Sunday, August 9, 2020

PRÓLOGO PARA UMA FUTURA CRÔNICA ESCABROSA (de Guilherme de Faria)

Nossa memória nos permite refazer o percurso de nossas vidas, nossos erros e acertos, nossas aventuras e desventuras, mas não, naturalmente, como uma segunda oportunidade, nem sequer como uma revisão do nosso livro antes de uma edição definitiva, que esta ficará para os pósteros corrigirem na forna de críticas severas, nosso verdadeiro "juízo universal" em versão individual. E o julgamento é quase sempre moral. Por isso em nossas crônicas memoriais escondemos um pouco ou muito dos nossos pecados para que não nos julguem tão severamente. Raros são aqueles que na vida não se arvorem em juízes nalgum momento ou na maior parte do tempo.
Reparem, as pessoas que não tem o juiz dentro de si, são doces criaturas que existem, sim, embora minoritárias na população. Dizem as lendas que o Diabo não consegue tentá-las, e nem costuma tentar fazê-lo, pois os ingênuos e os puros não entendem bem as propostas de moral inversa, ou daquilo que chamamos de Mal. O Diabo fica muito irritado com elas e vai embora. Em resumo: para ser tentado é preciso já se ter o Mal profundo dentro de si, ainda que reprimido. Por isso o Diabo se apresenta quase sempre como um Libertador, não nosso, na verdade, mas desse Mal dentro de nós. Daí as palavras finais da oração do Pai Nosso.
Sei que todo esse arrazoado parece ser um prólogo para um relato ou uma memória escabrosa prestes a ser contada, isto é, libertada...
Não cairei na armadilha de ser meu próprio Diabo. Nem como no pacto de Fausto com Mefistófeles, direi jamais ao minuto que passa: "Pára! És tão belo!" .
Não quero parar o Tempo com as minhas memórias e nem sequer voltar nele. O que quero então? Nada... não me levem a sério, sou apenas um artista, um saltimbanco, um jogral, um trovador. Entro pela porta da frente, apresento-me no salão de vocês... mas como na cozinha com a criadagem. Não me levem muito a sério, repito: sou o que hoje em dia chamam de "enterteiner".
Entretanto percebo que a crônica de hoje ainda não foi escrita, e isto aqui parece ser mesmo um prólogo...
Meu Deus, o que será que tenho ainda a escrever, que mereça ser lido?


09/08/2020

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