Wednesday, December 29, 2021

CUL-DE-SAC (crônica de aniversário de Guilherme de Faria)

Vou confessar uma coisa aos meus amigos: nunca dei nenhuma importância aos meus aniversários, tanto mais que na última década me parecem uma contagem regressiva. Não que minha família, tanto materna quanto paterna, não seja longeva (muito pelo contrário). É que a decadência física é um fato sensível e atemorizante... Eu tinha um primo irmão mais velho (já morreu), advogado bem sucedido, que tinha quadros meus nas paredes de seu apartamento, mas que uma vez, já idoso, ao encontrar-me numa rua aqui dos Jardins, como sempre sem perguntar como iam minhas artes, se eu estava pintando, se ia fazer uma exposição, etc, perguntou: "Como vai a tia Helena?(minha mãe). Eu descrevi a precariedade de sua vida aos 95 anos, pele e osso na cama no último ano, e ele só respondeu: "A longevidade dos Caiubys é que me apavora... " Disse isso, virou-se e saiu andando sem se despedir.
Fiquei matutando sobre essa frase e essa atitude insólita, que na verdade me pareceu cabotina, como se ele quisesse morrer logo, coisa que não acredito num burguês hedonista, acostumado aos prazeres da mesa, da família, da "boa sociedade", e apreciador das artes como ele era.
Quanto a mim, tenho medo sincero da morte, essa eterna desconhecida, e queria viver mesmo gritando com um pé em cima do outro, encarapitado numa pequena rocha na maré que lentamente sobe, como o personagem na última cena do filme inglês (mas de titulo francês) "Cul-de-Sac ", que poderia ser traduzido como "beco sem saída" (como a vida), de Roman Polansky dos começos, de um humor negro que viria a ser a sua marca, que é mesma a da nossa tragicômica vida nesta terra...
(Guilherme de Faria)
29/12/2021

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