Nestes dias tristes eu me ponho a rememorar a minha vida e em grande parte ela me vem em preto e branco. Sãos os inumeráveis momentos em que não estava pintando mas "perdendo tempo em ninharia" como disse Benvenuto Celliini no soneto de epígrafe de sua autobiografia, Na verdade eram os momentos dolorosos e humilhantes de pura caça de subsistência que marcaram toda a minha conturbada juventude, momentos esses tornados obrigatórios com as responsabilidades de família e filhos, que frutos da solidão, se sobrepuseram nos meus ombros despreparados. Sim, eu me movia num desespero surdo, no intento de conciliar a minha necessidade de pintar, de me impor como artista, e a necessidade de ganhar a vida, isto é, de fazer dinheiro.
Entretanto, é preciso reconhecer que cada um constrói a sua biografia com os elementos que lhe são dados por destino, e não adianta lamentar as desvantagens de saída nem se orgulhar dos eventuais privilégios. Foram tantos os artistas que tiveram que lutar com a pobreza, com a miséria mesmo, e que no entanto deixaram uma obra imensa e admirável! Não preciso nem citá-los.
Salvador Dali, do qual admiro mais o humor e a obra escrita, escreveu nalgum lugar uma notável lista dos "Mandamentos do Pintor", em que o primeiro mandamento é simplesmente:
"Pintor, pinta!"
Muito nos dispersamos, e frequentemente caímos na esparrela de acreditar nos cânones da sociedade burguesa, que, por sua vez, só acredita na Arte consagrada, que é sempre a dos falecidos e cumpridos, nunca a de seus loucos filhos, jovens sonhadores. Uma das várias sogras que tive na vida, se referindo a um jovem namorado de uma outra de suas filhas disse com desprezo: "Ela perde tempo com um rapaz que canta umas músicas esquisitas que ninguém fez... "(o rapaz em questão, compunha as músicas que cantava ao violão). Na ocasião ri muito com a frase naïve da digna senhora, independente do fato de que as composições do rapaz eram muito ruins mesmo...
Quando, a certa altura, depois de um período longo de miséria e de secretas humilhações (que jamais revelarei) comecei a vender regularmente os meus "trabalhos", senti que comecei a ser levado a sério.
Entretanto, o que sempre me moveu não foi o dinheiro como forma de sobrevivência, mas uma ambição muito maior, a de simplesmente ser pintor, que sempre me pareceu a maior ambição do mundo, quase irrealizável, como arrasar uma montanha, dado que o mundo da pintura teve tantos titãs, ou verdadeiros deuses inalcançáveis, como Leonardo, Rafael, Ticiano, Caravaggio , Rembrandt, Vermeer, Turner, Manet , Monet, Van Gogh, Gauguin, Hopper, Wieth e na verdade uma plêiade inumerável de deuses de um Olimpo inatingível.
Não os atingi, portanto, nem cheguei perto, mas posso dizer que afinal cheguei a ser um pintor e poeta, pequeno, orgulhoso e humilde ao mesmo tempo... mas um artista, que posso exigir de mim mesmo:
PINTOR, PINTA! ... e, POETA, ESCREVE!
Guilherme de Faria
22/08/2020
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