Quando eu morava em casas, casado, frequentemente as visitas familiares ou sociais da minha mulher do momento, muito mais frequentes que as minhas, jamais sequer olhavam para as minhas obras que cobriam as paredes, como se nada houvesse ali, e nem se interessavam em me conhecer, indo direto conversar sobre futilidades com a minha mulher. Confesso que eu me enchia imediatamente de um desprezo intimo e secreto por aquelas pessoas medíocres, que eram tão apreciadas pelas minhas mulheres, e que deviam igualmente me desprezar como um esquisitão anti-social, ou sei lá o quê, jamais saberei. Tais características fizeram de mim um indivíduo intrinsecamente solitário, só capaz de alguma amizade por outros artistas de quem eu admirasse a obra.
Para falar a verdade eu nunca deveria ter constituído família, pois tal coisa era algo estranho ao meu temperamento e aos meus verdadeiros interesses. Resultado: confesso que fracassei redondamente como homem de família, marido e pai.
Continuo a perseguir o mesmo sonho de infância de me tornar um pintor quando crescesse, e estou quase chegando lá. Se tudo der certo, apesar de tantos descaminhos; fraquezas, desvios e atalhos, eu ainda me tornarei um pintor completo para mim mesmo, para o meu próprio gosto e aprovação. E pintarei um dia, finalmente, o quadro que ficarei olhando, olhando, ao deixar esta vida...
(Guilherme de Faria)
22/08/2020
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