Tuesday, August 11, 2020

MUITOS SÃO OS CHAMADOS (crônica de Guilherme de Faria)

 Hoje me lembrei de quando, nos anos sessenta, eu, jovem artista, conheci o físico e crítico de arte Mario Shemberg. Ele tinha escrito umas palavras elogiosas sobre o meu trabalho, numa espécie de apresentação crítica condescendente (que era o seu costume como crítico) que assinou sobre os jovens artistas atuantes naquele momento em São Paulo. Então, por vias que não me lembro mais, me levaram a visitá-lo numa casinha que ele morava e tinha seu escritório, minúscula, pobre, mas entulhada de milhares de telas à óleo (ninguém ainda pintava a acrílico) de centenas de artistas paupérrimos como eu mesmo, de quem ele, assalariado da USP, adquiria as obras que lhe ofereciam a baixos preços, só para os ajudar, sem se preocupar com a qualidade nem nada. A telas, sem molduras, ficavam encostadas em múltiplas filas desde a parede e empilhadas até o teto. Uma verdadeira alucinação, absurda como uma cena de peça de Ionesco. Não me lembro do que conversamos, só sei que o velho falava peculiarmente de olhos fechados, sobre filosofia ou física, e eu não me lembro senão que, eu impressionado com a torre de telas rente às minhas costas e seus olhos semicerrados, não conseguia prestar atenção no conteúdo de suas palavras. Saí dali meio atarantado, e depois nunca mais o encontrei novamente. Duas décadas mais tarde, eu soube que, de toda aquela pilha alucinante, anódina e anônima, somente meia dúzia de quadros muito bons dos artistas do grupo Santa Helena, finalmente valorizados, ali descobertos e vendidos em leilões garantiram um fim de vida tranquilo ao velho, numa casa própria afinal assim adquirida. Alguma coisa me diz que o velho premeditou isso, que como físico devia ser afeito a estatísticas e sabia que entre mil telas, uma poucas emplacariam um dia no mercado. Mas não seria o caso ainda das minhas, que, que eu saiba, não o recompensaram por sua generosidade ambígua, talvez calculista, de conhecido socialista militante...

(Guilherme de Faria)
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