Friday, August 7, 2020

HUMANO, DEMASIADO HUMANO (crônica de Guilherme de Faria)

Acordo, e como todas as manhãs do meu mundo, vou à janela para olhar a minha Oscar Freire e ver se ela ainda está doente. E constataria um movimento quase normal, num bela manhã de sol, se não fossem as máscaras em todos os rostos, como uma alucinação coletiva, levemente ridícula, na verdade...
Na minha imaginação, que talvez permaneça infantil, não posso conceber uma peste que se manifeste sob um céu azul ensolarado deste e não sob um teto baixo de chumbo, sombrio, nórdico, medieval, miasmático e sinistro como numa história de Conde Drácula.
Mas com um pequeno ajuste de percepção caio na real, e na tristeza intrínseca desta época que ninguém, que eu saiba, previu, e que veio interromper nossos planos, sonhos e delírios, que imagino muito difíceis de serem retomados quando este intermezzo acabar.
O mundo será o mesmo de antes? Sinceramente não seria nada bom, como uma recaída num vício longamente acalentado, e que reencontra o toco da vela bem mais curto, porque continuou queimando escondido, nas sombras...

Às vezes penso que eu não poderia voltar (estou meio paralisado) a pintar e desenhar as mesmas coisas um tanto ingênuas (não como estilo mas como conteúdo temático), flores, panoramas e mulheres lindas, que agora reconheço como uma característica minha, de integrado, longe dos tempos apocalípticos da minha juventude.
Mas, perscrutando a minha alma um pouco envelhecida, é verdade, constato que a minha essência não mudou, não me transformarei jamais num cínico desencantado, e continuarei como uma espécie de pre-rafaelita tropical cultuando a beleza, mesmo que perdida, deste nosso mundo humano, demasiado humano...

(Guilherme de Faria)

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