Nos idos de 1968 eu, jovem pintor, frequentava pelo menos desde 1964 a casa do marchand Giuseppe Baccaro, meu amigo, que me lançara precocemente no Mercado de Arte paulistano. Já contei aqui há anos atrás como se deu isto, através de um astuto estratagema que improvisei, verdadeiro cavalo de Troia benigno, quando, casado com a Jomara ( meu segundo casamento) consegui passar para as mãos do Baccaro uma pasta com dezenas de meus desenhos que ele não conhecia e que amou, depois de eu me infiltrar no seu staff como restaurador (competente mesmo) de quadros para os seus Leilões, trabalho que fiz por meses sem nada cobrar, e afinal tendo pedido um empréstimo em dinheiro para pagar "um mês de aluguel atrasado" desnecessário, na verdade (eu morava de graça num apartamento que minha mulher ganhou do pai dela) tendo o Baccaro se tocado tardiamente disso porque eu tinha os modos e aparência de um rapaz de "classe alta" que parecia não precisar de dinheiro, eu premeditadamente paguei-o com uma pasta cheia dos meus desenhos, que ele, ao colocar aos poucos nos seus leilões, descobriu que estavam sendo muito apreciados, eram arrematados logo, pois os colecionadores, dada a maturidade e qualidade do meu desenho, pensavam se tratar de um artista no mínimo da geração do Volpi. Eis aí como impor uma verdade, não através de uma fraude, mas de um truque.
Mas, retomando, em 1968, no auge da ditadura, os inimigos do Baccaro, seus rivais invejosos de seu sucesso no Mercado de Arte, armaram para ele o acusando falsamente de promover festas orgíacas com drogas em sua "mansão", na verdade um sobrado grande mas modesto na rua Bela Cintra abaixo da Oscar Freire, onde hoje é o restaurante Le Lapin Rouge. Baccaro amargou quase dois meses de prisão e perdeu seus"amigos "colecionadores" que evaporaram diante de sua desgraça,
Baccaro saiu profundamente desiludido com as mentiras do Mercado de Arte, e decepcionado com seus falsos amigos num momento de desgraça, menos comigo que tive o privilégio de emprestar a ele para que pagasse o advogado uma grande quantia em dinheiro da venda de um ap que eu tinha adquirido em sociedade com a Jomara, minha companheira; e com o colecionador Luiz Arrobas Martins, homem de grande caráter, que, arriscando sua reputação, escreveu uma carta de recomendação a favor do Baccaro que a necessitou para sair da prisão. Baccaro saiu e, grato, veio me pagar de uma vez a quantia toda que lhe emprestei (amor com amor se paga).
O italiano, com essa experiência que poderia ser traumática, sendo muito forte teve uma profunda modificação espiritual, um verdadeira epifania e se voltou para o Cristianismo católico de suas raízes rurais, de pastores dos Abruzzi e se tornou, além de um filantropo, um vegetariano convicto e, na verdade, extremado. Foi para Olinda onde fundou e montou a Fundação Casa das Crianças de Olinda"para fornecer quatro refeições por dia e ensino de profissões artesanais e artes populares (pintura, escultura,santaria, tecelagem, cerâmica, teatro de rua, de arena e de mamulengos, música, e até cordel) às crianças de um mocambo ex "Vila dos Piolhos". Baccaro sustentou durante quarenta anos essa Fundação que criou sozinho, com a venda, até o seu esgotamento, de seu acervo milionário de obras do modernismo brasileiro e pinturas religiosas da "escola cuzquenha" (do Perú colonial) da melhor estirpe, autênticos dos séculos XVI, XVII e XVIII, que ele comprara em quantidade, sem molduras e fora dos chassis, das mãos de "fornecedores" em São Paulo, no auge do fenômeno de "exportação" dessas para o próspero Mercado de Arte brasileiro .Nesse filão dos cuzquenhos, que ele contratou entalhadores de grande destreza para fazer as molduras de estilo barroco tipicas, para aquelas telas) ele foi ajudado nas vendas pela marchand e decoradora pernambucana do Recife, Janete Borsoi, que ganhava comissão para colocá-los na suas decorações de solares dos pernambucanos ricos de Casa Caiada. A propósito Baccaro acabou se casando pela quarta vez (?) com a filha da Janete Borsoi, com quem teve também filhos. Baccaro teve muitos filhos, de diversas mulheres. Conheci em Olinda, quando ali vivi por quatros anos (de 1970 a 1974) a seu convite, ainda pequenos os que ele teve com a italiana Fiorella Giovagnolli, que antes fora casada com o cineasta Hector Babenco nos seus começos, o Thomas e o Mateus (este, pintor, que morreu tragicamente há dez anos atrás). O mundo dá voltas: Thomas, excelente artista fotógrafo e também marchand, agora na casa dos quarenta, é meu amigo aqui no facebook há alguns anos...
CONTINUA
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