Monday, August 3, 2020

O ESPIÃO (crônica de Guilherme de Faria)

Está um dia lindo lá fora, e a minha Oscar Freire olhada aqui da minha janela parece mais aprazível que nunca, com os raros e pacatos pedestres que passam devagar como se estivessem passeando, absurdamente mascarados mas visivelmente despreocupados, aparentemente sem medo. Entretanto os bem-te-vi continuam mudos... talvez tenham migrado para a Terra do Nunca-Vi, esperando por mim, como uma nova Pasárgada há tanto acalentada. Eu, que... na verdade tinha já pouco a ver com esta rua de vitrines fúteis, apesar de amá-la como quase sempre se ama: sem saber porquê...


Mas de que posso me queixar, não é verdade? A vida inteira olhei este bairro, esta cidade, este país, este mundo, um pouco de fora ou de esguelha, sempre os comparando com os universos dos livros amados com desvantagem e em perpétua nostalgia do mundo imaginário que, este sim, me parecia mais real, ou pelo menos mais verdadeiro. Eu saio às vezes, devidamente mascarado para ir ao supermercado, e troco algumas simpatias rápidas com os porteiros, que parecem não desconfiar que sou um extra-terrestre, ou pelo menos um estrangeiro no sentido camusiano, um perpétuo outsider me movimentando apenas na camada absurda deste mundo. Ah! Se eles pudessem me ver como eu sou... não me reconheceriam, porque sou-lhes realmente simpático como os espiões parecem sempre ser às pessoas comuns do seu dia a dia, à sua vizinhança. Mas o problema é que sou um espião sem propósitos, sem bandeira, e um contra-espião de mim mesmo. Vou acabar me traindo a qualquer momento, tirando a máscara e gritando na portaria a plenos pulmões, absurdamente:

"Eu sou um poeta! Que querem de mim! Simpatia? Eu a tenho para o mundo, sim, mas sou um terrível espião: só sei espiá-los e entregá-los a si mesmos, se puderem me ler. Mas você jamais me lerão, não é mesmo?"

Mas, por enquanto, sigo passando pela portaria cumprimentando os porteiros e até perguntando por suas famílias. E sorrindo rápido para eventuais vizinhos de décadas, que entram, passam para entrar no elevador, e com quem nunca conversei, mas que que parecem simpatizar comigo, o velho pintor de sorriso fácil, nada rabujento, na verdade desconhecido, inadvertido, bem disfarçado de mim mesmo...
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03/08/2020

(Guilherme de Faria)

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