PEQUENOS PESADELOS (crônica de Guilherme de Faria)
Eu penso que a nossa vida, a vida de todo mundo, é uma linha contínua em direção a um ponto de fuga, sem volta, a não ser na imaginação ou no sonho. Entretanto, quase todas as noites, durante o sono, num sonho recorrente, que se revela uma espécie de pesadelo, eu me vejo perdido em diferentes paisagens, algumas inóspitas, assustadoras, outras belíssimas, sempre diversas a cada sonho, me distanciando em círculos, sem saber de cor meu endereço, sem falar a lingua do lugar, sem conseguir voltar ao ponto de partida, meu hotelzinho acolhedor ou a casa de amigos. O curioso é que são cenários extremamente reais, topograficamente detalhados, que por sua própria atração e pequenos episódios de encontros enigmáticos com habitantes locais, me afastam perigosamente do meu lugar de conforto e referência, do qual não guardei o endereço, me pondo numa aflição crescente que me faz acordar como solução, dissolvendo esses pequenos pesadelos, que, acordado, ainda são um enigma para mim.
Na verdade, chego a pensar que o estar perdido é a essência da condição humana, e por isso mesmo construimos pontos de referência ao longo da vida, nem sempre sólidos, e que por vezes se revelam precários, principalmente se saímos da casa materna cedo ou despreparados para a vida, como foi o meu caso...
Estarei, conquanto idoso, na verdade ainda perdido? O ateliê de um artista será somente um acampamento na aventura da vida de um eterno garoto sonhador, escoteiro de si mesmo?
De casa, tão distante...
_______________________________________
No comments:
Post a Comment