Saturday, August 8, 2020

UMA NOVA ERA DA CRÔNICA? (de Guilherme de Faria)

Mário de Andrade, de quem admiro o amor por esta cidade, que na verdade não é mais a mesma do seu tempo, escreveu esta gracinha: "Nesta rua Lopes Chaves/ envelheço/ e envergonhado/ nem sei quem foi Lopes Chaves." Eu diria algo assim desta minha Oscar Freire até há algum tempo atrás não fosse a Internet e o Google que me ensinaram que Oscar Freire foi um engenheiro do começo do século, revelação que não me fez diferença nenhuma. Entretanto é um exemplo de que atualmente temos acesso a tudo se quisermos.
Na verdade, esse acesso à informação sempre esteve ao alcance de quem estivesse interessado, pois as bibliotecas públicas sempre existiram, desde pelo menos a de Alexandria, que por sinal foi queimada por um indivíduo que provavelmente tinha ódio à memória ou ao conhecimento.

Mas não posso esquecer que nasci privilegiado, numa família de classe média empobrecida mas culta, que tinha uma boa biblioteca em casa, de clássicos indispensáveis, a que tive acesso bem cedo. Me lembro até, que quando menino,minha mãe culta e católica, quis fazer um Índex pessoal, tirando das minhas mãos um livro de Nietzsche, se não me engano o Anti-Cristo, e me deu os Evangelhos (com vantagem, reconheço). Mas não adiantou, eu devorava tudo...
Também não desenhei como toda criança, desenhos ingênuos de casinhas, sóis amarelos e montanhas, com bonequinhos, a família toda perfilada na frente. Não... eu tentava ilustrar com desenhos anatômicos pretensiosos, a lápis e muita borracha, os cavaleiros da Távola Redonda do rei Arthur, desenhos de uma precocidade detestável para a minha idade, mas que eram incensados pela família: "Ele vai ser artista! Vai ser pintor como o avô dele!"
Meu avô materno, Adelardo Soares Caiuby, engenheiro arquiteto e pintor amador, aquarelista de fins de semana, "plenairiste" (ao ar livre), era um ícone na família. Dele herdei talvez a vocação, as primeiras tintas já meio usadas e espremidas e um pequeno estojo de madeira, com seu nome entalhado a canivete, que acabei presenteando muito anos mais tarde, já na minha "hora do lobo" da falsa maturidade, uma jovem amante vinte anos mais nova, somente porque não podia lhe negar nada e ela soube dar valor e uso ao pequeno objeto, justiça seja feita. Ah! E a moça em questão, caso que durou cinco meses de paixão adolescente tardia, muita luxúria, e depois para mim um ano inteiro de dores, reapareceu vinte anos depois aqui no facebook, é agora minha amiga sem mais ressentimentos de parte parte, e deve estar lendo esta crônica.
A verdade é que esta quarentena e o facebook nos instigam, a muitos da minha geração, às memórias e as crônicas pessoais e cotidianas, como já percebo que estão proliferando aqui no face. Estou conhecendo melhor alguns amigos da minha juventude, pois, por incrível que pareça, ninguém é levado a mentir quando escreve uma crônica, gênero que não exige de nós senão memória, franqueza e espontaneidade. E um pouco de arte da narrativa, convenhamos...

(Guilherme de Faria)




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