Expressionismo Alemão: a terra de George Grosz, Otto Dix, Lovis Corinth..."

Anneliese falou para o Herr Axel, em alemão, não com a minha emoção e indignação, claro, mas num tom de voz neutro, enquanto aquele replicou no mesmo tom indignado e agora mais discursivo, que Anneliese traduziu:

" Herr Axel está dizendo que o expressionismo era uma questão estética, que nada tinha das implicações visíveis (!!!) nos meus quadros, e que ( blá, blá,bla! ).... E que, se eu insistisse, nosso trato acabaria ali, não faria a exposição."

Eu tinha vindo de tão longe, com tantos sacrifícios, tinha quarenta telas e dezenas de desenhos emoldurados para expor, obras que me orgulhavam e que me custaram anos de trabalho, os últimos dois anos sob miséria e fome. Abri os braços e com um suspiro deixei-os cair, rendido: aceitava retirar aquelas três telas da Exposição, que foram imediatamente para o depósito da Galeria.

Mas, o público não daria pela falta delas? Estavam já reproduzidas na primeira página do catálogo após o texto bilingue. Não tardei a perceber a partir da abertura da Exposição, que o público alemão de galeria, era igualzinho ao brasileiro, polido, discreto, civilizado e neutro, quase abúlico.
No "vernissage" conversam muito uns com os outros, socialmente, com as taças na mão. O artista raramente consegue saber o que aquele senhores e senhoras bem vestidos estão pensando apenas com os usuais elogios convencionas de alguns, diretos ao artista com um cumprimento de mão, enquanto a crítica especializada no dia seguinte nos jornais, cheia de pedantismo e termos técnicos nem de longe os representa...

Já apaziguados, começamos a pendurar as obras, Anneliese visivelmente aliviada por eu ter me rendido... ela, que por momentos, como eu, quase viu a viola em cacos...


A propósito, o nome do dono da AMSA-Galerie era Axel Michael Sallowsky. Agora passadas quase três décadas vendo o nome completo dele no catálogo, me dei conta, pelo sobrenome, de que o Axel deve ser judeu. Isso explica muita coisa... Foi um grande mal entendido. Ele deve ter interpretado as minhas Cabeças Metafísicas como sendo cabeças decapitadas de judeus dos campos de concentração, quando, juro, eu nem pensei nisso, ou foi inconsciente e por pura empatia trágica. Mas aquelas imagens causaram horror a ele, e certamente causariam também ao público da galeria mesmo que este fosse na maioria "ariano". Devo ter despertado a antipatia daquele homem, que pode ter-me confundido com antissemita, ainda mais chegando lá com uma beldade tipicamente germânica e meus quadros de mulheres apresentarem os olhos sempre azuis. Agora com grande atraso, as coisas estão ficando claras para mim... Que grande "imbroglio!!..

Quanto ao tríptico da Cabeças Metafisicas, essa obra continuou a sua saga, que aproveito para contar agora, como um parênteses interrompendo um pouco a minha história da Mulher Mais Bela do Mundo.
Como achei que nenhum particular teria coragem de comprá-las e botá-las na parede, em 1992 depois de expô-las numa coletiva importante na FAAP eu as ofereci ao Museu de Arte Brasileira daquela instituição em troca das mensalidades dos dois últimos anos da faculdade da minha filha Rhena que cursava Artes Cênicas naquela Faculdade. Uma comissão julgou e aprovou a minha proposta, que faria essa minha obra pertencer ao acervo permanente daquele museu que já possuía dez litografias minhas desde 1974. Então, tendo eu dado para a Jomara, uma ex (que estava casada já havia muitos anos com o meu amigo Flavio Pacheco) um catálogo da exposição da Alemanha onde estão reproduzidas, um cliente dela, o fotógrafo profissional Fernando Carriere, viu meu catálogo e perguntou:

"Estes aqui estão venda? Eu quero eles."

A Jomara me telefonou imediatamente, comunicando que havia um colecionador, cliente dela, que queria adquirir o tríptico e me perguntou o preço para comunicar a ele (acrescentando uma comissão para ela, que intermediaria a venda). Eu respondi que já tinha doado o tríptico para a FAAP, que a diretoria tinha aceito e que as obras já estavam lá guardadas no depósito do acervo deles, desde a exposição coletiva da qual elas participaram.
Jomara então perguntou se não dava para desfazer a proposta e retirar as obras para a gente fazer o negócio. Era uma quantia bem alta, salvadora. Eu telefonei para a diretoria do Museu da FAAP e contei o que estava acontecendo, e o Diretor, então o poeta e crítico Alberto Beuttenmuller, simpaticíssimo e compreensivo, respondeu:
-"Pode sim, nós sabemos como é difícil a vida dos artista. Se você tem um comprador pode vir retirar a sua obra. Depois você nos doa outra, se você quiser..."

Imediatamente fui buscar as três telas com uma caminhonete de frete e deixei na casa da Jomara. Ela vendeu, pegou a comissão dela e me deu o dinheiro, salvando o meu ano. O Fernando Carriere, depois dessa compra veio ao meu ateliê muitas vezes e passou a ser meu colecionador, tendo eu vendido para ele doze telas, quase todas de grande formato. Até que ele deu um tempo, sumiu por muitos meses, e um dia tocaram o interfone da portaria e era ele que queria subir ",pela primeira vez sem ter agendado. Eu disse ao porteiro que podia deixar subir, e já deixei a porta aberta.

Ele entrou no ateliê acompanhado de uma senhora distinta, com jeito de ricaça italiana, que era a sua mãe, Olhei o Fernando e... era uma caveira ambulante!!! Com um boné cobrindo a cabeça totalmente calva, o olhos encovados e brilhantes, as faces cerosas cavadas, os ossos do crânio visíveis, e os dentes salientes como se não tivesse lábios. Ele, que era um rapaz bonito, agora pele e osso mexendo-se de modo sincopado como um caveira, só faltava estar escrita em sua testa o nome daquela doença macabra.
A senhora mantinha-se muda, com os olhos baixos, constrangidíssima, enquanto ele, meio delirante, me fazia uma encomenda de um desenho alegórico absurdo que queria que eu fizesse para ele. Tomei nota dos dados, e ele, avistando uma grande tela que eu estava pintando, disse:

"Esta também é minha. Quanto quer por ela. Ah! Tudo isso? Pago a metade, já sou seu colecionador, já lhe comprei muitos quadros. Quando estiver pronta, me avise que mando buscá-la".

E saiu com sua mãe que permanecia de olhos baixos, destroçada mater dolorosa...

Depois de uma semana liguei para ele dizendo que a grande tela estava pronta e também o desenho alegórico encomendado, que esqueci de fotografar. Ele enviou dois empregados que trouxeram o cheque num envelope e depois de embrulharem a grande tela em plástico bolha, a levaram. Não vi mais o Fernando por um ano. Então, me lembrando da última impressão, e desconfiando daquele sumiço, num impulso tardio resolvi ligar para ele. Quem atendeu foi sua mãe que disse:

Ah! Senhor Guilherme, meu filho morreu faz seis meses. Foi bom que o senhor ligou porque estamos esvaziando sua casa do sítio onde ele morava porque vamos vender a casa. Encontramos muitas obras suas, e o meu outro filho quer ficar com apenas algumas para ele, que já escolheu. As outras estão num depósito de um prédio da família no bairro de Santa Cecília. Nós queremos vendê-las, não temos mais paredes. O senhor não poderia nos indicar quem pudesse se interessar em comprá-las? Vou lhe passar o telefone do meu filho para o senhor se entender com ele.

Liguei falei com o irmão do Fernando, um empresário muito simpático (que elogiou as obras que ele escolheu e estavam nas suas paredes) e propus a ele eu mesmo recomprar à vista cinco das minhas obras de grande formato por R$ 1.000,00 cada uma, num total de R$ 5.000,00 (eu ainda saía no lucro). Ele disse que as obras foram herdadas pela mãe dele e sugeriu que eu fizesse a proposta a ela. Foi o que fiz, voltei a telefonar para a digna senhora que aceitou prontamente a oferta. Depositei o dinheiro na conta dela e fui buscar com um caminhãozinho de frete no tal predinho da família minhas cinco obras que já estavam liberadas através de telefonema dela a uma funcionaria da família, que morava e cuidava do prédio.
Foi assim que o conturbado tríptico voltou para minha coleção e está até hoje comigo.
Desculpem-me o excesso de detalhes, mas não saberia como contar isso de maneira coerente e verossímil. Sei que tenho a tendência a ser prolixo, e por isso me afastei há anos, como um pequeno Frankenstein, de toda sociedade, muito antes desta estranha quarentena...


Depois da abertura da minha exposição na AMSA Galerie, quando o galerista ou a Anneliese não agendavam a visita de algum jornalista ou crítico para me entrevistar com a musa loura como intérprete, eu ficava livre para conhecer a cidade e seus museus, sobretudo o Hamburger Kunsthalle que eu visitava por horas todos os dias porque, como já revelei a vocês nalgum lugar, os museus e catedrais são as únicas coisas que me interessam quando viajo ao exterior. Me lembro de ficar muito tempo diante da maior (em tamanho) obra em tela daquele museu, talvez do mundo: o espantoso "A entrada do kaiser Carlos V em Antuérpia de Hans Makart (1840-1884) que mede 520x952cm, com uma centena de figuras detalhadas em perfeita composição monumental de grande qualidade de fatura pictórica em cada centímetro.

Mas eu voltava sempre às 17:30hs no máximo para estar presente quando a Anneliese voltava do trabalho para jantarmos e eu dar aquela aula de História da Arte, que me divertia. Às vezes saíamos à noite porque ela queria me mostrar um pouco da vida noturna da cidade, que eu não apreciava, pois já não bebia desde 1981 e não gosto de danceterias, nem de mundanismos. Além disso, nas ruas fazia um frio do "caramba'', úmido, desagradável, ventoso, com aquele vapor saindo de todas as bocas.
Quando nos recolhíamos para dormir, ela no seu quarto com a porta fechada e eu no sofá-cama armado, eu estranhava o silencio noturno absoluto daquela cidade ou daquele bairro.
Uma noite eu já adormecido acordei subitamente aterrorizado com o silêncio na escuridão, pois era sepulcral: nenhum galo cantando ou latido de cão ao longe, nenhum ruido de grilo ou pio de coruja. Nada. O silencio absoluto, aquele que deve haver na morte... me acordara!

No dia seguinte eu perguntei à Anneliese se ela não achava aquela cidade muito triste, escura demais mesmo nas poucas horas do dia muito curto, com aquele frio, o teto cinzento muito baixo de um céu de chumbo, e com um trânsito lento, de carros silenciosos e bondes deslizando sobre trilhos tão perfeitos, sem o menor ruído. Ela respondeu com desconcertante naturalidade:

-Ah! Sim... Muita gente se suicida nesta cidade no inverno, principalmente os velhos...

De madrugada, eu no meu sofá-cama, às cinco da manhã ela saía pontualmente do seu quarto, e eu acordado fingia dormir e olhava com o rabo do olho e via na penumbra o seu vulto passar naquele seu incrível passo deslizante com os olhos semicerrados, com um mão num gesto natural elegantíssimo enrolar o cabelo da nuca enquanto andava, e entrar no banheiro, de onde eu ouvia o barulhinho do xixi e às vezes da ducha quente num banho rápido. Ela voltava e entrava no quarto novamente de onde saia logo, perfeitamente arrumada e penteada no seu uniforme de aeromoça. Sempre sem rumor algum ela saía fechando a porta silenciosamente. E eu me admirava de sua disciplina laboriosa e de sua força de vontade espartana, sem queixas... tão germânica, na verdade.
Eu a amava, sim, mas não me declararia pois não sentia clima para isso da parte dela, e eu não queria pôr tudo a perder. Na verdade éramos dois perdidos numa noite... ou melhor, numa cidade fria, ela com seu sonho ambicioso de ser marchand e galerista, sem capital, sem verdadeira cultura, competência ou vocação, e eu, que perto dela me sentia o artista meio velho e pobre, já sem grande futuro em vida, embora não destituído de talento, que na verdade eu era...


Naqueles dias, no seu apartamento, Anneliese começou a me contar aos poucos, um pouco de sua vida. Me falou de seu primeiro casamento com um rapaz muito rico, de tradicional família mineira de fazendeiros, ela muito jovem e bela, mas vinda de família alemã de classe média, do bairro paulistano de Santo Amaro e aluna do Colégio Porto Seguro. O rapaz, seu marido, que ela conhecera jogando tênis, revelou-se logo depois do casamento nababesco, um jogador compulsivo, mas de cartas, viciado no jogo de poker. Me impressionou a descrição que ela fez de sua lua de mel, a bordo de um navio de luxo, em direção à Europa, em que ele assim que pôs os pés no navio, sentou numa mesa de poker e não levantou mais... e ela, linda, quase adolescente, abandonada de biquini a viagem inteira à beira da piscina do navio, tomando sol e lendo Lolita de Nabokov, entediada, cercada de gaviões sequiosos babando por todos os lados.
Gravei na imaginação visual uma descrição cinematográfica que ela fez de si mesma dirigindo uma Ferrari vermelha, conversível, com os cabelos louros ao vento e grandes óculos escuros, linda, chorando de solidão e abandono, ao volante, por estradas tortuosas da Côte D'Azur... E eu sabia que era verdade, porque bastava olhar para ela naquela sua beleza mítica, que parava a pessoas nas ruas, que viravam para trás par olhá-la, ainda agora, com quarenta anos, parecendo vinte.

Depois me contou, que divorciada, arruinada (o marido perdeu toda a sua fortuna no jogo) casou-se com um aristocrata alemão falido de uma nobre família antiga prussiana de cuja estirpe ela herdou aquele sobrenome Von Sanson-Himmelstjerna. Ao que parece o rapaz era gay e se separaram logo, muito amigos a ponto de deixá-la ficar definitivamente com o sobrenome de sua família, dizendo que ela o carregava mais dignamente que ele mesmo e seus parentes. Ela seria, para todos os efeitos a aventurosa baronesa alemã Anneliese Von Sanson-Himmelstjerna, saída ninguém sabia de onde, mas satisfazendo a vista como uma princesa de verdade.

Eu viajava em suas histórias ligeiramente patéticas mas fascinantes em seu mundanismo internacional, cosmopolita, que tinham um fundo oco de Vanity Fair, mas tão diferente do meu mundo de arte real (se posso dizer assim), que por isso mesmo me fascinavam como um filme de Hollywood, da Era Dourada, ligeiramente kitsch...

Eu gostaria de abraçá-la e beijá-la, mas ela era fria e distante (essa é que era a verdade) e duramente focada (não gosto desta palavra) no seu objetivo profissional, a meu secreto ver, inatingível, pelas dolorosas razões que descreverei adiante...


Minha hospedeira também me contou que tinha uma filha do primeiro casamento que estudava arte dramática no famoso Actor's Studio de Nova York, o que continuava corroborando o universo fabuloso de exterioridades de minha amiga. Pois quem estudara naquela célebre e quase mítica escola de atores senão Marlon Brando, James Dean, Karl Marlden, Rod Steigger, Montgomey Clift, etc?Mas as coisas se revelaram mais sombrias, quando ela me confessou que tinha um amante riquíssimo, muito velho, casado, com filhos e netos, armador em Hamburg, que tinha uma imensa fazenda (latifúndio) de gado, no Brasil, onde os empregados brasileiros o chamavam de "Cacique", e que ela esperava dele, que lhe desse uma Galeria de Arte de presente (!!!).
Logo ela receberia o velho cacique, que era parecido com o George Soros atual, com aquele rosto macerado de grandes bolsas em babados sob os olhos. Ele entrou com ela, que me encontrando na salinha me apresentou com naturalidade mundana. Ele me olhou, mediu e me apertou ligeiramente a mão, e entraram no quarto, enquanto eu saía para a rua, ligeiramente enojado.

Mas nunca fui moralista, e estava apenas gradativamente decepcionado e triste a cada dia que passava ali, naquela cidade gelada. Lembro-me que naquele dia, que estava no crepúsculo, já naquela penumbra lúgubre enevoada de inverno, fui andando, soltando aquelas baforadas de vapor, às margens do grande lago da cidade, mal avistando no meio dele, em silhueta, um remador num caiaque, remando, remando, visão de uma solidão absoluta, pontilhada como um chuvisco de estática de televisor mal sintonizado, me pareceu... para onde, meu Deus, para onde?


 Então me lembrei que eu e tinha comigo, na minha carteira  o telefone em Londres da irmã de um conhecido meu, que o rapaz (que não chegava a ser um amigo)  gentilmente me dera, ao saber que eu iria à Alemanha fazer uma exposição. Sua irmã fora casada com um jovem médico que fizera seu doutorado em Oxford, e agora,  separada, com dois filhos continuava morando numa boa casa em Londres e poderia me hospedar se eu quisesse  visitar aquela cidade, já que Hamburg era bem perto, apenas 45 minutos sobre o canal da Mancha. Agradeci e guardei o telefone. 

Assim, eu estaria dando um tempo da dolorosa companhia da minha musa de mão única, a bela baronesa que sem saber tripudiava o meu coração com aquela sua relação espúria com o armador alemão, dublê de cacique latifundiário e aproveitador. Era doloroso demais, e um tanto absurdo...

Como vocês podiam imaginar minha Exposição apesar de elogiada, não vendeu nada, nenhuma tela, somente um exemplar do meu álbum de litografias monocromáticas da série REFLEXOS, que salvou minha breve temporada em Hamburg, porque eu já planejava cair fora daquele barco, que me parecia ligeiramente furado, pois era evidente, pelo menos para mim, que aquele velho cacique estava enrolando minha amiga, e nunca daria a ela a Galeria prometida, que possivelmente o comprometeria perante a sua família. Coisas da alta hipocrisia, digo, burguesia...

Assim, resolvi ir a Londres, que era um pulinho dali, 45 minutos de voo sobre o canal da Mancha. Eu tinha o endereço da irmã de um conhecido meu de São Paulo, que morava em Londres há muito anos. Ele quando soube que eu ia expor na Alemanha, me deu o endereço dela me sugerindo que a procurasse. Munido daquele endereço auspicioso, despedi-me provisoriamente da Anneliese, que me levou ao aeroporto e me instalou na sala VIP, e eu prometendo que a chamaria se fosse bem recebido pela outra brasileira, para ciceroneá-la por alguns dias pelos maravilhosos museus londrinos. Eu queria ver ao vivo, na Tate Gallery, o grande Turner, e também os pré-rafaelitas ingleses, que eu amo. Queria também ver A Virgem dos Rochedos de Da Vinci na National Gallery e a pedra de Roseta, a chave desvendada por François Champollion, dos hieróglifos egípcios.

Munido, além do meu passaporte turístico, do meu belo catálogo bilingue da minha Exposição alemã, e de uma pasta com cem litografias minhas cheguei no aeroporto de Heathrow, carregando uma sacola de roupas e aquela pasta grande, negra, pesadíssima, que me extenuava...

Quando percorria penosamente com aquela pasta os corredores do aeroporto inglês, rumo ao guichê da aduana ouvi gritos altíssimos, lancinantes do mais puro desespero humano. Eu olhava para todos os lados procurando ver de onde eles partiam, tanto mais que somente eu parecia ouvi-los. Os ingleses andavam com olhar bovino, sem movimentarem os olhos ou a cabeça, como se nada ouvissem nem vissem nada de estranho. Até que passaram por mim dois policiais londrinos imensos, gigantescos, que carregavam pelos braços um de cada lado um negro pequeno, retinto, magrinho, mal vestido, adulto, resistindo somente pelos gritos, ombro a ombro, com os pés no ar, pois carregado não alcançava o solo. E seus gritos eram também de dor. Entraram com o negrinho por uma porta lateral e os gritos sumiram imediatamente.

Fiquei paralisado, horrorizado, o coração batendo forte, tentando desvendar aquele enigma. Por que só eu, aparentemente, presenciara, entre todos no aeroporto, aquela cena chocante? Mas logo reduzi aquilo em mim a uma simples má impressão. Eu estava disposto a aproveitar o que pudesse daquele país tão importante na formação da minha cultura, eu que amava desde a infância aqueles soberbos escritores, William Shakespeare, Charles Dykens, John Donne, Rudyard Kipling, Virginia Woolf, HG Wells, George Bernard Shaw, Conan Doyle, George Orwell, Thomas Hardy, as irmãs Bronte, Oscar Wilde, Henry James, Lord Byron, Percy e Mary Shelley, William Blake, e tantos outros...

Cheguei finalmente no guichê da aduana carregando aquela pasta enorme, que certamente pareceria suspeita no minimo de contrabando. E apresentei ao mesmo tempo meu passaporte brasileiro, que agora já ostentava o carimbo de Hamburg, junto com meu belo catálogo de muitas reproduções todas a cores, com o texto de apresentação bilingue inglês-alemão, elogiosíssimo. O funcionário inglês me olhou bem nos olhos e perguntou o que eu vinha fazer em Londres. Enquanto ele abria o meu catálogo e o folheava voltando as páginas para ler a primeiras linhas do texto, eu respondi com segurança e num inglês fluente que a mim mesmo surpreendeu :

-Vim visitar os grandes museus de sua terra: a Tate Gallery, a National Gallery, o Vitória & Albert, a Royal Academy, a Leighton House...

O funcionário fechou o meu catálogo, devolveu meus documentos e fazendo um gesto gentil com as duas mãos para o lado apontando a entrada, me autorizou a entrar no seu país, sem nem mesmo querer olhar o conteúdo daquela minha pesadíssima pasta. Percebi que aquele país respeitava a Cultura e que ali artistas eram bem vindos. Eram inícios auspiciosos, e como o título aquele livro de Charles Dykens, eu estava vivendo um "conto de duas cidades"...

Mas por qual outra razão estava eu a indo a Londres além da minha vontade real de ver as obras de Turner, John William Watherhouse, John Everett Millais, Dante Gabriel Rossetti, William Blake e pelo menos um Da Vinci? Eu explico:

No início do ano 1991 eu recebera um telefonema de um rapaz brasileiro de nome Cassio, que morava em Londres e que numa vinda a São Paulo, um ano antes, já havia adquirido um lote grande de litos minhas para vender para galerias londrinas, Ele pedia um novo lote, dizendo que as minha litos foram muito bem recebidas pelos ingleses que as adoraram. Eu lhe respondi ao telefone que no final daquele ano eu iria fazer uma exposição em Hamburg e daria um pulo até Londres levando uma pasta com cem litografias e faríamos o negócio pessoalmente. Que ele aguardasse. Ele pareceu desolado porque se passariam nove meses até ele poder ter as gravuras para negociar.
Poucos dias depois recebi um outro telefonema de Londres desta vez de um funcionário de uma galeria inglêsa me pedindo gravuras pois o fornecedor brasileiro deles tinha sumido, eles não conseguiam contatá-lo e eles precisavam mais gravuras minhas pois a clientela deles estava entusiasmada com minha litos. Então tinham descoberto meu telefone e queriam encomendar lotes pessoalmente. Eu respondi àquele funcionário a mesma coisa que dissera ao Cássio. Entretanto, por lealdade comercial ao meu conterrâneo, visto que ele é que abrira meu mercado em Londres, resolvi não "atravessar" e continuar com a sua intermediação.

Agora eu estava ali com aquela pasta, e peguei um táxi, daqueles pretos típicos de Londres e dei ao motorista o endereço do rapaz anotado num papel. O motorista partiu e fomos atravessando Londres, demoradamente, passando por bairros e bairros, cada vez mais feios, cada vez mais decadentes, até eu começar a ver pelas janelas gente cada vez mais estranha: punks com cabelo moicano, skinheads tatuados, meninas góticas, darks, cafetões e prostitutas, até chegarmos com grande dificuldade num bairro realmente sinistro, daqueles de filme de terror, sem nenhuma árvore, aparentemente deserto, nenhuma pessoa à vista, todo de blocos de apartamentos de concreto, semi destruídos, todos pichados de cima a baixo, e paramos diante de um blocos, o pior de todos. O dia cinzento e nublado, gelado mas sem neve, o céu de chumbo, agravava o aspecto de desolação ameaçadora.
O motorista gentil com quem eu viera conversando na viagem, e a quem eu explicara que estava levando aquela pasta de minhas gravuras, para o meu "marchand", para ele vender, me disse então:

"Senhor, o seu marchand não deve ser muito bom, visto que mora neste bairro. Olhe, eu vou ficar aqui esperando o senhor com o motor ligado, porque é muito perigoso. O senhor se arrisca a entrar aí?"

Eu hesitei olhando aquele bunker lúgubre, parecendo algo que sobrara de um apocalipse zumbi ou guerra atômica, mas desci e fui até a entrada sem portaria, apenas um vão escuro e olhei olhei lá pra dentro, sem coragem de adentrar aquela escuridão sinistra, verdadeira armadilha. Recuei e voltei apressadamente para o táxi, e partimos, o motorista aliviado me dizendo:

- O senhor fez bem em desistir. O senhor me parece um homem fino... isto aqui não é para você. Onde quer que eu o deixe agora?

Eu disse: Leve-me por favor para um hotel pequeno, modesto, numa zona boa. O senhor me recomendaria algum?

-Sim, claro -respondeu o bom homem- conheço um, muito bom nessas condições, onde sempre levo alguns turistas, pois conheço até o gerente. Deixe comigo.

E voltamos num verdadeiro "rewind" por panoramas urbanos gradativamente mais amenos, até chegarmos a uma rua toda de casinhas iguais, um hotelzinho minúsculo, zero estrelas, em frente ao qual descemos do táxi, ele, um homenzarrão irlandês carregando minha pesada pasta negra como se fosse uma pluma e chegando no balcão trocou umas palavras cordiais com o gerente, seu amigo, me recomendando aos seus cuidados.
Eu estava extremamente grato à aquele homem, a quem muito agradeci, quis dar uma boa gorjeta, que ele não aceitou, pôs a mão no boné à maneira irlandesa, e despedindo-se deu-me um cartão com seu telefone, caso eu precisasse de novas corridas.

Aliviado, fiz o chek in, como se estivesse em porto seguro, após uma aventura de horrores...


No hotelzinho, o único quarto que estava vago e que me deram era no subsolo, abaixo da rua mas com uma janelinha dando para um minúsculo pátio cercado por uma gradezinha, para a ventilação. Entretanto, embora claustrofóbico, era limpinho, fui imediatamente dormir e tive uma ótima noite de sono, exausto que estava.
No dia seguinte acordei bem cedo e resolvi levar a pasta das minhas gravuras à tal Galeria que me telefonara e que já trabalhava há tempos com elas. Eu tinha esperança de fazer uma boa venda e salvar a minha viagem toda.
Tomei banho, me vesti, subi e fui tomar o café da manhã no pequeno refeitório. Em seguida na portaria telefonei para aquele taxista que depois de quinze minutos veio me buscar para eu ir à tal galeria de que eu tinha o endereço anotado, levando o estrupício daquela pesadíssima pasta da qual eu esperava me livrar.
Chegando na galeria, que era também pequena, uma casinha vitoriana adaptada, toquei uma sineta que tinha ao lado da porta e fui entrando curvado para um lado, fora de prumo, com o peso daquela monstruosa pasta, e me anunciando em voz alta, em inglês, claro:

-Guilherme de Faria, do Brasil, chegando com a encomenda de vocês!

Os funcionários me olharam espantadíssimos, e imediatamente, consternado, um deles, talvez o dono, me disse:

Mas... Senhor Guilherme, isso foi no começo do ano! Fui eu que lhe telefonei mas o senhor demorou nove meses para chegar! De lá pra cá a economia do país entrou em depressão e não se vende e não se compra mais nada... Sinto muito.

Eu, que sou fatalista, apenas respondi como se fosse normal, mas com um suspiro:

- Well... Bad luck... - e fui me virando para me retirar.

Imediatamente, o funcionário ou dono (nunca soube), que era muito gentil e educado disse:

-Senhor Guilherme, espere, nós vendemos muitas gravuras suas, os clientes as apreciam, mas temos em estoque nas gavetas muitos exemplares de poucas imagens. O senhor tem novidades aí nessa pasta, novas imagens?

Sim, - eu respondi, com um lampejo de esperança - tenho mais de cinquenta imagens novas, que vocês certamente não têm.

-Então - disse ele- Nós não podemos comprar nada, mas você não poderia trocar essas cinquenta imagens por exemplares repetidos das que temos em estoque, para termos variedade para mostrar para os clientes que apreciam suas obras?

Claro- eu disse- por que não? E voltei para o meio da sala e colocando a enorme pasta no chão a abri e começamos o trabalho de trocar os exemplares repetidos por cinquenta imagens novas, que eles não tinham. Demoramos uma hora nessa função, sem nem um único penny para mim.

Terminada a troca, o gerente ou dono disse com um ar muito contente e até admirado:

-Agora nós temos uma bela coleção. Podemos fazer uma exposição individual sua... Sabe, o príncipe Philip já esteve aqui na galeria e deixou umas aquarelas dele que vendemos logo. Vamos fazer uma bela exposição com suas litos e convidaremos o príncipe para conhecê-las.

Já me virando para sair, eu disse, com um sorriso forçado:

-Façam isso...

E me retirei com aquela pasta que me parecia mais pesada ainda...


Na rua peguei um novo táxi e voltei ao hotel para descansar e pensar no que faria dali por diante. Então resolvi telefonar para a irmã do meu conhecido, aquele telefone que ele me havia dado e que estrategicamente conservei anotado. Uma voz agradável de mulher atendeu e eu me apresentei como amigo de seu irmão, e contei um pouco da minha situação, sem me queixar, claro, dizendo que estava em Londres pela primeira vez, e num hotelzinho, dando uma pausa em minha presença na minha exposição individual em Hamburg. Ela se chamava B.K., e como boa brasileira ficou imediatamente minha amiga ao telefone e disse:
-Saia desse hotel, feche a conta e venha para cá! Você vai ficar aqui na minha casa!

Eu fiquei maravilhado e aliviado, pois se permanecesse no hotel consumiria muito rapidamente as minhas parcas economias. Mas disse a ela que já tinha passado do meio dia,
estava correndo uma  diária e eu estava muito cansado por causa de uma pasta pesadíssima que estava sendo a minha via crucis, e que então descansaria até o dia seguinte, e de manhã fecharia a conta e iria para a sua casa.

No dia seguinte fiz o check out, paguei uma diária, chamei aquele motorista irlandês, quase já um amigo e segui para a casa da BK no endereço que ela me deu pelo telefone no dia anterior. Cheguei num bairro bom, de casinhas iguais vitorianas com quintais ao fundo de grama muito verde, aquele verde brilhante dos prados ingleses, que contrastam com o céu opaco do inverno deles...
Toquei a campainha, BK, uma moça de uns quarenta anos, quase bonita, de aparência simpática, com um casal de filhos lindos adolescentes, abriu a porta e imediatamente me abraçou carinhosamente e fomos direto para a sua cozinha onde conversamos durante uma hora, conferimos praticamente nossas vidas inteiras e ficamos "amigos de infância"...
Eu contei a ela a minha atual aventura da "Mulher mais Bela do Mundo". Ela, impressionada e curiosa, imediatamente disse :

-"Quero conhecer a Anneliese. Telefone para ela e diga que eu a estou convidando para ficar aqui, quero hospedá-la."

Realmente, como os brasileiros, no campo da abertura humana, não há povo igual no mundo...

Ela me instalou muito bem num quarto, e eu estava pronto para visitar com calma os maravilhosos museus ingleses, com essas duas mulheres tão diferentes. Ou sozinho. Logo eu veria...


Agora, em Londres, confortavelmente hospedado na casa da BK, ela saía para trabalhar, e eu ia sozinho pegar o Subway, (Metrô) o mais antigo e extenso da Europa, para visitar os museus, começando pela Tate Gallery. Logo no primeiro dia no meu trajeto, eu vi um belo rapaz louro, de olhos azuis, que no Brasil pareceria de classe média alta, sentado no chão encostado numa parede à saída do Subway, muito triste, de olhar fixo no vazio, sem estender a mão, mas com uma tigela de metal ao lado e com uma cartazete pendurado no pescoço, onde estava escrito:
HOMELESS AND HUNGRY

Fiquei muito impressionado, joguei uma moeda naquela tigela, e quando voltei do Museu, já de noite, comentei aquilo com a BK que me explicou que a cidade estava cheia de pessoas de todas idades, muitas jovens como aquele, desempregadas e na miséria, esmolando pelas ruas, e a quem o governo proibia de pedir oralmente ou estendendo a mão, para não incomodar os passantes mas permitia que o fizessem calados e sem gestos, com aqueles pequenos cartazes pendurados no pescoço. De noite, até famosos parques como o Hyde Park, onde eu visitaria a linda estátua de bronze do Peter Pan, ficavam cheias de barracas de desabrigados, que as desmontavam de dia. A miséria humana dos livros de Charles Dykens, me pareceu estar presente naquela Londres dos anos 90 do século XX, e eu me senti triste mas privilegiado ao mesmo tempo. A minha própria miséria intermitente como artista no Brasil, nunca fora comparável àquilo, e sempre se podia filar uma bóia com um amigo, ou mesmo beber de graça no país tropical, abençoado por Deus...


Eu passava muitas horas por dia visitando os museus, primeiramente a Tate Gallery, na qual ficava horas percorrendo aquela ala especial das obras do Turner, e também as obras dos pre-rafaelitas ingleses, principalmente aquela joia da Ofelia afogada do Millais (que passei algumas horas diárias examinando de pertinho para distinguir as pinceladas acuradíssimas, miniaturescas) e a imensa tela da Lady of Shallot, do John William Watherhouse; e a National Gallery, com com aquela maravilhosa Alegoria do Agnolo Bronzino, e A Virgem dos Rochedos de Leonardo Da Vinci, que a gente podia ver também de pertinho, sem nenhum vidro de proteção, embora sob o olhar realmente vigilante dos vigias, visivelmente prontos para dar um bote. Ah! Vi também uma deslumbrante retrospectiva completa na Royal Academy, das gravuras e desenhos do Hokusai, inclusive com a célebre A Onda, e com seus preciosos pequenos álbuns de esboços dispostos abertos em vitrines horizontais.

Numa das minhas viagens pelo Subway, observei uma moça muito jovem, tagarelando entre seus amigos, que era uma verdadeira figura vitoriana saída das telas do pré-rafaelita Dante Gabriel Rossetti, ruiva de vasta cabeleira luminosa frisadinha, de pele muito alva como alabastro, perfeita, sem nem uma manchinha, os lábios naturalmente vermelhos, e os olhos azuis celestes claríssimos. Uma verdadeira visão de beleza pictórica viva, a meu ver, dentro de um prosaico vagão de metrô, e que eu admirei deslumbrado e incrédulo, disfarçando o olhar para não incorrer em assédio visual, intolerável naquele país.

A Anneliese telefonou afinal, contando que tirara uma licença de uma semana da Lufthansa e que aceitando o convite, que ela ouvira da boca da própria BK quando lhe passei o fone para ela sentir firmeza, viria para ficar hospedada com a nossa amável conterrânea, e me acompanhar na ida aos museus para continuar o seu aprendizado de História da Arte sob minha orientação dos nomes, biografias e escolas pictóricas, dos quais ela nada sabia.

Afinal, eu e a BK fomos uma manhã esperar a Anneliese no aeroporto de Heatrow, eu saboreando de antemão a surpresa que minha hospedeira teria com a visão da Mulher Mais Bela do Mundo, da qual ela deveria estar no fundo duvidando, por desconto de uma possível paixão delirante de seu hóspede pintor, amante exaltado da beleza feminina...


Anneliese afinal chegou. BK e eu a estávamos esperando no aeroporto. À sua aparição no saguão, BK, ao meu lado a mirou e sem virar-se para mim, murmurou baixinho para que eu ouvisse:
"Realmente..."

As duas mulheres se abraçaram, por segundos a mais como se já se conhecessem. Era bem da Anneliese, esse carinho social, que na verdade não passava disso. Peguei a sua mala e fomos para o carrinho da BK, de volta, direto para sua casa. Não vou me deter muito sobre esse dia, do qual não me lembro muito, somente que as mulheres se entenderam bem, e de um momento em que a BH olhando para mim, exclamou baixinho, murmurando comprido : "Guilheeerme !!!..."

Recomeçamos a rotina de Anneliese e eu visitarmos os museus, eu como seu guia depondo sobre os meus quadros preferidos, e eventualmente alguns dela.
Lembro-me um dia que, num táxi, conversando atrás em nossa língua, o motorista se virou, curioso e perguntou: "De onde vocês são?"
"Do Brasil,"- eu respondi- "Estamos falando o português do Brasil..." - eu disse, lembrando de um episódio muito anterior, de 1970, em que estando com a Elizabeth Benz num bistrô em Zurique, bebendo vinho tinto (eu ainda bebia) um casal suíço jovem, lindos como deuses nórdicos, numa mesa ao lado, ambos altos e louros de olhos azuis, o rapaz de barba e cabelo dourado encaracolado, parecendo um viking, com uma cesta primorosa pousada no chão limpo ao lado deles, com um bebê esplendoroso dentro, aconchegado, dormindo plácido, branquinho, perfeito, louro, coradinho como uma maçã, o rapaz que juntamente com sua mulher estava calado começando a beber um café e não parava de nos olhar com curiosidade, ali de sua mesa ao lado, de repente levantou a voz e perguntou para nós, simpaticamente, em alemão:

"Que língua vocês estão falando?!

-Português, do Brasil, - a Beth respondeu em alemão.

O rapaz suíço disse algo, fazendo um gesto bonito circular em torno às suas orelhas.

"O que ele disse?", perguntei eu à Beth. E ela traduziu: "Ele disse que é belíssimo, parece um música!...

Eu, que naqueles dias estava me sentindo tão por baixo, surpreso, sorri para ele com um gesto de cabeça agradecendo a amabilidade do rapaz...

Agora, ali, em Londres uma pergunta similar me fez pensar que ouviria o mesmo comentário como tréplica, pois o português brasileiro, quando bem falado, com as palavras claras, escandidas (não como o português chiado e rápido de Portugal) é mesmo considerado uma das mais belas e sonoras línguas do mundo, que aos europeus soa um pouco como o idioma russo, quem diria!...
Mas não. O taxista inglês, perguntou: "De onde vocês são?"
Anneliese respondeu apenas:

-Do Brasil...

O taxista, talvez perplexo com a lourice da Anneliese, treplicou então:

"Mas vocês são brancos!... no Brasil não são todos negros?"

Eu respondi, por alguma razão, sem paciência de explicar:

- São sim, todos... Eu e ela somos exceções...

O taxista, satisfeito, seguiu sem falar mais nada.

Durante aqueles dias, visitando os museus de Londres junto com a Anneliese, eu sentia claramente a distância que havia entre nós, uma espécie de abismo intransponível, que era tanto de natureza cultural, como social e de temperamento. Durante a primeira visita dela comigo na Ala do Turner na Tate Gallery, ao primeiro contato visual com as obras dele daquela explosão de luz e cores da maturidade, ela exclamou "Mas ele é kitsch!" Fiquei chocado. Tive que explicar porque Turner não era kitsch, mas maravilhoso, o que não foi fácil.
Fui me distanciando...
Eu tinha mais afinidades com BK, mas não atração física. Além disso a BK tinha um namorado que a visitava, um americano gordo, do qual apenas me lembro dele dizendo: "Os ingleses são snobs"...(o que apontava a diferença e birra básicas entre os americanos e seus antigos colonizadores). Eu, que estava ficando um tanto frustrado com tudo aquilo, talvez porque me estivesse pesando uma solidão crescente, um dia eu disse a ele:

" Uma coisa que não entendo em vocês, americanos, é a obsessão e a idolatria que vocês têm por esse tipo de funcionário público que se chama "inspetor de polícia", que nos filmes vive apontando revólveres com os braços esticados, olhando para todos lado por minutos a fio, depois tiroteios de dois milhões de cartuchos de pólvora seca, ou em correrias de carros de infindáveis minutos de trombadas e explosões. Noventa por cento dos filmes de Hollywood e também da televisão americana são sobre isso. Não entendo qual o interesse disso... Por quê se deter tanto sobre um tipo social humanamente medíocre e oco?"
Não... o tom, que eu tentei, de falso ingênuo não enganava, era covardia... eu estava sendo irônico, maldoso, injusto, e pior: inverídico, e ofendendo profundamente aquele pobre americano gordo, que não sendo intelectualizado, mas mais verdadeiro, com um ar ressentido argumentou:

" Mas... é mais do que isso!... Se trata da luta do Bem contra o Mal!..."

Com aquela sua simples frase eu sabia que ele estava com a razão, e me dei de conta de que eu tinha esgotado as minhas energias e possibilidades íntimas por aquela temporada na Europa; estava solitário, frustrado e pronto para largar aquilo tudo, as obras primas dos museus e aquelas duas maravilhosas mulheres inacessíveis... e voltar para o meu ateliê da Oscar Freire, de onde olhava o mundo por um periscópio, antes de esvaziar o lastro, fechar as escotilhas, e afundar...


Finalmente depois de um mês de carinhosa hospedagem, com os dez dias da Anneliese conosco em London também, despedimo-nos comovidamente da BK no aeroporto de Heathrow. E retornamos, Anneliese e eu, a Hamburg para desmontar a minha exposição da AMSA Gallerie. Devo revelar que presenteei a minha querida BK com aquela pasta infernal, com duzentas gravuras, não só por gratidão por sua carinhosa hospedagem mas confesso que também para me ver livre daquele peso inútil. Nunca fiquei sabendo se ela conseguiu vender alguma daquelas litos. Também nunca mais veria a BK, nem me corresponderia com ela por carta ou telefone, não por ingratidão, mas por simples inércia ou talvez fechamento de uma história.

Antes de voltar ao Brasil, Anneliese ainda organizou uma mostra de meus desenhos num belo hotel em Bremen, a cidade dos animais cantores do conto dos irmãos Grimm. No hotel de luxo nada vendeu, mas fiquei hospedado por dois dias por honra da casa, curtindo a lareira, no belo refeitório fazendo deliciosas refeições, e fruindo a vista em torno, pois dava para uma linda floresta gelada, coberta de neve, que eu via pela primeira vez. Também antes de voltar Anneliese organizou outra mostra de meus desenhos, na cidade de Solothurn, na Suíça, na sede da Global Harmony Foundation, uma fundação internacional beneficente, cujo presidente de honra era o vetusto e gordo ator inglês veterano Sir PETER USTINOV, que discursou na Abertura agradecendo a minha "doação". Ustinov era aquele grande ator shakespeariano que fez magnificamente nos anos 50, o papel do imperador Nero na super produção hollywodiana da adaptação cinematográfica do belo romance QUO VADIS, best seller do escritor polonês
Henryk Sienkiewicz.

Afinal chegou o dia de eu retornar ao Brasil. Deixei por conta da Anneliese, com seus patrocínios, enviar de volta todas as minhas obras que sobraram (a maioria), de navio para o meu endereço em São Paulo. No aeroporto de Hamburg antes de entrar na Sala VIP de espera, que ela me proporcionava com a gentileza da Lufthhansa, que foi uma das minhas patrocinadoras, a Mulher mais Bela do Mundo abraçou-me carinhosamente em despedida, quando aproveitei para dizer baixinho ao seu ouvido, mas com naturalidade... que a amava. Ela pareceu surpresa e ficou me olhando enigmaticamente, calada, enquanto eu me afastava...

Eu só a veria novamente em São Paulo, dali a cinco anos num encontro casual num café da Alameda Lorena, eu acompanhado de minha doce e bela mulher, Eliana, que eu conhecera em 1994. Anneliese ainda estava linda, mas com o cabelo todo branco, numa mesa junto com sua filha, aquela que estudava no Actor's Studio em Nova York.
Elas nos convidaram à sua mesa, e a menina, excitadíssima, num entusiamo louco, depois de me perguntar : "Você é o Guilherme? Sou fã das sua obras!" (ela vira o catálogo e eu dera um belo desenho colorido de nu para a Anneliese) a menina derramou-se sem parar em elogios tão exagerados e febris, falando muito rápido, que olhei para a Anneliese, enquanto ela, muda, fixava com os olhos seriamente a sua filha, como se a estivesse vigiando, tentando hipnotizar, ou conter. Também como se estivesse dizendo: "Menos... menos..."

Eu viria a saber tempos depois o drama que minha bela amiga, como mãe, estava enfrentando...


Pouco tempo depois desse estranho reencontro na cafeteria, fiquei sabendo por uma amiga comum que a Anneliese abandonara seus projetos e seus sonhos de ser marchand e galerista quando soube que sua filha lá em Nova York manifestara os primeiros sintomas de um doença grave: um tumor no cérebro, que produzia terríveis sintomas, a começar por convulsões e delírios depois de momentos de enorme excitação entusiástica crescente. Anneliese correra até Nova York para buscar a filha e a trouxe para ser tratada no Brasil, por motivos que desconheço, talvez financeiros. Seus lindos cabelos louros naturais ficaram brancos da noite para o dia, e foi assim que as encontramos, ela e a filha, naquele Café.
Não as vimos mais. Nunca mais encontrei com Anneliese e não mais soube dela e de sua pobre filha, ambas ao que parece com os sonhos destruídos pelo destino imponderável, pela vida, afinal, que de um modo ou de outro frustra mesmo nossos sonhos. É preciso estarmos acima deles, esses mesmos sonhos, para conseguimos viver de maneira filosófica escapando ao timbre trágico da vida. Eis o segredo: não nos levarmos muito a sério e como disse o poeta inglês vitoriano Rudyard Kipling no seu famoso e popular poema IF : "Se encontrando o sucesso e o fracasso, tratares do mesmo modo esses dois impostores..."

Termino assim este episódio do crepúsculo da minha juventude, nada devendo, nada lamentando, acrescido em minha Arte em experiência e gratidão ao Destino pelo passado, e sem grandes ilusões quanto ao futuro. Quê pode um artista querer mais que realizar sua arte, captada, antenada do espaço de Deus, arte essa que está em toda parte à nossa disposição, embora de empréstimo? Eu os saúdo amigos leitores, fiéis, assíduos, e convido a que brindem com um bom vinho a dádiva aventurosa da vida. Mas peço-lhes que bebam por mim, que já não posso... uma conclusão, afinal comum, quase corriqueira:

Sim, "fui com muita sede ao pote" e "bebi muito depressa minha cota". Em compensação me foi dado, não corrigir, mas contar com algum engenho e arte, essa minha meio patética, meio gloriosa, trajetória de artista e poeta "par la grace de Dieu"...

FIM