Thursday, August 20, 2020

VISITANDO SOCIALMENTE UM ANALISTA (das Memórias de Guilherme de Faria)

Nos anos sessenta do século passado, eu despontava como um jovem artista de sucesso principalmente no desenho, a ponto de um conhecido colecionador de arte dizer, a mim, que eu era uma espécie de Chopin do desenho brasileiro, talvez por enxergar um romantismo extemporâneo ou anacrônico (portanto tardio) no meu traço, que apesar ou por causa disso conseguia grande aprovação. Então, estando ligado ao grupo dos poetas novíssimos que estava tomando uma orientação surrealista (também tardia, na verdade), fui levado pelo poeta Roberto Piva a visitar um conhecido psicanalista amigo dele chamado Luciano (não me lembro o sobrenome). Apresentado como um menino prodígio do desenho e da pintura (eu já tinha pintado o meu Apocalypse, quadro imenso considerado surrealista), o psicólogo, muito simpático, junto com sua mulher que devia também ser do ramo, durante a visita me perguntaram:
"Você, Guilherme, quando está pintando, gosta de botar a mão nas tintas, manuseá-las direto com as mãos?"
E sua mulher reiterou, ilustrando com as mãos: "Assim, mexer nelas com os dedos, melecando-os?"

Eu, que era jovem mas não era bobo, e lia muito, percebi logo que o casal de psicanalistas estava querendo comprovar comigo a tese freudiana de que os pintores são pessoas fixadas na fase anal do desenvolvimento psico-sexual, e que por isso gostam de manipular as tintas pastosas como as crianças nesta fase gostam de mexer com as mãozinhas as próprias fezes. Então respondi:
"Mexer nas tintas com as mãos? Hummm... não, não gosto. Eu gosto mesmo é de fazer isso com as minhas fezes..."

Foi um gargalhada geral. E o psicanalista, ainda rindo me estendeu a mão para me cumprimentar. Sem nojo, me pareceu...

19/08/2020
Guilherme de Faria)

No comments:

Post a Comment