Nestes domingos de quarentena, como hoje, olho pela janela do ateliê a minha Oscar Freire absolutamente deserta, e em que os bem-te-vis nem alardeiam, de desconfiados que estão (eles não são sabiás mas estão ressabiados)... E me ocorre que o mundo não acabou, não, como eu cheguei a pensar, mas que passamos inadvertidamente para uma mundo paralelo ou para a quarta dimensão, como diriam os adeptos da física quântica. Sim, deve ser isto, porque passei a encontrar de volta pequenos objetos perdidos aqui dentro de casa, e que deviam ter estado o tempo todo debaixo dos meus olhos, e eu não os via.
Como por um lado é bom o mundo ter parado pela metade! Ter virado uma espécie de cidade de interior, em que espero de repente enxergar pela janela passar aquele burrinho com dois enormes latões de leite (pensando bem... coitadinho) um de cada lado no lombo, puxado pelo cabresto por um caipira descalço com calças de pular brejo, que estavam desaparecidos desde as minhas férias de infância...
Eu, que fui sempre sedentário e meditativo, e levei uma vida de ateliê, de pé a maior parte do tempo diante do cavalete de pintura ou meio reclinado em má posição na cama lendo, coisa que me cobra agora, na chegada da terceira idade, grandes dores musculares e de coluna... sim, agora não tenho o direito de me queixar de quarentena nenhuma, que sempre foi mais ou menos a minha realidade pessoal.
De que poderia me queixar, se sempre fui um individualista e não um idealista, pois amo mais o escritor picaresco Cervantes do que o seu personagem Dom Quixote com seu quixotismo alienado do qual o próprio o romance é a crítica?
Entretanto devo talvez revelar que um certo otimismo pessoal me voltou desde ontem, quando tomei uma milagrosa injeção na farmácia, aplicada com maestria por uma gentil e compassiva mocinha atendente, que percebi até mesmo bonita através de sua máscara. Foi como tirar as dores com a mão ao prazo de uma hora, e o meus movimentos que estavam travados, voltarem. Eu proporia um premio Nobel da Paz senão de Medicina, para quem inventou o medicamento injetável Diprospan 5. Não terei desculpa para parar de pintar, e me aposentar, porque assim como um ator deveria morrer sempre no palco, como a nossa grande atriz Cacilda Becker o fez praticamente durante a peça "Esperando Godot" de Beckett (que eu assisti no última seção, aquela da sua morte) de derrame por ter ficado de ponta cabeça num certo momento da peça, assim também um pintor deveria morrer crucificado no seu cavalete com dois pincéis cravados nas mãos, e os pés chafurdando nas tintas da paleta... (apaga tudo, que imagem mais grotesca e patética (!!!) rrrrsssss
Bem... meu amigos, como vêem a falta de assunto rende muito assunto para um ser meditativo e ocioso como eu, para os seres também gentis, ociosos e igualmente meditativos que me leem, com um ganho imponderável para todos, advindo do ato gratuito e reconfortante de pensar e exprimir nossos pequenos pensamentos de filósofos falhados, afinal um direito inalienável de todos...
(Guilherme de Faria)
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