Estávamos no ano de 1993, e eu estava há alguns anos sozinho, sem namorada, e comecei a sentir os primeiros sinais de depressão, já que nunca pude viver sem uma mulher ao meu lado, como já antes confessei. Para piorar, eu estava entrando na chamada "Idade do Lobo" quando os cinquentões ficam vulneráveis às paixões por mulheres muito jovens, às vezes até "ninfetas" (vide o romance Lolita, de Wladimir Nabokov).
Eu estava tão a perigo que resolvi investir na conquista de uma jovem vizinha catarinense, do andar de cima, com quem eventualmente cruzava no elevador e que parecia flertar comigo com seus belos olhos verdes de gata, malgrado uma pele do rosto deplorável pela acne visivelmente de fundo emocional, confessadamente.
Um dia ela me convidou para ir a um barzinho de mesas na calçada e ali ela pediu vodka pura, enquanto eu, abstêmio desde 1981, pedi o que ela considerou um ridículo refrigerante. Como isso aconteceu mais de uma vez percebi que ela era uma alcoólatra no primeiro estágio. Um dia fui convidado por ela para tomar um café em seu apartamento, quando então instigado pelo charme dúbio que me lançava, tentei transar com ela, encontrando uma forte resistência, igualmente dúbia pois entremeada de suas gargalhadas às minhas tentativas de vencer o verdadeiro cinto de castidade que era o jeans forte, muito justo e inexpugnável que ela talvez premeditadamente vestia. Frustrado em meu desejo desisti, e me retirei de seu apartamento, ouvindo suas desculpas por não não estar "pronta" pois estava saindo dolorosamente de uma relação com um namorado, que durara anos.
Dei por encerrado dentro de mim tal "projeto" amoroso, após essa tentativa frustrada.
Foi então que comecei a notar na Gráfica Glatt-Ymagos onde eu ia diariamente fazer minhas litografias desde 1974, a presença recente de uma moça de 33 anos, desenvolta e independente, muito sensual, de bela cabeleira ondulada escura e corpo bonito muito branco, mignon, que tinha sido contratada como competente preparadora de serigrafias, departamento que a Ymagos tinha acabado de abrir, além do de gravura em metal.
Enquanto eu desenhava nas pedras litográficas da Bavária, ela, na mesma sala preparava, cortando com estilete folhas de acetato para fazer as máscaras ou fotolitos manuais para as serigrafias de pinturas encomendadas por artistas a ela. Nessas horas trocava comentários e brincadeiras com ela, bastante desbocada e divertida, entre os poucos artistas que compartilhavam a sala.
Comecei, por minha vez a jogar charme. Ah! Se eu pudesse prever o que iria acontecer daí por diante...
Eu estava com 51 anos, e me achava velho. Tinha parado de beber e fumar havia já treze anos. Estava com a sobriedade estabilizada e a considerava garantida, mas a poderosa libido da Idade do Lobo me pegou. Eu precisava transar logo ou morreria, assim sentia.
De repente apaixonei-me por aquela garota, da qual nada sabia, somente que era de um meio social diferente e que trabalhava desde menina, e vivia às suas próprias custas, sem contar contar com pai (militar) nem mãe, que esta ela perdera cedo (de câncer), saindo adolescente grávida, de casa, imediatamente à morte da mãe.
Eu estava, como disse, apaixonado, e numa fase sem dinheiro, pois o mercado de litos praticamente acabara depois do plano Collor.
Então dentro de um novo projeto amoroso que se descortinava, confidenciei-me na Gráfica mesmo com a minha amiga Cecília Suzuki que achou graça na minha paixão tardia e súbita recaída em adolescência, e me emprestou dinheiro para eu enfrentar um período sem produtividade ou proventos que previmos que me ocorreria. Assim, em seguida, curiosamente na presença da minha amiga Cecília, declarei-me à garota preparadora, que para minha surpresa, não me rejeitou, ao contrário parecia apaixonada também por mim. Saímos juntos da gráfica, já aos beijos no táxi rumo ao meu pequeno ateliê na Oscar Freire. Quando abri a porta do ap, ela não simplesmente entrou, mas graciosa e afoitamente invadiu e tive a visão e impressão inesquecível que ela explodiu suas roupas atirando-as ao ar, deixando o rastro delas, sapatos, blusa, saia, calcinha e soutien pelo chão da sala (no que a imitei) rumo à minha cama onde se atirou de pernas muito abertas e no ar, e onde com sofreguidão de um comum atraso de mais de um ano, nos possuímos como doidos, sem camisinha. Eu estava em êxtase, principalmente porque ela "gostava do esporte" como ela dizia com franqueza e liberdade encantadoras...
Entretanto, naqueles tempos desta narrativa, o álcool tinha sido excluído já havia muito anos, tendo sobrado, sem que eu percebesse, uma tendência à co-dependência física, amorosa e sexual por mulheres adictas.
Sim, eu deveria pagar caro, se não a minha devassidão (termo antigo), a minha tendência ao excesso, e como já confessei, à luxúria, o meu pecado capital, não de escolha propriamente, mas de conformação, quer dizer, de nascença..
Arrumei um quarto só para ela, e quando ela dormia, eu, comovido com sua presença que me salvara de uma solidão desesperada e pessimista, agradecia a Deus por Sua dádiva de uma mulher jovem e bonita no que eu considerava o começo do ocaso da minha vida. E nas manhãs, quando ela, nua, escovava os dentes diante da pia do banheiro com a porta aberta, antes de entrar no chuveiro, eu olhava por trás o seu lindo corpo branco, a sua cintura fina, a sua bunda maravilhosa, e me comovia... e mais me apaixonava. Eu estava mesmo na "Idade do Lobo", quando ficamos, malgrado toda nossa experiência passada de homens supostamente maduros, mais idiotas, mais românticos e mais vulneráveis que um adolescente na puberdade. E quando eu a elogiava por seu desempenho sexual, ela retrucava sorrindo, com este bordão: "Sabendo usar não vai faltar". Ela tinha senso de humor...
Até essa altura do nosso relacionamento, Vania, se sentia apaixonada mesmo, pois a ouvi falando com uma amiga ao telefone: "Ah! menina, estou apaixonada, não sei o que esta acontecendo! "
Eu até ali gostava de tudo nela, e descobri que ela, embora inculta, gostava de ler e me pediu para que eu escolher um livro da minha biblioteca para ela ler, Peguei um romance histórico maravilhosamente bem descrito que eu acabara de ler sobre o Marquês de Sade e sua época pouco antes da Revolução Francesa, que tinha um capítulo descritivo explícito em detalhes (onde eu estava com a cabeça?) da tortura e execução em praça pública em Paris, de Damiens, o homem que atentou contra a vida do rei da França, espetáculo assistido com convidados, de um camarote luxuoso alugado pelo Marquês de Sade para tal evento. Vania devorou o livro sem comentá-lo e pediu mais.
Num outra ocasião, em casa fomos visitados pela minha mãe que veio conhecê-la, e para minha agradável surpresa elas, de cara, à primeira vista, se adoraram, e sentadas na nossa cama começaram a conversar e rir como duas garotinhas, duas meninas encantadas uma com a outra, com afinidade insuspeitada, que eu fiquei duplamente pasmo observando, pois nunca tinha vista aquela faceta emocional infantil, oculta, de minha velha mãe, considerada madura e sábia por toda família e os filhos. Mas o mais curioso é que assim que minha mãe se despediu e partiu, Vania me olhou séria e arrematou, como se estivesse com um pouco de raiva: "Gostei da sua mãe. Ela devia ser minha mãe, não sua."
Esse clima idílico durou duas ou três semanas. Mas eu logo fiquei subserviente e cheguei a renunciar ao uso de meu ateliê e limpei a minha mesa de desenho para ela trabalhar em casa, quando quisesse ou precisasse, para ela preparar os fotolitos manuais das serigrafias da quais ela tinha muitas encomendas, como grande preparadora serigráfica que era. Na verdade eu estava me tornando gradativamente o seu escravo sexual, seu "homem objeto". Ela era extremamente independente e não admitia que eu lhe pagasse nada, absolutamente nada no supermercado ou qualquer loja e reagia com certa rudeza, quase violência, quando eu tentava fazê-lo. Mas também me lembro quando um dia eu estando com ela na rua Augusta tive que entrar num caixa eletrônico, e ela entrando junto, atrás de mim conseguiu enxergar o meu saldo e disse curto e grosso com visível ar de desprezo: "Você é pobre."
Acreditem se quiserem, mas eu não fiquei abalado nem ofendido com aquilo, porque nunca na vida tive outra afirmação que não fosse da minha qualidade de artista, da qual tive a vida inteira uma segurança talvez descabida, agora vejo, mas sem nunca duvidar de mim.
Mas eu estava, na verdade, vivendo a volúpia da "servidão humana", traço masoquista oculto e desconhecido até então de mim mesmo na minha personalidade.
As coisas começaram a parecer menos bonitas, quando eu percebi que Vania, era adicta do álcool de fim de semana, de cerveja em grandes quantidades a partir do final do expediente da sexta feira, quando ela saía da Gráfica não comigo mas com os impressores, operários especializados mas simples, para começar a cervejada pelo bar do lado. Na sexta-feira, à noite, ela não voltava para casa e sumia até o domingo quando retornava com uma terrível ressaca que fazia com que ficasse o dia todo na cama, deprimida mas ainda erotizada, do que eu vergonhosamente me aproveitava.
Eu, que conhecia bem o alcoolismo e aparentemente o superara em mim, me encontrava agora co-dependente e portanto extremamente condescendente com a forma de beber já de longa data da minha complicada jovem namorada, que tinha aquela característica da dupla personalidade emergente, de um Dr. Jekill e Mr. Hide (O médico e o Monstro). Vania quando começava a beber mudava imediatamente de personalidade e se transformava numa megerinha que me agredia horrivelmente com palavras depreciativas, humilhantes, que pela reincidência foi fazendo gradativamente minha auto estima cair até chegar aos pés. Quando passava a ressaca ela voltava a ficar carinhosa num processo repetitivo semanal de "morde e assopra", tão desconcertante e desgastante que foi me destruindo, na minha dependência do seu amor e de seu sexo, me transformando num "farrapo humano", como naquele famoso romance inglês "Of Human Bondage, (Servidão Humana) de W. Sommerset Maughan...
Entretanto, apesar de todo o sofrimento que passei, devo antecipar aos meus leitores que, estranhamente, ela nunca me despertou raiva, ou mesmo ressentimento, apenas uma grande e secreta vergonha de mim mesmo, não dela. Aquilo tudo estava revelando a mim mesmo minha fraqueza, minha vulnerabilidade.
Mas muita água ainda havia de correr...
De volta a São Paulo, nossas maratonas sexuais adquiriram um complemento que eu, desavisado, achava apenas curioso e até terno. Vania após nossas transas ficava um tempo de cabeça para baixo, nua, ou de quatro com a cabeça pousada no colchão, a bundinha bem empinada e o torso abaixado. Eu, idiota, não sabia o porquê daquilo. Demorou para eu atinar que ela só queria engravidar de mim, que planejava isso e ir embora para criar sozinha a criança.
Mas por alguma razão do destino, pois eu não tomava nenhuma a precaução, talvez por incompatibilidade, talvez mesmo por infertilidade causada por anos de excessos de cigarro e álcool, embora já distantes, o fato é que eu não a engravidava e ela foi ficando mais e mais rancorosa. E tome maltratos, ofensas e humilhações seguidas de arrependimento e pedidos de desculpas, até que um dia ela, na verdade frustrada por mim nas suas verdadeiras expectativas, resolveu ir embora, fez sua mala e dizendo gentilmente que não havia nada de errado comigo, que ela é que era difícil, etc. E foi-se de volta para o seu apartamento fechado, que ela estrategicamente mantivera pagando em dia o aluguel.
Quanto a mim, eu continuava apaixonado e estava um trapo...
EPÍLOGO
Depois que a Vania foi embora eu ainda tentei voltar com ela, vergonhosamente, mas fui rejeitado. Esta história iria mergulhar num longo e doloroso anti-clímax para, certamente, decepção de vocês, meus amigos leitores aqui do face, pois que sofrendo os efeitos dolorosos da co-dependência eu levaria um ano de sofrimento psíquico e emocional, para me recuperar dos efeitos da minha desastrosa relação amorosa e sexual com uma adicta cruzada (álcool e drogas) instável. Passado um ano ou dois a Vania um dia me telefonou soluçando, pedindo ajuda, em nítido desespero. Eu, condoído, como se esperasse isso por ter muito falado com ela a respeito do alcoolismo do qual sou doutor por experiência própria, me prontifiquei a ajudá-la e levá-la a uma sala de AA, mas ela não devia estar pronta e desligou subitamente. Não mais a vi por muitos anos. Soube apenas que ela foi morar numa cidade praiana, como gerente de uma pousada e ali conheceu alguém que se prontificou a dar-lhe um filho, uma outra menina, que um amigo francês, mais velho, que ela fez naquela pousada ou região, não sei, (segundo ela me contou num breve encontro quando voltou a São Paulo), prontificou-se a ser uma espécie de padrinho da menina (não sei se ele não é o pai mesmo). Passaram-se mais de vinte anos e, há um ano, Vania, recuperada graças à intervenção providencial de um sobrinho generoso que há anos atrás a internou numa clínica de reabilitação, salvando-a (como ela disse) reapareceu aqui no facebook pedindo minha amizade para minha grata surpresa. Sua filha, já moça, está morando na França, o que reforça meu palpite de que o tal francês seja mesmo o pai, mas, como disse, nada sei. Agora Vania está seguindo a nossa história, que estou narrando pela primeira vez aqui no face, com a permissão explícita e incondicional que corajosamente ela me deu inbox.
Vania é extremamente inteligente e cheia de senso de humor, e estou feliz por ela, embora saiba que está passando apuros financeiros com a quarentena, como todos nós, mas sua coragem, vitalidade e fé, sua busca obstinada e triunfante da maternidade, são coisas que sempre admirei nela. Não deploro, portanto, nem um pouco a nossa relação, que afinal, não resultou totalmente fracassada mas enriquecedora para ambos, mesmo que sofrida e por linhas tortas.
Deus não põe ninguém gratuitamente no nosso caminho, pois deve ser um jogador excelente que mesmo levando em conta o nosso livre arbítrio, dado por Ele mesmo, faz jogadas com seus peões, bispos, cavalos, torres e até rainha, que somos nós, com antecipações planejadas de até sete lances, como Grande Mestre enxadrista insuperável. Mas do que estou falando? Mal jogo xadrez... Viva Deus!
FIM
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