Monday, March 17, 2025

DIVAGAÇÕES SOBRE O PÚBLICO (crônica de Guilherme de Faria)


A gente escreve sempre para o Outro. É sempre uma maneira de se comunicar, quer dizer, romper o muro da solidão, assim como desenhar, pintar, esculpir, modelar, cozinhar, tocar um instrumento, cantar, dançar, declamar, atuar, discursar, etc, etc. O Outro, portanto, é que é importante. O artista tenta conquistá-lo, seduzi-lo, até bajulá-lo por vêzes (isto não é aconselhável). Mas o outro, considerado como "o público", como é caprichoso e imprevisível! Nunca um artista independente ou mesmo um produtor experiente pode prever o sucesso de um espetáculo, de um livro, de um filme, de um concerto, ou de uma peça teatral, com segurança, com absoluta certeza. Às vêzes uma bela obra, de qualquer espécie, dá um prejuízo inesperado e até mesmo... injusto. O Tempo é o maior juiz, sempre, para tudo... Portanto o artista é, em última instância um jogador, o que quer dizer; um sonhador do sucesso, conquanto alguns ostentem uma atitude de desdém, podendo sempre se refugiar na categoria duvidosa de "malditos".
A propósito, vocês sabiam que os contos de terror que consagraram o Edgar Allan Poe diante do grande público , são em número ínfimo comparados com os contos humorísticos dele, muito mais numerosos e, impagáveis, atuais, de fazer rolar de rir até hoje? Sabiam que Rimbaud parou de escrever poemas, alguns malditos como "Un Saison en Enfer", aos dezessete anos, e passou o resto de sua curta vida tentando enriquecer no tráfico de armas na Àfrica (fracassando e falindo na Etiópia, tendo seu carregamento de fuzis confiscado pelo Ras Ménelik? Mas, como escritor, escrevendo relatos geográficos para a Societé Geographic Française esperando ter seus artigos publicados por ela...
Que quero dizer com isto? Que somos, sim dependentes dos caprichos do público, e eventualmente até da Moda. Nada mais triste para um artista de sucesso do que "sair de moda" ainda em vida, como aconteceu com Rembrandt, com uma desgraça crítica de pelo menos 50 anos, a partir de sua velhice, no auge de seu genio. Ah! E até de Leonardo da Vinci, desprezado nos seus sessenta anos, procurando desesperadamente emprego em Roma com o Papa que não atendia às suas cartas, considerando-o um fracassado(!!!) até ser reconhecido nos corredores do Vaticano pelos embaixadores do Rei François Premier da França que, escandalizados com a situação precária daquela lenda viva da Arte o recomendaram ao seu rei, que imediatamente escreveu aos seu embaixadores: "Tragam o Mestre, nós o acolheremos, nós o honraremos." Leonardo atravessou os Alpes a cavalo com três quadros nos alforges (um deles a Mona Liza) acompanhado de seu último discípulo adolescente, e morreu depois de poucos anos no castelo na França que abrigaria o Mestre sem obrigação nenhuma de produzir, e onde ele se dedicava a desenhar e escrever suas pesquisas no seus maravilhosos Códices. Vazari escreveu que Leonardo morreu nos braços de François I, que o amava, dizendo " "Não há maior honra para um artista do que morrer nos braços do rei".
Bem... "Si non è vero è ben trovato". Eu poderia contar mil estórias e histórias mas percebo que já me afastei do "ponto". Qual era mesmo o ponto? Ah! O público... A propósito, vocês já leram o meus livros da Alma?
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16/02/2025
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