Sunday, August 9, 2020

UMA CRÔNICA AMENA (de Guilherme de Faria)

Não, não escreverei a tal "crônica escabrosa" como quase anunciei que o faria num prólogo recente. Prefiro me manter fiel à tradição mineiro-carioca de crônicas amenas e construtivas, levemente poéticas, que deixem os leitores mais leves, e reconciliados com sermos brasileiros.
Eu sei que tenho um lado quase perverso, que apareceu já em minhas fases iniciais de gravura e desenho e até na minha pintura, que me faz amar o expressionismo alemão, os contos góticos de Edgar Allan Poe, Hoffmann, Bran Stocker e certo filão mais requintado dos filmes de terror, como os do Tim Burton e do M. Night Shiamalan. Ah! E não posso esquecer que criei um blog inteiro de sonetos "góticos", intitulado "A Dança Macabra, de Alma Welt".


Entretanto são raras as pessoas que apreciam esse meu lado sombrio, e a maioria prefere me ver como o desenhista de belas mulheres, de suave e respeitosa sensualidade.
Não os decepcionarei, porque este meu lado é tão verdadeiro quanto o outro.
Na verdade, uma constante da minha sensibilidade é a admiração que tenho pela beleza física e anímica (ideal, naturalmente) das mulheres, desde a infância, quando venerei intimamente, como uma pequena deusa, uma menina do meu quarteirão, história que já contei nas minhas memórias aqui no face.
Devo entretanto confessar que na juventude uma forte libido me levou a cobiçar muitas mulheres. O curioso é que nunca tive modelos de atelíê , pintando e desenhando sempre "de imaginação", mesmo porque vivendo sempre maritalmente com alguma, elas, conhecendo essa minha libido, não me permitiriam te-las. Até cobicei, confesso, num certo momento, a "mulher do próximo", cometendo adultério. Sou um miserável pecador, mal arrependido, na verdade, porque me lembro disso com carinho e saudades, porque no seio dela adormeci, após, com o seu terno e paciente acalento, o sono longo e profundo de um bebê...
Misteriosa é a vida... e fascinante. Tudo já escrevemos sobre ela e continuaremos escrevendo para compartilhá-la com os que no entanto, têm as suas próprias vidas para viver e talvez contar.
Somos todos, potencialmente, contadores de histórias, contando-as alternadamente, uns para os outros, em torno à nossa fogueira noturna primordial, para adormecemos como a eterna criança que persiste em nós...
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09/08/2020

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