Monday, March 17, 2025

A SALAMANDRA (crônica de Guilherme deFaria)

 
Sou do tempo em que os pintores construiam a sua carreira apenas tentando vender seus trabalhos pessoalmente ou com a ajuda de galerias que ofereciam seus quadros a uma dúzia de grandes colecionadores que havia, homens ricos, que eventualmente furavam a intermediação dos marchands galeristas e procuravam os artistas nos seus ateliês. Mas era um processo penoso até chegar a esse estágio. Os pintores procuravam sobreviver e alguns até a sustentar família como artezãos ou trabalhadores informais, quase mascates do seu trabalho, à beira da penúria, frequentemente explorados, cheios de angústia e até mesmo uma surda e oculta revolta, que fazia a maioria abraçar a ideologia comunista, esta totalmente impotente diante de um questão meramente econômica, de mercado, isto é: a lei da oferta e da procura.
Como jovem pintor, o meu paradigma era a já antiga "Escola de Paris" do entre-guerras, e meus heróis os primeiros impressionistas e pós impressionistas, e nos anos 60 fui dos raros jovens pintores que não se deixaram seduzir pela Pop Art americana, a vanguarda mundial do momento. Permaneci fiel ao expressionismo gráfico a vida inteira, quase solitário nessa obsessão, e tendo descoberto cedo "o meu traço", não posso dizer que "dei com os burros n'água".
Tendo sido criado dentro de uma razoável biblioteca clássica caseira, e lendo muito a alta literatura desde criança, meus desenhos exudavam essa influência literária, que, chegando até o século XIX, emprestavam aos meus desenhos uma nostalgia "belle époque", que ia direto ao inconsciente coletivo das pessoas educadas, da classe média e até dos ricos daquela época. Assim, me introduzi precocemente no mercado de arte paulistano, com apenas vinte anos de idade, como já descrevi aqui, nas minhas memórias anos atrás. Já contei até como caí nas graças do grande marchand Giuseppe Baccaro e da sua pioneira "Casa dos Leilões".
Agora, já na minha "terceira Idade", desenvolvo um tanto tardiamente uma carreira literária que soaria inevitável mais cedo ou mais tarde para quem me conheceu naqueles anos 60 e 70. As pessoas diziam que, sem pedantismo ou intencional exibição de cultura eu me expressava verbalmente como um literato, não rudimentarmente como um artista visual, e fui agregado meio perifericamente a um grupo de poetas paulistanos, ultra urbanos e influenciados pela Beat Generation americana e pelos surrealistas. Eram eles: Roberto Piva, Claudio Willer, Luiz Fernando de Franceschi, Roberto Rugero, Décio Bar, Sérgio Lima, Roberto Biccelli, Raul Ficker todos já falecidos, lamentavelmente (menos o poeta Bicceli, que, muito vivo e divertido ainda brinca por aqui no nosso face). Ah! E as pintoras Maninha (falecida) e Lígia de Franceschi. Também o Regastein Rocha, com sua Gráfica Raizes que com a grande qualidade da formatação gráfica do Emanoel Araujo, promoveria a Pintura Brasileira já consagrada mas necessitada de um registro assim condigno.
Devo confessar que aprendi muito com o Piva sobre poesia de vanguarda a partir de Rimbaud, passando por Maiakovsky e sua imensa Flauta-vértebra e chegando ao americano Guinsberg e seu formidável Urro. E fui assistir também por sua indicação aos filmes de Samurais, como o da vida de Myamoto Musachi, que me despertaria o meu traço no desenho. Também o filme "Vidas em Fuga" dirigido por Elia Kazan, em inglês "The Fugitive Kind", com o Marlon Brando, baseado na peça Orfeu's Descending, do Tenessee Williams, meu dramaturgo predileto. Ah! E "Feu Follet" (Fogo fátuo) no Brasil "Trinta anos esta noite" sobre um poeta alcoólatra em Paris dos anos sessenta, com a trilha sonora das Gynopedies de Eric Satie. Filmes que me seriam particulamente importantes...
Por incrível que pareça foi por indicação do Piva, com sua imensa erudição literária, que fui ler, por exemplo, as Memórias de Benevenuto Cellini, escultor, ourives e poeta renascentista, aventureiro, que começa o livro com uma lembrança de infância de um serão silencioso na penumbra da sala, com seu pai, que subitamente apontou as chamas da lareira e disse em voz baixa, quase sussurrante : 'Olhe, meu filho! Olhe bem, que a muito poucos homens foi dado ver isso! Essa é a Salamandra!" E ele, o Benvindo, viu um pequeno lagarto vítreo, transparente, gracioso, brincando nas chamas da lareira...
Foi assim que eu também avistei a Salamandra, e seria, inevitavelmente, um dia, também, um escritor...
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17/03/2025

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