Saturday, August 22, 2020

DOS OLHOS PARA PINTURA (crônica de Guilherme de Faria)

Sei bem que as pessoas têm diferentes personalidades, tendências e gostos, e isso faz a riqueza do mundo social. Entretanto sempre reparei como algo estranho e quase difícil de compreender, um fato que nunca vi mais ninguém notar... Consiste nas pessoas reais ou personagens protagonistas em filmes, mas sobretudo na vida real, entrarem em ambientes luxuosos, em mansões de ricaços, ou em palácios cheios de obras de arte, esculturas e pinturas maravilhosas, clássicas ou modernas e nem sequer olharem para as paredes como se fossem mera decoração no máximo para um rápido lance de olhos casual. Reparem. Quanto a mim, todas vezes que fui convidado para a casa de alguém, colecionador ou simplesmente rico, ficava para surpresa deles, quase o tempo todo admirando os quadros das paredes um por um, e os comentando, raramente desfavoravelmente, quando desaprovava algum por ser ruim ou falso (tenho olho clinico para isso). Vocês dirão que no meu caso é vício de ofício, ou mesmo uma atitude anti-social. Mas o contrário desconfio que é falta de sensibilidade artística dessas pessoas, quase sempre também abúlicas, desprovidas de entusiasmo vital e cultura.

Quando eu morava em casas, casado, frequentemente as visitas familiares ou sociais da minha mulher do momento, muito mais frequentes que as minhas, jamais sequer olhavam para as minhas obras que cobriam as paredes, como se nada houvesse ali, e nem se interessavam em me conhecer, indo direto conversar sobre futilidades com a minha mulher. Confesso que eu me enchia imediatamente de um desprezo intimo e secreto por aquelas pessoas medíocres, que eram tão apreciadas pelas minhas mulheres, e que deviam igualmente me desprezar como um esquisitão anti-social, ou sei lá o quê, jamais saberei. Tais características fizeram de mim um indivíduo intrinsecamente solitário, só capaz de alguma amizade por outros artistas de quem eu admirasse a obra.
Para falar a verdade eu nunca deveria ter constituído família, pois tal coisa era algo estranho ao meu temperamento e aos meus verdadeiros interesses. Resultado: confesso que fracassei redondamente como homem de família, marido e pai.
Continuo a perseguir o mesmo sonho de infância de me tornar um pintor quando crescesse, e estou quase chegando lá. Se tudo der certo, apesar de tantos descaminhos; fraquezas, desvios e atalhos, eu ainda me tornarei um pintor completo para mim mesmo, para o meu próprio gosto e aprovação. E pintarei um dia, finalmente, o quadro que ficarei olhando, olhando, ao deixar esta vida...

(Guilherme de Faria)
22/08/2020

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