Na minha imaginação, que talvez permaneça infantil, não posso conceber uma peste que se manifeste sob um céu azul ensolarado deste e não sob um teto baixo de chumbo, sombrio, nórdico, medieval, miasmático e sinistro como numa história de Conde Drácula.
Mas com um pequeno ajuste de percepção caio na real, e na tristeza intrínseca desta época que ninguém, que eu saiba, previu, e que veio interromper nossos planos, sonhos e delírios, que imagino muito difíceis de serem retomados quando este intermezzo acabar.
O mundo será o mesmo de antes? Sinceramente não seria nada bom, como uma recaída num vício longamente acalentado, e que reencontra o toco da vela bem mais curto, porque continuou queimando escondido, nas sombras...
Às vezes penso que eu não poderia voltar (estou meio paralisado) a pintar e desenhar as mesmas coisas um tanto ingênuas (não como estilo mas como conteúdo temático), flores, panoramas e mulheres lindas, que agora reconheço como uma característica minha, de integrado, longe dos tempos apocalípticos da minha juventude.
Mas, perscrutando a minha alma um pouco envelhecida, é verdade, constato que a minha essência não mudou, não me transformarei jamais num cínico desencantado, e continuarei como uma espécie de pre-rafaelita tropical cultuando a beleza, mesmo que perdida, deste nosso mundo humano, demasiado humano...
(Guilherme de Faria)
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