Monday, August 24, 2020

SEM CÃES NEM GATOS (das Memórias de Guilherme de Faria)

Quando eu era criança e manifestava pendores artísticos aplaudidos, principalmente para o desenho (o que pode ser um equívoco, pois toda criança é artista, já que interpreta de maneira sintética e poética a realidade), minha mãe, ela própria uma artista frustrada, gostava de me imaginar um artista velho e realizado, famoso, com uma barba branca, um grande chapéu, com material de pintura ao ar livre, num belo campo florido e em companhia de um grande cão fiel companheiro (na verdade uma espécie de Monet). Ela me repetiu esse devaneio verbalmente algumas vezes. Eu só ouvia e visualizava, sem na verdade sentir em mim aquilo como profecia. Agora, na velhice verdadeira, em comum com aquele sonho de minha mãe só tenho a barba branca e o métier de pintor semi-realizado, sem o chapéu, sem o ar livre com o campo de flores, e sem cachorro fiel ou não. Na verdade nunca tive cachorro a não ser num período curto na infância em que meu pai comprou inadvertidamente um cão mestiço de boxer com pastor alemão que se tornou enorme e ferocíssimo como um Cérbero (o cão guardião do reino de Hades, o inferno grego, presente também na Divina Comédia de Dante Alighieri) que atacava a família rosnando ferozmente e mostrando dentes apavorantes, a ponto de um dia nos manter reféns dentro de casa, sem coragem de sair no quintal. Meu pai teve que chamar a "Carrocinha". O funcionário do Canil Municipal perguntou: " Por que o senhor comprou esse cachorro? Essa mestiçagem é conhecida por não dar certo, sai sempre ferocíssima e incontrolável e tem que ser sacrificada". E o "Dick" foi levado para alivio de todos. A família ficou traumatizada e nunca mais quis ter cachorro. Eu também, apesar de me interessar, talvez como escritor, pelo fenômeno visível do amor de grande parte das pessoas por seus cães e deles por elas, muitas vezes de maneira tocante. Mas se não tive sorte com a primeira experiência, também não tive com uma segunda, igualmente sofrida, mas por outras razões e de maneira menos direta, com o cão (um grande Irish Setter vermelho de uma das minhas mulheres), episódio que já contei aqui há anos atrás.
Mas, voltando ao aspecto geral do sonho projetado de minha mãe, ao contrário da figura solitária imaginada (talvez por secreto ciúmes de seu queridinho) me vejo agora "casado" há 25 anos com a Eliana, união que deu certo, além do companheirismo realmente existente por ser fruto de uma afinidade profunda e inusitada, além de uma tolerância e prudência maiores, adquiridas com a idade, sem cachorro nem gatos (falarei destes numa outra crônica). E certamente sem a solidão no seu aspecto deprimente, o qual, de tão extremo, reparem, nem foi incluído por Deus na punição e exílio de Adão e Eva...
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24/08/2020
(Guilherme de Faria)

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